o nosso reino, de valter hugo mãe



Edição brasileira de o nosso reino - romance de estreia do
escritor português Valter Hugo Mãe

O livro chegou ao Brasil depois de o remorso de baltazar serapião. Mas, é o primeiro na tábua bibliográfica do escritor português, que antes, só havia trilhado pelo território dos livros infantis e com a poesia. Aliás, foi com o último gênero que valter hugo mãe – que até bem pouco tempo preferiu se assinar assim numa referência ao conjunto inicial de sua obra, integralmente grafada com minúsculas – chegou ao Brasil. Muito antes de chegar às duas grandes editoras que o levaram a ser popular por aqui, já circulava uma antologia desenhada para a Thesaurus Editora com o título de mil e setenta e um poemas e outra, com recolha de poemas seus editados em Portugal, e publicada pela Oficinal Raquel, Portugal, 0, livros que certamente não estão na lista dos de grande conhecimento do público com já são grande parte de seus romances.

Com a chegada de o apocalipse dos trabalhadores, último romance seu editado no Brasil, os leitores têm já uma amostra quase completa da escrita de Mãe. Pelo menos dos romances, já que os de poesia restam-nos os poucos poemas das antologias citadas, e os infantis ainda não se tem uma previsão para quando chegar. Ainda em junho de 2011, quando de posse de o remorso de baltazar serapião, então editado pela Editora 34, ficou em suspense aqui no blog que comentássemos sobre essa obra e outras do escritor. O tempo de espera findou. Com a leitura de o nosso reino está prometido o comentário para todos os livros do escritor já editados no Brasil, inclusive as antologias mil e setenta e um poemas e Portugal, 0 que, para sermos justos, deveríamos começar por elas. A força do romance, entretanto, se interpôs. Não apenas pelo próprio poder da prosa em merecer certa facilidade para o domínio da crítica, mas porque é através dela que Valter Hugo Mãe é mais reconhecido dentro e fora do Brasil.

Muito embora não devemos dispensar o que a crítica já reiteradas vezes definiu acerca de sua obra, marcadamente invadida pelos laivos da poesia, constante que parece se firmar na prosa contemporânea. E por uma razão muito justa: é notório que o romance tem, cada vez mais, sido reduzido em extensão – falta fôlego aos escritores contemporâneos para o grande romance, não apenas a eles, mas também aos leitores. Na literatura portuguesa mesmo contam-se nos dedos os que se decidem por esse terreno ampliado. António Lobo Antunes que já escreveu grandes romances tem ido pelos mais simples; José Saramago findou também nos simples. A competitividade com outros meios e com a rapidez doida desse tempo tirou-nos a capacidade de concentração e da reflexão demorada exigida por romances mais extensos. É caro ter de nos abandonar por uma hora que seja da vida para além da que já temos no mundo real; além da real, há uma virtual se interpõe com grande força. Há ainda a força do mercado editorial a que o escritor está submetido que lhe cobra – além da badalação nas inúmeras feiras e festivais mundo a fora, totalmente dissonante do trabalho recluso do escritor – pelo menos um importante livro por ano. E no fim de tudo o avanço das outras formas de leitura. O digital que vai de ponta a ponta circundando tudo é favorável à narrativa curta. E há outra série de questões que, como se vê, favorecem que a narrativa esteja cada vez mais limitada na sua extensão. O resultado é que ao se fechar, o romance busque força noutros espaços; e o da poesia tem lhe servido bem.



