Os imperdoáveis, de Clint Eastwood



Reflexão madura e desencantada do universo dos velhos westerns na visão de um de seus protagonistas

Os imperdoáveis é um western sobre o fim dos westerns. Talvez na última obra-prima do gênero eternizado por John Ford, Howard Hawks e Sergio Leone, Clint Eastwood maquinou, ao mesmo tempo, uma homenagem aos seus mestres (há dedicatórias a Leone e a Don Diegel), um crepúsculo do estilo e uma revisão dos aspectos morais do bom e velho bangue-bangue, da figura do cowboy e do seu universo. Eastwood revisita também a própria carreira, que começou a se destacar na trilogia spaghetti de Leone e se solidificou com a série Dirty Harry. Nela, ele geralmente vive um homem solitário, amargo, bêbado e violento a ponto de não perdoar ninguém.

William Munny (interpretado pelo próprio Clint) teve um passado assim. Até que conheceu sua futura esposa, teve filhos e se tornou humilde criador de porcos. Agora viúvo, ele dedica-se a cuidar das crianças e a administrar sem muito sucesso seu sítio. Para conseguir algum dinheiro, aproveita-se da fama do passado e aceita cumprir uma última missão como pistoleiro: matar os homens que retalharam sem piedade o rosto de prostituta da cidade de Big Whisky. Viaja para lá acompanhado do velho parceiro Ned Logan (Morgan Freeman) e do aspirante a cowboy Schofield Kid (Jaimz Woolvett). Porém, espera por eles o pouco hospitaleiro xerife Little Bill (Gene Hackman). E o antigo matador terá também de enfrentar seus fantasmas pessoais.

O filme questiona as características dos antigos westerns, sobretudo o uso da violência. Munny sente culpa pelas crueldades cometidas no passado e vergonha por ter traído a memória da esposa e aceitado voltar a matar (mesmo que seja para sustentar os filhos). Lançado numa época em que o faroeste já estava fora de moda, Os imperdoáveis ganhou as duas principais estatuetas do Oscar de 1993, Filme e Direção, além de outras duas (Ator Coadjuvante, para Hackman, e Edição). Livre da figura do macho, Clint Eastwood pôde começar sua fase madura como diretor, que possui títulos excelentes como As pontes de Madison (1995), Sobre meninos e lobos e Menina de ouro (2004), entre outros.

* Revista Bravo!, 2007, p.91

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