Voltar a Dino Buzzati

Por Luis Mateo Díez




 
Jorge Luis Borges, amante confesso e fascinado daquela que é unanimemente considerada a obra-prima de Dino Buzzati: O deserto dos tártaros, dizia que podemos conhecer os clássicos mas é mais difícil fazê-lo com os contemporâneos e, no entanto, há nomes que as gerações futuras não se resignarão a esquecer. Um deles é provavelmente, afirmava o escritor argentino, o de Dino Buzzati, cuja vasta obra, não raro alegórica, exala angústia e magia, a influência de Poe e do romance gótico como foi declarada por ele; outros falaram de Kafka, mas por que não aceitar, sem desmerecimento algum de Buzzati, como ilustres mestres?
 
O deserto dos tártaros é, por várias razões, uma obra singular, além de uma obra-prima e o limite do que se supõe o todo da obra do autor se relaciona com essa inquestionável mas também com a herança de todos os demais. Este não é um daqueles casos em que o romance sozinho fulgura à distância, quase como se o próprio autor tivesse saído do controle, deixando o resto de sua obra em segundo plano.
 
Há questões cruciais na narrativa de Buzzati que estão intimamente relacionadas àquela que forma a espinha dorsal da fábula do Deserto, que remetem a uma concepção de mundo onde a espera é aliada da consciência do tempo e da regra do sofrimento. A dor é a verdadeira mentira do mundo, escreve Buzzati, a verdadeira vergonha do mundo. E desde seu primeiro romance essa concepção, esse olhar que muitas vezes exala angústia e terror, se expressa na espera, no sentimento de que o desconhecido deve vir como resposta à expectativa de nossas contradições mais íntimas.
 
A espera que se torna um destino, como acontecerá com o jovem oficial que esperará na Fortaleza Bastiani por um ataque que não ocorre, guardando uma fronteira que parece um deserto imaginado. O tempo imóvel na rotina de uma atração tão poderosa quanto inútil, o cumprimento de uma missão mais próxima do espírito do oficial, de suas insondáveis ​​percepções misteriosas, de suas preocupações e sonhos, do que o comando exige.
 
A espera consome também o protagonista de Um amor, uma das fábulas mais radicais da narrativa contemporânea sobre os desastres da obsessão amorosa, a fatalidade de se apaixonar e converter o amado em uma exigência perturbada que apaga o mundo e justifica a vida no limite de sua invenção, quase de sua abstração. O encontro de Tonino, o protagonista, que resolve seus casos amorosos com uma intermediária de confiança e com disposição semelhante aos seus hábitos burgueses, com Laide, uma garota que quebra os ritos estabelecidos, revolucionará a ordem vital e explodirá qualquer vínculo em que Tonino resguarda seus costumes.
 
A espera por Laide será o tormento que os ciúmes, as suspeitas, as dívidas e as recompensas devastarão. O desejo acabará sendo um canal de dissolução, a ponto de a obsessão de Tonino tornar sua amada praticamente desnecessária, como se o próprio mecanismo da angústia passional fabricasse seu objeto inútil, uma paisagem de irrealidade, uma fronteira impossível. entre prazer e sofrimento onde um parece seu próprio inimigo. A espera desesperada por um amor que nem precisa mais ser consumado, o destino de uma reconciliação insatisfatória no próprio espírito do amante adiado, que mal consegue a paz em um sonho, quando tudo já está perdido.
 
Poderia se dizer que O grande retrato, o último romance de Buzzati, completa, de maneira muito especial, já que se trata de uma fábula com características mais explicitamente fantásticas, uma trilogia sobre essa questão crucial da espera como destino, tão rica em toda a sua obra. Nele, a espera é também a mola de uma descoberta, de uma misteriosa expectativa que vem num além da invenção obsessiva. Novamente o tema do amor, da ressurreição e do fracasso.
 
As fantasias alegóricas, às quais Borges busca sábios parentescos em sua declarada admiração, encontram em Buzzati o terreno fértil das tradições populares, uma maravilhosa área lendária em sua inventividade, que converte alguns de seus livros de leitura supostamente juvenis em autênticas histórias extraordinárias, sem medida ou idade em seu alegre fascínio. Refiro-me a O segredo do bosque velho ou A famosa invasão dos ursos na Sicília, onde o simbolismo se combina com a imaginação surreal e a escrita alcança aquela beleza do maravilhoso e do arquetípico, com a atração adicional dos desenhos com que o autor iluminava suas histórias, já que Buzzati também era um excelente ilustrador.
 
Dino Buzzati nasceu em Belluno em 1906 e morreu em Milão em 1972. Um século depois, há um certo associacionismo solitário em torno de Buzzati, que vale a contradição: granjeou a admiração de quem teve a sorte de conhecê-lo há muito tempo. A convicção desses velhos leitores é férrea, e na avaliação de sua obra-prima há a sensação de que é uma das fábulas que mais misteriosamente expressa o que aconteceu com o ser humano no século XX, o espelho metafórico de sua condição em tal momentos cruciais. Fábula muito compatível, nesse sentido, com A metamorfose de Kafka ou O estranho de Camus, se entendermos que da ficção, o claro-escuro especular contribui com uma dimensão diferente, entre visionário e imprevisível, do próprio fluxo da história, da inquietação ou do desconforto de tantas ameaças e sofrimentos.
 
Ele é um dos grandes do século passado e sobre O deserto dos tártaros Borges dizia que em suas páginas leva o romance de volta à epopeia, que foi sua fonte: o deserto é real e simbólico, é vazio e o herói à espera de multidões.
 
* Tradução livre de “Volver a Buzzati, a los cien años”, publicado em El Cultural.

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