Boletim Letras 360º #396

DO EDITOR

1. Saudações, caro leitor! Esta é a edição n.396 do Boletim Letras 360º, uma post semanal criada desde quando os algoritmos do Facebook passaram a trair nós todos. Reúnem-se aqui todas as notícias compiladas ao longo da semana naquela rede social. Obrigado pela companhia por aqui e noutros canais do blog. Boas leituras!

Louise Glück, poeta Prêmio Nobel de Literatura 2020. Foto: Webb Chappell 


 
LANÇAMENTOS
 
O novo título da Coleção Estudos Saramaguianos, editada pela Moinhos.
 
O período formativo é um livro que acrescenta na leitura da obra de José Saramago. A obviedade da constatação pode ser, mas não é, gratuita. Quando assistimos os usos do texto literário num contínuo rebaixamento à superfície dos conteúdos ideológicos ora dos leitores ora dos autores (na delicada incapacidade de compreender as implicâncias do jogo literário), recaindo no vazio analítico, o que, por sua vez, implica, se muito, permanecer apenas na superfície do tecido textual, trabalhos como o de Horácio Costa se revestem de um valor ainda mais significativo. Nem mesmo o conjunto amplo e diverso de materiais e de lugares discutidos pelo pesquisador (a crítica, a tradução, a criação literária) que constituem o seu recorte temporal o submete a uma dorsal pré-fixada e limitadora. Esse sortimento comparece, é preservado e lido pela dinâmica cobrada da perspicácia, do instinto e da sensibilidade analíticas e no fim oferece ao leitor a resposta sobre a questão principal: como se forma a escrita de José Saramago. Cada capítulo deste livro pode ser lido como um rico ensaio que porfia a justificativa para a tese do pesquisador: a escritura de José Saramago se constitui por um complexo e contraditório processo de vivência com a escrita. Cada capítulo deste livro é uma aula e em todo encontro nos é oferecida uma maneira de ler, isto é, se mostram métodos de estudo que cuidam de realçar a importância do texto ― não a dos seus elementos subjacentes ou periféricos. Isso reforça a amplitude do seu alcance: não é um livro feito apenas para leitores que desejam descobrir sobre novas feições da obra de José Saramago, é um livro para leitores em geral que lidam e manipulam rotineira ou casualmente com o texto literário.
 
Esta edição comemora os cem anos do escritor, poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto, ícone da poesia brasileira.
 
Um dos maiores poetas de língua portuguesa do século XX, João Cabral de Melo Neto ficou conhecido pelo estilo conciso, rigor formal e apurada crítica social ― numa comparação feita por ele mesmo, o poeta seria como um escultor, que incessantemente corta a pedra até que a escultura surja de dentro dela. Sua produção foi reunida nesta Poesia completa, que traz seus primeiros poemas e depois seu primeiro livro, Pedra do sono, lançado no início dos anos 1940, passando por textos que já se tornaram clássicos da nossa literatura como O cão sem plumas, Morte e vida Severina, A educação pela pedra, Museu de tudo, Auto do frade, até Sevilha andando, seu derradeiro livro. O autor morreu em 1999, deixando uma obra de força descomunal. Para comemorar seu centenário, esta Poesia completa traz ainda textos póstumos, dispersos e inéditos, organizados por Antonio Carlos Secchin com a colaboração de Edneia Ribeiro. O livro é publicado pela editora Alfaguara Brasil.
 
Livro do escritor Wole Soyinka, o primeiro africano negro a receber o Prêmio Nobel de Literatura ganha edição no Brasil.
 
Trata-se da história da infância do autor no oeste da Nigéria, antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Aké: os anos de infância é um emocionante livro de memórias considerado clássico no gênero. Transcende o relato lírico de vivência do autor quando criança pois acaba por revelar a cultura de um povo. Este livro foi classificado entre os 12 melhores livros do século XX (ASC Library). A tradução é de Carolina Kuhn Facchin. E a edição da Kapulana.
 
O diário de um dos maiores poetas da língua portuguesa, escrito ao longo de mais de três décadas.
 
Entre maio de 1943 e setembro de 1977, Carlos Drummond de Andrade manteve o hábito de escrever suas notas, reflexões e memórias. Por pouco, esses papéis não foram alvo da tesoura implacável do poeta, que chegou a cogitar dar fim aos seus cadernos. Ao se debruçar sobre um período de intensas mudanças políticas no país, Drummond retratou, entre outros fatos marcantes, sua passagem pelo gabinete do ministério da Educação e Saúde Pública, seu envolvimento com a criação do jornal Tribuna Popular e o declínio do Estado Novo. Em 1985, o material felizmente ganharia forma em livro. No posfácio escrito especialmente para esta edição, Humberto Werneck joga luz sobre o modo como Drummond se apresenta em seus diários: “O critério do autor na seleção do que incluir ou não em O observador no escritório transparece já no título, cravado por quem escolhera estar ali não como protagonista, mas como testemunha”.
 
