Miacontear - Inundação

Por Pedro Fernandes


Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem.

*
O traço de sonho do impossível é uma constante, como já notei em O homem cadente. Este Inundação o recupera e vem intercalado por outro traço, o da memória, o das lembranças. Envolto numa atmosfera onírica, temos aqui o tom agridoce da recordação que perscruta o espaço da casa e os movimentos da figura materna - como a figura central, que ordena (no sentido de organizar, cuidar), a que põe sentido, mas também com a que padece de um estágio de submissão pelo tom com que são trabalhadas e retrabalhadas a ideia do canto materno: "Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre."¹ 

Aliás, parece ser esse o tom do feminino nesses contos de O fio das missangas. São mulheres presas em universos pequenos, redomas subjetivas, cercadas por um círculo invisível e poderoso do falo masculino. Mulheres silenciadas. Em Inundação o narrador ao rememorar a mãe, rememora a tristeza dela na suposta perda do marido. Esse universo parece está submetido a uma entropia quando a figura masculina se vai. A cena do "choro delgadinho" da mãe, dos vestidos desfeitos em pó, das cartas despidas da tinta são exemplos citáveis desse estágio de "enxurrada". Bastará o suposto retorno do marido para a devolução das formas e cores dos vestidos e o regresso da tinta ao papel.


__________
¹ COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.25.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os mistérios de "Impressão, nascer do sol", de Claude Monet

Os segredos da Senhora Wilde

Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela, de Ignácio de Loyola Brandão

Andorinha, andorinha, de Manuel Bandeira

Boletim Letras 360º #324

Boletim Letras 360º #325

Desaguadouro de redemunhos. Grande sertão: veredas