Boletim Letras 360º #444

DO EDITOR

1. Caro leitor, copiamos abaixo, as notícias que passaram pela página do blog no Facebook durante a semana e as demais dicas nas outras seções deste Boletim. Em nome do Letras, muito obrigado pela companhia. Boas leituras!

Marguerite Duras. Foto: Julio Donoso.


 
LANÇAMENTOS
 
O primeiro livro da coleção com obras de Marguerite Duras editada pela Relicário Edições. A casa planeja pelo menos dez títulos ainda inéditos no Brasil.
 
Escrever é literalmente o livro dos livros de Marguerite Duras. Um relato-síntese de mais de cinquenta anos de escrita, como aquele último filme da vida em que alguém se revê num apanhado essencial. A escritora e seus amantes, seus amigos, sua infância selvagem na Indochina colonial, seus livros e personagens coextensivos à sua vida, seus filmes rodados a partir dos livros, sua ligação com o PCF, a maternidade, o convívio com o mar de Trouville e os jardins de Neauphle, sua autoestrada de palavras de cronista: tudo está aqui, tudo irradia do coração da casa. Seja em Paris, Trouville, Neauphle-le-Château ou Nova York, para Marguerite Duras a casa se faz em torno de certos hábitos: certa tinta preta, certa cadeira, certa janela, certo uísque. Esses hábitos, que são os da escrita, são também os de uma solidão fundamental. É nesse lugar de solidão que um escritor pode estar em qualquer parte, como Duras esteve em Vinh-long estando em Neauphle. É também nesse lugar que a morte se deixa observar e se escrever em sua lenta investida corpo adentro. A morte da mosca, nestas páginas, reverbera a mariposa de Virginia Woolf em sua luta extraordinária e desesperada. Também a casa é o lugar aonde o passado retorna vivo, em manuscritos guardados ou no telefonema de um velho amante. Foi em Neauphle que Duras não só escreveu muitos de seus livros (O amante entre eles), como também ali, um dia, ela reencontrou dentro de certo armário azul seus antigos Cadernos de Guerra, que deram origem ao romance A dor. No extremo temporal oposto desses cadernos dos anos de 1940, Escrever, de 1993, faz uma revisitação de tudo, num cinema íntimo de memórias e silêncio. Nessa casa da escrita, encontramos a escritora de personalidade ímpar que nunca fugiu a opiniões polêmicas sobre literatura ou política. Para um mundo abarrotado de propósitos e escrutínios, isto será sempre de uma nudez inconveniente e perturbadora: o livro ser a razão mesma de sua escrita, sem mais porquês. O livro, enquanto está sendo escrito, ser algo desconhecido do próprio autor, com personagens que vão se descobrindo, como a escrita a si mesma, em sua selvageria de corpo, seu desespero, sua loucura. (Do texto de orelha de Mariana Ianelli). A tradução do livro agora publicado é de Luciene Guimarães de Oliveira.
 
Uma coleção de contos de Robert Louis Stevenson, escritos depois que ele se mudou para a ilha de Samoa e publicado pela primeira vez em 1893.
 
O livro agora traduzido por Reinaldo Guarino, ilustrado por Marli A. Guarino Gordon F. Browne e William Hatherell reúne três histórias: “A praia da Falesá”; “O diabo da garrafa” e “A ilha das vozes”. Na primeira, John Wiltshire, o narrador e protagonista é enviado para a ilha de Falesá para assumir uma estação de comércio britânica. Stevenson escreveu a história com humor negro para equilibrar o realismo da luta do personagem principal para manter sua decência em um ambiente pouco civilizado e hostil, repleto de conflitos políticos e morais. A segunda história gira em torno de uma garrafa com um diabrete em seu interior. O diabrete concede todos os desejos à pessoa que possui a garrafa, mas qualquer um que ainda a tenha em seu poder, no momento da sua morte, é condenado ao castigo eterno no inferno. E na terceira: Keola era casado com Lehua, filha de Kalamake, um famoso feiticeiro que parece ter uma fonte inesgotável de dinheiro, apesar de nunca fazer qualquer trabalho. Keola leva uma vida ociosa na ilha, até que um dia ajuda Kalamake a executar uma feitiçaria e descobre a origem do dinheiro. O livro é publicado pela Pomnite Books.
 
