Boletim Letras 360º #429


DO EDITOR
 
1. Caro leitor, nesta edição do Boletim Letras 360.º estão as notícias que fizeram a semana que agora termina em nossa página no Facebook, sempre utilizada para trocar informações e divulgar o que nos alcança e mantém relação com as linhas de interesse do Letras in.verso e re.verso.
 
2. Reitero, em nome do blog, os agradecimentos pela companhia e pelos gestos de divulgação e de diálogo, tão importantes para trabalhos como este, realizados pelo gosto e algum sonho de renovação pela literatura. Obrigado e boas leituras!

Vinicius de Moraes na sede da UNESCO. Paris, 1963. Imagem: Pedro de Moraes.


 
LANÇAMENTOS

Aclamado romance de Taiye Selasi, uma das vozes da literatura contemporânea inglesa mais conhecidas, ganha tradução no Brasil.
 
Este é ao mesmo tempo o retrato de uma família marcada pela separação de seus caminhos e uma viagem pela importância que nossas origens têm na formação de nosso caráter Kweku Sai, renomado cirurgião formado nos Estados Unidos e autoexilado em Accra, capital de Gana, está morto. A notícia da morte de Kweku chega aos mais diversos cantos do mundo, aproximando os laços quase perdidos de uma família que ele abandonara anos atrás. Costurando com maestria uma narrativa entre diferentes tempos e lugares, Taiye Selasi fala de como certas verdades são capazes de curar as feridas mais escondidas, em um romance sobre o poder de transformação que há no amor incondicional. O livro é publicado pela Tusquets Editores.
 
Os textos reunidos neste livro atestam a capacidade de Hannah Arendt em avaliar com rigor teórico e compromisso ético as principais questões de seu tempo.
 
Pensadora da crise e do recomeço, Hannah Arendt (1906-1975) produziu uma obra incomparável sobre os acontecimentos do século XX e suas repercussões. Os textos reunidos neste livro atestam a sua capacidade em avaliar com rigor teórico e compromisso ético as principais questões de seu tempo, criando diagnósticos que se tornaram referência nos mais diversos campos das ciências humanas. Produzidos entre os anos 1950 e 1970, esses escritos, em grande parte inéditos, atravessam o período em que Arendt escreveu suas obras mais importantes. Dessa forma, é visível o diálogo estabelecido entre as reflexões presentes nesta edição — em ensaios, aulas, estudos e entrevistas — e trabalhos como Origens do totalitarismo, Sobre a revolução e A condição humana. O pensamento de Hannah Arendt, de atualidade surpreendente e sempre atento aos sentidos da vida pública e do bem comum, continua sendo chave fundamental para a leitura do mundo contemporâneo, das configurações políticas e possibilidades de futuro. Pensar sem corrimão: Compreender 1953-1975 tem tradução de Eduardo Jardim, Beatriz Andreiuolo, Daniela Cerdeira, Pedro Duarte e Virginia Starling. O livro é publicado pela Bazar do Tempo.
 
O novo livro do cronista Humberto Werneck.
 
Espalhador de boas histórias, Humberto Werneck senta conosco na calçada para uma conversa saborosa. Na memória do menino, a educação sexual na Idade Média dos anos 50 e o pequeno defunto que leva os óculos consigo para ver o nada no fundo da terra. Na pele do jornalista, os espinhos de uma entrevista petrificante com Clarice Lispector e o ensinamento de um jovem Gilberto Gil (“Minha ambição é a boa morte”). Na coleção do catador de palavras, a festimana e o balandrau. Nas retinas infatigáveis do observador da vida, as separações que não dão certo e os santos de um lugar esquecido por Deus. Um livro que preserva o canto inimitável da crônica brasileira. O espalhador de passarinhos é publicado pela Arquipélago Editorial.
 
Um rito de iniciação, um conto de fadas ou uma história de terror, o retrato de uma identidade de grupo, um manifesto explosivo, uma visita guiada à imaginação de Camila Sosa Villada.
 
