Cinco poemas de W. B. Yeats*

Por Pedro Belo Clara
(seleção, tradução e notas)

William Butler Yeats. Foto: Howard Coster.


 
 
AS AVES BRANCAS
 
Desejava que fôssemos, amada, aves brancas na espuma do mar!
Fatiga-nos a flama do meteoro, antes que se apague e possa escapar;
E a chama da estrela do crepúsculo, anil, na baixa linha do céu a tremer,
Despertou nos corações, amada, uma tristeza que talvez não possa morrer.
 
Um cansaço nasce desses dois sonhadores orvalhados, o lírio e a rosa;
Ah, com eles não sonhes, amada, com a chama do meteoro, fogosa,
Ou a chama da estrela anil do crepúsculo, cintilando baixa quando o rocio cai:
Pois desejaria que fôssemos aves brancas sobre a espuma que errante vai.
 
Incontáveis ilhas me encantam, como Danaan¹ e suas margens sem fim,
Onde o Tempo decerto nos esqueceria e a Dor em paz nos deixaria enfim;
Em breve, longe da rosa e do lírio, libertos das chamas iríamos estar,
Apenas se brancas aves fôssemos, amada, flutuando na espuma do mar!
 
 
OS CISNES SELVAGENS DE COOLE
 
As árvores ostentam a sua beleza outonal,
Secos estão os trilhos do bosque agreste,
Sob o crepúsculo de outubro as águas
Reflectem a serenidade celeste;
Entre as pedras, sobre águas transbordantes,
Cinquenta e nove cisnes cintilantes.
 
Dezanove outonos se passaram
Desde que lhes fiz a primeira contagem;
Vi, enquanto terminava a tarefa,
Todos eles aprontar nova viagem,
Dispersando em grandes anéis quebrados
No volteio das asas em clamores ampliados.
 
Contemplei outrora esses seres radiantes,
E tenho agora no coração uma ferida grosseira.
Tudo mudou desde que, escutando ao crepúsculo,
Nesta margem pela vez primeira,
A canção das suas asas sobre a cabeça desarmada,
Caminhava com mais leve passada.
 
Infatigáveis ainda, amante ladeando amante,
Deslizam em graciosidade
Nas frias e fraternas correntes ou erguem-se nos ares;
Seus corações não conheceram a velha idade;
Paixão ou conquista, vagueando ao sabor do desejo,
Ainda têm neles o seu ensejo.
 
Mas agora deambulam pelas águas serenas,
Belos e misteriosos;
Entre que juncos farão a sua morada,
Junto a que charco ou lago de recantos frondosos
Encantarão o olhar humano, quando um dia despertar
E descobrir que para longe acabaram por voar?
 
 
INNISFREE, A ILHA DO LAGO
 
Erguer-me-ei e de pronto partirei, para Innisfree partirei,
E uma pequena cabana farei, com argila e canas por telhas:
Nove renques de feijão plantarei, uma colmeia terei,
E só viverei no seio do alto rumor das abelhas.
 
E dalguma paz aí gozarei, pois a paz goteja lentamente,
Goteja dos véus da manhã até quando o grilo canta;
A meia-noite é cintilante, o meio-dia púrpura fulgente
E o entardecer de asas de pintarroxo coberto, qual manta.
 
Erguer-me-ei e de pronto partirei, pois noite e dia
Escuto as águas do lago na margem em suave ondulação;
Esteja no meio da estrada ou nas ruas de cinza agonia,
Escuto o seu murmúrio no mais fundo do coração.
 
 
QUANDO FORES VELHA
 
Quando fores velha e grisalha, de sono fecunda,
Dormitando à lareira, toma este livro em mãos;
Lê-o devagar, sonhando com os raios sãos
Que outrora teus olhos tiveram, e sua sombra profunda.
 
Muitos amaram os teus momentos de graça aprazível,
E amaram com falso ou vero amor a tua beleza;
Mas um só amou a tua peregrina natureza
E os lamentos desse rosto perecível.
 
Debruçada sobre o ferro em ebulição,
Murmura, com leve tristeza, como o Amor escapou
E em largas passadas montanhas galgou,
Escondendo a face numa estrelada imensidão.
 
 
A CANÇÃO DE AENGUS² ERRANTE
 
Fui ao bosque das aveleiras,
Pois a mente consumia-se num fogo bravio;
Cortei e preparei uma vara de aveleira
E atei uma baga a um fio.
E enquanto as mariposas brancas esvoaçavam,
E outras piscavam como estrela afogueada,
Mergulhei a baga nas águas do ribeiro
E pesquei uma pequena truta prateada.
 
Quando perto de mim no chão a depus,
A fogueira soprei e o fogo se atiçou;
Então algo restolhou, ou assim supus,
Alguém por meu nome chamou:
Fez-se a truta numa rapariga cintilante,
Disse o meu nome e logo correu;
Tinha no cabelo flores de macieira,
E, brilhando, no ar de pronto se desvaneceu.
 
Embora esteja velho de vaguear
Por terras acidentadas e sozinhas,
Descobrirei qual foi o seu destino,
Seus lábios beijarei e as mãos tomarei nas minhas;
Caminharemos pelas altas ervas
E colheremos, até o Tempo se extinguir no fole,
As prateadas maçãs da lua,
As doiradas maçãs do sol.
 
______
 
W. B. Yeats nasceu em Dublin, em 1865, e tornar-se-ia, por excelência, um dos autores mais famosos de toda a Irlanda – no julgar de muitos críticos o seu poeta mais notável.