***

Narrado em primeira pessoa pela ótica de um menino de oito anos, talvez por influência das narrativas infantis escritas anteriormente por Mãe, nosso reino é um romance de tom genesíaco – às avessas, é bem verdade, que enquanto no gênesis tudo está em formação, aqui tudo parece está indo para o fim. Não chega a ser uma narrativa sobre o desencanto do mundo porque este garoto, o benjamim, tem uma crença tão violenta na existência que é mesmo capaz de superar todos os traumas possíveis que esteja ao alcance. E qual trauma é maior que a própria a morte? Ele próprio é sobrevivente de um acidente que poderia ter lhe custado a vida. E próximo dos vários suicidas que se atiraram do barranco onde ele se acidentou. Aí, o rosário de tragédias beira ao infinito. Primeiro, a morte dos avós; depois, a do primo ainda bebê, única criança que aparecera pras bandas do vilarejo em que vive, e que é símbolo de renovação de um lugar que está soterrado das vistas do mundo externo; mais, o desaparecimento do pai alcoólatra cujo único prazer era surrar a mãe e a ele; depois, a casa que de velha não resiste às chuvas e desaba por sobre os dois irmãos; e, por fim, o suicídio da mãe, uma das que se atiram barranco abaixo. Isso para citar apenas os de seu círculo familiar.

Quando nos referimos ao caso de a vila onde benjamim vive ser esquecida dos olhos do mundo, é porque estamos num desses vilarejos do interior de Portugal, no período da ditadura salazarista, cujo único atrativo para uma criança como a personagem, é ir à praia com os amigos – manuel é o mais presente, mas há também a germana, misto de primeiro amor – ver os navios que se movem tal qual minhocas na terra, ir à escola ou à casa dos parentes. No mais, além desse aparelhamento das cortinas de ferro, que representa qualquer regime ditatorial que mesmo não tendo aí o alcance que tem, por exemplo, numa Lisboa, centro do poder, ainda mostra suas faces de outra maneira, como pelo fechamento da religião – imperativo a circular todo o romance. O padre filipe incorpora mesmo a figura do superior, a quem todos devem respeito. E exemplo marcante no romance é a constante de crucifixos espalhados pelas paredes da casa de benjamim, cada um a servir a um morador da residência. Num espaço assim, totalmente invadido por um silenciamento que chega a gritar, a única alternativa para uma criança é o devaneio, a imaginação, primeiro, como sublimação do silêncio, segundo, como resistência criativa frente ao lado trágico da existência.

Logo cedo, benjamim se deixa levar por uma necessidade inerente a todo homem, mas que costuma se manifestar com maior intensidade em situações como a que ele vivencia: a transcendência. Como alternativa, agarra-se ao divino e vai construindo para si um culto que se distancia do sentenciado pela igreja. benjamim está entre o limite de deus e do diabo. Se para ele, tudo que busca fazer, é se afastar do lado negro das coisas – marcadamente representado na figura do homem mais triste do mundo, figura imaginária que está sempre rondando o vilarejo por toda parte como se fosse a própria morte – para a própria igreja, que lhe vê como um menino dado à fantasias, benjamim é uma encarnação do mal. Esse entrelugar para onde a personagem é jogada transmutará o ambiente claustrofóbico onde vive num espaço constantemente invadido pela beleza do milagre produzido pela fértil imaginação infantil e pelo pesadelo e a loucura dos adultos.

A vivência de benjamim é, sem que saiba, a de luta contra a opressão do mundo dos adultos, e uma tentativa de compreensão sobre a vida e os mistérios que a cercam – não apenas o da morte que insiste em correr os quatro cantos do vilarejo – mas, os sentimentos do amor, da compaixão, a sua descoberta sexual e do seu próprio lugar no mundo. Nisso, vemos a grande inteligência de Mãe: o mundo infante não é apenas recurso a ser explorado pelo autor adulto, mas é movimento pelo qual o autor engendra a estética do romance fundado numa linguagem que é, no mínimo de dupla face – ao dizer do mundo tal qual é insiste em dizer de um reino que corre às escondidas, não visível ao olho comum. Ver é atitude sensível dada ao alcance apenas dos que tem na imaginação sua fonte de especulação da existência. E esta é talvez a maior de todas as lições alcançadas pelo leitor que, ao ligar-se diretamente ao pequeno benjamim é capaz também de transcender para encontrar em si a criança perdida no adulto que nos tornamos, afinal, boa parte das inquietações nascidas nesse período serão levadas adiante para toda vida.


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