Da autora argentina Camila Sosa Villada, um livro de amor e afeto: quando terminamos a última página, queremos que o mundo inteiro o leia também! Quando chegou à cidade de Córdoba para estudar na universidade, a autora argentina Camila Sosa Villada decidiu ir ao Parque Sarmiento durante a noite. Estava morta de medo, pensando que poderia se concretizar a qualquer momento o brutal veredito que havia escutado de seu pai: “Um dia vão bater nessa porta para me avisar que te encontraram morta, jogada numa vala”. Para ele, esse era o único destino possível para um rapaz que se vestia de mulher. Camila queria ver as famosas travestis do parque, e lá, diante daquelas mulheres e da difícil realidade a que são submetidas, foi imediatamente acolhida e sentiu, pela primeira vez em sua vida, que havia encontrado seu lugar de pertencimento no mundo. O romance O parque das irmãs magníficas é isso tudo: um rito de iniciação, um conto de fadas ou uma história de terror, o retrato de uma identidade de grupo, um manifesto explosivo, uma visita guiada à imaginação da autora. Nestas páginas convergem duas facetas da comunidade trans, facetas que fascinam e repelem sociedades no mundo inteiro: a fúria travesti e a festa que há em ser travesti. O livro é publicado pelo selo Tusquets. 
 
Os contos reunidos neste pequeno volume estão entre os melhores escritos pela consagrada pintora e escultora inglesa Leonora Carrington.
 
Ela viveu em vários países e escreveu em pelo menos três línguas distintas (inglês, francês e espanhol), sempre explorando o insólito da condição humana graças à imaginação surrealista que a consagrou internacionalmente e da qual nunca abriu mão. O sonho, o delírio e o conto de fadas são alguns dos ingredientes mais importantes destes textos só agora traduzidos para o português, os quais foram, em boa parte, recuperados em suas versões originais ao longo de um exaustivo trabalho de pesquisa na França e no México, onde a artista residiu até o final da vida, depois que para lá emigrou fugindo dos horrores da Segunda Guerra Mundial. A vegetação ao luar expõe seus braços vivos, enquanto uma mulher alienada parece possuir asas... Essas metamorfoses são frequentes no universo de Leonora Carrington, no qual, no entanto, a magia não suaviza a raiva e o sofrimento dos protagonistas (quase todos femininos), fato que só acentua a angústia de vidas que não se encaixam de jeito nenhum nos padrões de comportamento ditos normais: “Jemima começou a correr pelo imenso castelo e logo ficou perdida em um labirinto de quartos parecidos com enormes caixões”. A sombra aterrorizadora da morte, como se percebe, é um tema muito concreto na literatura desta surpreendente escritora, que chega ao Brasil quando o seu legado artístico começa a ser reavaliado em todo o mundo, fato que tem ensejado novas edições de seus textos. Com organização de Dirce Waltrick do Amarante, também tradutora, e Nora M. Basurto Santos, Um conto de fadas mexicano e outras histórias é publicado pela editora Iluminuras.
 
Um ensaio de Giorgio Agamben ainda na busca pelo contemporâneo.
 
Que casa está queimando? O país onde vive, a Europa, o mundo inteiro? Talvez as casas e as cidades já estejam queimadas, não sabemos desde quando, numa única e imensa fogueira que fingimos não ver. De algumas, restam apenas pedaços de muro, uma parede pintada, uma parte do teto, nomes, muitíssimos nomes já devorados pelo fogo. E, todavia, os recobrimos tão zelosamente com gesso branco e palavras mentirosas que parecem intactos. Vivemos em casas, em cidades queimadas de cima a baixo como se ainda estivessem em pé, as pessoas fingem viver aí e saem pelas ruas mascaradas entre as ruínas, como se ainda fossem os bairros familiares de outrora. E agora a chama mudou de forma e natureza, fez-se digital, invisível e fria, mas justamente por isso está ainda mais próxima, está ao nosso lado e nos circunda a todo instante. A tradução de Vinícius Nicastro Honesko para Quando a casa queima é publicada pela editora Âyiné.
 
