Um cine-poesia sobre Fernando Pessoa




Se o poeta português deixou uma das obras mais extensas da literatura portuguesa – dizemos isso pensando no exercício poético a partir da heteronímia e da leva de produções que, vez ou outro irrompem como inédito nos diários de cultura – deixou também um imaginário diverso e possível de exploração igualmente diversa. E não têm sido poucos os motivos de criação artística em torno de sua literatura, ampliando, assim, o que poderíamos dizer de uma “galáxia pessoana”.

Dentre esses exercícios criativos, um tem ganhado forma nos últimos anos, que é a relação poesia e cinema. A sétima arte sempre se atreveu a tratar das adaptações de romances ou textos narrativos em geral. A estrutura justifica o apreço da forma. Com o aparecimento do que hoje chamamos de cinema-arte, os olhares das câmeras não se deixam seduzir apenas pelo conteúdo prosaico. E há poemas, diga-se, depois do desmantelamento das estruturas fechadas pela atitude modernista, que figuram mesmo como verdadeiras narrativas. Para estes casos e mesmo os casos em que a matéria poética permanece centrada no apelo dos movimentos da palavra, o olhar cinematográfico recepcionou sem quaisquer exigências.

Bom, é mais ou menos nessa esfera em que se inscreve um projeto que toma por base a obra do poeta português Fernando Pessoa. Incluído no rol dos curta-metragens com vistas a explorar as várias personas, reunindo poema e cinema numa obra interativa para internet, o projeto em questão não é um projeto comum. Os criadores da ideia buscaram na própria heterogeneidade da heteronímia pessoana o mote para sua construção.

Intitulado “Pessoa”, a proposta surgiu entre os alunos do quinto semestre da Faculdade de Audiovisual do Centro Universitário Senac. “Tínhamos que escrever uma proposta multimídia, ou seja, um projeto que estivesse livre das amarras do cinema tradicional – narrativa clássica, enredo estruturado, obra fechada – e fosse interativo em algum aspecto com o público”, diz Vinicius Lima Costa, roteirista e diretor do trabalho. Daí, nasce a ideia. “Devo dizer que tudo começou ao ver a obra M is for Man, Music, Mozart, de Peter Greenaway, uma espécie de programa-filme feito pela BBC para televisão onde Mozart é homenageado de um modo único, invocando videoarte, ópera, dança e fugindo de um modelo já saturado de cinebiografias. Greenaway, o grande nome do pós-cinema hoje, nos mostrou que cada personagem nos fornece em sua história e obra características que podemos nos apropriar e trazer para a obra que o homenageia. Realizando assim um filme no qual sua estrutura reflete diretamente o personagem”.

A escolha pela obra de Fernando Pessoa não foi algo tão complicado – “é o meu grande poeta, o leio desde meus 17 anos”, justifica Vinicius. E acrescenta: “Minha relação com ele eu diria é quase mística – tal qual ele próprio. Conheci meu primeiro amigo em São Paulo através dele, criei meu hábito de leitura depois de descobrir ele e comecei a escrever com mais afinco depois de ler ele. Na reflexão no início do projeto sobre quem seria o personagem ideal não hesitei em escolher o poeta português. Já havia lido um grande volume de obras dos seus heterônimos, sua biografia, dois diários, visto vários documentários e lido dezenas de textos críticos. Se houvesse alguém que eu poderia trabalhar em cima e criar uma obra que seguisse o conceito que Greenaway me ensinou, esse alguém era Fernando Pessoa”.

Quando dissemos que este não é um curta comum, não estamos pensando apenas na dimensão do trabalho; estamos pensando também na forma como foi pensado e na ideia de work in progress – o telespectador tem assim uma liberdade de montar, por um jogo de escolhas, o roteiro que lhe conveniente, partindo da possibilidade de um embrião narrativo: um homem chega a São Paulo para enterrar seu amigo e acaba se perdendo pela cidade, descobrindo a metrópole ao mesmo tempo em que relembra a convivência com o amigo por meio de cenas-poemas, narrações de poemas somadas a imagens que os representam. “Todos os grandes heterônimos estão lá – Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e o próprio Pessoa”, esclarece o realise da proposta. “Cada um foi gravado em um local diferente, de modo diferente, com resultados diferentes, buscando imprimir na imagem e na narração a personalidade de cada um. Paranapiacaba – cidade do interior de São Paulo – foi locação escolhida para Alberto Caeiro, as praias de Bertioga para Ricardo Reis, o centro de São Paulo para Álvaro de Campos. Pessoa é uma reunião de diferentes lugares e mídias que se encontram nas narrações dos poemas” – emenda.



