Jornais e romances: um caso aberto

Por Juan Luis Cebrián



Foi Nélia Piñon quem, durante um debate em Buenos Aires sobre a grande confusão entre ficção e realidade, confessou seu interesse por averiguar as implicações literárias da pós-verdade. As fronteiras entre o romance e o jornalismo parecem muitas vezes confusas e pelo menos desde Charles Dickens aos nossos dias foram dinamitadas em numerosas ocasiões. A partir desse ponto de vista poderia admitir-se inclusive que as pós-verdades que inundam agora o meio ambiente contribuem para a qualidade da literatura tanto ou mais que a destruição da opinião pública numa democracia. E direi depois a assertiva de que a meu ver não estamos falando apenas de notícias falsas, mas sobretudo de verdades subjetivas; isto é, aquelas sobre as quais se acredita tanto que sempre são invocadas como se as escutássemos.

Dois livros assinados por dois grandes escritores que também foram jornalistas profissionais são atuais na polêmica em torno destas questões e nos demonstra, outra vez, que o jornalismo escrito foi, é e continuará sendo um gênero literário. Um é O escândalo do século [tradução livre de El escándalo del siglo], uma antologia que reúne trabalhos de Gabriel García Márquez apresentados em jornais e em revistas entre os anos 1950 e 1984. O outro é o excelente Viagem à Rússia [Viaje a Rusia] escrito em 1925. Ambos são exemplos da ambiguidade dos gêneros literários e, de uma forma ou de outra, demonstração de que o tão afamado realismo mágico atribuído a Gabo era em grande medida seco realismo, levando em conta as surpresas, os paradoxos e as descobertas, verdadeiras invenções no sentido etimológico da palavra, que a realidade nos apresenta todos os dias.

O título do livro de Gabo é emprestado de uma série de reportagens que escreveu a partir de Roma em 1955 sobre o assassinato da jovem Wilma Montesi e que foi publicada em El Espectador, da Colômbia. Este acontecimento ocupou a primeira página dos jornais de todo o mundo e inspirou Fellini ao redigir o roteiro de La dolce vita, um filme mítico na história do cinema que marcou o fim do neorrealismo. As treze crônicas sobre o caso escritas por García Márquez, coincidindo com o julgamento a que foram submetidos os acusados do crime, o filho de um ex-primeiro ministro e um representante da nobreza italiana, constituem a dorsal deste livro. Seu editor, Cristóbal Pera, reconhece “ter escolhido textos em que aparece latente essa tensão narrativa entre jornalismo e literatura, onde as costuras da realidade se estiram por sua impossibilidade de conter o impulso narrativo”. 

O caso Montesi ficou famoso porque desde quando encontraram o cadáver da jovem abandonado numa praia as autoridades policiais e judiciais trataram de ocultar o acontecido, sugerindo que se tratava de um acidente ou de um suicídio. Só a pressão da imprensa obrigou a se realizar um inquérito judicial a respeito. Das investigações soubemos que o noivo da vítima recebeu um telegrama assegurando que esta havia se matado quando todavia se encontrava viva, mas o investigador foi incapaz de estabelecer o que havia se passado nas últimas 24 horas de sua existência. “É possível”, escreve o correspondente de El Espectador Gabriel García Márquez, “que no mês que entra, durante as audiências, se conheça o outro lado deste mistério. Mas também é muito provável que não se conheça nunca”. Toda uma premonição: ninguém foi condenado em juízo e ainda hoje se desconhece os pormenores do caso. Alguns compararam aqueles envios ao jornal colombiano com a estrutura de Crônica de uma morte anunciada que o escritor Prêmio Nobel escreveu anos mais tarde. Isso porque, a abertura da história em sua primeira crônica marca o limiar da intriga antes de informamo-nos o núcleo da notícia: “Na noite de quinta-feira 9 de abril de 1953, o carpinteiro Rodolfo Montesi esperava em sua casa o retorno de sua filha Wilma”. E a premonição do autor nos cabeçalhos da reportagem se consumou em decrescente: “Morta, Wilma Montesi, passeia pelo mundo”.

