Heinrinch Böll: o escritor, o homem

Por Fernando Aramburu



Um escritor, sim. Um contador de histórias, também. Heinrich Böll concordou com essas definições; mas acontece que seus contemporâneos insistiram em lhe atribuir características que ele rejeitava repetidamente.

Ele não gostava de ser qualificado como escritor cristão, por mais que durante toda sua vida professasse constantemente sua fé com convicção. Maior irritação lhe causava ser chamado de moralista. Foi, sim, um homem de seu tempo, atento às questões sociais. Um homem que muitas vezes levantou a voz, participou de movimentos de protesto e apresentou suas opiniões políticas em inúmeras entrevistas, artigos, conferências. Um entrevistador certa vez perguntou a ele como se explicava que, para um grande número de cidadãos alemães, ele representava algo como a consciência moral da Alemanha. Ao que respondeu sem hesitar: “Porque pouquíssima consciência”. Böll percebia que tais atribuições à política e à moral simplificavam seu trabalho, se não o anulavam, tornando-o um apêndice de suas opiniões.

Ele era, à maneira de Antonio Machado, “no bom sentido da palavra”, um homem bom, propenso à solidariedade e à compaixão. Aqueles que o conheciam destacam de perto sua simplicidade no tratamento, seu senso de humor, sua autenticidade. Böll era um homem honrado com certidão. Um homem que não estabeleceu diferenças entre o que ele pensava e o que dizia em público, e que ajudava a uns e outros naturalmente, não poucas vezes enfrentando riscos. Na Europa dividida em dois blocos inconciliáveis, ajudou uma cidadã a fugir da Tchecoslováquia; convidou-a a tomar carona em seu carro e emprestou o passaporte de sua esposa, sobre o qual colou uma foto da fugitiva. Sabe-se também que Böll passou para o Ocidente, no final de uma visita à União Soviética, manuscritos de Aleksandr Solzhenítsyn sem ganhar nada em troca, simplesmente porque lhes pediram; manuscritos de um escritor com quem mal podia se comunicar (nenhum falava a língua do outro) e do qual diferenças ideológicas notáveis ​​o separavam. Nenhuma dessas circunstâncias era importante para Böll, para quem ajuda a necessitados, e isso mostra que sua profunda convicção cristã estava acima de todas as outras considerações. Mais tarde, ele recebeu Solzhenítsyn em sua casa.

Böll desfrutou de enorme popularidade na vida. O crítico Marcel Reich-Ranicki mostra o sucesso de seus livros pela natureza humana de seus protagonistas. Eles são apenas indivíduos heróicos, que não eram nazistas ou inimigos do nacional-socialismo, mas meros soldados que não tardou e lhe caíram sobre o peso da história. Em vários livros de contos e romances, Böll deu relevância a um tipo de figura humana com a qual muitos leitores alemães foram capazes de se identificar, dando-lhes um intenso sentimento de veracidade. Aqui está um narrador, eles pensaram, quem não mente, que conta as coisas sem glorificá-las ou deturpá-las; antes, como foram vividas (e sofridos) por uma grande parcela da população.

Heinrich Böll nasceu em Colônia em 21 de dezembro de 1917. Corriam maus tempos na Alemanha que se encontrava à beira da derrota na Primeira Guerra Mundial. Abria-se para o povo alemão uma época de privações, inflação galopante e instabilidade política. A família de Böll enfrentará esse período de dificuldades com alguma folga, graças à oficina de marcenaria de propriedade do pai. Böll cresceu em uma atmosfera de cerrado catolicismo, com um claro componente antiprussiano e antimilitarista que marcará sua personalidade por toda a vida e sua literatura.

O triunfo de Hitler nas urnas, em janeiro de 1933, pega Böll suficientemente vacinado contra qualquer tentação totalitária. Nem a exibição de armas, nem as onipresentes bandeiras, nem os uniformes o fascinaram. Em casa, no começo, seus parentes zombam dos nazistas. Mas logo percebem que provocações e críticas em voz alta se tornavam extremamente perigosas. Os campos de internamento onde novos senhores do poder mantêm dissidentes políticos, homossexuais e judeus ainda não são desconhecidos.