Primeiro livro da autora de A cor púrpura, inédito no Brasil.
 
O primeiro livro de Alice Walker, vencedora do Prêmio Pulitzer em 1983 pelo aclamado A cor púrpura é A terceira vida de Grange Copeland. O romance revela o cotidiano de uma família negra no Sul dos Estados Unidos, por três gerações. Oprimido pela estrutura racista do condado de Baker, o trabalhador rural Grange Copeland abandona família e amante para ganhar a vida no Norte, mas retorna, após passar por experiências transformadoras, decidido a nunca mais conviver com pessoas brancas. Grange refaz sua vida, torna-se fazendeiro, mas tem que lidar com as consequências de suas escolhas no passado. Escrito com linguagem poderosa e precisa, o livro trata de violência ― racial, social, familiar, contra a mulher ―, mas também da força humana, capaz de mudar uma realidade inóspita por meio do amor e da ação no mundo. A tradução é de Carolina Simmer e Marina Vargas. O livro sai pela José Olympio.
 
Uma história de amor, medo, perda e formação de caráter, um relato da evolução de uma mulher negra caribenha escrito por uma das autoras mais habilidosas da literatura contemporânea.
 
Poderoso, perturbador e emocionante, este romance de Jamaica Kincaid conta a história de Xuela Claudette Richardson, filha de mãe caribenha e pai meio escocês e meio africano, moradora da ilha de Dominica. Sua mãe morre no parto, e a garota precisa então encontrar seu lugar no mundo sem o auxílio materno. Kincaid conduz o leitor pela vida de Xuela com extrema habilidade literária: da casa de sua infância, onde ela podia ouvir o canto do mar, e da sala com telhado de zinco onde mora como estudante, até sua casa da velhice. Seu mundo é intensamente físico, cheirando a frutas maduras, enxofre e chuva; e ferve com sua tristeza, sua profunda simpatia por aqueles que compartilham sua história, seu medo do pai e sua solidão arrebatadora. Com solenidade aforística, Kincaid explora todos os paradoxos desta história extraordinária, que, conclui Xuela, é ao mesmo tempo o testamento da mãe que ela nunca conheceu, da mãe que ela nunca se permitiu ser e dos filhos que ela se recusou a ter. A autobiografia da minha mãe tem tradução de Débora Landsberg. O livro é publicado pela Alfaguara Brasil.
 
O romance atemporal de C. S. Lewis sobre uma viagem de ônibus do Inferno para o Céu.
 
Em O grande divórcio, C. S. Lewis novamente emprega seu formidável talento para fábulas e alegorias. O escritor se encontra no Inferno embarcando em um ônibus com destino ao Paraíso. A incrível oportunidade é que, quem quiser ficar no Céu, fica. Este é o ponto de partida para uma meditação extraordinária sobre o bem e o mal, a graça e o julgamento. A ideia revolucionária de Lewis é a descoberta de que os portões do Inferno estão trancados por dentro. Nas próprias palavras de Lewis, “Se insistirmos em manter o Inferno (ou mesmo a terra), não veremos o Céu: se aceitarmos o Céu, não seremos capazes de reter nem mesmo as menores e mais íntimas lembranças do Inferno.” A tradução de Elissamai Bauleo é publicada pela Thomas Nelson Brasil.
 
O segundo livro de crônicas de Yuri Al'Hanati.
 
Se o deslocamento social já era um tema no seu primeiro livro de crônicas, é muito natural que Yuri trate com certa intimidade o isolamento social. Quando cada um está voltado para dentro, para o próprio quarto, Yuri ausculta os elementos que, durante a quarentena, ganham novos teores simbólicos, desde o vinho até a máquina de lavar, a poeira composta de pele humana, a luz do sol que bate na parede da sala — tudo tem contornos renovados e se ressignifica à medida que o mundo se modifica de forma brusca e inadvertida. Colado num presente que ainda carece de entendimento, A volta ao quarto em 180 dias é um livro para ser lido enquanto ainda está sendo escrito. O livro é publicado pela editora Dublinense.
 
Livro ganhador do Prêmio Sesc de Literatura 2020, na categoria Contos, ganha edição.
 
