Literatura e utilidade

Por Pedro Fernandes



"Assim o há de fazer, e faz, quem aspira a alcançar a nomeada de prudente e sofrido, imitando Ulisses, em cuja pessoa e trabalho nos pinta Homero um retrato vivo de prudência e sofrimento, como também nos mostra Virgílio na pessoa de Enéias o valor de um filho piedoso e a sagacidade de um valente e entendido capitão, não pintando-os ou descrevendo-os como eles foram, mas sim como deviam ser, para deixar exemplos de suas vidas aos homens da posteridade".

Miguel de Cervantes, O engenhoso fidalgo D. Quixote de la Mancha


Poderia retomar como epígrafe a este texto a fala do poeta Paulo Leminski em "Inutensílio"; poderia escrever esse início recompondo o parágrafo de desfecho do artigo "Literatura e Necessidade"; entretanto, achei por bem nem dessa forma começar, tampouco repetir Leminski. Epigrafo com esse excerto do clássico universal de Cervantes: uma fala do D. Quixote ao seu escudeiro Sancho Pança, quando o "Cavaleiro da Triste Figura" se preparava para a modo de uma das personagens das muitas dos livros de cavalaria que lera, entrar em penitência amorosa à sua formosa Dulcinéia del Toboso. Por vias, este fragmento, de provavelmente 1605, ano que aparece no frontispício da primeira parte da novela do escritor espanhol, reitera, direta ou indiretamente, o que disse Leminski em "Inutensílio" e o parágrafo de desfecho do referido artigo. Também o excerto recupera que a discussão aqui proposta não é nada nova, ao remontar a outro texto, ainda mais remoto que o clássico de Cervantes, que é A poética, de Aristóteles, tido como voz que deu corda à questão.

Pensar em caráter de utilidade para a literatura parece ser mais um grave pecado daqueles que move o senso comum, que por sua vez, fica aliado àqueles da "prática" e da "funcionalidade", porque, assim como eles, a utilidade encerra em si um valor de troca, moeda corrente ao modelo de espaço social que forjamos. E o caráter da arte em momento algum está atrelado ou se ajusta a essa dimensão. A moeda corrente no universo da literatura reside numa dimensão contrária a essa que estamos virtualmente situados e o caráter de utilidade, portanto, é outro, diferente do que comumente entendemos pelo termo.Pensar em utilidade pelas vias comuns é pensar, por exemplo, que a literatura e arte tenham por propósito de resolver, no sentido de solucionar, ou pelo menos, de apontar caminhos seguros pelos quais possamos palmilhar uma solução para o rol de problemas dos que afligem a humanidade. Pensar em utilidade por tais vias é reduzir o texto literário à categoria de manual de instrução, em que nós, os leitores, portamo-nos ou devamos nos portar como marionetes nesse jogo. Pensar em utilidade assim é enxergar nos escritores a figura de magos portadores das chaves do paraíso.

É possível reduzir Dostoiévski ao papel de psicólogo social quando põe em seu clássico "Crime e castigo" uma personagem 'fracassada' socialmente pelas correntes sócio-históricas da qual fazia parte? É possível reduzir ao mesmo papel Flaubert ao compor Mme. Bovary? É possível reduzir ao papel de psicólogos ou filósofos existenciais Kakfa, Joyce ou Clarice Lispector por povoar seus escritos de seres mergulhados num enjaulamento de si que beiram a um estágio de uma poética do absurdo? É possível reduzir João Cabral de Melo Neto ou Graciliano Ramos à figura de sertanistas por recomporem tão bem o sertão na poesia e na prosa que beira ao real empírico? É possível reduzir ao papel de geógrafo ou antropólogo Euclides da Cunha ao reescrever com maestria o sertão e os vórtices dos movimentos internos de formação do país em Os sertões? Ainda mais: é possível reduzir José Saramago ao papel de historiador ou de filósofo por refazer em sua obra o grande coro de vozes dos debates em torno dos episódios históricos e suas figuras, do eu, da culpa, do pecado, do medo, dos movimentos de alienação obliterados pela atmosfera das ideologias correntes? A resposta a todas as estas indagações é 'Não'. E a lista poderia se perpetuar. Quando muito, o que eles podem fazer é compreender uma realidade fugidia. Todos os grandes escritores se valeram das questões cotidianas a eles e das grandes questões que têm dado corda a breve existência humana, sem que, para isso, tenham sido psicólogos, filósofos, geógrafos, antropólogos, historiadores etc. ao mesmo tempo em que eles foram tudo isso.

O que está em pauta é que a tomada de tais questões como matéria literária não tem nenhum propósito senão o de ser meramente matéria e já aqui é possível vislumbrar onde reside esse caráter outro de 'utilidade' do texto literário: o caráter de utilidade consiste, sem se reduzir a tanto, no engendrar na esfera social, pelas vias do discurso, o diálogo, nem sempre harmônico (eu diria, nunca harmônico), em torno dos diversos problemas inerentes ao nicho humano. Essa parece ser a principal face, senão uma das principais faces, daquela função humanizadora preconizada por Antonio Candido. É que, em meio à excessiva materialidade que aos poucos nos castra a essência de criaturas de carne e osso que somos, em meio à excessiva carga de imagens que põe em falso a nossa própria realidade, já dita fugidia, ao se fazer matéria com questões sócio-históricas humanas, vem eles nos alertar para quem somos, o que fazemos/fizemos/faremos, ou o que buscamos e o que está inerente nesse ser, fazer e buscar. E isso não tem utilidade alguma nessa esfera social que engendramos. Afinal, no que as ideologias sempre têm trabalhado e conseguido em noventa e nove das cem tentativas, no intuito de preservar as coisas tal qual foram forjadas, é o de que cada vez abandonemos a essência de humanos para ocuparmos a essência de 'zumbis teleguiados' por formas que as tais ideologias julgam ser melhor a nós.

Aqui chegando, recupero as vias da 'prática', da 'função' e da 'utilidade'. Elas são uma das formas engendradas por tais ideologias a que a literatura e arte para terem o merecido valor por elas preconizado devem se subordinar ou a elas reduzir-se. Aderindo a elas, a literatura perde o status de anjo rebelde e readquire a categoria que já quase ocupou um dia, a de excepcional documento para uma pedagogização, no sentido de modelagem, do sujeito. A literatura, entretanto, não tem nenhum compromisso do real. (Releia a epígrafe). Parece isso luta com moinhos de vento.

* Este texto foi publicado no Caderno Domingo, Jornal De Fato, em 18 de outubro de 2009, p.14.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

José Saramago e As intermitências da morte

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

Os diários de Sylvia Plath

Boletim Letras 360º #246