Boletim Letras 360º #404

 
 
DO EDITOR
 
1. Saudações, leitores! Como estão? Abaixo, encontram as notícias que fizeram a semana em nossa página no Facebook. A invenção denominada Boletim Letras 360º foi criada há 404 semanas, quando os algoritmos da rede social mais frequentada da casa passou a esconder (como faz cada vez mais abruptamente nos dias de hoje) nossas posts.
 
2. A poucos dias de outro centenário importante nas letras brasileiras, as seções da segunda parte desta edição são dedicadas a Clarice Lispector. A escritora nasceu a 10 de dezembro de 1920 e é desde sua primeira obra, entre nós, autora de uma parte mais singulares da nossa literatura. Boas leituras!

Clarice Lispector. Arquivo Instituto Moreira Salles.


LANÇAMENTOS
 
Giorgio Agamben e a arte arrancada de seu contexto museográfico.
 
Nos palácios renascentistas, Studiolo era o nome dado ao pequeno quarto no qual o príncipe se retirava para meditar ou ler, rodeado pelos quadros que amava de modo especial. Para o autor, este livro é uma espécie de studiolo. Mas não se compreende o que significam para ele as imagens que a todo instante procura ler e comentar se não se compreende que o que está em questão não é um espaço privado, mas sobretudo outra experiência do tempo, que diz respeito a cada um de nós. Benjamin dizia que entre cada instante do passado e o presente há um compromisso secreto e que caso se falte a esse compromisso ― caso não se compreenda que as imagens que o passado nos transmite eram dirigidas justamente a nós, aqui e agora ―, é nossa própria consciência histórica que se rompe. A aposta que mantém juntas as obras reunidas no studiolo, com efeito, é a de que elas, ainda que tenham sido compostas num arco temporal que remonta de 5000 a.C até hoje, só agora atingem sua legibilidade. Por isso, apesar da atenção aos detalhes e das cautelas críticas que caracterizam o método do autor, elas nos provocam com uma força, e quase com uma violência, da qual não é possível escapar. Quando compreendemos porque Dostoiévski teme perder a fé diante do “Cristo morto” de Holbein, quando a “Lebre” de Chardin se revela de uma só vez a nossos olhos como uma crucifixão, ou a escultura de Twombly nos mostra que a beleza por fim só pode cair, a obra de arte é assim arrancada de seu contexto museográfico e restituída à sua quase pré-histórica origem. E esta e não outra, sugere o autor, é a tarefa do pensamento. O livro é publicado pela editora Âyiné.
 
Do sensível ao imaginável.
 
Merleau-Ponty dizia: o corpo dá lugar ao espírito que esquece o corpo que lhe deu lugar. Elaborando uma complexa tradição de raiz benjaminiana, o presente volume quer contribuir a reparar esse esquecimento, fornecer ligações para suturar a ferida aberta entrenós e o mundo e, em última instância, esboçar novas constelações sobre o horizonte do pensamento contemporâneo ― constelações capazes de orientar-nos neste deserto povoado de miragens em que parece ter-se convertido a nossa história. A potência da palavra e a indisciplina da escrita, a astúcia da linguagem e a resistência do olhar, a festa e a promessa do comum. Entre o peso do dado e a leveza do pensado, Vinícius Nicastro Honesko explora nestes ensaios o espaço imponderável que vai do sensível ao imaginável. As suas páginas evocam caminhos, mas é o caminhar o que as define ― inclusive, ou sobretudo, fora de rota. Ensaios sobre o sensível: Poéticas políticas do pensamento é publicado pela Âyinè.
 
Uma antologia que permite uma visão sobre a estratégia antimoderna de Paul Valéry.
 