Nova tradução de uma pequena joia literária de Stefan Zweig que combina o jogo de xadrez às experiências da guerra e do confinamento.
 
Última obra de Stefan Zweig, O livro do xadrez foi escrito durante seu exílio no Brasil e enviado ao editor americano poucos dias antes do suicídio do autor, em 1942. Essa novela é também o único texto em que o escritor austríaco de origem judaica aborda diretamente o tema do nazismo, por meio de sua mirada psicológica característica. A bordo de um navio que deixa Nova York com destino a Buenos Aires, o narrador descobre que entre os passageiros encontra-se Mirko Czentovic, campeão mundial de xadrez, homem arrogante e pouco sociável que parece ter no jogo o único meio de se relacionar com os outros. A curiosidade com essa figura reservada e a competitividade natural entre homens conspiram para que em poucos dias de viagem se dê o embate entre o enxadrista e um exército de diletantes orgulhosos, empenhados em derrotar o grande mestre — que vence sucessivas partidas sem esforço. Até que entra em cena uma figura inesperada. Como um sujeito discreto e de passado obscuro, que diz nunca ter tocado num tabuleiro de xadrez, consegue dominar as nuances do jogo, e a que custo ele foi introduzido às artes da estratégia, são o coração dessa história, que já rendeu duas adaptações para o cinema e inspirou peças de teatro e até uma ópera. As vicissitudes do século 20, a experiência do confinamento e a salvação pelo esporte se entrelaçam nestas páginas como só a grande literatura é capaz de fazer. A tradução é de Silvia Bittencourt e é publicada pela editora Fósforo.
 
Publicado em 1912, este pequeno romance, ou crônica longa, é uma sátira impiedosa à elite paulistana do período.
 
Contundente e corrosivo, Gente rica: cenas da vida paulistana é um dos mais expressivos exemplos da literatura belle époque de São Paulo. Dividido em cenas, o romance é protagonizado pelos amigos Leivas Gomes e Juvenal Leme, figuras caricaturais que representam o estilo de vida dos poderosos. Empreendedor típico, Leivas enriqueceu graças à inteligência e ao oportunismo. Já Juvenal é paulista da gema, vive confortavelmente de rendas e descende de famílias de bandeirantes e militares. Alter ego do autor e hábil conversador, não perde oportunidade de disparar tiradas irônicas e extravagantes. O cenário é uma São Paulo que rapidamente se moderniza, um Brasil em transformação, com o início do declínio da República Velha. Nossos heróis circulam pelo centro da cidade, mais especificamente pelo chamado Triângulo, ao lado de jovens janotas, fazendeiros de café, advogados, médicos, políticos e estudantes de direito: vão ao cinema, frequentam a Casa Garraux, as rotisseries Sportsman e Castelões, o Teatro Santana. Tomam café e confabulam no Guarany, avistam o Theatro Municipal recém-inaugurado e o viaduto Santa Ifigênia em construção. Retrato de época vivaz e arrasador, escrito em linguagem ágil, Gente rica: cenas da vida paulistana é uma das muitas manifestações do pré-modernismo que, de acordo com a crítica literária Walnice Nogueira Galvão, ficaram um tanto ofuscadas pelo fulgor da Semana de Arte Moderna de 1922. São, porém, obras estimulantes com o poder de divertir e fazer pensar o leitor contemporâneo. O livro é publicado pela Chão editora.
 
Livro apresenta um rico retrato da cena artística na Rússia do século XIX e começo do século XX.
 
