Milagrário pessoal, de Agualusa




Milagrário pessoal, nono romance de Agualusa, conta a história de um homem que, para seduzir uma mulher, lhe oferece uma nova linguagem. É uma declaração de amor à língua portuguesa. É ela a verdadeira protagonista da história entre um professor angolano e sua discípula, especialista em neologismos. Um dia, a moça parece encontrar a fonte do que seria uma nova língua. “Iara começa a receber centenas de palavras, tão bonitas, extraordinárias, urgentes e necessárias que as pessoas se apropriam delas e começam a utilizá-las sem sequer darem conta que são palavras novas”, explica Agualusa. Juntos, os dois partem em busca dessa coleção de misteriosas palavras, que teriam sido roubadas de uma suposta língua dos pássaros. “No fim, é uma grande viagem pela língua portuguesa, pela sua história e pela forma como ela se foi afeiçoando a territórios tão diversos geograficamente”, complementa.

O romance é ainda a história de amor entre Iara e esse homem maduro, que é também o narrador da história e proprietário do milagrário pessoal, um caderninho onde anota todos os simples prodígios do cotidiano, os pequenos milagres. “Ele se apaixona por essa mulher e, para seduzi-la, chega ao ponto de subverter a própria língua. Ele inventa toda uma trama para atrai-la. Arrisca mesmo uma completa revolução”, acrescenta.

Agualusa mescla realismo com um universo mágico e passeia por histórias ora fantásticas ora reais, sem que seja possível delimitar os territórios que elas habitam. “Algumas das informações contidas no livro são exatas. Por exemplo, a história das línguas assobiadas que ainda existem hoje em dia na Europa, ou da língua dos pássaros que vem dos alquimistas, têm uma base histórica real. Talvez haja mais poesia na realidade”, sugere.

O livro faz uma viagem pelas geografias pessoais do autor, com passagens pela África, Portugal e Brasil, com situações passadas em Recife e várias referências ao Rio de Janeiro. O romance tem ainda como inspiração outro fruto tipicamente brasileiro, a canção Língua, de Caetano Veloso. “É quase impossível escrever um romance sobre a língua sem falar desta composição maravilhosa do Caetano sobre o tema”, exalta. As conexões com o Brasil não param por aí. A capa é um still do filme Pisinoe, da artista plástica carioca Adriana Varejão.

Os diversos cenários são unidos pela língua portuguesa, que embora mantenha sua matriz, extrai novas cores de cada uma das paisagens nas quais floresce. “A língua portuguesa tem esta característica, esta qualidade que, ao enraizar-se em territórios tão diversos, conseguiu absorver deles a luz, certas palavras, conseguiu ganhar elasticidade, uma beleza que talvez outras línguas não tenham na mesma proporção”, finaliza.



* Publicado inicialmente em Diário do tempo.

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