Boletim Letras 360º #446

DO EDITOR
 
1. Caro leitor, estas são as notícias que passaram pela página do blog no Facebook durante a semana e as algumas dicas para encontrar outras leituras dentro e fora deste espaço — mantemos ainda o especial interesse na marcação dos sete séculos sobre a morte de Dante Alighieri registrados no último dia 14 de setembro. Muito obrigado pela companhia. Boas leituras!

A estreia no Brasil do premiado escritor inglês Max Porter. Foto: Francesca Jones.


 
LANÇAMENTOS
 
Uma seleção de textos de Carlos Drummond de Andrade em diálogo com a fotografia.
 
Vasto mundo traz uma seleção de poemas, aforismos e textos em prosa, extraídos da obra de Carlos Drummond de Andrade, acompanhados de imagens capturadas pelo fotógrafo Adriano Fagundes ao longo de 30 anos de viagens pelo mundo, realizadas entre 1991 e 2021. A visão do poeta mineiro, que soube captar o “sentimento do mundo” desde seu gabinete de trabalho, mais o olhar certeiro do fotógrafo, que percorre vários continentes e que fez desse mesmo sentimento sua fonte de inspiração, se revelam como duas visões confluentes que fazem nesta coletânea um interminável diálogo poético entre literatura e fotografia. O livro é publicado pela editora Autêntica.
 
Novo título da Coleção Fábula, editada pela Editora 34.
 
Estudiosa do Grande Norte subártico, a antropóloga francesa Nastassja Martin viaja em busca dos even — mais precisamente, de algumas famílias even que, tomando distância da vida na Rússia pós-soviética, preferem voltar a viver no coração das florestas siberianas. A rotina do trabalho de campo vai avançando como quer a disciplina etnográfica, os cadernos vão se enchendo de anotações. Mas alguma coisa mais parece estar em gestação, alguma coisa que por fim eclode na forma de um incidente — ou, quem sabe, de um encontro — entre a antropóloga e um urso. É a partir desse acontecimento inesperado e dilacerante que Martin tece a trama de Escute as feras, em que a experiência vivida nutre uma reflexão vertiginosa sobre o humano e o natural, a identidade e a fronteira, o tempo do mito e a história contemporânea. A tradução é de Camila Vargas Boldrini e Daniel Lühmann.
 
Em seu romance de estreia, finalista do Booker Prize de 2020, Brandon Taylor narra um final de semana de um jovem negro e queer que saiu do Alabama para estudar com uma prestigiosa bolsa de estudos.

Wallace perdeu o pai há semanas e nenhum de seus amigos da pós-graduação sabe disso. Sem história e identidade como só aqueles que rejeitam o próprio passado podem viver, ele mal se move pelos laboratórios da universidade, onde faz experimentos com criaturas microscópicas, e sente-se incapaz de criar vínculos com os colegas. Desde que recebeu uma bolsa, Wallace enxerga nos estudos a oportunidade de escapar do ciclo de pobreza e violência de sua família. No entanto, na universidade, as pessoas mais próximas são também aquelas que mais lhe dão ódio e tédio. Ele não entende quando Emma, uma das poucas amigas, se emociona ao saber da morte de seu pai e quando os colegas o abordam com condolências, pressupondo um sofrimento que ele próprio acredita não sentir. O luto, no entanto, desencadeia um desconforto novo em Wallace — como se a infelicidade fosse expurgada por uma força interna incontrolável, prestes a romper tudo o que foi conquistado. E do desassossego surge o medo: se abandonar o pouco que construiu para si, o que fica? Se não pode ter um passado, se não suporta seu presente, o que resta é ter um futuro — que não pode ser abandonado. Mundo real é escrito a partir do olhar de um personagem que, dessensibilizado pela dor, julga-se frio, avesso à vida, ainda que seja profundamente sensível. Ao abordar temas que precisam ser articulados dentro e fora da literatura — violência sexual, racismo, homofobia, machismo, transtornos psicológicos, complexidades da vida acadêmica —, Brandon Taylor cria um romance de alta beleza formal, num estilo delicado e sutil, que sugere e emociona. A tradução de Alexandre Vidal Porto é publicada pela editora Fósforo.
 
Outras faces de Maria Firmina dos Reis.
 
