Um texto de Clarice Lispector


"O que ela amava acima de tudo era fazer bonecos de barro, o que ninguém lhe ensinara."
(Clarice Lispector)





Sempre se ressalta, entre leitores e não-leitores, que a obra de Clarice Lispector é de estranha dificuldade. Toda vez que se repete o argumento deveria se dizer para toda obra difícil há um preguiçoso leitor. Obviamente que existem obras que nos cobram mais, mas alcançada a chave de acesso ao texto, o que nela encontramos é a mais pura expressão do maravilhamento, ou para repetir um termo caro à literatura da escritora brasileira, pura epifania

Quer dizer, só uma maneira de romper com o vício do difícil e esta é da leitura contínua. Este é o único trabalho que um escritor entrega ao leitor: ler. E o leitor deve sempre se por de guarda; um texto é um pequeno mundo que nos cobra a tarefa de atribuir sentido, assim como fazemos ante todas as circunstâncias diárias, incluindo aquelas com sentido oblíquo. 

A própria Clarice Lispector se questionava sobre as acusações de difícil escutadas de alguns leitores, incluindo entre eles, os da academia. Na única entrevista em vídeo que conhecemos, grava no mesmo ano da sua morte, em 1977, ela confessa ao jornalista Júlio Lerner que não entendia esse grau de dificuldade chegado ao hermetismo, uma vez que sabia seguramente de leitores do ensino básico que tinham à cabeceira A paixão segundo G. H., o mesmo livro que um acadêmico dizia exigir muito de um leitor.

Ainda nesse tema, só abria exceção para um texto: "O ovo e galinha". O conto acrescentado ao livro A legião estrangeira (1964), constituía para ela própria um mistério e por isso não teria alcançado, como leitora, uma compreensão sobre a meditação aí desenvolvida. E as perspectivas em torno do texto se ampliam ao infinito. A escritora criou assim uma pequena máquina de produzir significados.

Mas, deixemos este texto onde está. E passemos a outro. Este chama-se "Os bonecos de barro". E é um excerto de O lustre (1946) ao qual a escritora acrescentou este título e publicou como conto na revista Nordeste em julho de 1960. Trata-se de um elogio ao trabalho da criação e que ressalta um instante de iluminação libertadora da mulher de seu papel de figura submetida. A criação como liberdade.

O material é para sublinhar o 91.º aniversário de Clarice de Lispector. Neste dia, o Instituto Moreira Salles estabeleceu no calendário de celebrações, a Hora de Clarice. Acompanha o texto, a reprodução de uma fotografia da escritora ainda jovem publicada pela edição dos Cadernos de Literatura Brasileira, do IMS.

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