Dogville, de Lars Von Trier



Quando Dogville estreou em 2003, dois aspectos ganharam destaque. O primeiro, formal, é introduzido desde a primeira cena. Em um cenário composto de pouquíssimos elementos, Dogville, uma cidade fictícia do Colorado, é mostrada de cima. Em vez de casas, portas, muros e árvores, divisões estilizadas e simbólicas indicam que se trata de uma cidade. Os limites entre as residências são traçados no chão e apontamentos feitos com giz apresentam outros elementos da narrativa.

Assim, por exemplo, sabe-se que há um cão porque a palavra "dog" está escrita e não porque o animal aparece. A fala de um narrador reitera o tempo todo que se trata de uma encenação. Sob essa estrutura formal, ecoam as propostas desmistificadoras do chamado teatro épico formulado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brechet. E a certeza de que o cinema de Von Trier não seguia mais com rigidez o Dogma 95, movimento fundado por ele e Thomas Vinterberg que se pautava por mandamentos como proibir filmagens em cenários, uso de efeitos óticos e trilha sonora.

O segundo foco foi a discussão do retrato alegórico da sociedade norte-americana (que o diretor já havia iniciado em seu trabalho anterior, Dançando no escuro, de 2000). No filme, a chegada de Grace (Nicole Kidman) perturba o suposto equilíbrio da pequena cidade. As tensões causadas pela entrada da forasteira são exploradas de modo a evidenciar os hábitos, os valores e, em particular, a mentalidade moldada pela crueldade e a dominação do mais forte.

*Revista Bravo!, 2007, p.105

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

José Saramago e As intermitências da morte

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

A relevância atual de Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

Os diários de Sylvia Plath

Boletim Letras 360º #246