Poucos autores foram tão lidos, comentados e traduzidos ao longo dos últimos cem anos quanto Paul Valéry. Contudo, só agora chega ao Brasil uma tradução completa dos seus Feitiços. Trata-se de uma obra que, após a experiência radical de A jovem parca, flutua entre diversas possibilidades poéticas que produziriam obras-primas como “O cemitério marinho”, um dos mais famosos poemas do século XX, e outros tantos como “Esboço de serpente”, “A Pítia”, “Fragmentos do Narciso”, “Os passos”. Muitos desses poemas já haviam sido traduzidos isoladamente, mas a visão de conjunto permite sopesar o alcance da estratégia antimoderna de Valéry. Ao resgatar o artesanato do verso, ele buscava também abarcar outros modos de vida esquecidos pela tábula rasa da modernidade: a relação com a natureza, a vida dos seres míticos, o modo de existência da linguagem, a hesitação prolongada entre o som e o sentido que fecundam outros modos de sensibilidade e outras maneiras de habitar o tempo. Claro que ao longo dos poemas, será impossível o leitor não perceber o quanto a poesia de Valéry reverbera e ressignifica a fineza de sua prosa, que ocupa parte importante do seu legado. Mas é interessante notar que Valéry é desde o início poeta, sim, um poeta que levou tão a fundo as questões do seu ofício que tocou em uma infinidade de outras questões: da guerra à cosmologia, da linguagem à política, da vida sensível ao pensamento abstrato. Tudo entra em ressonância quando levamos ao limite a potência dos nossos atos. Mesmo para aqueles que ainda guardam a imagem de um Valéry intelectual, será interessante passear pelo ritmo dos afetos e das sensações que fluem como o mar entre o imaginário mediterrâneo e um forte de diálogo com séculos de poesia europeia. Recolhe-se aqui um savoir-vivre das variações do espírito quando este, longe de uma pureza abstrata, se coloca entre o corpo e o mundo. Para os tradutores, aqui reverbera também uma larga tradição poética brasileira que tem entre os seus precursores figuras do porte de Drummond, João Cabral e Augusto de Campos, entre tantos outros notáveis valerianos. É no diálogo com eles que esses poemas vieram até nós, como uma experiência viva que habita a raiz da palavra “feitiço”: como um fazer, uma prática, uma técnica, mas que é atravessada pelo encanto, pelo canto, pela magia, pela capacidade de animar o mundo com outras infinitas camadas de existência. A edição bilíngue de Feitiços (charmes) é publicada pela Iluminuras com tradução e estudo de Roberto Zular e Álvaro Faleiros.
 
Primeiro volume de romance que reimagina a vida pessoal, profissional e poética de Marilyn Monroe ganha edição no Brasil.
 
Em um de seus livros mais inovadores, Joyce Carol Oates reimagina a vida pessoal, profissional e poética de Norma Jeane Baker — a criança, a adolescente e a celebridade que o mundo viria a conhecer como Marilyn Monroe. Com uma narrativa intensa e conflituosa, a obra é um retrato poderoso sobre um mito hollywoodiano e sobre a realidade por trás de uma mulher extraordinária. No primeiro volume de Blonde, é apresentada a juventude — pontuada por sua complicada relação com a mãe e pelo pai que nunca conheceu —, o casamento e a sexualização precoces e os primeiros trabalhos de uma das figuras mais famosas e trágicas do mundo do cinema. A tradução de Luisa Geisler é publicada pela HarperCollins. Com este romance Joyce Carol Oates venceu o National Books Award e chegou aos finalistas do Pulitzer.
 
Uma visita a um gigante intelectual e pioneiro da literatura fantástica moderna.
 
George MacDonald (1824—1905) foi um gigante intelectual e pioneiro da literatura fantástica moderna. Seus textos influenciaram grandes nomes do final do século XIX e início do século XX, como J.R.R. Tolkien, G.K. Chesterton, Lewis Carroll, W.H. Auden e, claro, C.S. Lewis, que o considerava o seu grande mestre. Lewis, aliás, declarou que tudo o que escreveu foi influenciado por George MacDonald. De acordo com o próprio Lewis, “dificilmente exista qualquer outro escritor que pareça estar mais próximo, ou mais próximo sem cessar, do próprio Espírito de Cristo”. Assinando o prefácio e selecionando os textos mais marcantes de MacDonald, Lewis nos apresenta esses tesouros extraordinários na forma de uma antologia com 365 reflexões diárias. Variando de Amor inexorável a O tormento da morte, os escritos de MacDonald serviram de instrução e inspiração para o autor que dá nome a esta coleção, e continuam a inspirar ainda hoje. A tradução de Carlos Caldas é publicada pela Thomas Nelson Brasil no âmbito da coleção com a obra de C. S. Lewis.
 