Madame de Genlis oferece ao leitor um retrato fugaz, mas justo, da alta aristocracia que frequenta a Versalhes de Luís XVI.
 
Madame de Genlis (1746-1830) viveu mais de oitenta anos uma vida dividida em duas épocas sociais e literárias separadas pela Revolução; ela multiplicou as formas de escrita; ela era mulher. Esses três aspectos são razões suficientes para minorar a importância de um escritor, seja qual for o valor que lhe tenham dado seus contemporâneos. Desde o início desse século, porém, à medida que a narrativa produzida pela história literária se torna objeto de incessantes discussões que contestam sentenças proferidas no passado, esses mesmos aspectos agem em sentido inverso e, pouco a pouco, os estudiosos lembram-se de que Stéphanie-Félicité de Genlis existiu e aprendem a situá-la e a caracterizá-la. O período que vê operar-se a misteriosa passagem das Luzes ao romantismo torna-se um lugar de investigação considerado, as classificações genéricas incontestáveis tornam-se questionáveis e os escritos de mulheres beneficiam-se de terem sido tão ultrajantemente negligenciados até então e são reabilitados como objetos dignos de atenção. Madame de Genlis — mulher escritora que escreveu sobre mulheres escritoras, mulher que dedicou toda sua vida à escrita para difundir um saber múltiplo e uma visão de mundo coerente — não pode deixar de atrair a atenção nem de motivar o estudo de sua obra. A mulher escritora é uma novela sentimental em que se alia à análise do sentimento amoroso a descrição dos mínimos acontecimentos (olhares, suspiros, esperas, conversas, cartas, poemas...) que cadenciam a vida das personagens. Madame de Genlis oferece ao leitor um retrato fugaz, mas justo, da alta aristocracia que frequenta a Versalhes de Luís XVI e evoca as múltiplas restrições de um mundo no qual a conduta das mulheres é incansavelmente observada, comentada, admirada ou censurada. O livro é publicado pela Alameda Editorial.

A Antofágica publica nova tradução de Orgulho e preconceito.
 
Ao contrário de sua mãe, que se anima diante de qualquer bonitão com uma boa herança à vista, Elizabeth Bennet não se deixa levar pelas aparências. Antes de considerar qualquer um como um bom partido, para além de fortuna e propriedades, Lizzie investiga aspectos que considera muito mais importantes: reputação e caráter. Por isso, ao ser apresentada ao rico e arrogante Fitzwilliam Darcy, sua única reação é o desprezo. Conhecê-lo melhor, porém, pode abalar as perspectivas de Elizabeth. Vítima de suas próprias imperfeições e preconceitos, Elizabeth é uma das personagens mais fascinantes da literatura. Inteligente e observadora, ela encarna uma versão alternativa do feminino de sua época: uma mulher que não se conforma às regras do jogo social, mas que as questiona a todo instante. A nova edição da Antofágica, traduzida por Carol Chiovatto, traz ilustrações exclusivas de Jess Vieira e apresentação da escritora Bruna Vieira. Nos posfácios, Sandra Guardini, professora titular de Literatura Inglesa e Comparada (USP), oferece um panorama da vida e de obra de Jane Austen, e Jaqueline Sant'ana, doutoranda em Sociologia (UFRJ), analisa a autora sob a perspectiva da chamada “literatura de mulherzinha”. Isadora Sinay, formada em Cinema e doutora em Literatura (USP), faz uma análise das representações audiovisuais da obra da autora. Ao escanear o QR Code da cinta com seu smartphone, o leitor acessa a duas videoaulas da acadêmica Sandra Guardini para enriquecer a leitura.
 
Um testemunho eloquente da liberdade irredutível.
 