Entre o final do século XIX e o começo do século XX a Rússia foi palco de experimentos e realizações de vanguarda em todos os campos da arte, numa efervescência que estabeleceu princípios e diretrizes de longa duração, inspirando, por exemplo, a poesia concreta brasileira. O arqueiro de olho-e-meio (1933), traduzido pela primeira vez no Brasil, é um rico retrato dessa cena artística, narrado por Benedikt Lívchits (1886-1939) como uma reportagem da qual o autor é personagem ativo. Poeta, tal qual seus amigos Vladímir Maiakóvski e Velímir Khlébnikov, Lívchits não sobreviveu à moenda da história por sua obra em versos, mas por esse livro, que ganhou com o tempo o status de referência quando se trata de entender quais eram e o que pregavam os diversos grupos vanguardistas nas duas primeiras décadas do século XX. Como observa Bruno Barretto Gomide, tradutor e autor da apresentação de O arqueiro de olho-e-meio, ter sido contemporâneo desses nomes cardeais foi uma sorte e um azar para Lívchits. Sorte por ter convivido e compreendido tão profundamente a história que descreve; azar por ter ficado obscurecido pelos gênios. “Há um grupo tão grande de inovadores radicais, de escritores fabulosos [nesse período], que os ‘menos incríveis’ acabam ficando na sombra daqueles de maior nomeada”, escreve Gomide. O livro traz momentos de grande beleza, entre eles a descrição afetuosa das estripulias e do doce egocentrismo de Maiakóvski, que, ao estender sua obra de poeta para o palco, o fez com um espetáculo chamado... Maiakóvski , no qual, naturalmente, ele era o ator principal. Lívchits estava diante de figuras geniais, e sabia entendê-las como ninguém. A tradução de Bruno Barreto Gomide é publicada pela editora Carambaia.
 
A obra-prima de Franz Kafka em nova edição com ilustrações labirínticas de Lourenço Mutarelli e apresentação de Noemi Jaffe.
 
Josef K. Está detido pela justiça — mas não sabe o porquê. Desde a manhã em que os oficiais apareceram em seu apartamento com essa notícia, K. Apela a escriturários, advogados, secretárias, funcionários do tribunal e até a artistas para entender o motivo pelo qual está sendo processado. Este romance póstumo de Franz Kafka, publicado pela primeira vez em 1925, é mais uma de suas sagazes críticas da claustrofóbica burocracia estatal o papel da subjetividade e da falta de autonomia no mundo moderno. A edição da Antofágica tem ilustrações de Lourenço Mutarelli tão misteriosas quanto o processo de Josef K.: elas foram dobradas e recortadas durante a montagem do livro, restando ao leitor investigá-las para unir os fragmentos para investigá-las. Conta também com tradução de Petê Rissatti e, apresentação da premiada escritora Noemi Jaffe. E posfácios de Gabriel Alonso Guimarães, (doutor em Literatura Comparada pela UFF), assina um texto de apoio em que esclarece o modo como a edição incorpora os trechos riscados pelo autor. Adilson José Moreira, (doutor em Direito Constitucional pela UFMG,) tece uma análise jurídica do livro, apontando como o racismo estrutural submete pessoas negras no Brasil a processos verdadeiramente kafkianos, e Noemi Moritz Kon, (doutora em Psicologia Social pela USP), investiga a trama do ponto de vista da psicanálise.
 
Nova tradução para dois textos clássicos de Henry David Thoreau.
 
