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Sobre “Novelário de Donga Novais” e os livros indispensáveis para o leitor de Autran Dourado

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Por Alfredo Monte ¹   Autran Dourado. Foto: Sophie Bassouls O tear das intrigas: o mundo... Duas Pontes Há alguns anos comentei o reaparecimento de Novelário de Donga Novais , de Autran Dourado, publicado originalmente em 1976 (e depois reeditado pela Guanabara). Porém, a Francisco Alves, a editora que na altura relançava as obras do grande autor mineiro, entrou em falência e sumiu do mercado, e algumas delas nem foram distribuídas às livrarias, ao que parece. Portanto, é agora que outra casa assumiu a reedição da obra inteira de Dourado que o leitor pode ter acesso a um dos textos mais surpreendentes, fascinantes e extraordinários (sei que esses adjetivos são muito usados, mas poucas vezes tão verdadeiramente como neste caso) da literatura brasileira contemporânea.²   Novelário de Donga Novais se passa em Duas Pontes, cidade-universo que é o palco da maior parte das narrativas de  Dourado. Seu Donga é o ancião janeleiro de Duas Pontes, de idade indefinida (“Ele não ...

Quatro contos de Émile Zola

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Por Raquel Jimeno Revilla Émile Zola. Arquivo Bettmann (Detalhe/ Reprodução)   É provável que, quando muitos de nós somos questionados sobre Émile Zola, só possamos mencionar seu papel como fundador do naturalismo e sua prolífica produção romanesca, a maior parte centrada na hipotética linhagem dos Rougon-Macquart que sintetiza a vida na França durante o Segundo Império. O que muitos de nós desconhecemos é que Zola também cultivou o conto com o mesmo nível de maestria de seus romances.   Entre os anos de 1875 e 1880, o escritor francês colaborou com a revista russa Véstnik Evropy (Mensageiro da Europa); eram com o objetivo de mostrar da forma mais detalhada e didática possível os personagens e cenários que caracterizavam a sociedade francesa da época. Mas, é exatamente a partir desse período que o estilo dos contos de Zola também conheceria uma clara evolução, marcando um distanciamento qualitativo em relação aos contos anteriores e impregnando-se do estilo naturalista defen...

Escritores em viagem: 18 livros

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Por Pedro Fernandes   Volta e meia aparece no Letras alguma lista de livros ou algum texto cujo tema é, talvez o mais antigo motivo da literatura, a viagem. No final destas novas recomendações, mais recomendações nessa interface, o leitor encontrará os caminhos que atestam a constatação levantada.   A recorrência dessa presença se deve à vasta biblioteca possível de organizar, inclusive, com seções variadas, transitando entre o ponto do relato historiográfico, memorialístico ao relato ficcional, não excluindo as estantes dedicadas à poesia com sua escala de variações, da geografia dos afetos à invocação quase turística, de lugares visitados física ou imaginariamente.   Bom, alguém já disse que um escritor munido de um objeto de anotação é sempre capaz de transformar qualquer experiência em matéria de escrita; ao viajar, por exemplo, pode sempre se estabelecer um próximo livro centrado no interesse pela viagem. E foi isso o que fizeram os autores dos livros listados aq...

Marrocos através dos livros

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Por Berna González Harbour Mahi Binebine © Fouad Maazouz   Viajar pelos livros pode ser tão ou mais enriquecedor do que percorrer os seus lugares; e as novas gerações de escritores colocaram o Marrocos num novo mapa literário essencial para conhecer o país. Em geral, já colocaram seus pés noutros mundos, no da emigração, no do exílio ou simplesmente no da fuga à opressão que ainda respiram em sua casa, desafiando o estandardizado modo de vida. Mas o país continua a ser um material literário dos autores. O mundo deles. Tal como o canário na mina 1 ou o alerta antecipado de tsunami, há muito que eles pintam o universo de enorme desigualdade que acaba de se tornar novamente evidente com o terremoto que atingiu a terra de Atlas. 2   Ver as casas de adobe destruídas pelos movimentos das tectônicas, ver a população indefesa lutando sozinha contra os infortúnios como se fossem desígnios divinos, a ajuda chegando em lombo de burros e o Rei Mohamed VI visitando dias depois algumas vít...

Jesus na literatura: protagonista de um calvário

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Por Daniel Gigena A Crucificação. Peça central do Retábulo de Issenheim. Matthias Grünewald, 1512-1516. Museu de Unterlinden, Colmar, Alsácia, França.   Os Evangelhos, e sobretudo as passagens sobre os últimos dias da vida de Cristo, desde a entrada triunfal em Jerusalém, montado num pacífico jumento, até à via crucis, morte e ressurreição, ultrapassam o âmbito da religião cristã e fazem parte da cultura universal. Ao longo do tempo, e sem deixar de questionar a história oficial, escritores proeminentes recriaram sua vida e seus ensinamentos em chave literária. “Por baixo da herança cultural deve haver uma herança psicológica comum; se não fosse assim, todas as formas de cultura e imaginação que não estivessem dentro de nossas próprias tradições não seriam compreensíveis”, postulou o crítico literário canadense Northrop Frye. Como Jesus é representado na literatura contemporânea?   “De que pode servir-me que aquele homem/ tenha sofrido, se eu sofro agora?”, se pergunta o poem...

Dez livros imprescindíveis de Javier Marías

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Por Jaime Cedillo Das sete décadas de vida, cinquenta foram dedicados à escrita, dedicação que remonta a 1971, com apenas 19 anos, portanto, quando estreou com o romance  Os domínios do lobo . Nesse tempo, Javier Marías formou um universo muito pessoal que lhe valeu o reconhecimento dos mais prestigiados críticos internacionais. Por mais de uma década, não houve um ano em que seu nome não circulasse entre as apostas para o Prêmio Nobel de Literatura, o prêmio mais relevante para escritores. Na Espanha, muitos foram os que até hoje afirmaram que ele era o melhor escritor entre os contemporâneos. Marías, com a indiferença que sempre o caracterizou, negou todas essas posições até sua morte.   De qualquer forma, o lançamento de cada um de seus romances gerou expectativas sempre elevadas na crítica especializada e em seus leitores mais fiéis. Suas obras foram traduzidas para quatro dezenas de idiomas e publicadas em meia centena de países. Quanto ao seu início como romancista, se...

Escritores em viagem e romances de viagem

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Por Joaquín Pérez Azaústre Caspar David Friedrich, Caminhante sobre o mar de névoa , 1817.   Você precisa de uma viagem, mas ainda não sabe para onde. Diz o seu corpo, lhe diz o medo diante de uma sala que se torna cada vez menor, mesmo quando escreve. Essa febre de luz e palavras que chegam em torrente agora se torna espessa. Porque é disso que você sente falta quando estende os olhos além do limite do texto: distância, horizonte. Isso que lhe dá pano de fundo e perspectiva em contraposição de vozes.   Você precisa se mexer com urgência: impossível pensar em tudo isso sem considerar os dois últimos anos de pandemia, porque o confinamento tem sido um sufoco moral. Precisamos nos expandir além de nossos ambientes, para que possamos voltar e suportá-los novamente: até mesmo celebrá-los, se ficarmos tranquilos. E os escritores que sobreviveram à tentação de escrever seu romance sobre a Covid precisam seguir o caminho para encontrar, mais uma vez, seu lugar de escrita no regresso....