Aos 15 anos, Böll viu hordas de bandidos nazistas vagando pelas ruas de sua cidade natal. Ele se permite imaginar a rejeição que o inspira, aquele que já é um leitor ousado, a queima pública de livros. A concordata assinada pela Santa Sé com Hitler no verão de 1933 foi um duro golpe para sua família, que levam a estudar a possibilidade de deixar a igreja católica. Heinrich Böll dará esse passo quarenta e dois anos depois, sem renunciar para tanto à fé.

O jovem Böll gostaria de estudar. Até se matriculou na Universidade de Colônia para estudar Germanística e Filologia Clássica. Algumas semanas depois, a invasão alemã da Polônia determinou o início da Segunda Guerra Mundial e imediatamente Böll foi incorporado às tropas, o que interromperá seu sonho de fazer uma carreira universitária. Por mais de cinco anos, até muito pouco antes da capitulação, Heinrich Böll lutará em várias frentes antes de ser preso. Sobre isso, deixou escrito: “A guerra me ensinou o quão ridícula é a virilidade e o desamparo do homem na guerra”. Uma parte considerável de sua literatura, a mais testemunhal, levará em conta as duas conclusões. Pode-se até dizer que nascerá delas.

A guerra prejudicou seriamente a formação intelectual do escritor. Entre 1939 e 1945, além de cartas, Böll não escreveu mais nada. Após o cativeiro de vários meses, ele retorna a Colônia, destruída em mais de 70% de sua extensão urbana. Era um sobrevivente sem estudos, sem profissão, sem fortuna. Demorou dois anos para recuperar a saúde. A essa altura, sua vocação literária está decidida. Seus primeiros textos consistem em histórias tematicamente ligadas à privação e à miséria do recém-iniciado período pós-guerra, em uma cidade coberta de poeira e casas demolidas. É a chamada “literatura de entulho” (Trümmerliteratur), da qual Böll será um dos seus representantes mais proeminentes. Escreve histórias relacionadas às traquinagens do mercado negro, sobre o roubo para sobreviver, sobre racionamento e multas de todos os tipos em uma sociedade marcada pela derrota da guerra, que se debate entre desmoralização, sentimento de culpa e desejo de esquecer mas progredir de qualquer maneira.

Seu estilo literário, simples, direto, é inspirado no de seus modelos, principalmente Balzac e Dickens, bem como no de outras figuras famosas do realismo do século XIX. A esse período de Böll pertencem numerosos contos, a parte de seu trabalho que, na minha opinião, melhor resistiu à passagem do tempo, e seu primeiro romance, O trem chegou pontualmente (1949). Também em seus próximos romances, Onde você estava, Adam? (1951) e A casa sem amo (1954), Böll escreveu sobre a experiência da guerra e suas consequências e sua falta de sentido.

O nome do escritor começou a ganhar relevo em 1951, após sua participação na sétima reunião do Grupo 47, durante a qual ele foi premiado. O prêmio significava, além de uma quantia respeitável, um contrato de edição com a qual será doravante sua editora: Kiepenheuer & Witsch. Embora já tivesse publicado alguns livros, é agora que a carreira literária de Heinrich Böll começa com um forte impulso e passa por uma fase especialmente produtiva ao longo dos anos 1950.

Seus três romances considerados mais importantes ainda estão por vir. O primeiro, em 1959, Bilhar às nove e meia, contém uma sucessão de conversas e monólogos sobre conflitos familiares e pessoais de três gerações de arquitetos alemães. A este se seguiu, quatro anos depois, Pontos de vista de um palhaço, cujo protagonista, Hans Schnier, um palhaço de profissão que foi abandonado por sua esposa, faz uma revisão desencantada de sua vida, sem relevar as críticas à igreja católica e à sociedade alemã de seu tempo. Por fim, Retrato de grupo com dama (1971) traça um mosaico complexo das diferentes camadas sociais que servem de estrutura para a vida da protagonista, Leni, uma mulher de classe rica que acabará perdendo seus privilégios em troca da preservação da liberdade. Um ano após a publicação deste último romance, em 1972, Heinrich Böll ganhou o Prêmio Nobel.

Mas nem tudo foram sucessos e vivas na vida de Heinrich Böll. Em 1953, ele teve a primeira rusga com representantes da Igreja Católica, irritados com a emissão radiofônica de um conto seu. Este incidente levou Böll a se instalar por uma temporada na Irlanda, uma experiência que o inspirou a um diário famoso.

