Os 35 anos da eleição de Rachel de Queiroz para a Academia Brasileira de Letras

Rachel de Queiroz em posse na Academia Brasileira de Letras. Arquivo: ABL


As mulheres levaram um largo tempo para conquistar os espaços públicos. No universo das letras, as que primeiro se aventuraram foram pelo terreno da mística: as experiências com o sagrado, os diálogos entre o plano divino e o plano terreno deram-lhe, por algum tempo, o respaldo para uma escrita também mística: uma, ditada para os homens, outra, escrita na surdina. Essa é história é longa, feita de muitos silêncios e silenciamentos. Uma história ainda com muito por se contar.

No Brasil os lugares da mulher na literatura foram subestimados até muito recente. E sua aquisição só terá respaldo público em gestos como o que aconteceu a 4 de agosto de 1977, quando a Academia Brasileira de Letras (ABL) decide no seu território habitado por homens empossar Rachel de Queiroz para a 5.ª cadeira, do falecido Cândido Motta Filho. 

Vejam só: a Academia Brasileira de Letras existe desde 20 de julho de 1897. Mas precisamos atravessar oito décadas para este acontecimento. Nessa instituição de grandes injustiças para com as escritoras, a história mais conhecida foi a negação da entrada de Júlia Lopes de Almeida. Autora reconhecida, inclusive pelos figurões da crítica de seu tempo, e ligada aos bastidores de fundação da instituição, mas foi preferível que a cadeira ficasse ocupada pelo esposo, Filinto de Almeida.

A eleição de Rachel de Queiroz foi um acontecimento gerou uma avalanche de reconhecimentos país afora. A própria Academia de Letras do Ceará que não lhe outorgara a posse com a desculpa de que a escritora não mais morava no Ceará e por isso não merecia o lugar, passou por revisão e mesmo só aceitando o nome da escritora vinte anos depois da ABL, o gesto não terá sido senão impulsionado pela atitude maior da casa máxima. 

A celeuma da época foi ainda em torno de migalhas: por exemplo, os membros da ABL ainda se engalfinharam num debate sobre o modelo do fardão a ser usado por uma mulher, desfazendo a ideia de que só às mulheres interessam falar sobre moda. 

O gesto tem sua importância, tanta que decidimos escrever essas breves notas rememorando a data. Deixamos este um catálogo com o Discurso de Posse, ato ocorrido em novembro do mesmo ano, acrescido de três fac-símiles de poemas de Rachel de Queiroz publicados na caprichada edição do Instituto Moreira Salles quando de seu centenário com o título de Mandacaru (vá por aqui para ler duas linhas sobre esse livro). Além disso, no Canal do Letras no YouTube (aqui) recuperamos uma entrevista com a escritora exibida pela TV Câmara em 2002. 


Ligações a esta post:
>>> No Tumblr do Letras um álbum de fotos da posse de Rachel de Queiroz
>>> No canal do Letras no Youtube um vídeo da posse de Rachel de Queiroz

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os mistérios de “Impressão, nascer do sol”, de Claude Monet

O poeta inquieto

O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho

Boletim Letras 360º #445

Risque esta palavra, de Ana Martins Marques

A crítica dos escritores