A escrava consiste em uma seleção de textos em prosa e poemas de Maria Firmina dos Reis (1822–1917), considerada a primeira romancista negra da história da literatura brasileira. Estão presentes o conto “A escrava”, de 1887, a novela Gupeva, de 1861, e 32 poemas: dos quais 29 foram extraídos entre os 56 de Cantos à beira-mar (1871), dois da antologia Parnaso maranhense (1861), e o famoso “Hino à liberdade dos escravos”, originalmente escrito para ser cantado e acompanhado por instrumentos musicais. Nesta antologia, apresentam-se alguns dos principais elementos que caracterizam a literatura da escritora: a situação dos escravizados, que passam a ter protagonismo nas narrativas, o papel da mulher na sociedade, as condições dos povos indígenas, um sentimentalismo romântico amoroso e a exaltação da terra. O livro é publicado pela editora Hedra.
 
Edição reúne contos de Ambrose Bierce.
 
O dedo médio do pé direito e outros contos é uma coletânea com 14 contos do autor estadunidense Ambrose Bierce (1842-1914), com organização da editora Léa Prado. O livro foi traduzido por Ana Paula Doherty e conta com prefácio de Craig A. Warren, professor de inglês da Penn State Behrend e editor do The Ambrose Bierce Project. O posfácio é de Carla Ferreira, professora associada do Departamento de Letras — Área de Língua Inglesa e suas Literaturas — da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Os contos selecionados para publicação incluem histórias fantasmagóricas, como “O relógio de John Bartine” (1893), “O estranho” (1909) e “A estrada ao luar” (1907), e histórias de animais abomináveis, como “O funeral de John Mortonson” (1906). Alguns trabalhos antecipam a ficção científica do final do século XX. “O mestre de Moxon” (1899) explora os perigos da inteligência artificial, e “A coisa maldita” (1893) considera criativamente o espectro de cores e os limites da percepção humana. Há histórias que também fazem experimentação com a narrativa não cronológica como “O dedo médio do pé direito” (1890), que dá nome à coletânea, e “Um vigilante junto ao morto” (1889). O livro inclui ainda alguns dos contos mais conhecidos da carreira de Bierce, fazendo a ponte entre dois séculos. “Incidente na ponte de Owl Creek” está entre as histórias mais compiladas da literatura americana do século XIX. O livro é publicado pela 11 Editora.
 
O novo romance de Otavio Linhares.
 
O narrador deste romance — sem nome, sem idade e sem lugar de destaque – é o caçula de uma família em ponto de erosão. Em um fluxo frenético de pensamento derramado pelo cotidiano e por entre seus lugares escuros de consciência, ele nos apresenta sua realidade aquebrantada. O irmão promessa, o outro irmão ladrão, o pai beberrão, a mãe apagada e a avó sobrevivente são os átomos desse núcleo familiar e pano de fundo para episódios corriqueiros que compõem um mosaico da solidão. Os personagens de Otavio Linhares, a conhecer por sua trilogia de contos anterior a este Cavalo de terra, transitam entre o escárnio e a tragédia, num registro oral que exige malícia e velocidade por parte do leitor. Suas vozes se misturam, se confundem e canibalizam, explicitam o cru e tropeçam na pobreza de seus repertórios. Cabe ao leitor encontrar a ferida afetiva e dar o diagnóstico emocional com base em seus gritos abafados. Como na vida, todos os personagens de Linhares — uma das vozes mais proeminentes da literatura paranaense contemporânea — pedem socorro de forma errática. O mal-estar gerador de desesperos difusos e desendereçados é o grande personagem deste livro que o leitor tem agora em mãos. O livro é publicado pela editora Moinhos.
 
Novo livro de poesia de Ana Luís Amaral no Brasil.
 