“Entre todos os escritores de sua geração, franceses e estrangeiros, que nos anos oitenta viviam em Paris, era talvez o maior. Certamente o mais invisível”, Milan Kundera escreve sobre Danilo Kiš, em seguida especificando: “A deusa chamada Atualidade não tinha motivos para apontar os refletores para ele… que nunca sacrificou seus romances em nome da política. Desse modo, ele pôde compreender o que havia de mais comovente: os destinos esquecidos desde o nascimento”. Palavras que destacam a refratariedade de Kiš a qualquer pertencimento, mesmo em momentos e lugares em que certos rótulos lisonjeiros teriam, de modo automático, garantido grandes simpatias. (“Eu não sou um dissidente”, ele escreveu). Porquanto a única pátria de Kiš seja a literatura, sua militância exclusiva é a de um “escritor bastardo do mundo já desaparecido da Europa central”. Enquanto coleção de ensaios e entrevistas nas quais Kiš, concentrando sua genialidade a uma gama ampla de temas, insere-se ora na grande literatura europeia e americana — entregando-nos páginas magistrais sobre Borges, Flaubert, Nabokov, Sade —, ora na história do século XX, Homo poeticus oferece um testemunho eloquente dessa liberdade irredutível. Ele reivindica, de modo constante, a riqueza polimórfica e a unidade substancial da tradição europeia, da qual o espírito balcânico é uma parte irreprimível, e contra a redução do homem a um zôon politikón, as razões do homo poeticus, testemunha inexorável de destinos condenados ao esquecimento, de tragédias silenciosas, de tumbas sem nome e, por fim, do delírio de um século. A tradução de Aleksandar Jovanović é publicada pela editora Âyiné.
 
Nova edição e tradução do único romance de Emily Brontë.

Escrito em 1847, O morro dos ventos uivantes, único romance da inglesa Emily Brontë, recebeu, logo que publicado, críticas severas à sua intensidade e dramaticidade, excessivas para a época. No entanto, tornou-se um clássico da literatura inglesa e até hoje é reverenciado por leitores de todo o mundo. A história se passa no entorno da residência Wuthering Heights, de propriedade dos Earnshaw, onde vive o menino Heathcliff, adotado pela família. Adolescentes e muito unidos, o rapaz se apaixona pela irmã adotiva, Catherine, mas seu amor é impossível por causa das condições sociais de ambos: de origem pobre, o que se espera dele é que seja grato por ter um teto, e ela é a moça de boa família, destinada a um bom casamento. E é o que acontece: Catherine se casa com Edgar Linton, um homem de posses, e Heathcliff, não conseguindo suportar isso, vai embora. Quando ele retorna, anos depois, Catherine se vê dividida entre o marido e o novo Heathcliff, agora um cavalheiro atraente e rico. Impactante, o texto de Emily Brontë chamou a atenção também pela linguagem coloquial, pela impressionante riqueza de detalhes e, sobretudo, pelos personagens mostrados em seus traços reais, cheios de defeitos, mexeriqueiros, agressivos, raivosos — isso numa época em que os livros serviam apenas como literatura de formação e os personagens costumavam ser figuras exemplares. Catherine e Heathcliff se tornaram símbolos do amor intenso, que dilacera o coração e sobrevive além do tempo e da morte, e O morro dos ventos uivantes é considerado um dos romances mais bonitos e perturbadores da literatura universal. O romance ganha nova tradução, por Tércia Montenegro e é publicado pela editora Autêntica.
 
O quarto volume de poesia de Adriana Lisboa.
 
