Miacontear - Inundação

Por Pedro Fernandes


Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem.

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O traço de sonho do impossível é uma constante, como já notei em O homem cadente. Este Inundação o recupera e vem intercalado por outro traço, o da memória, o das lembranças. Envolto numa atmosfera onírica, temos aqui o tom agridoce da recordação que perscruta o espaço da casa e os movimentos da figura materna - como a figura central, que ordena (no sentido de organizar, cuidar), a que põe sentido, mas também com a que padece de um estágio de submissão pelo tom com que são trabalhadas e retrabalhadas a ideia do canto materno: "Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre."¹ 

Aliás, parece ser esse o tom do feminino nesses contos de O fio das missangas. São mulheres presas em universos pequenos, redomas subjetivas, cercadas por um círculo invisível e poderoso do falo masculino. Mulheres silenciadas. Em Inundação o narrador ao rememorar a mãe, rememora a tristeza dela na suposta perda do marido. Esse universo parece está submetido a uma entropia quando a figura masculina se vai. A cena do "choro delgadinho" da mãe, dos vestidos desfeitos em pó, das cartas despidas da tinta são exemplos citáveis desse estágio de "enxurrada". Bastará o suposto retorno do marido para a devolução das formas e cores dos vestidos e o regresso da tinta ao papel.


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¹ COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.25.

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