Logo no começo do segundo ato da peça de Shakespeare, Julieta pergunta a Romeu por que ele não pode renunciar a seu nome, para que ela possa amá-lo. Por que um nome é tão importante, a ponto de impedir o amor dos seres? “What’s in a name”, a frase literal da personagem, é o ponto de partida e o título original deste "Lumes", que a multipremiada poeta portuguesa Ana Luísa Amaral traz agora ao Brasil, em edição consideravelmente aumentada, com poemas inéditos.  Aqui, a poeta se coloca as questões que poderia ter-se feito a própria Julieta, se não tivesse sucumbido: quais as dimensões de ver, nomear, escrever, matar? Ao perguntar-se, ela nos ensina, já desde o primeiro poema, que do cotidiano surgem os mais intrincados enredos: se o mosquito assassinado pela unha da poeta retornará, cem anos depois, matéria de outra coisa, talvez até do poema ou do papel em que estará impresso (em “Matar é fácil), o livro, esquecido de propósito num banco de praça, que destino terá? (em “Abandonos”).  Dito de outro modo, Ana Luísa Amaral extrai das miudezas cotidianas inquietações e, ao fazê-lo, aproxima-se da maior poeta latino-americana do século dezessete, a mexicana Sor Juana Inés de la Cruz, que em um de seus momentos de grande autoironia, dissera: “o que podemos saber as mulheres além de filosofias de cozinha?”, para logo completar: “Se Aristóteles tivesse cozinhado, muito mais teria escrito”. Pois é também nessa dimensão, de quem pode erguer monumentos reflexivos e líricos a partir de uma cena doméstica, que Ana Luísa Amaral exibe maestria.  Obra inquietante, bela e não isenta de humor, Lumes constitui-se na dialética entre ver e nomear, a partir do campo privilegiado que é um poema a escrever-se. Seja em seu título original, seja em seu título brasileiro, a pergunta insiste, insidiosa: O que há num nome? O que com ele se pode ver?  O lançamento deste volume no Brasil coincide com a consagração da poeta pelo recebimento do Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana de 2021. O livro é publicado pela editora Iluminuras.
 
Uma visita significativa ao universo de Charlotte Perkins Gilman.

Os textos reunidos nesta edição formam um importante conjunto representativo da produção ficcional da escritora estadunidense Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), considerada uma pioneira do feminismo. Nos sete contos selecionados e traduzidos por Heloisa Seixas estão em cena os temas que mobilizaram a autora durante toda a vida: a condição social das mulheres, a opressão imposta a elas e a necessidade de emancipação.  Charlotte trata dessas questões ora de forma sarcástica, caso do conto “Se eu fosse um homem”, ora como um drama, a exemplo de “Reviravolta” e “Uma mulher honesta”; por vezes também em tom severamente crítico, como vemos em “O coração do sr. Peebles”, ou com forte teor psicológico e assombroso, como faz em “O papel de parede amarelo”, seu conto mais conhecido, em que acompanha o processo de adoecimento mental de uma mulher que acaba de parir e, por imposição de seu marido, é mantida isolada em um velho quarto.  O volume apresenta ainda extratos de sua novela mais famosa, Herland, a Terra das Mulheres (de 1915), em que imagina um país sem homens, utopia feminista que serve para defender as suas ideias sobre maternidade e educação de crianças e imaginar uma sociedade livre da dominação masculina. O livro é publicado pela Bazar do Tempo.
 
A tão esperada biografia de Oswaldo Goeldi.
 
Oswaldo Goeldi. Repaginando a história é um trabalho realizado pela sobrinha-neta do artista e curadora do Projeto Goeldi, Lani Goeldi. Levou oito anos para ser concluído e a autora percorreu todas as cidades por onde ele residiu no Brasil e exterior, montando um verdadeiro quebra-cabeças das informações pessoais sobre o artista. Integralmente ilustrada e colorida, esta edição apresenta Oswaldo Goeldi na sua intimidade, pois agrega a história oral de seus irmãos, sobrinhos e amigos.
 
Antologia é um convite à leitura de textos que resistiram à passagem do tempo.
 
O livro Os sabiás da crônica reúne seis mestres da crônica, do lírico Rubem Braga ao rebelde José Carlos Oliveira, projeta um olhar inteiramente novo sobre a cultura brasileira. As noventa crônicas que compõem o volume formam um riquíssimo painel dos anos 1930 até a virada do século XXI: é o retrato de toda uma época. Aqui se celebra a força da amizade. E se engana quem pensa que a trama coletiva apaga o traço pessoal dos cronistas — pelo contrário, eles surgem aqui de corpo inteiro. O roteiro sentimental parte de cada cidade natal até desembarcar no Rio de Janeiro na década de 1940. O saber literário se mistura então ao sabor das experiências cotidianas: a roda viva de bairros e bares, as conversas sobre música e cinema, as receitas de feijoada, a poesia do futebol, tudo decantado numa prosa crítica e bem-humorada. Organizado por Augusto Massi, o volume traz um prefácio visual com fotografias de Paulo Garcez que ilustram fielmente a atmosfera da antologia, revelando a intimidade do encontro que nos trouxe até aqui. O livro é publicado pela editora Autêntica.
 