“É assim que os reinos animal (répteis, vaga-lumes, aves, moscas, rãs, porcos, abelhas), vegetal (belas emílias, cravos, rosas, magnólias, amarantos) e mineral (basalto sanguíneo) se tornam o motivo e os interlocutores de Adriana, numa reafirmação da interconectividade de todas as formas vivas, sua igualdade de protagonismo, sua interdependência. O uso constante de nomes científicos parece acenar para uma universalidade dos fenômenos — a despeito da língua com que os homens os nomeiem — denunciando, ao mesmo tempo, uma certa ingenuidade nesta nomeação, já que, no fim das contas, como pergunta a poeta, ‘o que será uma flor/ sem significante/ nem significado?’” (Cláudia Roquette-Pinto). Este é o segundo livro de poesia que Adriana Lisboa publica pela Relicário Edições; em 2019, saiu Deriva, título com o qual foi finalista nos prêmios Oceanos e Jabuti no ano seguinte.
 
RARIDADES
 
Um romance perdido de um John Steinbeck desconhecido.
 
Anos antes de se tornar um escritor dos mais reconhecidos da literatura estadunidense, John Steinbeck escreveu pelo menos três romances que nunca foram publicados: dois foram destruídos por ele, mas um, uma história de mistério intitulada Murder at Full Moon sobreviveu desde quando foi rejeitada para publicação em 1930. O datiloscrito tem 233 páginas e está no arquivo do Harry Ransom Center, da Universidade do Texas, em Austin. Situado numa cidade fictícia da Califórnia, o romance conta a história de uma comunidade tomada pelo medo depois de uma série de assassinatos ocorrida em noite de lua cheia. Os investigadores temem que um monstro sobrenatural tenha emergido dos pântanos próximos. Entre as personagens, um jovem jornalista, um homem misterioso que dirige um clube de tiro local e um detetive amador que se propõe a resolver o crime a partir de sua experiência de leitor de ficção policial. O material inclui duas ilustrações feitas por Steinbeck que retratam a planta baixa do prédio onde ocorreram os assassinatos — desenhos que participam da ficção, visto que realizados por uma das personagens em modo de tentativa de solucionar os crimes. O material agora está entre o impasse pela liberação para publicação ou não; para os agentes literários que cuidam da obra de Steinbeck, a obra foi assinada por um pseudônimo e o próprio escritor não quis publicá-la, desejo que deve ser respeitado.
 
Manuscritos com poemas Emily Brontë guardados dos olhos do público há mais de um século vão a leilão.
 
Trata-se de uma coletânea formada por 29 poemas de Emily Brontë organizada inicialmente por Arthur Bell Nicholls, companheiro de Charlotte, quem copiou a lápis os textos. Nicholls foi o responsável pela venda da maioria dos arquivos dos Brontë; estes foram para as mãos de Thomas James Wise e deste para os irmãos colecionadores Alfred e William Law. A casa de leilões Sotheby’s descreve o manuscrito como o material mais importante de Emily a chegar ao mercado. Nele estão alguns dos poemas mais famosos da escritora, como “No Coward Soul Is Mine”, “The Bluebell” e “The Old Stoic”.
 
A Biblioteca Nacional de Portugal amplia a presença de Fernando Pessoa no seu arquivo depois da incorporação de 370 documentos do espólio do poeta.
 
As peças então pertencentes aos herdeiros de Fernando Pessoa e adquiridas pela BNPT em 2020 abarcam dos anos 1894 a outubro de 1935. O arquivo agora adquirido inclui poesia, prosa, astrologia, planos ou projetos, apontamentos e notas, traduções feitas pelo poeta, de textos de Almada Negreiros, de Carlos Lobo de Oliveira e um fragmento de William Shakespeare. Encontra-se ainda correspondência trocada entre Fernando Pessoa e os autores da revista Presença João Gaspar Simões (25 enviadas por Pessoa e 30 cartas enviadas por Gaspar Simões a Pessoa), José Régio (sete missivas enviadas por Pessoa e duas recebidas) e Adolfo Casais Monteiro (uma carta deste para Pessoa). Nesta mesma seção destacam-se um bilhete de Vitorino Nemésio ou dos irmãos do poeta, Henriqueta, João e Luís Nogueira Rosa, e cartas de Joaquim Seabra Pessoa a Madalena Nogueira Pessoa (pais de Fernando Pessoa), que a mãe guardou para que o filho as lesse mais tarde. A BNP passou a dispor ainda de documentos colecionados por Fernando Pessoa, como é o caso de ilustrações em bilhetes-postais de paisagens de Durban (na África do Sul), uma fotografia de Sidónio Pais ou recortes de impressos, poemas da mãe e documentos biográficos (certificados de aproveitamento escolar ou o requerimento ao Governo Civil de Lisboa a propósito da apreensão das Canções de António Botto). Estes e o restante dos documentos do espólio de Fernando Pessoa serão agora digitalizados e ficam disponíveis para leitura presencial, em suporte digital; o passo seguinte é sua disponibilização online.
 