Nova edição de um clássico de Leopold von Sacher-Masoch.
 
Publicado originalmente em 1870, A Vênus das peles mostra pela primeira vez na literatura uma relação em que os limites do prazer e da dor não são claros. Inspirado por experiências autobiográficas de Sacher-Masoch, este romance deu origem ao termo “masoquismo” e permanece uma leitura fundamental para os interessados pelos enigmáticos meandros da sexualidade humana. Neste romance de múltiplas camadas narrativas, Severin von Kusiemski, um jovem de origem nobre, está apaixonado por Vanda von Dunaiév. Os dois trocam ideias sobre a natureza feminina, sobre as relações amorosas, sobre convenções da sociedade e sobre a possibilidade de felicidade numa relação duradoura a dois. Mas, diante da atração que experimentam, tudo isso será apenas um preâmbulo para uma aventura sexual de dominação e submissão sem igual. A tradução de Renato Zwick é publicada pela L&PM Editores.
 
Dois clássicos de George Orwell em nova edição.
 
1. Um exercício de imaginação escrito em 1948 sobre como o futuro se mostrava ameaçador, 1984 retrata um mundo de extrema burocracia e autoritarismo, em que telas estão em toda parte observando a rotina das pessoas. Por meio das palavras, a verdade é manipulada e a miséria da população se manifesta na dificuldade de expressão de pensamentos e sentimentos. A leitura deste clássico em nosso tempo leva à pergunta inevitável: quais faces o autoritarismo previsto por George Orwell teria hoje? Com tradução de Bruno Gambarotto, apresentação de Rita von Hunty, do canal Tempero Drag, e artes de Matheus Santa Cruz, 1984 se une a outras duas obras clássicas da distopia publicadas pela Biblioteca Azul: Admirável mundo novo e Fahrenheit 451.
 
2. Uma fazenda é tomada pelos seus animais, que expulsam os humanos e promovem um novo regime de colaboração e trabalho. Juntos, porcos e galinhas, cavalos e patos criam seus hinos, elaboram seus lemas e buscam o progresso e a justiça. Este é o cenário para uma das sátiras mais influentes da literatura; uma fábula para adultos que registra a transformação de uma revolução gloriosa contra o autoritarismo para mais uma forma tirânica de poder. Com tradução de Petê Rissatti, texto de apresentação de Orlando Calheiros, apresentador dos podcasts Benzina e PopCult, e ilustração de Olavo Costa, A revolução dos bichos segue como uma obra atual e com uma mensagem que se desdobra e pode ser lida como um manifesto contra qualquer abuso de poder. A nova edição é publicada pelo selo Biblioteca Azul.
 
Nova edição de um dos livros do jovem Pablo Neruda.
 
Publicado originalmente em 1924, Vinte poemas de amor e uma canção desesperada é até hoje um dos títulos mais vendidos de poesia em língua espanhola. Foi o segundo livro lançado pelo jovem Pablo Neruda (1904-1973), depois de Crepusculário, e já se vê aqui os principais temas que marcariam toda a obra literária do autor: o espanto do ser humano diante da experiência amorosa, o louvor à mulher amada e a celebração das paisagens chilenas. Como apontou Gabriela Mistral, Neruda significou “um homem novo na América, uma sensibilidade com a qual abre um novo capítulo emocional americano”. O próprio poeta, que em 1971 seria laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, falou em suas memórias sobre a presente obra: “É um livro que amo porque, apesar de sua aguda melancolia, está presente nele o prazer de viver”. A tradução publicada pela L&PM em edição bilíngue é de José Eduardo Degrazia.
 
REEDIÇÕES
 
Nova edição de seis “encantos” de Gabriel García Márquez.
 