O livro de estreia de Raïssa Lettiére.
 
Segundo João Anzanello Carrascoza “Nestas folhas que resistem, Raïssa Lettiére apresenta uma nova paisagem no descampado da nossa literatura — não um bosque coberto por relva delicada, mas uma mata voraz e misteriosa, o que é tanto um fato inesperado quanto uma realidade artística a ser celebrada”. Um enigma na curva de uma estrada e os quatro braços de uma cruz. Um homem que vê a mãe perder a sanidade aos poucos. Outro que confere o obituário de jornais em busca de um nome conhecido. Uma refeição que evoca todas as últimas ceias. Uma amizade de infância, em meio a empurrões e quedas, leva a uma decisão irreversível. Em De folhas que resistem, Raïssa Lettiére compõe uma proposta literária potente, em harmonia com o que há de melhor na produção literária contemporânea. A autora traz contos com aroma e cor, para que os leitores possam experimentá-los com todos os sentidos de que puderem lançar mão e misturá-los de forma sinestésica no embate com o texto. Temas como memória, desejo e conflito familiar se descortinam no embate entre a intimidade e a vida social de suas personagens. O livro é publicado pela Biblioteca Azul.
 
Novo livro de Mahmud Darwich no Brasil.
 
Mahmud Darwich, o grande poeta da palestina e um dos mais importantes do mundo árabe, descreve um longo dia de agosto de 1982, durante a invasão israelense ao Líbano e o cerco a Beirute. A narrativa de Darwich, embora considerada prosa, jamais se inscreve de forma absoluta como tal; traz sempre, como em Da presença da ausência, o tom e a dimensão poéticos dos eventos, das memórias, dos atos triviais, do fato histórico, da vida política. Como em toda a obra de Darwich, trata-se de um texto que apresenta muitas camadas, tanto temporais quanto temáticas. Em uma dessas camadas, Memória para o esquecimento é uma reflexão sobre a invasão israelense e suas consequências política e histórica. Mas há também as memórias pessoais e as questões que se impõem em meio aos jatos que sobrevoam e às bombas que são despejadas sobre Beirute: qual o significado do exílio? Qual o papel do escritor em tempos de crise e de guerra? Qual amor é possível nesses tempos sombrios? Darwich também não deixa de lançar um olhar crítico e clínico sobre os aspectos que envolvem a resistência palestina e a noção de nação árabe. Memória para o esquecimento é uma homenagem a um povo que há mais de 70 anos “rexiste” — com coragem, criatividade e resiliência — à opressão e ao colonialismo. A tradução de Safa Jubran é publicada pela editora Tabla.

Livro de estreia do premiado escritor inglês ganha tradução pela primeira vez no Brasil.

Poesia e prosa em harmonia, uma história repleta de honestidade, empatia e humor. Uma comovente reflexão sobre os ciclos da vida e as lembranças que deixamos ao partir. Luto sem medo é uma fábula moderna onde a visita inusitada de um ser de penas transforma a vida de uma família recém enlutada pela perda da mãe. Durante este período de dor e incerteza, pai e filhos se deparam com o pássaro esperto e malandro em sua janela, um ser peculiar que se torna amigo, um quase curandeiro da família, e os ajuda a aceitar o luto. Os dias avançam, se tornam semanas, meses. A dor ganha um contorno agridoce de saudade. Com o tempo, as lembranças florescem como um belo par de asas. A tradução de Caetano W. Galindo é publicada pela editora Somos.

REEDIÇÕES
 
Reedição de coletânea de contos de Anton Tchékhov organizada por Tatiana Belinky.
 
Considerado um dos criadores do conto curto, Tchékhov, em poucas pinceladas, pintava toda a complexidade do homem, elevan­do o pequeno texto a alturas épicas. Nes­ta coletânea estão reu­nidas algumas de suas obras-primas, co­mo “A se­nhora com o cachorrinho”, “A morte do funcionário” e “O bi­lhete de loteria”, entre outras narrativas primo­rosas que revelam um escritor brilhante no ápice de sua arte. As histórias foram cuidadosa­mente selecionadas pela mestra das letras Tatiana Belinky, que também verteu o texto para português. Contos são publicados pela Nova Fronteira.
 
