A tirania do amor, de Cristovão Tezza

 
Por Pedro Fernandes




 
O périplo por um dia daqueles capazes de nos jogar à cara todo o nosso passado e revirar o que acreditávamos ser o curso estável da existência. Esta poderia ser uma síntese sobre A tirania do amor, de Cristovão Tezza. Um meticuloso narrador que se apaga corriqueiramente a fim de permitir a correnteza da consciência de sua personagem principal, esta que também costuma se meter nos fluxos alheios e atribuir vozes próprias, se desenvolve interessado em, à maneira de sua personagem, reconstituir milimetricamente a sucessão de episódios que começa a meio da noite de um dia e escorre para a noite do dia seguinte e encontrar entre eles qual a peça faltante, o dispositivo desencadeador das circunstâncias ou mesmo qual o seu papel para tanto. Enquanto se engalfinha na rotina do que seria apenas um dia a mais no trabalho da repartição, Otávio Espinhosa, o homem dos números, não deixa de oferecer qual a objetividade do seu itinerário mental circunscrito em três temas assim enumerados: 1. Informação privilegiada. 2. Abdicar da vida sexual. 3. Estou imerso na vulgaridade.
 
O desenvolvimento de cada uma dessas linhas, não necessariamente na ordem proposta e em alguns casos sequer saídas da imaginação para a ação, ampliando a extensão dos fracassos do seu enunciador por não cumprir com o estabelecido para si próprio, formam a substância dos múltiplos fios narrativos desse romance. Sem relações mais efetivas que a da mesma quantidade, também são três os ordenadores das ações: a consciência de Otávio (observada como dissemos desde o início da narrativa); o cotidiano que irrompe ora do tratamento descritivo desse narrador exterior ora da observação da sua personagem, sendo que, a partir deste último assume dupla dimensão ― como manifestação da realidade ou como manifestação fabular; e as nuances do tratamento metaficcional, indiciado quando essa personagem central se nota refletindo sobre a criação para si de outras personagens no seu entorno, atribuindo-lhes sentenças suas ou mesmo preocupado com a escolha vocabular para como caracterizar o outro ou como expressar os acontecimentos.
 
Especificamente sobre esse tratamento material da linguagem, a explicação possível, além da que talvez venha primeiramente aos sentidos, isto é, da palavra enformadora do mundo e das coisas, é de uma aprendizagem do homem para a expressividade pela palavra. Otávio Espinhosa é sempre um sujeito frio ante tudo. Essa condição é formada duplamente. Primeiro, pela herança paterna. O contrabandista viúvo e engalfinhado numa cama de gato, de circunstâncias capitais e afetivas, preso e morto na prisão pouco tempo depois de o filho escapar para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos em Harvard, estirou os seus sentidos pela necessária negação subjetiva do mundo; esse respaldo se amplia pelo convívio com o racionalismo de Espinosa ― a quem o tem como tataravô de pensamento. E, segundo, pela própria profissão para a qual foi empurrado: gestor de capitais numa importante empresa depois de não alcançar concluir um doutorado e a possível formação acadêmica com uma tese que versava sobre o funcionamento dos elementos da máquina pública brasileira.
 
Nesse sentido, a linguagem funciona como uma maneira de dizer a realidade por outro código, mas sem deixar de fazer servir propositalmente as circunstâncias em favor do seu usurário ― tarefa nunca descartada quando estamos numa narrativa organizada por um ponto de vista dominante e mais ainda quando este é determinado por uma circunstância descrita por Otávio como o mal da matemática. Diz: “O mal da matemática é que ela tem uma compulsão irresistível a retificar o mundo, de modo a adaptá-lo à pura e exata abstração da geometria. Transferi o meu talento matemático à apreciação das pessoas ― na minha cabeça, Rachel, as pessoas são equações difusas, mal formuladas, e cabe a mim retificá-las, devolvê-las ao trilho original”. Uma justificativa que não deixa de registrar todo individualismo ou mesmo pedantismo dessa personagem ante o mundo que na sua concepção foi fundado por ele e funciona conforme seus domínios. O que não é verdade e por isso a maneira como as circunstâncias se revelam ainda mais estranhas ― ao ponto de não se reconhecer nelas ou se deixar acreditar pela possibilidade de conseguir dividi-las, reconstituí-las minimamente e chegar a uma resposta tão objetiva com os resultados que propositalmente fabula, sem se dar conta, em seu favor.
 