REEDIÇÕES
 
Nova edição de Lembranças de Aninha.
 
A obra reúne textos de Cora Coralina que trazem suas lembranças da infância em Goiás e apresenta peculiaridades da época e do local. Ao todo são 12 poemas já publicados, mas pela primeira vez agrupados em um só livro, e acompanhados de ilustrações de Claudia Furnari. O livro é publicado pela editora Global.
 
A Companhia das Letras reedita um dos livros mais conhecidos de Donna Tartt
 
Um sofisticado grupo de alunos de grego resolve reproduzir as orgias dionisíacas da Antiguidade. Uma obra cujos temas são cumplicidade e decepção, inocência e corrupção moral, responsabilidade e culpa. Donna Tartt surpreende pelo talento com que combina a densidade psicológica e o vigor poético de um texto clássico com a trama complexa e o ritmo alucinado dos melhores romances policiais contemporâneos. Quem conta a história é Richard Papen, garotão da ensolarada Califórnia que consegue ser admitido na seleta Hampden, uma universidade em Vermont frequentada pela elite norte-americana. Richard imagina ter atingido o Olimpo ao entrar para o círculo mais privilegiado daquela universidade. Cinco alunos, sofisticados e originais, selecionados por um mestre erudito e carismático, dedicam-se ao estudo da Grécia antiga. A eles junta-se o narrador, para participar da busca da verdade e da beleza, entre festas orgiásticas e finais de semana numa antiga casa de campo, regados a muito álcool e discussões filosóficas. A loucura desmedida certa vez termina numa orgia cujo ponto culminante é um ato de violência inominável e o suposto aparecimento do próprio Dioniso, numa de suas diversas manifestações. Quando descobre a terrível verdade, Richard envolve-se numa cadeia de segredos e cumplicidades, num encadeamento de medos e inseguranças que leva o grupo a cometer um ato ainda mais terrível. Melancólico e irônico, este é um romance feito de terror e prazer, remorso e decepção. Com ele, Donna Tartt revelou-se uma grande escritora já em seu livro de estreia. A história secreta, tradução de Celso Nogueira, ganha nova edição pela Companhia das Letras.

DICAS DE LEITURA
 
Na edição passada deste Boletim, dedicamos esta seção para recomendar alguns estrangeiros pouco conhecidos entre nós e com obras recentemente colocadas outra vez em circulação, ou mesmo esgotadas e ainda encontradas por valores acessíveis. Esse mote veio a partir da post sobre o escritor Prêmio Nobel Henryk Sienkiewicz. E continuamos neste número com mais três dicas.
 
1. O estrangulador, de Manuel Vázquez Montalbán. A grande valia desde sempre da arte de narrar é a possibilidade de oferecer uma alternativa aos eventos do que convencionamos como realidade, sem que para isso se converta num modelo de realidade alternativa. Neste romance do escritor catalão a arte de inventar — expandindo, fragmentando, redizendo — é colocada em plano temático e criativo do romance. Albert assume-se o estrangulador Boston, finge que não matou ninguém, finge que está em Boston, finge que é casado e pai de três filhos. Um romance-simulação. Um romance-de-possíveis. “Verás que tudo é mentira, verás que nada é amor”. A tradução é de Rosa Freire D’Aguiar e está publicada pela Companhia das Letras.
 