Reedição de obra clássica do premiado autor Herman Hesse.
 
Sidarta é, assim como outras criações de Hermann Hesse, uma obra inesquecível. Fruto de uma viagem à Índia em 1911, foi publicado onze anos depois, em 1922.Sidarta é um espírito rebelde que seguiu os ensinamentos de Buda, mantendo-se fiel à sua própria alma. Mas, como outros heróis desse ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, não trata apenas de devoção. Destila altas doses de angústia ocidental no confronto do individualismo com os ideais de iluminação. Na busca da verdadeira felicidade, o filho de brâmanes, favorecido na aparência, na inteligência e no carisma, torna-se um asceta. Para isso, segue um caminho tortuoso que o leva, através de um sensual caso amoroso com uma cortesã, das tentações à autocompreensão. A sensibilidade harmonizada de Hesse com temas universais o fez referência da contracultura e precursor de questionamentos imperecíveis. Visionário, o autor foi um desbravador do misticismo oriental muito antes da corrida aos gurus orientais do século XX. Este romance lírico, baseado na juventude de Buda, retém a magia do escritor alemão — consagrado e cultuado não por oferecer respostas para dilemas ou formulações fáceis para aflições, mas por tecer envolventes universos e tramas repletas de empatia, sempre apontado a capacidade de sublimação do ser humano na busca de sua essência. A tradução de Herbert Caro é publicada pela editora Record.
 
Nova edição de um dos livros marcantes de Nadifa Mohamed.
 
Hargeisa, segunda maior cidade da Somália, 1987. A ditadura militar que está no poder faz demonstrações de força, mas o vento que sopra do deserto traz os rumores de uma revolução. Em breve, pelos olhos de três mulheres, vamos assistir ao mergulho do país em uma sangrenta guerra civil. Aos 9 anos, atraída pela promessa de ganhar seu primeiro par de sapatos, a menina Deqo deixa o campo de refugiados onde nascera. Em circunstâncias dramáticas, conhece Kawsar, uma viúva confinada em sua cama após ser espancada por Filsan, um jovem soldado que deixara a capital para reprimir a rebelião que crescia no norte. Além de contar a história de uma guerra que chocou o mundo, Nadifa Mohamed desvenda a alma e a cultura do povo somali por meio de suas três protagonistas. A tradução de Otacílio Nunes, O pomar das almas perdidas, é reeditada pela Tordesilhas.
 
Nova edição de O casamento suspeitoso, de Ariano Suassuna.
 
Na peça O casamento suspeitoso, escrita em 1957, Ariano Suassuna dá continuidade ao seu projeto de realizar um teatro brasileiro erudito a partir de elementos extraídos da cultura popular, apresentando ainda, como pano de fundo, uma visão religiosa do homem e do mundo com enfoque no pecado da luxúria. A estética circense, já presente no Auto da Compadecida, permanece aqui, na dupla de personagens formada por Cancão e Gaspar, herdeiros diretos dos palhaços que marcaram o autor desde a infância. Valendo-se de jogos de cena consagrados pela tradição da comédia mediterrânica, Suassuna reafirma neste texto sua mestria absoluta no domínio das situações risíveis.
 
DICAS DE LEITURA
 
Na edição passada deste Boletim iniciamos — por ocasião de uma série de conteúdos sobre Dante Alighieri aquando lembramos os setecentos anos sobre a morte do poeta italiano — uma sequência com algumas dicas de leitura da obra e sobre. Em três números desta post. Começamos com três recomendações de três traduções diferentes para A divina comédia e agora avançamos com outros livros também escritos pelo autor e interessantes para o leitor compreender alguns meandros da grande obra e um pouco mais sobre o pensamento de Dante.
 