Publicado em 1854, este é um manifesto a favor da natureza e da liberdade. Em conflito com as mudanças trazidas pela Revolução Industrial — na sociedade, na cultura e na relação do homem com o trabalho e a natureza — e inspirado pela filosofia oriental do confucionismo, Thoreau abandona a cidade e retira-se para a floresta. Lá, às margens do lago Walden, constrói uma cabana e todos os móveis com as próprias mãos, passando a viver com o mínimo necessário para sua sobrevivência e em intenso contato com o meio natural. A obra de Thoreau — em especial, “Walden ou a vida nos bosques” e o ensaio “Sobre a desobediência civil”, ambos presentes nesta edição — tem sido referência fundamental a diversos pensadores e movimentos dos séculos XIX, XX e XXI, como Martin Luther King Jr., Mahatma Gandhi, o movimento artístico beat, a filosofia hippie das décadas de 1960-70 e as principais correntes de luta pela ecologia e pela preservação do meio ambiente das últimas décadas. A edição especial publicada pela editora Planeta inclui ilustrações de Deco Farkas, prefácio de Joyce Carol Oates e nota biográfica escrita por Virginia Woolf.
 
Uma história eletrizante de nosso tempo escrita pelo incontestável mestre da espionagem, John le Carré.
 
Nat, um veterano do Serviço de Inteligência britânico de 47 anos, acredita que seus dias de agente de campo estão terminando. De volta a Londres com a esposa, a advogada e grande companheira Prue, ele espera ser dispensado do trabalho a qualquer momento. Mas, com a ameaça crescente do Centro de Moscou, o Serviço tem mais um trabalho para ele. Nat vai assumir o Refúgio, uma subestação esquecida do Geral de Londres, com um grupo de espiões heterogêneo. A única luz no fim do túnel para sua equipe é a jovem Florence, que está de olho no departamento da Rússia e em um oligarca ucraniano corrupto. Nat não é só um espião, ele é também um jogador de badminton apaixonado pelo esporte e pelo clube em que joga. Ele conta com um adversário regular nas noites de segunda, que tem metade da sua idade: o introspectivo e solitário Ed, que sente raiva do Brexit, do Trump e de seu trabalho em uma grande e desalmada empresa de mídia. E é justamente Ed quem conduz Prue, Florence e o próprio Nat a uma caminhada norteada pelo ódio político que pode se transformar em uma armadilha para todos. Para fãs de Frederick Forsyth, Graham Greene e Ian Fleming, Agente em campo é uma história arrepiante de nosso tempo, ora comovente, ora bem-humorada, ainda que com um humor sempre ácido, escrita com uma tensão constante pelo maior cronista de nossa época, John le Carré. A tradução de Marta Chiarelli é publicada pela editora Record.
 
REEDIÇÕES
 
Uma edição para marcar os 120 anos da publicação de um dos principais romances da literatura brasileira do século XX.
 
Uma das primeiras romancistas do Brasil, Júlia Lopes de Almeida ainda é uma escritora que pouca gente conhece. Você já leu alguma obra dela? Que tal começar por essa? A falência é a obra-prima da escritora e traz a discussão de temas como a decadência econômica e moral da burguesia após a abolição da escravatura. Este ano a obra está completando 120 anos de publicação e a Campos Editora, casa independente, prepara uma edição especial, com um projeto gráfico contemporâneo e posfácio da Profa. Dra. Anna Faedrich (UFF-RJ), especialista em autoras do século XIX. O projeto é financiado com apoio de leitores através da plataforma Catarse e pode ser adquirido aqui
 
Nova edição de Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi.
 
