Entre o homem e o pensamento, o verso

Por Tiago D. Oliveira




Nos poemas de Laura Riding há um exercício contínuo do pensamento, a reflexão como versos na tentativa de entendimento da natureza humana. Em seu trabalho / linguagem sua obra resgata em cada poema uma ideia de alcance ou dimensão traduzida pela vida. Em Mindscapes, primeira compilação de poemas da autora no Brasil, editada pela Iluminuras, percebe-se uma investigação dos sentidos indizíveis que são capturados pela poesia e colocados em ressignificação pela invasão que acomete na leitura, são versos que desenham um mapa, só que de dentro para fora. É como se a partir da linguagem a poesia apresentasse maturações e definisse uma certa incomplexidade para as horas.

Uma palavra importante para o entendimento dos versos de Riding é “verdade”, esse composto de infinitudes. A poeta modernista americana investiu sua fé em tatear o verso que representasse a verdade e acabou chegando em uma direção que marcou um tempo, dizia que “a verdade começa onde a poesia termina”, jogos e direções. Havia uma oposição entre forma e conteúdo que atravessava o seu pensamento, acreditava que o fazer poético, os artifícios utilizados, somente afastava a verdade. O artifício da linguagem literária teria deixado de expressar o dizer verdadeiro, o objetivo final da arte poética. Laura se afastou por 30 anos da poesia, tamanha era a sua fé no caminho que a sua produção escavava.

O que fica claro na leitura dos poemas de Riding é a forma como organiza as experiências através dos versos, há um ser que procura entender a vida através de suas construções filosóficas. Faz do labor com a palavra uma chance de vida, por isso a “verdade” pretendida se alinha ao que cria de mundo. Para Laura, “Desde o começo, a poesia para mim era território da vida, não da literatura”. Na metade do livro, a leitura foi conformando direções e comecei a pensar no contexto histórico e social de sua vida. Comecei também a me perguntar sobre tal verdade na existência, sobre seu alinhamento substancial, assim como pode ser lido no poema “Verdade”:

Deixe a terra em paz.
A verdade não deixa pegadas.
Não escute
Até o silêncio se pôr com a lua.
A verdade não faz ruídos.
Não siga a luz
Que segue o sol
Que segue a noite.
A verdade dança além da luz
E do sol
E da noite
A verdade não pode ser vista.


Talvez essa tal verdade seja o segredo dos dias, o que cada um, mesmo que sem perceber, busca para ter um caminho equilibrado entre a ausência e o preenchimento. Em Mindscapes percebe-se que o caminho dos poemas consegue traçar uma busca agenciada sempre pela reflexão filosófica sobre os dias, sobre a vida que apresenta a própria vida.

Em direção ao sol encontra-se mais sol do que os olhos conseguem digerir nas imagens. Tamanha projeção acaba por inverter os contornos dando ao que poderia ser um desenho iluminado, uma determinada escuridão cansando a verdade. E eis que dentro da ilusão dos dias, cultuada pela busca que pode extraviar o que realmente importa, que Riding aponta a saída:

Deixe a verdade em paz.
A verdade não pode ser pega.
Acho que ela não vive nada, não,
Pois teria medo de morrer, então.


Observo da janela a chuva caindo na curva da rua, é uma imagem funda. E de repente nos colocamos novamente órfãos dentro de uma mesma busca que não tem fim. A verdade não pode ser alcançada; tomo Nietzsche como calçamento para continuar galgando chão. Penso em sua verdade como “desejo de potência”, aquele lugar que atesta os fortes e serve para afastar o erro do acerto, assim realiza abismos no mundo. 

O que transpassa a filosofia como algo funcional, tal como o vento em um dia de um mesmo sol, seria o tempo a apontar conclusões empíricas sobre nós, sobre o desejo de verdade. Afinal, nada é mais forte do que a realização do pensamento, seu julgamento e ponderação nos anos. A poesia de Laura Riding consegue participar ao leitor uma espécie de iniciação nos lugares que a vida ainda não havia apresentado, mas que certamente o alcançaria em determinada página dos dias – fecho o livro sentindo que a verdade somos todos dentro e fora da chuva, da curva na janela.
 

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