Suas críticas ao partido democrata-cristão levaram a uma crescente hostilidade da imprensa do consórcio Springer, encabeçadas pelos jornais Bild Zeitung e Die Welt. Böll goza de reconhecimento internacional, havia sido eleito presidente do PEN Club; assim, suas opiniões têm peso, atravessam a fronteira alemã. Aproveita sua crescente fama para se fazer ouvir. Protagoniza atos de protesto contra a Guerra do Vietnã e contra a política agressiva do presidente Nixon. Atua nas reivindicações estudantis, reivindica maiores emolumentos para os escritores, apóia abertamente a candidatura do chanceler do Partido Social Democrata Willy Brandt, nos anos oitenta e se aproximará dos Verdes. Em suma, é um homem público que ocasionalmente não evita a provocação, como quando felicitou com um buquê de flores Beate Klarsfeld, a mulher que havia dado um tapa no chanceler Kiesinger durante um congresso do partido CDU por seu passado nazista.

Em dezembro de 1971, Böll é atraído pela ira do Bild Zeitung por meio de uma carta aberta ao o jornal criticando por creditar um assalto recente a membros do Exército Vermelho. A partir de agora, Böll será alvo de uma campanha implacável da imprensa Springer. O assédio do escritor não será limitado à mídia. Em junho de 1972, após a prisão de Andreas Baader, a polícia revistou sua casa em busca de terroristas. Um deputado da CDU o acusa de cúmplice destes no decurso de uma intervenção parlamentar. Sobre Böll chove epítetos degenerativos de várias partes e reage (se defende?) publicando um livro de denúncia das notícias falsas e sensacionalistas da época, A honra perdida de Katharina Blum, que traz o subtítulo significativo de “Como nasce a violência e para onde ela leva”.
O romance breve obtém um enorme sucesso na Alemanha. A protagonista, Katharina, desenvolve um relacionamento amoroso com um desertor. O caso é do conhecimento de um repórter, que se aproveita para difamar, sem compaixão, a jovem, inventando todos os tipos de detalhes e cenários. Incapaz de se proteger do poder excessivo do jornal ou, portanto, de lavar sua honra, a jovem decide por matar o jornalista.

A crítica literária alemã constata que, avançada a década de setenta, Böll atravessa uma perda de criatividade. Ainda escreverá e publicará alguns títulos, embora menores em seu trabalho como um todo. E não é apenas por sua dedicação aos assuntos sociais e o que tudo isso implica, deslocamentos, intervenções públicas, presença em diversos fóruns e tarefas ocasionais de todos os tipos, minando a capacidade de trabalhar do escritor, subtraindo o tempo e a energia para a criação literária; não. O que o retirou de cena foi seu delicado estado de saúde, em parte causado por seu vício prolongado e excessivo em tabaco. Böll carrega problemas vasculares devido ao fumo e sofre de diabetes. Idade e doenças, diferentes operações cirúrgicas, a morte de um filho em 1982, deixam nele um traço que as fotografias da época evidenciam. Em 16 de julho de 1985, pouco depois de receber alta do hospital, Heinrich Böll morreu em sua casa. Dias antes, o suplemento de domingo do jornal El País publicou a provavelmente a última entrevista de sua vida. O enterro, grandioso e pacífico, foi celebrado de acordo com o rito católico, com a presença de grandes personalidades políticas.

No momento da morte, Böll havia terminado um romance, Mulheres à beira do rio (tradução livre), publicado postumamente. Livro de diálogos dispersos, sem um enredo reconhecível, os críticos concordaram em descrevê-lo como fracassado. Tenho a impressão de que hoje, na Alemanha, o legado literário de Heinrich Böll está envolto em uma névoa de esquecimento. Não, é claro, num nevoeiro impenetrável se esconde completamente suas obras, pelo menos as mais relevantes, que ainda merecem um segmento de prateleira em inúmeras livrarias. O que não impede que, às vezes, esse ou outro título possa ser encomendado.

Como de costume no caso de escritores falecidos, textos não publicados foram recuperados; especificamente, algumas tentativas literárias de seus inícios. Existe também o chamado Heinrich Böll Archive, dedicado a preservar a memória do escritor, divulgando seu trabalho e facilitando o estudo. Böll também nomeia várias escolas públicas e um prêmio literário organizado anualmente pela cidade de Colônia. O partido político dos Verdes teve a deferência de atribuir o nome do escritor à sua fundação. 

* Este texto é a tradução de “Heinrich Böll: el escritor, el hombre” publicado aqui, na revista Turia.


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