Este livro, Terra nos cabelos, encanta pela força e pela dinâmica das histórias, todas protagonizadas por mulheres. Os contos deste livro se propõem a uma espécie de investigação do íntimo, das descobertas do outro, e instigam o leitor a mergulhar na vida dos personagens. A menina que vê a mãe partir e se aferra a uma prolongada espera, a esposa infeliz que se aventura na casa de swing, as adolescentes enredadas nas primeiras experiências sexuais, em ritos de passagem e de iniciação. São, todas elas, personagens em contenda com o mundo, seja no âmbito familiar ou no universo da sociedade de forma mais ampla. Tônio Caetano costura as histórias com um fio invisível em que a ambiência se amalgama a um sentimento difuso de inadequação, de não pertencimento. A poética dos contos revela a chegada de mais um autor talentoso ao cenário da literatura brasileira. Semeando boas histórias que fazem refletir as minúcias da vida comum, sua estreia é bem-vinda, e seus textos, cheios de inquietações.
 
Pela primeira vez disponíveis ao público, três roteiros que mostram o processo criativo do principal cineasta brasileiro contemporâneo.

Nem sempre é possível ter acesso à construção de uma obra de arte. Poucas formas artísticas se prestam tão bem a essa análise retrospectiva quanto um filme e seu roteiro, principalmente se roteirista e diretor forem a mesma pessoa. Ao ler os roteiros finalizados de Kleber Mendonça Filho é possível identificar as decisões tomadas por ele como diretor, com as filmagens já em movimento, e compreender de forma muito mais elaborada o processo criativo de um dos principais cineastas da atualidade. Se em O som ao redor vemos a diferença entre os começos do roteiro e do longa-metragem, no texto de Aquarius temos um final bastante diferente do que foi filmado, mostrando a vivacidade de uma arte que se molda à medida que se desenvolve. Já em Bacurau, as cenas de violência extrema ganham um novo contorno depois da leitura deste livro. Formando uma trilogia ímpar para entender o Brasil, que se mostra cada vez mais simétrica com os acontecimentos reais, os três roteiros de Kleber Mendonça Filho são uma forma de encarar o país de frente, tanto na tela quanto nas páginas. Três roteiros: O som ao redor, Aquarius, Bacurau é publicado pela Companhia das Letras.
 
REEDIÇÕES
 
Um marco da literatura norte-americana. Chega-nos, enfim, a reedição de Meridiano de sangue, de Comarc McCarthy.
 
Meridiano de sangue é um romance épico. Nele, McCarthy reinventa a mitologia do Oeste americano para criar uma obra ao mesmo tempo grandiosa e arrebatadora sobre uma terra sem lei, em que o absurdo e a alucinação se sobrepõem à realidade. Desde as primeiras páginas, o leitor acompanha um rapaz sem nome e sem família, abandonado à própria sorte num mundo brutal em que, para sobreviver, precisa ser tão ou mais violento que seus inimigos. Recrutado por uma companhia de mercenários a serviço de governantes locais, atravessa regiões desérticas entre o México e o Texas com a missão de matar o maior número possível de índios e trazer de volta seus escalpos. McCarthy parte de fatos reais para compor uma obra que transcende a ficção histórica. Conduzidos por John Joel Glanton e o juiz Holden, homens que julgam já terem visto todos os horrores possíveis, irão aos poucos se aprofundar no verdadeiro inferno.

Reedição de Água viva, um dos textos mais desafiadores de Clarice Lispector.
 
Desde seus primeiros textos Clarice Lispector anuncia um brilhante projeto literário. Água viva, publicado em 1973, adensa o processo característico de sua narrativa, enfatizando-lhe a fragmentação, a contaminação do romanesco com o lírico e o abrandamento das linhas descritivas e representacionais, recursos menos acentuados em outras de suas obras, anteriores e posteriores. A trama do livro é tênue, o que faz dele “um romance sem romance”. Um eu, declinado no feminino, escreve a um tu, no masculino, expondo suas ânsias e procuras, num discurso de fluidez ininterrupta entre o delírio, a confissão e a sedução: “Para te escrever eu antes me perfumo toda. Eu te conheço todo por te viver toda.” O eu e o tu de Água viva ganham dimensões permutáveis de significação, integrando-se com o não-humano: a natureza, as palavras, os animais, a “coisa” ou o “it”. A linguagem se espessa numa densa selva de palavras e a obra descortina voraz processo de correspondências que interconectam vida, paixão e violência. Obsessivamente, a protagonista de Água viva busca surpreender as intrincadas relações entre o instante fugidio e sua inscrição no espaço. Sem nome, escondida sob o pronome eu, a personagem procura entender o significado da solidão e o de seu estar no mundo, no desencadear dos instantes que prefiguram um presente contínuo onde os limites cada vez mais esgarçados entre o que é interior e exterior à personagem desaparecem. Nesse lugar “enfeitiçado”, em linguagem incandescente, escreve Clarice Lispector Seu texto faz fluir o sentimento de agora e, paradoxalmente, interliga a petrificação e a mudança. "Água viva" é um lindo poema em prosa, no qual se comemora a vida de tudo o que, intensamente, é. Sem receitas para decodificar o mundo enfeitiçado da incitante narrativa, o leitor toma consciência de que já não dispõe de modelos para ler, nem para entender Clarice Lispector. (Lucia Helena)
 
