Rubem Fonseca




A primeira vez que li alguma coisa de Rubem Fonseca foi ainda na Graduação em Letras. O livro de contos Secreções, excreções e desatinos. A pior porta de entrada na literatura do escritor mineiro - disseram-me já não uma vez. Talvez seja verdade. E verdade talvez seja também que entrar por um mal livro na vida literária de qualquer seja o escritor pode ser uma faca de dois gumes: ou se intriga e procura ver se outras ruindades literárias formam a prática do escritor em questão ou se intriga também, mas no sentido de abandonar de vez o escritor.

Duas formas mais prevísiveis de se dar a entrar na literatura de algum escritor: lendo-o ou lendo o que a crítica concebeu em relação a obra dele. Pelas duas vias a faca de dois gumes está lá.  Evidentemente que, pela forma segunda o distanciamento operado entre leitor e obra é maior e as chances de desconsideração de obras e escritores é bem maior, evidentemente. A crítica como todo território político tem seus preferidos e sustê-los no altar onde estão é sua tarefa.

Cito um exemplo do que me aconteceu com Jorge Amado: tem sido corrente nos cursos de Letras, cada vez mais, a entrada de leitores pela via da crítica e não da obra. O que é, já sabemos, um defeito dos graves. Todorov que o diga. Pois bem, conheci Jorge Amado pela crítica literária. E influenciado pela sua verdade desencantei-me antecipadamente com o escritor baiano. E li, desencantado, Capitães da areia. Um desastre. Precisei levar alguns anos para retornar a esse romance e ver o quão excelente e grandiosa é a literatura amadiana. Fui inocente, na época, e a crítica venceu-me: vendeu-me uma imagem empobrecida de Jorge.

No caso de Rubem Fonseca, a coisa é menos complexa. Secreções, excreções e desatinos desencantou-me do escritor. E mesmo depois tendo convivido com um amigo no mestrado que tinha a admiração que tenho por José Saramago por Rubem Fonseca, ainda resisti. E resisto. Muito embora tenha me sentido inclinado a ler outra coisa sua. A motivação se deu, é bem verdade, depois desse burburinho de próprio gogó (sempre silenciado) de Rubem quando teve em terras lusitanas como figura importante e premiada por lá. Aí está o centro desse post sobre o escritor que, no dizer de alguns críticos, inagurou uma faceta nova na literatura brasileira. Diria que a versão ultra do urbanismo machadiano. Também pudera. O urbano de Machado (de Assis) era aquela pasmaceira burguesa (se é que tivemos essa classe por aqui).

***

Carioca desde os oito anos de idade, Rubem Fonseca é de Juiz de Fora, Minas Gerais. Tem uma vasta obra entre contos, romances e roteiros para o cinema, todos, sempre centrados nos temas que "apontam para o embate dos valores humanos que coexistem na grande cidade, onde a mitolodia urbana imposta socialmente surge em contrapartia à convergência de cenas avassaladoras de sexo e violência." - como bem assinala a professora Fernanda Cardoso.

Formou-se em Direito e exerceu várias profissões antes de se dedicar com inteireza à literatura. Destaque para sua atuação na polícia de São Cristóvão no Rio de Janeiro, onde certamente deve ter recolhido muitos dos fatos que vão servindo de molde à composição dos enredos da sua obra.

De sua produção já se vão publicados 11 romances e 14 livros de contos e crônicas. Entre suas principais obras estão Lúcia McCartney (1967), O caso Morel (1973), Feliz ano novo (1975), O cobrador (1979), A grande arte (1983) e Agosto (1990). Recebeu por cinco vezes o prêmio Jabuti e em 2003 os prêmios Juan Rulfo e Camões.


______________
O texto da Fernanda Cardoso a que me refiro está publicado no Portal Brasil Escola.

Leia um capítulo do último romance de Rubem Fonseca, O seminarista e saiba outras informações sobre este livro, indo aqui.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela, de Ignácio de Loyola Brandão

Os mistérios de "Impressão, nascer do sol", de Claude Monet

Os segredos da Senhora Wilde

Andorinha, andorinha, de Manuel Bandeira

Boletim Letras 360º #328

Boletim Letras 360º #327

Boletim Letras 360º #325