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Mostrando postagens de Abril, 2021

Cervantes e a violência de gênero

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Por Geney Betrán Ilustração de Vânia Mignone.   O estuprador conta a história: “subi sem esbarrar ninguém até o próprio aposento onde ela estava dormindo a sesta sobre um estrado negro. Era formosa ao extremo, e o silêncio, a solidão, a ocasião despertaram em mim um desejo mais atrevido que honesto, e sem pensar com sensatez fechei a porta às minhas costas, e me aproximando dela, acordei-a, e segurando-a firmemente [...] eu a possuí contra sua vontade e à força, pura e simplesmente.”¹ A mulher engravidou. Para esconder seu estado, deixou sua terra em direção ao sul, como uma peregrina. Deu à luz uma menina numa pousada em Toledo. Deixou a criança nas mãos de seus anfitriões, prometendo buscá-la depois de dois anos. Mas nunca o fez; a morte a impediu. Quinze anos, um mês e quatro dias se passaram. O nome da garota é Costanza. Aos 15 anos ela é a mulher mais bonita de acordo com quantos homens a viram. De nenhum, entretanto, ela aceita seus requebros de amor. “É dura como um mármore [...

Wlademir Dias-Pino: um poeta em movimento

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Por Fábio Roberto Ferreira Barreto Wlademir Dias-Pino.   Wlademir Dias-Pino: em poucas palavras, um ser de muita ação   O poetartista Wlademir Dias-Pino (1927-2018) “tem uma trajetória única na arte e na poesia” (MENDONÇA, 2017, p. 7); no entanto, a despeito de sua grandiosidade, é pouco (re)conhecido no Brasil. Precursor da poesia visual no país, protagonizou e/ ou participou de diferentes movimentos da literatura brasileira recente. Fundou, ao lado de outros poetas, o Movimento Intensivista, nos anos de 1940, integrou o Movimento Concretista, nos anos de 1950, e idealizou o Movimento Poema-Processo, nos anos de 1960.   Inquieto, Wlademir publicou o relevante livro Processo: linguagem e comunicação , em 1971, o livro-catálogo A separação entre inscrever e escrever , em 1982, e outro importante marco de sua trajetória, os seis volumes de Enciclopédia Visual , nos anos de 1990.   Nos últimos anos, as homenagens logradas pelo Museu de Arte do Rio (MAR) — O Poema Infinito de Wlademir Di

Verdades solúveis. Comentário sobre “A especulação imobiliária”, de Italo Calvino

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  Por André Cupone Gatti Italo Calvino. Foto: Johan Brun.   Uma Itália de andaimes e concreto fresco, um lugar prenhe de futuro, a construção de um novo mundo e de uma nova História sobre o luto deixado pela Segunda Guerra Mundial. É esse cenário do pós-guerra, com sua pressa do porvir, cercado cada vez mais de “homens de negócios”, que Italo Calvino elege como tema de seu romance A especulação imobiliária (1957).   E como nenhuma configuração histórica e social deixa de ser refletida na identidade dos indivíduos de um tempo e de um lugar, o tema de Calvino nesse romance é também a fragmentação, a incerteza, que esses novos tempos promovem na cosmovisão do homem moderno, sobretudo daquele identificado como intelectual. O boom econômico dos anos 50 abriu a devida brecha para a valorização de um novo homem, um homem não somente sem “qualidades”, mas que subjuga às necessidades do “homem prático”, qualidades temporárias. O tentáculo de um novo liberalismo vem nublar a já nublada realidad

Boletim Letras 360º #423

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    DO EDITOR   1. Saudações, caro leitor! As vendas de alguns livros da biblioteca do Letras para cobrir as despesas de hospedagem do blog online estão abertas. Fazemos isso anualmente através de um bazar no nosso Facebook . Veja se é possível a ajudar. A simples partilha e divulgação é já muito importante.  2. A seguir, as notícias apresentadas durante a semana na página do blog no Facebook e o conteúdo das demais seções de leitura criadas em momento posterior à existência deste Boletim.   3. Reitero os agradecimentos pela companhia do nosso trabalho. Espero que você esteja, dentro do possível são e seguro. Boas leituras! Franz Kafka com cachorro. Foto, 1906/1908. Arquivo Biblioteca Nacional da Áustria.   LANÇAMENTOS   Nova edição dos Diários , de Franz Kafka segue as edições mais completas dos registros pessoais do autor .   “Tudo que não é literatura me entedia e eu detesto”, anota Franz Kafka em certo dia de 1913. A essa altura, o advogado judeu era funcionário de um instituto