Afirma o tradutor de Fernando Pessoa para o italiano (e grande apaixonado por Portugal) Antonio Tabucchi que, certa noite, um português de nome Pereira lhe pediu para se tornar personagem de um livro. Assim nasce este romance-depoimento ambientado na Lisboa de 1938, em plena ditadura fascista salazarista, no Portugal do “orgulhosamente sós”, com um protagonista igualmente solitário que começa por se afirmar apolítico mas que passa a ter cada vez menos certezas sobre o que afirmou a vida toda. O cenário histórico-político da trama se completa com o franquismo e a guerra civil na vizinha Espanha e a ascensão do nazismo na Alemanha. Pereira, pacato e melancólico viúvo de meia idade e saúde frágil, é diretor — mas, na verdade, e com algum constrangimento, é ele a redação inteira — da seção cultural de um modesto jornal da capital portuguesa, para a qual traduz inocentes contos franceses do século XIX e “mais do que isso não dá para fazer”, afirma.] Nosso herói de coisa nenhuma vive alienado apesar de jornalista, envolto em saudosismos e obsessões com a morte e os filhos que não teve, e suas interações se resumem inicialmente ao retrato da falecida esposa, ao padre que visita vez por outra e que o adverte que vá cometer uns pecados antes de o fazer perder tempo e ao garçom do café onde todos os dias consome, invariavelmente, omeletes e limonadas açucaradas. É quando decide contratar um jovem bacharel de filosofia como estagiário para escrever necrológios antecipados de escritores ilustres, que a vida apagada e previsível de Pereira começa a fervilhar num inesperado caminho sem volta. À medida que percebe estar lidando com um revolucionário que nada cumpre do que lhe é pedido e tudo politiza, Pereira questiona-se por que simplesmente não o demite e em vez disso age como se precisasse mais ele do inadequado estagiário do que este do emprego. A narrativa de Tabucchi envolve-nos lenta e deliciosamente no mundo interno em crise de Pereira, nessa inquieta jornada de tomada de consciência que o faz, aos poucos, emergir de uma zona omissa de conforto através de pequenas decisões rebeldes e autoconfiantes apesar das amarras onipresentes do regime autoritário. Com personagens que nos são ótimos companheiros de reflexão e transformação e um final construído de forma arrebatadora, esta é uma história sobre coragem essencial para qualquer tempo, mas especialmente oportuna no Brasil de 2021 — afirmamos. A nova edição de Afirma Pereira é publicada pela Estação Liberdade.
 
O poeta Marco Lucchesi nos convida a atravessar em sua companhia os cantos da Divina Comédia, a partir de uma leitura pessoal e apaixonada da obra-prima de Dante Alighieri — primeiro e maior poeta da língua italiana.
 
Nas nove cartas que compõem o livro, Lucchesi apresenta diferentes aspectos deste clássico que encanta e desafia leitoras e leitores em todo o mundo há sete séculos. A Divina Comédia também inspirou diversos artistas ao longo da história, como mostra o conjunto de imagens selecionadas pelo designer Victor Burton para compor esta edição especial, com capa dura e impressa em cor. São cerca de sessenta obras, do século XIV até os tempos atuais. Artistas como Gustave Doré, Sandro Botticelli, William Blake, Eugène Delacroix, Tom Phillips, Alberto Martins. “Desde a infância, Dante é meu fantasma. Quase de carne e osso, vibrátil. Tornou-se meu enigma e obsessão. Determinou parte de minhas escolhas, parte de minhas recusas. Todos os anos visito o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Basta entrar uma vez para nunca mais sair. A data de setecentos anos da morte de Dante é celebrada mundo afora, com pompa e circunstância, em quase todas as línguas da Terra, para as quais foi traduzida a Divina comédia. Seu decassílabo é fonte cristalina, puro dinamismo e inspiração. E Dante permanece mais vivo do que nunca. E a cada dia renova as potências da linguagem. Estamos dentro da Divina comédia. Nessa metáfora de vidros claros. Em sua translúcida beleza. Nela desenhamos parte de um destino. Beatriz nos cumprimenta do futuro, até onde podemos alcançá-la.” (Marco Lucchesi) Nove cartas sobre a Divina Comédia é publicado pela editora Bazar do Tempo.
 
Nova edição de O dia em que a poesia derrotou um ditador.
 