2. Ferdydurke, de Witold Gombrowicz. Este romance performa uma broma. Filia-se a já longínqua tradição de desmantelamento do romance e não deixa de sê-lo. Ou melhor. Só é possível enquanto antiforma porque apenas ao romance se permite esse tratamento. O tipo utilizado no procedimento do escritor polonês é o do Bildungsroman; assim, o que comumente encontramos nos romances desse tipo é desmontado aqui pelo avesso ou o seu contraditório. Esse impasse seduz o leitor pelo estranhamento; é como se o escritor se interessasse em denunciar o romance enquanto pura forma, maquinaria engendrada por sua capciosa criatividade, desfazendo-se da estreita relação dos conteúdos ficcionais com os factuais originados desde o apego dos primeiros romancistas com o material biográfico (no caso do Bildungsroman) ou o material histórico, no caso geral do romanesco. A tradução é de Tomasz Barcinski e está publicada pela Companhia das Letras.
 
3. A vida breve, de Juan Carlos Onetti. Este romance é reconhecido pelo próprio escritor uruguaio como o seu melhor trabalho no gênero. Vale destacar que Onetti é um dos melhores contistas em língua espanhola e uma coleção ampla de suas narrativas está traduzida e publicada no Brasil. Neste livro de 1950, um marco na história do romance hispano-americano, o leitor encontrará a história de Juan María Brausen, um publicitário fracassado obcecado pela retirada do seio de sua companheira e pelos gritos de gozo de uma vizinha prostituta. No decorrer desse relato inquietante há uma progressão inelutável rumo à violência, à sordidez e à fusão de fato e fantasia. “A vida breve abre uma reflexão em abismo sobre a realidade e a literatura: quem escreve escapa a uma realidade, mas também a recria infinitamente ao escrever sobre alguém que escreve para escapar à realidade.” Assim sintetiza Bernardo Carvalho na leitura sobre o romance para a Folha de São Paulo.  A tradução é de Josely Vianna Baptista e está publicada pela Editora Planeta.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. Grande parte do acervo pessoal e profissional de Vinicius de Moraes está online. São mais de 11 mil documentos sobre a vida e carreira do artista, que é um dos maiores nomes da música brasileira. O site será dividido em três sessões, “Correspondência”, “Produção Intelectual” e “Documentos Diversos”. Os arquivos, que incluem manuscritos, cartas, telegramas, entrevistas e uma série de outros tipos de conteúdo, estão divididos em ordem cronológica e reunidos em Acervo Vinicius de Moraes. Cerca de 260 letras do carioca estão disponíveis, e muitas delas com de mais de uma versão, como “Chega de saudade”, “Insensatez” e “Por toda a minha vida”. O projeto, que é organizado pelo grupo VM Cultural e prevê ainda o lançamento de um documentário, dirigido por Julia Moraes, neta do músico, e um podcast inspirado no livro Caderno de leituras de Vinicius de Moraes, publicado em 2009.
 
2. No dia 24 de maio de 2021, celebramos o 70.º aniversário de Chacal. Reiteramos a data redonda para um dos mais criativos poetas brasileiros da geração de 1970 com o caminho para o blog da revista 7faces, onde encontrará quatro poemas do autor de Belvedere.
 
BAÚ DE LETRAS
 
1. Parte da síntese apresentada na recomendação de Ferdydurke, de Witold Gombrowicz, é de um texto escrito por Pedro Fernandes e publicado aqui no blog em março de 2020.

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Comentários

Jenifer C. disse…
já coloquei "O estrangulador" na lista de próximas compras! já li a sinopse 2 vezes e estou de boca aberta, gente!

adorei a capa de "Adeus, Gana", bem mais bonita que a da edição da Tag. aliás, as edições da Tusquets tem capas bem bonitas, Agualusa, Zambra e outros tantos.

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