García Márquez andou mais de dois anos pela Europa escrevendo para El Espectador. Mas o cinema lhe atraía mais que a literatura como profissão e sua escassez de recursos econômicos o obrigou a complementar sua renda com outros trabalhos como o de tocar violão nas ruas de Paris ou trabalhar como ajudante de cozinheiro num restaurante. Por sua vez, para que Josep Pla pudesse narrar o despertar da revolução na Rússia soviética em 1925, seus amigos do Ateneu barcelonês decidiram custear os gastos, os que não podiam ser contemplados por La Publicitat, o jornal para o qual enviaria suas crônicas. Pla era então um jovem jornalista que segundo sua própria confissão não sabia absolutamente nada da Rússia. Tampouco se mostrou muito motivado para fazer a viagem quando lhe comunicaram do trabalho. Mas, finalmente se viu obrigado a aceitá-lo devido a insistência dos amigos, que não apenas proporcionaram a ele os meios econômicos como também a obtenção do visto, o transporte e as pessoas que deveriam escoltá-lo e ajudá-lo com a visita.

A visita de Pla se deu pouco depois da morte de Lênin e em pleno desenvolvimento da Nova Política Econômica. Chama a atenção a ingenuidade que subjaz em algumas de suas observações sobre a Moscou da época, como o fato de que todo mundo se vestia mais ou menos da mesma forma, numa espécie de uniformidade civil, ou a afirmação de que, o que se estava construindo, era simplesmente uma nação sem ricos. O autor, além disso, insiste em economizar opiniões e limita-se a descrever as situações como ele as vê, embora seu ponto de vista era quando muito pessoal. Participava, por um lado, da benevolência que a revolução soviética despertou nos intelectuais do Ocidente no seu início, e, de outro, de seu inegável sentimento conservador. Mas preferiu não expressar os juízos que só tornou explícitos, por sua vez, quarenta anos mais tarde, quando decidiu reeditar a obra. Permitiu-se comentar assim: “Quando Nin me apresentou a Karl Ráder, que então dirigia Pravda, nem sequer ousei dizer-lhe que o célebre ideólogo [...] me pareceu um sapo insípido e insone, sujo, de uma miopia incômoda, agravada por uma amarelamento da pele ácida e frenética e um hirsutismo capilar que contrastava com o fato de que era carente de barba e demonstrava uma maneira de apresentar excessiva – porque havia que ser muito comunista para manifestar aquela abundância de pêlo”. O expressionismo desta descrição foi furtado aos leitores de La Publicitat e é um bom exemplo de como se chegam a ultrapassar com brilhantismo as fronteiras entre o jornalismo e a literatura. Nin, referido por Pla, era Andreu Nin, fundador do Partido Trabalhista de Unificação Marxista, cuja morte pelas mãos dos capangas de Stálin continua envolta num mistério tão grande como a de Wilma Montesi.

Mas o fato de que a pós-verdade e as fake news podem contribuir para a beleza da invenção literária (“não deixes que a realidade estrague uma boa reportagem”) não diminui os riscos para a formação da opinião pública nas democracias, atualmente um panorama inundado de falácias e acontecimentos alternativos. Essa é certamente a mensagem do último livro de Alan Rusbridger, que foi o mítico diretor do The Guardian: Breakin news, the remaking of journalism. Salpicada de anedotas e recordações, a obra nasce de um novo debate fundamental sobre o futuro da mídia num ambiente dominado pelas redes sociais. Evocando Hannah Arendt, cita uma memorável frase sua: “O resultado de uma substituição consistente e total das mentiras pela verdade factual não é que a mentira será agora aceita como verdade e verdades sejam difamadas como mentiras, mas o sentido pelo qual nos orientamos no mundo real – e a categoria da verdade versus falsidade está entre os meios mentais para este fim – está sendo destruído”. A conclusão de Rusbridger é sensível: “Acredite em mim, não queremos um mundo sem informação”. Tampouco sem literatura.

* Este texto é a tradução de "Noticias y novelas: caso abierto", publicado no jornal El País.

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