Criado pelos avós, Gabriel García Márquez dizia que foi por causa da avó que ele se apaixonou pelas histórias contadas. Ele sempre se recordava com muito carinho dos relatos que ela compartilhava com ele quando era pequeno. Os seis contos reunidos neste livro retratam o imaginário do grande autor colombiano e têm em comum a presença de uma criança. Essas comoventes histórias são ilustradas pela premiada Carme Solé Vendrell, única pessoa que deu vida aos escritos de García Márquez, com a permissão do próprio autor. Fiel à magia de sua prosa, as ilustrações iluminam as delicadas reflexões sobre a infância que marcou o Prêmio Nobel de Literatura. Histórias fascinantes das quais jovens e adultos se lembrarão para sempre. O conto “A sesta de terça-feira” acompanha uma mulher que, com uma menina, tenta se proteger do sol abrasador com um guarda-chuva preto andando pelas ruas desertas de um povoado. Em “Um senhor muito velho com umas asas enormes”, acompanhamos o misterioso aparecimento de um idoso alado na casa de um homem muito simples. Seria ele um anjo enviado do céu? Em “A última viagem do navio fantasma”, um homem se recorda da noite de sua juventude na qual um navio encalhou no litoral de uma pequena cidade caribenha. “O verão feliz da senhora Forbes” conta a história de dois irmãos que são mandados para a Sicília durante as férias. E eles não imaginavam que teriam a rígida senhora Forbes como sua vigilante. Eles aprontam todas com ela e vivem pensando e maneiras de se livrarem dela. O quinto conto relata as aventuras de dois irmãos que descobrem que “A luz é como a água”. Quando seus pais saem de casa, eles ''abrem a luz'' e navegam pelas cascatas que inundavam sua casa. E essa brincadeira tem um final surpreendente. Em “Maria dos Prazeres”, o leitor conhece a história de uma anciã que está convencida de que irá morrer antes do Natal, após um sonho premonitório. O universo criativo e encantado do Prêmio Nobel de Literatura é retratado nesta obra que se utiliza de fabulações povoadas por situações oníricas que estimulam, divertem e impressionam. Assim, o autor nos faz refletir sobre poder, amor, amizade, política e História, usando a mitologia e o cotidiano da América Latina como cenário de seu universo fantástico.
 
Nova edição de um livro fundamental da ensaística de Erich Auerbach.

Publicado pela primeira vez em 1921, A novela no início do Renascimento marca a estreia de Erich Auerbach (1892-1957) na crítica literária, abrindo caminho para uma obra em que está contemplado todo o arco da literatura ocidental. Raras vezes a erudição foi vertida numa prosa tão clara e concisa. Privilegiando sobretudo o Decameron de Giovanni Boccaccio, após Dante “juntar novamente mundo e destino”, Auerbach explica o momento em que as narrativas medievais, vinculadas à Bíblia e ao sagrado, dão lugar a uma nova forma de literatura, mostrando homens e mulheres enredados nos acontecimentos, prazeres e dores do mundo terreno. A comparação não se dá apenas no tempo mas também no espaço. Ao contrastar a novela italiana, de caráter aristocrático, com a francesa que de início a imitou mas tinha origem burguesa, o crítico aponta para o rastilho que levará ao romance do século XIX, matriz da literatura moderna. Publicado pela extinta Cosac Naify, A novela no início do Renascimento, com tradução de Tercio Redondo ganha nova edição no âmbito da coleção Espírito Crítico, pela Editora 34. O livro inclui prefácio de Fritz Schalk e posfácio de Leopoldo Waizbort.
 
OBITUÁRIO
 
Morreu Eduardo Lourenço.
 
A obra de Eduardo Lourenço é um vasto legado deixado às gerações para toda uma vida. O professor e filósofo nasceu em Almeida a 23 de maio de 1923. Fez seus estudos na Universidade de Coimbra e lecionou em várias instituições dentro e fora do seu país. Autor de vasta obra ensaística que contempla uma variedade de temas: sobre a literatura portuguesa, as artes, o pensamento e os lugares de Portugal na/ com a história. Dos títulos que publicou destacam-se O labirinto da saudade, Fernando Pessoa revisitado, O canto do signo, Mitologia da saudade, entre outros. Pelo trabalho de excelência recebeu alguns dos mais importantes prêmios, como o Camões (1996), o Vergílio Ferreira (2001) e o Fernando Pessoa (2011). Eduardo Lourenço vivia em Lisboa e morreu neste 1º de dezembro de 2020.
 
DICAS DE LEITURA
 
No próximo dia 10 de dezembro celebramos o primeiro centenário de Clarice Lispector. Para sublinhar uma data tão importante, recomendamos quatro títulos dos fundamentais para um leitor conhecer um pouco sobre a obra da escritora. É uma ocasião quando podem apreciar o bonito trabalho editorial conseguido pela Editora Rocco com a reedição integral da bibliografia ativa de Clarice. Aliás, dos autores brasileiros, bem podemos destacar Clarice entre os mais bem servidos de circulação entre nós; o que é raro, mas deveria ser uma prática comum.
 