Essas situações que levam Espinhosa a se confrontar com os limites da sua realidade favorecem outro despertar: o mundo autossuficiente, ou que assim acreditava ser, conseguido ora pela negação do seu passado obtuso ora pela crença desmedida de um talento reparado desde a infância como um distintivo capaz de lançá-lo para a roda da fortuna é puramente um truque e se de primeira consegue oferecer resultados, mais tarde para nada lhe serve ou, quando muito, para o desenvolvimento de novas estratagemas que funcionam como um tipo de charlatanismo. O problema, entretanto, não reside em Otávio. Reside numa sociedade presa fácil de tipos iguais a ele. Um exemplo é como uma emulação simplista de princípios racionais da filosofia espinosiana consegue catapultar a personagem para o sucesso. Nota-se, muito vivamente, a expressão crítica e irônica sobre nosso país: capaz apenas de bater palmas para o macaco que come banana.
 
São os frívolos dilemas do homem inútil mais um pouco acima dos da sua classe. E com eles, sem se decidir por um outro lado, sobe e desce pelos caminhos dessa consciência e da realidade habitada por Otávio, uma variedade de pautas dentre essas discutidas em toda parte com argumentos importados e alheios à nossa história ou feitos dos mesmos rasos limites que tanto condenam: corrupção, golpe, fascismo, racismo etc. E sobre muitos, o que romance oferece são desestabilizadores dos discursos que se revestem do epígono de revolucionário mas com práticas nulas, visto que seus efeitos se muitas vezes sequer são exercidos pelos seus produtores não chegam aos do poder, o mesmo que continua a fazer ouvidos surdos e vistas cegas para os das notinhas de repúdio que se fizeram moda na era de fingimentos que habitamos. É notável que isso é produto de uma visão empestada desse liberalismo feito de cartilha cujas regras o praticante nem as conhece ao certo, mas não deixa de nos incomodar com a mesmidade dos nossos destinos.
 
A esta altura, o leitor poderá se perguntar onde reside a tal tirania do amor. Bom, toda a torrente de situações que oferece uma ruptura com a fajuta estabilidade de Otávio Espinhosa começa pela descoberta, numa cena que ele julga ardilosamente preparada pela sua companheira, Rachel, de uma longa correspondência confessional desenvolvida entre ela e um colega de profissão que entrega todas as verdades nunca admitidas pelo casal: o fim do amor. A crise propulsora está muito bem desenhada no discurso de Otávio; nasceu quando se ampliaram as discrepâncias de poder e capital entre os dois. A frieza do racionalismo competitivo, o fio favorito da personagem para compreensão da ordem das coisas, somada a alguns caros vícios da ideologia dominante que não deixa de afetar mesmo os que a negam, invade a cena familiar e carcome silenciosamente o que se diz eterno. Alguém poderá pensar ingenuamente ― como Daniel, filho do casal e protótipo do revolucionário lacrador ― que o possível fim do casamento é outra vez a encenação da crise de uma instituição burguesa. E não é.

Este é um romance que acompanha o curso de uma geração incapaz de encontrar saídas para o seu sentimento de frustração. Seja porque trata de negar seu passado cimentando com a fabricação de um presente artificial, seja porque se apega ao fogo fátuo das ideologias para justificar a natureza postiça do que fabrica. O resultado é sempre o mesmo: tirania e desencanto. Os dois caminhos da encruzilhada onde se encontra a personagem principal de A tirania do amor. A encruzilhada onde nos encontramos.

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