Neste romance acompanhamos o cotidiano de duas famílias cujas vidas estão íntima e irrevogavelmente ligadas à história do Chile e a seu despertar para a liberdade. Em uma quarta-feira de 1988, Santos, professor de filosofia de uma das escolas mais tradicionais de Santiago, é levado pela polícia durante uma de suas aulas. Prisões como aquela não são raras no Chile de então, mas para Nico, que assiste à cena junto aos outros alunos, dessa vez é diferente. Ele é filho do professor, e a partir desse momento a única coisa que pode fazer é encontrar uma forma de ter o pai de volta. A namorada de Nico lhe dá apoio, mas a família de Patricia Bettini também sente os efeitos da ditadura instaurada em 1973. Seu pai, Adrián Bettini, outrora um bem-sucedido publicitário, agora é boicotado pelo regime e sobrevive fazendo pequenos trabalhos informais.Uma luz aparece no fim do túnel: pressionado pela comunidade internacional, Pinochet anuncia um plebiscito pelo qual a população decidirá se o general pode ou não concorrer a um novo mandato. É a chance de Adrián retomar sua carreira, e de Santos, como tantas outras vítimas da repressão política, encontrar a liberdade. Enquanto Nico procura notícias sobre o paradeiro do pai, temendo a todo instante receber a pior delas, Adrián assume a campanha do “Não” à reeleição de Pinochet. Ele tem apenas quinze minutos de propaganda na TV para transformar a história do Chile. Quinze minutos, contra os quinze anos de Pinochet à frente do país, para convencer uma nação de que vale a pena lutar pela democracia. Em "O dia em que a poesia derrotou um ditador", Antonio Skármeta, um dos principais autores chilenos das últimas décadas, tece, com sua prosa delicada, uma narrativa impactante sobre a relação entre pais e filhos em momentos difíceis da história e sobre como a alegria conseguiu devolver as cores a um país silenciado. A tradução de Luís Carlos Cabral é publicada pela editora Record.
 
Reedição do romance de Robertson Frizero.
 
Um jovem de dezessete anos, diante da doença da mãe, decide desfazer um passado de mentira e de ilusão a respeito da identidade do pai. As memórias, trazidas pela tia, percorrem os horrores da guerra, a fuga da aldeia e do país, a reconstrução da família em solo brasileiro. Frizero concentra a carga dramática da história no que ela tem de mais importante, que é a complexidade do ser humano, capaz de matar para criar, de mentir para salvar e de perdoar para seguir em frente. Longe das aldeias é publicado pela editora Dublinense.
 
DICAS DE LEITURA
 
A história do livro é marcada pela perseguição e pela censura. E censurar não significa apenas repetir os gestos praticados em estados autocráticos com a feitura de um index ou com fogueiras. Nos dias que correm, por exemplo, o cancelamento puramente político-ideológico revela a face perniciosa dos estudos culturais; o sectarismo, ler apenas autores de grupo A ou grupo B, impor dogmas de leituras, ignorar autores do passado por cobrar anacronicamente um lugar deveras distante do seu horizonte, ou ainda, o mais grave, desprezar os limites entre autor e obra são apenas alguns dos sérios problemas das censuras antigas com verniz de politicamente engajadas; perigoso caminho que poderia nos empurrar para, ipsis literis, a sociedade imaginada por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, romance, aliás, sempre lido distorcidamente, porque o motivo central da narrativa era esse puritanismo que agora nos atinge, já latente e operante nos Estados Unidos do seu tempo e não meramente um estado ditatorial como o que experimentamos. As dicas desta semana são sobre livros que tratam sobre censuras a livros. Suas leituras parecem importantes para perceber como algumas das antigas faces são agora reatualizadas com as mais variadas estratégias de domínio.
 
1. Censores em ação, de Robert Darnton. Grande parte obra do ensaísta é uma atenta leitura sobre os modos de imposição censória sobre os livros; dele recomendaríamos na mesma linha, Poesia e polícia e Os Best-sellers proibidos da França pré-revolucionária, dois títulos também editados por aqui pela Companhia das Letras. Neste, ele recria três momentos em que a censura restringiu a expressão literária: na França do século XVIII; na Índia de 1857, quando o Rajá britânico empreendeu uma investigação minuciosa dos aspectos da vida no país transformando julgamentos literários em sentenças de prisão; e na Alemanha Oriental, estado tão fechado que impôs entre os escritores uma condição permanente de autocensura com sequelas irreversíveis na literatura nacional. A tradução é de Rubens Figueiredo.
 