1. A paixão segundo G. H. Este é possivelmente, com A hora da estrela, o livro de Clarice Lispector mais bem lembrado e, para muitos, é um dos pontos altos da sua obra. Há inclusive uma edição crítica publicada como parte da Coleção Archivos; ricamente informativo, organizada por Benedito Nunes, este livro está há muito esgotado ― e perdeu-se agora uma excelente oportunidade de resgatá-lo. Publicado pela primeira vez em 1964, neste romance acompanhamos o fluxo de consciência de uma personagem que depois de demitir sua empregada doméstica envolve-se numa digressão capaz de transmutá-la para sua dimensão mais perigosa e selvagem.
 
2. Água viva. Resultado de um trabalho criativo dos mais elevados, este livro que se localiza numa região do indefinível no plano das formas e estruturas literárias, é sempre colocado, injustamente, fora de listas como estas. Clarice Lispector trabalhou desde sua estreia literária neste livro e o localizou entre as suas melhores criações. Para a leitura, recomenda-se que o leitor se desprenda de todas as limitações construídas no convívio com outros textos e que se deixe avançar pelas entranhas da linguagem num tempo outro, fora do tempo comum. Um ente que pode ser a própria palavra se envolve pelos mistérios do dizer, da condição em-falta do sujeito e nas tentativas de capturar o tempo pelas vias do instante-em-si. O resultado, notará, é o não-resultado. Dificilmente existiu outro texto mais tentado pelos interstícios da linguagem. E sim existiu e foi também escrito por Clarice; chama-se A maçã no escuro.
 
3. A hora da estrela. A novela alcançou uma elevada popularidade entre os leitores brasileiros desde quando foi publicado em 1977. É uma resposta da escritora a acusação de que escrevia sobre a vida burguesa e os dramas interiores, apartados da realidade social. Macabéa, uma jovem nascida em Alagoas, emigra para o Rio de Janeiro, onde trabalha como datilógrafa. Este é o livro de uma inocência pisada ― disse a escritora. A jovem é espezinhada pela sociedade, do namorado Olímpico à colega de profissão. Adaptado para o cinema em 1985 por Suzana Amaral, logo se tornou uma das obras mais conhecidas de Clarice Lispector entre nós. E é o mais realista dos romances não-realistas.
 
4. Laços de família. Clarice Lispector foi uma exímia contista. Neste livro, o leitor encontra alguns dos títulos mais conhecidos nesta forma literária ― “Amor”, “Feliz aniversário”, “O búfalo”; são treze contos que renovam os estamentos do cotidiano pela lógica perturbadora do insólito que se revela nas pequenas e comuns situações. Isto é, tal como revela Lucia Helena no texto de apresentação da nova edição publicada pela Editora Rocco, “Nesta coletânea de contos, os personagens – sejam adultos ou adolescentes – debatem-se nas cadeias de violência latente que podem emanar do círculo doméstico. Homens ou mulheres, os laços que os unem são, em sua maioria, elos familiares ao mesmo tempo de afeto e de aprisionamento.” 
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. Este esboço é um Leonardo da Vinci?
 
