Os escritores africanos com o Prêmio Nobel de Literatura antes de Abdulrazak Gurnah e suas principais obras publicadas no Brasil

 


De Abdulrazak Gurnah, soube-se muito tempo depois do anúncio do Prêmio Nobel de Literatura, que existia uma obra sua em língua portuguesa. A tradução de By the Sea (Junto ao mar), realizada por Fernando Dias Antunes e editada um ano depois da publicação deste romance, isto é, em 2003, pela Difel. Mas, se a lista de escritores africanos reconhecidos com o mais importante prêmio da Literatura é curta — cinco nomes em 120 anos de história do galardão —, a quantidade de livros desses autores acessível aos leitores brasileiros é generosa e significativa; cobre a mais longeva espera pela chegada por aqui da obra de Gurnah, além, é claro, de estabelecer contato com temas e questões caras ao universo criativo do escritor tanzaniano. Por isso, copiamos abaixo copiamos um breve perfil sobre os escritores africanos nobelizados e com a lista, alguns dos seus principais títulos disponíveis entre nós.

Wole Soyinka
 
Até 1986, nenhum escritor africano havia recebido o Prêmio Nobel de Literatura. Dedicado principalmente ao teatro, Wole Soyinka foi premiado, segundo a sucinta justificativa da Academia Sueca, porque “numa perspectiva cultural ampla e com matizes poéticos, inova o drama da existência”. Soyinka nasceu em 1934 em Abeokuta, na Nigéria. Concluiu sua formação superior na Universidade de Leeds e optou pelo inglês como língua para a criação de sua obra. No final dos cinquenta trabalhou como diretor, ator e dramaturgo, figura constante do meio em Londres. Sua obra mescla temas e tradições africanas e europeias. Regressa ao seu país natal nos anos sessenta e é quando sua obra se motiva para a crítica social. Preso durante a guerra civil, a partir dos anos setenta se firma numa leitura sensível sobre os problemas do povo nigeriano. No Brasil, saíram até agora os títulos Aké. Os anos de infância (2020), Os intérpretes (2018) e O leão e a joia (2012).
 
Naguib Mahfuz
 
Nasceu no Cairo em 1911 e morreu em 2006. Foi também o primeiro escritor em língua árabe a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Considerado um dos primeiros escritores contemporâneos da literatura neste idioma, o júri destacou sua obra como “uma arte narrativa árabe que se aplica a toda a humanidade”. Seus maiores reconhecimentos como escritor se deram no campo do romance, forma na qual escreveu mais de trinta títulos, e da narrativa curta, quase quatro centenas de textos. Seus primeiros romances se desenvolvem no Egito antigo com interesse em focalizar questões atuais. Mais tarde, desenvolve uma série de romances ambientados no Cairo contemporâneo; aqui se destaca por tratar sobre os dramas familiares durante a primeira metade do século XX. Naguib Mahfuz recebeu o Nobel em 1988. No Brasil se publicou O sussurro das estrelas (2021), Noite das mil e uma noites (2008), O ladrão e os cães (2008), Rhadopis. A cortesã (2006), Akhenaton. O rei herege (2005), Miramar (2003), O beco do pilão (2003) e O jogo do destino (2002).
 
Nadine Gordimer
 
A escritora sul-africana nasceu em 1923 em Gauteng e morreu em 2014 em Johanesburgo. De origem judaica, mãe inglesa e pai lituano, suas obras tratam sobre as consequências dos conflitos interraciais em seu país natal e o regime do apartheid — contra esse regime, Gordimer foi uma das vozes mais ativas. Quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1991, a Academia Sueca destacou que “através de sua magnífica escrita épica foi um grande benefício para a humanidade.” Escreveu mais trinta livros, entre eles, crônicas, peças, ensaios, contos e romances. Alguns dos seus trabalhos com tradução no Brasil são: O melhor tempo é o presente (romance, 2014); Tempos de reflexão. De 1954 a 1989 e Tempos de reflexão. De 1990 a 2008 (ensaios, 2012 e 2013, respectivamente); De volta à vida (romance, 2007); Beethoven era 1/16 negro (contos, 2009); O engate (romance, 2004); A arma da casa (romance, 2000); Ninguém para me acompanhar (romance, 1996); A história do meu filho (romance, 1992); O pessoal de July (romance, 1988); Uma mulher sem igual (romance, 1989); O falecido mundo burguês (romance, 1985); A filha de Burger (romance, 1985) e O amante da natureza (romance, 1982).
 
J. M. Coetzee
 
J. M. Coetzee nasceu em Cidade do Cabo, em 1940. Foi o segundo sul-africano a receber o Prêmio Nobel de Literatura doze anos depois de Nadine Gordimer. Começou sua carreira literária ainda no seu país natal e depois constituiu residência em várias partes do mundo, em cidades da Inglaterra e dos Estados Unidos, até se fixar na Austrália em 2002. A Academia Sueca o destacou pela “forma brilhante de analisar a sociedade sul-africana”. Nos anos de Londres, Coetzee trabalhou como programador de informática; num retorno a África do Sul, atuou como professor de literatura inglesa na universidade de Cidade do Cabo. Sua obra amplia muitos dos problemas e questões suscitadas pela literatura de Nadine Gordimer, como o apartheid. Muito da sua obra está publicada no Brasil: Contos morais (2021); Foe (2016); Juventude (2013); Verão (2010); Infância (2010); Diário de um ano ruim (2008); Homem lento (2007); À espera dos bárbaros (2006); Elizabeth Costello (2004); O mestre de Petersburgo (2003); Vida e época de Michael K. (2003); A vida dos animais (2002); Desonra (2000); No coração do país (1997); Cenas de uma vida (1998); Terras de sombras (1997); A idade do ferro (1992); e O cio da terra (1983), são alguns dos títulos.  

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