Entre a vida e a literatura ronda a morte

 
Por Carlos Chimal

Ilustração: Elicia Edijanto


 
Vamos fazer um breve percurso pelas diferentes atitudes dos escritores em face de dois atos extremos da existência: viver e morrer. “Por que eu deveria temer a morte?”, Mark Twain se perguntou uma vez, “antes de nascer, fiquei sem vida por milhões e milhões de anos e nunca tive o menor inconveniente.” Twain era dotado de um humor negro, tanto que, confessando seu sincero humanismo, astutamente afirmou que, com o tempo, seria difícil encontrar uma pessoa verdadeira entre todos os bebês humanos nascidos diariamente no limiar do século XX. Pouco importava, pois, de qualquer modo, as duas guerras mundiais daquele século levaram embora a maioria, principalmente os melhores, fossem são ou não.
 
Talvez seja por isso que o poeta estadunidense Robert Lowel afirmou que, se você consegue distinguir uma luz no fim do túnel, é porque uma locomotiva está vindo em sua direção. Algo semelhante pensaria a poeta de Amherst, Massachusetts, Emily Dickinson, que levou sua misantropia ao extremo de nunca mais sair de seu quarto até sua morte em 15 de maio de 1886. Talvez desde esse então o mundo estava apto para seguir os passos de Gulliver: não há mais humanos por perto, apenas yahoos.
 
Entre a vida e a literatura existe a morte, pensou Ernest Hemingway. Realista inveterado, foi mestre na arte de narrar acontecimentos em torno da morte com o interesse de deixar marcas, decidido a fazê-los perdurar, pois deveriam ficar inscritos na memória dos leitores para que nunca se atrevessem a esquecer o que aconteceu, seja uma guerra, um amor tórrido ou uma tourada, porque a morte espreita o tempo todo.
 
Com uma atitude muito diferente do propósito pequeno-burguês de tantos escritores, que tentam nos convencer de seus mundos extravagantes inócuos, cheios de pálida fantasia, Hemingway mostrou desprendimento pela vida afetada e um fascínio por enganar a morte, pelo menos por um tempo. Não foi à toa que se tornou amigo de estadistas sanguinários, espiões furtivos, mulheres bonitas, toureiros intrépidos e jogadores incansáveis. Hemingway nos lembra que a literatura trata de corpos em movimento, seu assunto é a mudança de velocidades. Quando sua caixa de câmbio quebra, é hora de dizer adeus. Em 2 de julho de 1961, em sua casa em Ketchum, Idaho, Hemingway disse adeus às armas apontando uma espingarda na cabeça, tentando adivinhar onde estava a caixa traiçoeira e finalizá-la com um tiro.
 
Um século e meio antes, Percy B. Shelley e Lord Byron também haviam mergulhado naquela caixa traiçoeira, à sua maneira, sem saber se seu desejo mais profundo era acabar com ela ou glorificá-la. Representantes do romantismo do claro-escuro britânico, eles passaram noites lendárias juntos na Itália e na Suíça, especialmente em Cologny. Lá conversaram sobre o que significa viver e morrer. Nessas reuniões estava presente Mary Godwin, filha do filósofo William Godwin, com quem Percy mantinha uma intensa relação intelectual. Ele e Mary se apaixonaram e acabaram se casando. Hoje ela é famosa por ter capturado sua própria versão da vida após a morte por meio da literatura. Por sua vez, Byron foi um explorador da psique humana, de humores instáveis, para quem a vida era um terremoto contínuo, uma febre imbatível. Um pioneiro dos bipolares do Trinity College em Cambridge, entre 1805 e 1808, foi nessa cidade que ele exerceu sem reservas sua própria versão do extremismo na busca de viver prazeres proibidos perto do ato final.
 
O mesmo esforço para levar as emoções ao extremo que é tocado pela morte encontramos a poeta britânica Jenny Joseph (1932-2018), cujas obras Extreme of things e especialmente Warning: When I am Old Woman I Shall Wear Purple enfrenta a partir da literatura a inevitável calamidade do envelhecimento. Esta caminhada agridoce e patética em um aparente estado de graça que parece deslizar para a demência senil foi escrita por Jenny quando ela tinha 28 anos. Desde então, ela foi uma ouvinte devotada às diferentes expressões da melancolia, da angústia e da sátira na fala viva do cidadão comum.
 
Embora a poesia de John Milton (1608-1674) esteja no outro extremo dessa obsessão mórbida, eles ainda assim se tocam, pois preludia o mesmo tipo de gritos de liberdade, tanto de consciência quanto de ação, que distinguiriam os românticos do século XIX e modernistas como a própria Jenny Joseph. É que Milton não discute o que significa morrer, mas viver no sonho. Milton descreve nosso breve acontecimento no paraíso terrestre e se refere àqueles que vagaram por esses lugares oníricos, desafiando a morte.
 
Nessa veia terrena, quase trivial e em franca fuga do Ceifadora, encontramos T. S. Eliot, um estadunidense que viveu entre os séculos XIX e XX, para quem as lâmpadas da rua e da lua não são mera decoração, mas valiosa companhia para ir para a cama e que “a vida o aguarda”, segundo o penúltimo verso do poema “Rapsódia de uma noite de vento” (1915). Viver mata, sem dúvida, mas como é bom!
 
Um seguidor de Eliot foi Harold Hart Crane, um romântico estadunidense que viveu entre 1899 e 1932. De acordo com o estudioso da literatura Harold Bloom, Crane era um peregrino dos absolutos. Que outro binômio absoluto poderia um rosto humano após a vida e a morte? Como Byron e Shelley, e cuja poesia merece ser lida antes de morrer. Ou como Anne Sexton (Live or Die e The Awful Rowing Toward God, entre outros), criadora de uma poesia confessional na qual revela seu segredo: nunca baixar a guarda diante da angústia de viver. Congruente com suas emoções, em 1974, aos 46 anos, ela tirou a própria vida.
 
* Este texto é a tradução de “Entre la vida y la literatura ronda la muerte”, publicado aqui, em Letras Libres.

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