Feito com uma espécie de giz cor de sangue que os artistas usavam na Renascença para esboçar ou fazer desenhos, o esboço segundo Annalisa Di Maria, especialista na obra de Da Vinci, teria se perdido nos últimos séculos, como muitos do grande inventor, pintor e cientista toscano. A peça levada para Lecco representa nada menos que a verdadeira face de “Salvator Mundi”, o quadro mais caro do mundo, adquirido por 450 milhões de dólares em 2017 e atribuído a Leonardo, que desapareceu após sua compra. Di Maria argumenta que o esboço que veio à luz agora lembra muito o Autorretrato do pai do método experimental, preservado em Turim. A especialista disse que chegou a esse achado depois de ser contatada ao final de uma palestra que ela deu sobre Botticelli há algum tempo pelos donos do desenho, dois colecionadores, que pediram que ela fizesse uma análise. A notícia da suposta descoberta do esboço de Leonardo ― que seria o verdadeiro “Salvator Mundi” ― foi recebida com perplexidade no mundo da arte italiana. “Em primeiro lugar, nunca ouvi falar de Annalisa Di Maria, embora isso não bastasse... Mas conhecemos bem o universo paralelo de histórias, montagens e notícias falsas que sempre acompanharam a obra de Leonardo: existem estudos sérios, mas também muita lenda intercalada com negócios”, comentou Cecilia Frosinini, historiadora da arte e pesquisadora do “Opificio delle Pietre Dure” de Florença ― um dos maiores centros de restauração do mundo ―, que recentemente esteve entre aqueles que anunciaram que Leonardo nunca realmente pintou “A Batalha de Anghiari”. “Dan Brown nos arruinou”, acrescentou ela sarcasticamente. Frosinini considerou que à primeira vista parece um trabalho mais recente e “totalmente alheio à técnica leonardiana”. “O traço gráfico do Gênio costumava ser mais rápido, feito para esboçar as ideias que se aglomeravam em sua mente”. “Por outro lado, o fato de a técnica ser otimista não significa nada”, acrescentou. Para ela, a atribuição a Leonardo do “Salvator Mundi”, comprado por um príncipe saudita que supostamente iria exibi-lo no Louvre em Abu Dhabi, é muito polêmica, mas desapareceu. Veja o desenho aqui.

2. Um novo site para Clarice Lispector
 
O Instituto Moreira Salles marca o Hora de Clarice neste ano do centenário da escritora com a abertura de um novo site. Em português e inglês, o portal reúne fotos, manuscritos, áudios, vídeos, cartas, aulas e textos críticos, em grande parte proveniente do acervo de Clarice, sob a guarda do IMS desde 2004. O site é dividido em dois grandes ambientes. No primeiro, o público mergulha na obra e na vida de Clarice a partir de um percurso poético e afetivo. Fotos, frases, cartões-postais, manuscritos e entrevistas, entre outros materiais, surgem de diferentes modos na tela, numa experiência rica, cheia de surpresas. Textos e imagens são relacionados livremente, de forma a explorar memórias, reflexões, espantos e perplexidades da autora. O segundo ambiente é voltado tanto para alunos escolares quanto para pesquisadores acadêmicos, que encontram uma cronologia ilustrada da autora e a seção “Livro a Livro”, que traz todos os livros de Clarice, acompanhados de textos que apresentam as obras, escritos por especialistas para o site
 
3. A última entrevista de Clarice Lispector
 
Clarice Lispector morreu um dia antes do seu aniversário de 58 anos. Meses antes deste episódio, ela gravou uma entrevista para a TV Cultura e, sabedora de sua frágil condição de saúde, pediu que este material só viesse a público depois de sua morte. Esta se tornou um dos documentos mais impactantes sobre a escritora, uma visita à sua intimidade com a literatura e o contato com que se dispôs revelar e ocultar. Na seção de vídeos no nosso Facebook podem acompanhar na íntegra este material, sempre fundamental de se ver e rever.
 
BAÚ DE LETRAS
 
1. Clarice Lispector está no seleto grupo de escritores que são sempre motivo de acurado interesse do blog. Do significativo material compilado neste espaço selecionamos seis textos que discutem aspectos pouco conhecidos da obra da autora:
 
a) este, de Milton Hatoum, que nos coloca em contato com uma leitura sobre o criativo trabalho de lida com a linguagem executada pela escritora;
 
b) este da especialista na obra de Clarice, Juliana Perez, acerca das colunas femininas que dedicou na escrita profissional;
 
c) este que partilha algum contato com o lado artista plástica de Clarice, trabalho, aliás que agora se encontra em diálogo com sua própria obra ― todo trabalho de reedição editorial se deu em cima dos quadros que pintados pela escritora;
 
d) este ensaio de Benedito Nunes sobre a lida da escritora com a ficção narrativa;
 
e) neste, Rafael Kafka, comenta sobre O lustre, o segundo romance de Clarice Lispector, publicado em 1946 e escrito quando a autora vivia na Europa.
 
 f) e findamos esta lista com este texto de Pedro Fernandes sobre um livro recomendado na seção Dicas de Leitura, Água viva.

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