Reedição de O Diabo e outras histórias, de Liev Tolstói.
 
Cinco narrativas que sintetizam, com maestria, os temas presentes na vasta produção do autor de Anna Kariênina: paixão, ciúme, morte, traição, consciência moral, decadência da aristocracia, vida no campo e dilemas da justiça. Em “Três mortes”, o autor examina como o final da vida pode ser distinto ao descrever a morte de uma velha senhora, de um cocheiro e de uma árvore. Os entraves da civilização e da natureza retornam em “Kholstomier”, conto sobre um puro-sangue que, para decepção de seu dono, nasceu malhado. Publicado postumamente, “O diabo” narra uma história de amor atormentada pelo ciúme, enquanto “Falso cupom” condensa as ideias do escritor sobre a religião, a utopia e o modo como a fé e o Estado se relacionam. “Depois do baile”, por fim, traz a produção tardia de Tolstói em um conto sobre política e moral, entremeado por uma paixão arrebatadora. As traduções de Beatriz Morabito, Beatriz Ricci e Mayra Pinto são reunidas neste livro com posfácio de Paulo Bezerra pela Companhia das Letras.
 
Nova edição de Boca de ouro, de Nelson Rodrigues.
 
Com uma habilidade genial para ironizar e satirizar os desvios comportamentais da sociedade, Nelson Rodrigues criou um teatro único e universal que vem atravessando décadas com a mesma vitalidade. Nesta tragédia de 1959, o dramaturgo nos apresenta o bicheiro Boca de Ouro, uma figura temida e megalomaníaca, que tem esse apelido porque, ao melhorar de vida, troca os dentes perfeitos por uma reluzente dentadura feita com o metal precioso. Ao ser assassinado, seu passado é vasculhado por um repórter de um jornal sensacionalista em busca de histórias escabrosas. A fonte do jornalista é dona Guigui, que revela diferentes versões da mesma história. Esta edição conta com posfácio de Elen de Medeiros, professora de literatura e teatro na Faculdade de Letras da UFMG, e orelha assinada por Marcos Palmeira, que protagonizou a mais recente adaptação da peça para o cinema. O livro é publicado pela editora Nova Fronteira.

LITERATURA E CINEMA

Filme de João Botelho a partir do romance O ano da morte de Ricardo Reis chega ao Brasil.

João Botelho é o reconhecido cineasta que levou para a sétima arte alguns dos títulos mais significativos da literatura portuguesa. É dele uma adaptação de Os Maias, de Eça de Queirós e a ousada leitura de O livro do desassossego, de Bernardo Soares / Fernando Pessoa, para ficarmos em dois dos seus mais famosos trabalhos. Agora, o diretor regressa com O ano da morte de Ricardo Reis, filme inspirado no romance de mesmo título do escritor Prêmio Nobel de Literatura José Saramago. Como noticiamos outra vez nesta página, a obra tem presença brasileira: o ator Chico Diaz encarna o papel principal da trama. E, depois de uma estreia no Porto e de chegar aos cinemas no restante de Portugal, o filme chega ao Brasil. É um entre os mais de cem títulos da 44.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, evento que, por causa das necessárias medidas de isolamento em decorrência da pandemia, acontece em plataforma streaming oficial, a Mostra Play. O evento será entre os dias 22 de outubro e 4 de novembro de 2020. 

 
PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA
 
Louise Glück é a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura 2020.
 
A poeta nasceu a 22 de abril de 1943, em Nova York, Estados Unidos. Sua obra se dedica a iluminar aspectos do trauma, do desejo e da natureza humana em suas variadas dimensões. Frequentemente descrita como uma poeta de traço autobiográfico, seu trabalho é reconhecido por sua intensidade emocional e por frequentemente se ancorar no mito, na história ou natureza para pensar sobre experiências pessoais e a vida moderna. A autora já havia ganhado os mais importantes prêmios literários nos Estados Unidos, incluindo a Medalha Nacional de Humanidades, o Prêmio Pulitzer, o Prêmio Nacional do Livro, o National Book Critics Circle Award. Para o júri da Academia Sueca, o Nobel se justifica à poeta “por sua inconfundível voz poética que, com beleza austera, torna universal a existência individual”.
 