1. Convívio. Devido as situações políticas em sua terra natal, Dante Alighieri se viu forçado a partir para um exílio do qual nunca mais retornaria. Entre 1304 e 1307 trabalhou numa diversidade de tratados escritos já em dialeto florentino que visavam, à maneira do conhecido Banquete de Platão (o termo Convivio vem do latim convivium, banquete), tratar de assuntos dos mais variados temas do seu interesse — da política à filosofia, passando pela literatura. Estima-se que Dante tenha planejado quinze textos, mas só concluiu quatro; são textos que assinalam uma explícita celebração ao saber e o amor pelo saber. Em 2019, a Penguin / Companhia das Letras publicou uma tradução de Emanuel França de Brito para esses quatro tratados que sobreviveram até nós.
 
2. [A] Vida nova. Este livro foi escrito provavelmente entre 1292 e 1293 e o que Dante faz aqui é selecionar uma parte de sua obra lírica de variada forma (canções, baladas, sonetos) muito ao sabor do dolce stil nuovo. O livro alterna essa seleta de poesia com fragmentos em prosa que ora narram a história ora comentam sobre o conteúdo dos versos. A figura principal dos textos é a amada Beatriz, que, como sabemos, fundamental em A divina comédia. Assim, este é um livro que traz qualquer coisa de prenúncio do grande poema, sobretudo, na compreensão sobre as múltiplas feições que a musa assume em sua obra, símbolo metafísico, místico e sexual. “Vita Nuova é a narrativa de uma experiência humana indissociável de uma experiência estilística: se o amor de Beatriz dinamiza todo o percurso performativo de acção e reflexão do sujeito, simultaneamente, no desenvolvimento da personalidade, no aperfeiçoamento moral e espiritual, é a sua morte que provoca a necessidade da narrativa que ordena a existência passada dele e o consciencializa da exigência de renovar o modo da criação poética para que a sua poesia se abra à transcendência.” Isso nos diz Jorge Vaz de Carvalho, um dos tradutores do livro para o português. É uma pena que até o presente, os leitores brasileiros careçam de uma tradução confiável deste livro. Assim só nos resta três recomendações portuguesas: a tradução do próprio Jorge Vaz, a de Vasco Graça Moura, autor que destacamos entre as melhores traduções de A divina comédia no Boletim anterior, e Carlos Eduardo Soveral.
 
3. Rimas. Poderíamos citar outros dois textos de Dante Alighieri (e já o fazemos) que estão traduzidos entre nós — um deles, recentemente, De vulgari eloquentia, e Monarquia. Mas, preferimos ficar no literário e, se o leitor buscará uma tradução de Vita Nuova poderá encontrará uma tradução portuguesa que inclui este livro e Rimas (reunidos numa estonteante edição pela Imprensa Nacional e estas com tradução de António Mega Ferreira). Este é o que podemos chamar canzoniere; reúne toda a produção lírica do poeta italiano escrita ao longo de sua vida. Os temas aqui são os mais variados: da musa Beatriz à Ciência, da Filosofia / o saber à Moral. Além de Beatriz, comparece em quatro poemas de amor conhecidos como “Rime Petrose” uma mulher chamada Petra e que datam de 1296.  É importante sublinhar que o próprio Dante não é o organizador da obra, mas os críticos modernos a partir do tratamento de recolha e ordenação dos manuscritos do autor.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. Voltemos ao Tumblr. Reunimos numa postagem nove retratos possíveis entre os mais conhecidos e os mais singulares sobre Dante Alighieri. Do famoso perfil de Sandro Botticelli ao curioso retrato realista do pintor russo Iliá Efímovitch Repin. Trabalhos incríveis. Veja aqui
 
BAÚ DE LETRAS
 
1. No dia 25 de setembro de 1897 nasceu William Faulkner, um dos nomes mais lembrados neste blog — uma simples busca no pesquisador revelará um pouco disso. Para agora, recortamos estas três postagens: a primeira é uma lista de recomendações de leitura para se conhecer um pouco da substancial obra do escritor estadunidense; esta outra, um convite para saber algo sobre a sua passagem pelo cinema, tema que continua tratado noutra entrada; e uma pequena visita ao contexto histórico global da prosa romanesca de Faulkner.

2. No dia 26 de setembro de 1888, nasceu outro importante nome para a literatura do século XX, T. S. Eliot. Sobre sua obra, citamos outras três publicações do Letras, entre as mais recentes: esta que trata sobre as renegadas cartas de amor do poeta; esta sobre a multiplicidade criativa do poeta, discussão que, de alguma maneira continua aqui. 


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