Oriundo duma família de consideráveis posses e com significativas tendências artísticas, cedo se mudaria com os restantes membros para Londres, por forma a acompanhar a carreira profissional do seu progenitor – que começara por estudar Direito, mas cedo decidiria seguir a carreira de pintor de retratos.
Yeats iniciaria os seus estudos na capital inglesa, mas por razões financeiras a família viu-se obrigada a regressar a Dublin. Tinha o jovem poeta apenas quinze anos.

Os primeiros poemas terão nascido já na sua cidade natal, por volta dos dezoito anos de idade. O estúdio do seu pai localizava-se muito perto da escola que frequentava, pelo que o jovem William teve um contacto precoce com diversos escritores e pintores que amiúde o frequentavam.   

Aos vinte anos consegue publicar os primeiros poemas e um ensaio. Tal como se veria mais tarde, nos livros que publicou numa fase precoce da sua carreira, as temáticas desenvolviam-se através dum traçado clássico e formal, num romantismo algo excessivo, liricamente rendilhado, com recurso frequente à mitologia celta e ao folclore irlandês. Uma aura mística, quase esotérica, já dealbava sobre os seus trabalhos – onde era inegável a influência, por exemplo, de Percy Shelley na sua voz de jovem poeta.

Regressado a Londres, entra na primeira fase de maior desenvolvimento da sua obra, principalmente graças à co-fundação dum clube de poetas, através do qual publicar-se-iam diversas antologias. A sua primeira publicação a solo é um poema dramático impresso em panfleto, com o título Mosada (1886), financiado pelo pai. Estaria já a poucos anos de distância de editar os livros mais significativos da sua primeira fase poética: The Rose (1893) e The Wind Among The Reeds (1899).

Sensivelmente no mesmo período conhece Maud Gonne, por quem se apaixona perdidamente. Fora várias vezes rejeitado o seu pedido de casamento, inclusive, muitos anos depois, aquele que proporia à filha desta. A influência de tão arrebatadora paixão marcaria profundamente a obra de Yeats, então em fluxo crescente. Os seus ideais nacionalistas começam também por adquirir uma força mais vincada.

Ultrapassando a desilusão amorosa, decide, em conjunto com outros autores emergentes, fundar aquele que seria conhecido como o “Renascimento Literário Irlandês” ou “Renascimento Celta”, um grito profundamente nacionalista contra séculos de domínio inglês. Contudo, sublinhe-se, o movimento visava apenas a recuperação da extraordinária herança cultural da Irlanda, cuja defesa tornou ainda mais célebre a figura de Yeats. Será inserido nesta intenção que ajudará a fundar o Abbey Theatre, das maiores conquistas que o movimento conhecerá, inaugurado em Dublin, em 1904. Como se compreende, por esta altura Yeats já se afirmava como um prolífico dramaturgo.

Figura sempre irrequieta, abandonaria uma série imensa de movimentos, clubes e organizações por si fundados, sozinho ou em parceria, além de envolvimentos públicos na área política.

Mesmo mantendo-se durante toda a vida um poeta simbolista com influências do hinduísmo e da teosofia, a sua obra sofre uma mudança significativa, que se traduzirá em polimento, tornando-se mais austera, mas clara, aquando do contacto com Ezra Pound, que chegou a ser o seu secretário pessoal, e pela experiência do movimento modernista. A poesia de Yeats, no começo do século XX, assume assim contornos mais realistas e uma dicção mais concreta e despojada, consequência da renúncia do autor aos temas transcendentais que nos primeiros anos tanto o fascinavam. Embora nunca perca verdadeiramente, como indivíduo, o interesse nos temas do denominado “oculto” – acrescente-se.

A amizade com Ezra Pound foi significativa e rendeu frutos, pois também lhe transmitiu uma certa simpatia pelo Fascismo, então emergente na Europa, especialmente por Mussolini, em parte por culpa das tendências aristocráticas que Yeats não ocultava – assim como a sua associação a movimentos que promoviam a eugenia. Contudo, anos depois acabaria por repudiar estes ideais. Do ponto de vista político, diga-se que as suas intenções pareceram sempre algo ambíguas.

Yeats legou-nos uma extensa obra nos mais diversos campos artísticos e com temáticas abrangentes. Um poeta de fino recorte, defensor da cultura celta, prosaísta inspirado e dramaturgo capaz, foi agraciado com o Nobel da Literatura em 1923 – “pela sua sempre inspirada poesia, que numa forma altamente artística expressou o espírito de toda uma nação”. Devido ao envolvimento no tema do nacionalismo irlandês, viria também a ser Senador da República recém-formada, abandonando posteriormente o cargo por razões de saúde.

Faleceu em Menton, França, aos setenta e três anos de idade. O seu corpo foi transladado quase uma década depois para Sligo, na Irlanda, o condado natal de sua mãe e o único local que reconhecia como o lugar, por excelência, da sua infância, embora tenha aí vivido por escassos anos. Actualmente, nessa cidade encontra-se erguido um memorial e uma estátua em sua honra.

Notas da tradução
 
¹ Grécia.
 
² Deus da mitologia irlandesa associado à juventude, ao amor, à beleza e à inspiração poética.
 
(*) Os poemas “Aves Brancas”, “Innisfree, a Ilha do Lago” e “Quando Fores Velha” encontram-se na obra The Rose, de 1893; “A Canção de Aengus Errante” em The Wind Among The Reeds, de 1899, e, por fim, “Os Cisnes Selvagens de Coole” estão presentes na obra com o mesmo nome, editada em 1919.

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