DICAS DE LEITURA
 
Depois do Prêmio Nobel de Literatura chegar à Louise Glück, a poesia volta a figurar num pequeno círculo de importância ― dizemos isso porque apesar deste gênero ser considerado o ponto de princípio de toda criação literária é o sempre colocado à margem e muitas vezes por ávidos leitores. O quase desconhecimento da obra da poeta estadunidense entre os falantes de língua portuguesa diz algo, e ao mesmo tempo que nos coloca diante de uma pergunta: que outros poetas estão à espera de serem lidos e reconhecidos? Bom, pensando no lugar de onde vem a poeta premiada... Anne Sexton, Louise Bogan, Rita Dove, Natasha Tretheweym Josephine Jacobsen, Jorie Graham, Mary Karr, Sharon Olds, Myra Sklarew, Joanne Kyger, a lista é imensa. Enquanto isso, citamos três nomes da literatura de Glück, estes com obras com alguma circulação no Brasil, capaz de nos servir ao necessário espanto de ler.
 
1. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Talvez a proximidade com o Brasil, afinal a poeta viveu extensa parte de sua vida por aqui, a obra de Bishop, ao contrário de sua conterrânea, é recorrente entre nós. Encontramos facilmente textos de variado gênero, como sua prosa e suas cartas. A antologia aqui recomendada, publicada pela Companhia das Letras, na famosa Coleção Listrada, reúne boa parte da poesia da mulher que conquistou uma parte do reconhecimento entre os principais galardões; foi, por exemplo, a primeira a receber o Prêmio Neustadt de Literatura, em 1976. Os Poemas escolhidos foram organizados e traduzidos por Paulo Henriques Britto.
 
2. Que tempos são estes, de Adrienne Rich. Esta foi a primeira vez que um livro reuniu uma amostra da poesia desta poeta até então praticamente desconhecida entre nós. Os poemas  nesta edição bilíngue, com tradução de Marcelo Lotufo, demonstram a pluralidade de temas suscitados pelo universo criativo de Rich ― o amor, a sexualidade, o racismo, a guerra; “uma poesia que sobrevive ao seu tempo e chama o leitor para repensar tanto seu presente como seu passado, questionando o próprio lugar de fala”, explica a sinopse do livro publicado pelas Edições Jabuticaba.
 
3. Poesia completa, de Maya Angelou. Este deve ser o caso mais raro no Brasil em se tratando da presença da poesia escrita por mulheres nascidas nos Estados Unidos. E o mais curioso. Angelou também foi um nome raro entre nós até a publicação de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. Este livro abriu o apetite para que outros trabalhos da poeta chegassem em língua portuguesa, incluindo a sua poesia completa que foi recém-editada pela Astral Editora com tradução de Lubi Prates.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. A homenagem à obra de Elizabeth Bishop na Festa Literária Internacional de Paraty foi abortada. Mesmo assim, algumas publicações talvez já engatadas para um evento que terminou envolto numa cama de gatos sem precedentes e com o empurrão da pandemia de Covid-19 têm chegado, aos poucos. Esta semana, a Companhia das Letras disponibilizou gratuitamente em formato eletrônico “Uma cidadezinha distante. A Diamantina de Helena Morley”. O texto é um depoimento em que a poeta estadunidense recorda quando encontrou-se com Alice Dayrell Brant (Helena Morley é pseudônimo) no Rio de Janeiro por intermédio de Manuel Bandeira. Bishop traduziu a obra de Brant para inglês e este texto agora dado à estampa pelas mãos de Paulo Henriques Britto foi o prefácio do livro nos Estados Unidos. O texto sobre a autora de Minha vida de menina também está em Esforços do afeto e outras histórias. Prosa reunida. Disponível aqui
 
2. Depois da atribuição do Prêmio Nobel a Louise Glück vários tradutores se apressaram em apresentar suas traduções para poemas da poeta. Na revista Escamandro, saíram estes, com tradução de Adalberto Müller e Thiago Ponce de Morais. No blog da revista 7faces, três poemas traduzidos pelo português Rui Pires Cabral.  

BAÚ DE LETRAS
 
1. Acima falamos sobre a publicação dos roteiros dos filmes de Kleber Mendonça Filho. Neste blog, encontram comentário sobre cada uma dessas produções: aqui, sobre O som ao redor; neste endereço, sobre Aquarius; e aqui, sobre o trabalho mais recente, Bacurau.

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