A filha do pai, de Daniel Auteuil



Este é um filme de estreias: Astrid Bergès-Frisbey ocupa pela primeira vez o papel principal num longa; seu primeiro trabalho foi em 2008 no premiado Uma barragem contra o Pacífico, depois fez uma comédia, La première étoile, em 2009, e neste mesmo ano atuou na série para televisão La reine morte. Ainda atuou em Bruc, La llegenda, em 2010, foi uma das sereias em Piratas do Caribe – a fonte da juventude. Já Daniel Auteuil dirige seu primeiro filme. Dirige e atua. É ele o divertido poceiro Pascal Amoretti, viúvo e com um ‘batalhão’ de mulheres, suas filhas, sob sua responsabilidade. Aliás, esse é um daqueles filmes que toma como centro das atenções a rara figura do pai de família, mas sem se reduzir ao drama piegas. Pois bem, desse grupo de mulheres, a mais velha, Patricia (vivida por Astrid), é o tesouro mais valioso do pai, pela presteza no cuidado com as irmãs e com a casa. Ela é a que, pela força da circunstância desenvolve um instinto maternal desde cedo e assume para si as responsabilidades devidas de uma dona de casa.


Mas, não seria uma história de amor se, no caminho dessa harmonia toda, o próprio amor não se atravessasse e na sua forma mais comum: a de fazer uma reviravolta na vida dos envolvidos. E nesse caso é Jacques Mazel, aviador e filho único de um rico casal de comerciantes, que se interpõe no caminho de Patricia já então comprometida com um amigo de seu pai, também poceiro. Fato é que Patricia engravida do aviador no justo momento em que a mãe descobre o envolvimento e quando já está de partida para as forças de base que irão engrossa a corda dos homens de guerra. Dado como morto depois que seu avião desaparece num dos combates, Pascal, ao lado da filha cumprirá um itinerário de recusas; e até que tudo possa voltar às linhas da vida normal que levavam (e não vamos dizer se volta) custará um tanto. Precisará nascer o neto, precisará as famílias envolvidas brigarem, depois se reconciliarem, e só então poder se falar sobre a possibilidade de um desfecho favorável, tal como uma novela. 

O filme é uma adaptação de um romance de Marcel Pagnol (escritor, dramaturgo e também cineasta francês) e  o remake de outro filme do próprio Pagnol, La fille du puisatier, de 1940. O autor de Jean de Florette, A vingança de Manon, A glória de meu pai e O castelo de minha mãe é uma espécie de Best-Seller clássico da literatura francesa que buscou retratar o meio rural do sul da França e todos esses romances foram adaptados com grande sucesso para o cinema, tendo na atuação de alguns o próprio Daniel Auteuil.


Apesar do enredo simples e o drama leve, A filha do pai conquista pela capacidade verbal, comum dos filmes franceses. Tingido pelas cores da delicadeza e da ingenuidade, estampadas na imagem assumida por Astrid, o filme é um jogo entre esses elementos e a maturidade de Patricia, entre o entendimento machista, autoritário de um pai e o da filha que lhe deve respeito e zelo moral. A leveza do filme é impresso ainda no enredo da narrativa, que mesmo sendo uma história de amor, não precisa expor o corpo nu na tela, cumprindo com o ritmo já desenhado para a o imbróglio já muito bem desenhado desde o início de tudo. Por tudo isso, terá sido um dos destaques, na cena contemporânea das produções francesas.


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