2. Censura / autocensura, de Danilo Kiš; e Censura e outros problemas dos escritores latino-americanos, de Antonio Callado. Dois livros com textos de épocas e contextos bem distintos, mas situações muito próximas. O primeiro é um ensaio escrito em 1985 em que o escritor sérvio procura examinar alguns dos modos da leitura que se impõe ou se oferece como estratégia de segmentação da escrita; o pano de fundo ou de partida os pesados anos de fechamento na Europa comunista. Com tradução de Aleksander Ivanovich, o livro está publicado pela Âyiné. O segundo título reúne três conferências oferecidas pelo escritor brasileiro entre fevereiro e março de 1974 em universidades britânicas. O período, como a data indica é o mais terrível na curta história dos estados latino-americanos: no Brasil, por exemplo, se arrastava o fim do governo do general Médici marcado pela tortura, perseguição e censura. O próprio Antônio Callado é uma dessas vítimas. Nesses textos expõe e analisa as dificuldades enfrentadas por artistas e intelectuais durante esse período. Estão editadas pela José Olympio.
 
3. Cadernos do povo brasileiro, de Leila Danziger. Publicado recentemente pela Relicário, neste livro se faz um percurso pelos livros censurados durante a ditadura militar no Brasil. O resgate não se circunscreve apenas ao período em questão, mas expande para as imposições recentes na periferia. O livro é uma versão da instalação “Perigosos, subversivos, sediciosos (Cadernos do povo brasileiro)”, que Danziger realizou em 2017 para a mostra coletiva “Hiatus: a memória da violência ditatorial na América Latina”.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. No dia 10 de setembro celebramos o aniversário do poeta Ferreira Gullar. Quando da publicação da reedição de sua Poesia completa pela Companhia das Letras, Pedro Fernandes leu o poema “No mundo há muitas armadilhas”, do livro Dentro da noite veloz — ouça aqui.

2. No dia das duas décadas sobre os Atentados de 11 de Setembro, recordamos este impactante poema da poeta polonesa Wislawa Szymborska, talvez um dos primeiros textos seus traduzidos no Brasil. Está na segunda antologia da obra dela publicada por aqui, Um amor feliz.
 
BAÚ DE LETRAS
 
1. Na edição n. 392 do Boletim Letras 360.º publicamos nas dicas de leitura, alguns livros fundamentais para conhecer um pouco sobre a obra de Ferreira Gullar e outras dicas interessantes relacionadas ao poeta brasileiro. Veja aqui.
 
2. Em nossa página no Facebook, uma post recorda algumas das entradas mais recentes neste blog sobre a obra e o poeta Ferreira Gullar; entre elas, uma matéria sobre a nova edição da Poesia completa apresentada neste ano pela Companhia das Letras.

3. Em 2009, às vésperas da primeira década sobre os Atentados de 11 de Setembro, editamos esta lista com sete romances que trazem o episódio histórico em suas páginas. É uma lista atualíssima.
 
4. O anúncio sobre a chegada do primeiro de uma série de pelo menos dez livros inéditos de Marguerite Duras ao Brasil pela Relicário Edições fomentará um debate sobre a obra da escritora francesa nos veículos culturais daqui para frente. Daqui do Letras, citamos alguns textos dos recentemente publicados: este, de André Cupone Gatti sobre Emily L.; este, de Gabriel Stroka Ceballos sobre A dor; e tradução deste texto de Jenn Díaz sobre algumas peculiaridades da sua obra e biografia.  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O poeta inquieto

O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho

Os mistérios de “Impressão, nascer do sol”, de Claude Monet

Desvio, de Juan Francisco Moretti

Risque esta palavra, de Ana Martins Marques