Na interação o telespectador é convidado a escolher dez cenas dentre cinquenta (como estas do vídeo acima) que irão compor uma versão única do curta. Somam-se aí 9 milhões de possibilidades. E sempre marcado pela possibilidade de descoberta de alguma nuance não percebida à primeira vista. “A ideia sempre foi de dar ao público a possibilidade de montar o seu filme com o material que fornecemos a ele”, diz Vinicius. “Mas no que cerne ao material que fornecemos, as cenas, a obra é fechada. Por se tratar de um projeto universitário onde tivemos apenas 6 meses para executar a obra – produzir, gravar, montar e lançar site – não faria parte da concepção tornar o Pessoa uma obra em constante atualização, até porquê agora temos outros projetos que a universidade nos propõem. Creio que a vida do projeto se encontra justamente no papel do visitante em montar sua versão, escolher suas cenas, ver seus poemas prediletos e descobrir novos”, acrescenta. “O objetivo de Pessoa nunca foi o de adaptar o máximo de poemas para a imagem, mas com o material que fornecemos – 10 cenas-poemas por heterônimo – convidar o público a ir para os livros e descobrir a riqueza imensa do poeta português”.

Pessoa também é produto de uma inquietação desse grupo de estudantes com a própria cena cinematográfica nacional, ainda com um elo muito forte com a dramaturgia e com a prosa do que com a poesia – “na própria história do cinema descobrimos que por várias vezes se discutiu o porquê da narrativa, o porquê do drama burguês americano e se experimentou fugas quanto a isso”. Os exemplos dessa relação na cinematografia nacional, entretanto, existem, como é o caso de filmes como Limite, de Mário Peixoto ou o recente Helena, de...

“Se a relação do cinema com a prosa resultou no grande num modelo comercial que se apropriou do melodrama teatral, creio que a poesia foi encontrar relação direta com a imagem. Invocação de sonhos, dos pequenos atos humanos despercebidos, da psicanálise, da relação emocional que o homem carrega inconscientemente com o que vê. O fim de um poema lido provoca resultados mais distintos no público do que um romance, logo no cinema não devemos nos prender a preceitos com os quais apenas nos distanciaremos de uma relação mais profunda. Ao mesmo tempo não há como reproduzir a imensa possibilidade de leituras de um poema, é preciso ter foco, ter uma visão clara sobre o se deseja” – diz Vinicius quando questionado sobre essa relação cinema-poesia. E completa: “No que cerne a minha visão de direção pro projeto e também para a minha vida como realizador, deve-se ser tal qual Guimarães Rosa, buscando um prosa poética, trazendo para a imagem um pouco de poesia, rompendo vez outra com o que é estruturado – roteiro, enredo, cor, som, montagem - para ampliar as possibilidades de imersão do público. Pessoa possui isso, ainda que numa gênese de conceitos que talvez um dia virão a se fundamentar melhor em obras futuras”.

Pouco se compreende do que está escrito, mas isso são dois manuscritos de roteiros para cinema
criados pelo Fernando Pessoa

Em 2011 comentamos por aqui sobre a divulgação da descoberta de alguns roteiros para o cinema desenvolvidos pelo próprio Fernando Pessoa. Sabe-se, inclusive, que o poeta tinha interesse em montar um complexo cinematográfico ao modo dos Estúdios de Hollywood em Portugal. Essa preocupação faz valer aquilo que dizíamos no início deste texto do limite quase infinito do trabalho artístico do poeta português. O que diria o poeta se visse esses exercícios cinematográficos a partir de sua poesia? Não sabemos. Mas, uma mente inquieta certamente se rejubilaria e olharia com atenção para criações como este projeto ora publicado. “Fernando era um caldeirão de referências, influências vivendo numa época de vanguardas modernistas. Não vejo como não separar o que estava sendo produzido na França, na Rússia, nos Estados Unidos, por exemplo, e não traçar paralelos com a obra dele. Dziga Vertov, um dos pais do documentários e realizador de uma das obras mais interessantes do cinema – Homem com uma Câmera – foi a grande referência para criar a composição visual e sonora de Álvaro de Campos no nosso filme. Assim como a poesia de Campos, o filme de Vertov é uma exalação as máquinas, a vida urbana, a neurose, ao dilemas do indivíduo num mundo cada mais ritmado e intenso” – amplia Vinicius sobre as relações entre a obra poética e as experiências com a arte da imagem.

Vinicius até sonda: “Não sei se ele viu o filme de Vertov, mas sei que os dois leram os manifestos futuristas. Os anos 20 e 30 foram intensos tanto para Pessoa, quanto para as artes e para o próprio mundo. A poesia de Fernando Pessoa se mostra mais como um relato íntimo e fingido – na base do fingimento poético – sobre tudo que ele viu e viveu e neste ponto não vejo o cinema explícito na obra dele. No entanto, tenho certeza que algumas sessões de cinema o inspiraram a escrever”. 

Equipe de realizadores do curta Pessoa

Para ter acesso ao curta Pessoa basta entrar no site criado pelo grupo. Outra possibilidade (mas antes é essencial conhecer a proposta no site) as cenas-poemas foram lançadas no Youtube e o telespectador pode ver os poemas individualmente e compartilhá-los. Lançar o material na rede social foi uma decisão com vistas a ampliar o universo de pessoas a conhecer o trabalho.  Para que fique registrado, Vinícius Lima Costa foi quem escreveu, dirigiu e montou, a produção ficou por conta de Lorenzo Alves e Melissa Viga, fotografia de Alex Vecchi, arte de Davi Firmino e Beatriz Craveiro, som de Flávio Lee e Gabriel Godoy, site desenvolvido por Teidy Nakao. A todos, boa sessão!


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