Lúcio Cardoso

“Escrevo para que me escutem — quem? Um ouvido anônimo e amigo perdido na distância do tempo e das idades. Para que me escutem se morrer agora. E depois, é inútil procurar razões. Sou feito com estes braços, estas mãos, estes olhos e assim sendo, todo cheio de vozes que só sabem se exprimir através das vias brancas do papel, só consigo vislumbrar a minha realidade através da informe projeção deste mundo confuso que me habita. E também porque escrevo porque me sinto sozinho. Se tudo isto não basta para justificar porque escrevo. o que basta então para justificar alguma coisa na vida? Prefiro as minhas pequenas às grandes razões, pois estas últimas quase sempre apenas justificam mistificações insustentáveis frente a um exame mais detalhado.”

(Lúcio Cardoso)¹






Todos os anos certamente têm seus nomes importantes para serem celebrados. E se Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado são os autores dos mais conhecidos a compor a cara de 2012, outro nome não pode deixar de integrar esse curto e potente rol — o do escritor mineiro Lúcio Cardoso, que descobri dia desses pelo lançamento das quase mil páginas de poemas publicadas pela Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), um trabalho excepcional que reanima uma parte da obra de Lúcio ainda por conhecer: está aí tudo o que se conhece até agora da poesia dele e é muito se compararmos aos dois livros que publicou e há muito esgotados — Poesias (1941) e Novas Poesias (1944). 

2012 será o ano de centenário do escritor. E além desse apanhado poético composto por Ésio Macedo Ribeiro, chegará às livrarias um Lúcio Cardoso inédito conforme matéria publicada no caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo. A pesquisadora Valéria Lamego é a responsável por essa empreitada; ela apresenta duas reuniões de contos: uma delas com as narrativas de crime e matéria policial, textos que divisavam as publicações nos jornais cariocas com o universo decadente ficcionalizado de Nelson Rodrigues. Outra parte da obra de Lúcio por conhecer. 

Muito antes, já em 2002, quando se restabeleceu a ideia de uma edição da obra completa do escritor, um trabalho minucioso de André Seffrin revelara, a novela inédita e inacabada Baltazar, material compilado com outros dois textos do gênero, Inácio O enfeitiçado. No interesse de Lúcio Cardoso pelos ciclos narrativos, talvez influenciado por Balzac e sua Comédia Humana, essas três novelas compiladas por Seffrin constituiriam a trilogia O mundo seu Deus.

Lúcio Cardoso, nasceu em Curvelo, Minas Gerais, no dia 14 de agosto de 1912 e pode ser considerado com um dos maiores representantes do gótico brasileiro — conforme nota publicada na Revista Carcasse. Publicou prosa (conto, crônica, romance, novela, diário...), teatro e poesia. E não esteve restrito às artes literárias; também escreveu roteiros e se aventurou no cinema, também desenhou e pintou, realizando ainda algumas exposições com este trabalho. Um artista, portanto, multifacetado, inquieto e sempre movido por um interesse profundo de mudança.

A obra literária de Lúcio Cardoso pode ser desenvolvida em duas fases: uma que cobre os anos desde a sua estreia, em 1934, com Maleita, à publicação de A luz no subsolo, em 1936. Entre as duas obras, publicou, Salgueiro, em 1935. Toda essa fase aparece numa zona de indecibilidade estilística; interessado desde sempre pelos estados íntimos, o escritor mineiro, fica entre uma ficção introspectiva e uma ficção de feição social, esta em tudo diferente do tom engajado da literatura dominante. 

O interesse pelos estados íntimos se aprofunda a partir de 1936. A segunda fase da sua obra cobre, dessa maneira os livros Mãos vazias (1938), O desconhecido (1940), Dias perdidos (1943), A professora Hilda (1946), O enfeitiçado (1954) e Crônica da casa assassinada (1959). Este último é considerado seu romance mais importante e um marco na literatura brasileira.

Adonias Filho assim descreve esses dois movimentos criativos de Lúcio Cardoso — “Antes: um romancista ligado a processos contrários ao seu temperamento; um autor indeciso e vacilante, ouvindo mais a voz dos outros do que a sua; um escritor que procura as suas formas de expressão, mantendo-se na superfície dos acontecimentos, das idéias, das paixões. Depois: um romancista de análise e de introspecção; um autor que se afirma com tendências dominantes do seu meio, procurando exprimir-se com um máximo de sinceridade e de harmonia consigo mesmo; um escritor que nenhum preconceito e nenhum escrúpulo perturbam no seu propósito de revelar, em profundidade, as forças íntimas e mais desconhecidas que movimentam os homens, os seus sentimentos, os seus atos.”

Essa guinada a partir de 1936, colocou Lúcio Cardoso ao lado de uma valiosa linha da literatura brasileira cuja raiz repousa em Machado de Assis, passa por Raul Pompéia e alcança nomes como Cyro dos Anjos, Cornélio Penna, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Autran Dourado até chegar a autores do nossos dias como uma Hilda Hilst e uma Lygia Fagundes Telles.

O escritor, se não foi um feitor do teatro moderno no Brasil, contribuiu para sua modernização. É valiosa, por exemplo, sua atitude de escrever peças que alcançaram o Teatro Experimental do Negro, fundado Abdias Nascimento; é de Lúcio a ousadia de colocar no protagonismo da cena personagens e autores negros em trabalhos como O escravo (escrita em 1937) e O filho pródigo (1947). Para Sábato Magaldi, a primeira peça de Lúcio Cardoso significou o primeiro esforço de integração do teatro brasileiro na modernidade. 

Além dessas peças, escreveu pelo menos outras seis perfazendo quase duas décadas de dedicação ao gênero: A corda de prata (1947), Angélica (1950), O homem pálido (s.d.) e Os desaparecidos (uma peça incompleta); e duas peças em um ato, Auto de Natal Prometeu Libertado. Toda essa obra está reunida em Teatro Reunido, publicado em 2006. 

Seu feito mais popular, depois de ser o autor de Crônica da casa assassinado foi a realização do roteiro de Porto das Caixas (1961), filme precursor do Cinema Novo; as tentativas de Lúcio com o cinema o aproximaram de figuras como Mário Peixoto (o autor do Cult Limite) e Paulo César Saraceni (quem mais tarde desenvolveria a adaptação do principal romance de Lúcio e da novela O viajante, um texto também póstumo). Como cineasta Lúcio Cardoso deixou incompleto o longa A mulher de longe

Para Danilo Corci, “Lúcio Cardoso é um caso raro em nossa literatura. Homossexual em conflito, pintor em gênese, escritor de fato, lutador agoniado, ele descobriu uma passagem secreta em nossa forma de ver o mundo, em nossa alma brasileira muitas vezes inconformadas e deslocadas. Descobriu que existe, sim, um lado de trevas em todas as nossas luzes. E que é mais comum do que se imagina”²

O escritor morreu no Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1968.

Notas:
¹ Nota publicada no site Releituras.
² Nota publicada na Revista Carcasse, setembro de 2006.

Ligações a esta post:
>>> Leia poemas de Lúcio Cardoso aqui.


Comentários

Um escritor tão distinto mas com pouco destaque.
Sua obra merecia uma nova reedição com uma edição e art mais caprichada.

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