Amor, casais e casamentos em William Shakespeare (2)

Por María Méndez Peña


Frederic Leighto. The reconciliation of the Montagues and the Capulets over the Dead Bodies of Romeo and Juliet.





Amor pode significar amante, amigo, ou um tipo de ação. Há uma aberta proximidade entre amor e amizade. Às vezes por amor significa de todas as formas. Os assuntos do amor luzem por trás das cortinas, de onde saem os cenários: ali se conjuga uma fina sensibilidade ao prazer e à dor com uma enorme capacidade de idealização estética.

As alusões maravilhosas ao amor em Shakespeare provêm de uma personagem muito jovem e apaixonada, Romeu. Ele, no começo da tragédia, afirma: “O amor é dos suspiros a fumaça; puro, é fogo dos olhos que os olhos ameaça; um mar de lágrimas de amantes. Que mais será? Loucura temperada, fiel ingrato, doçura refinada”.

Sobre o amor, um caso extremo mas retorcido, como corresponde ao personagem, aparece na corte do Duque de Gloucester a Lady Ana viúva, em frente ao caixão de seu esposo, num confuso jogo de palavras, matar-amor, matar-amante. “O amor de uma mulher já foi feito dessa maneira? E ainda assim, a conquisto! O universo contra nada!”

Há uma clara e sutil identificação entre amor e ciúmes, particularmente em Otelo, embora tal aproximação esteja em outras obras de teatro com uma ambiguidade e vulnerabilidade implícita. Os tormentos do amor, incendiados pelos ciúmes e-ou pelas traições conjugais, são uma invenção estética de Shakespeare, conseguindo mostrar com alcances universais, e mediante dramas, as catástrofes geradas pela/a partir da sexualidade. “Os ciúmes, esse malvado bastardo de Vênus e Mercúrio”, em Romeu e Julieta. A grandiosidade erótica de Julieta e o esforço de Romeu por aproximar-se do estado sublime dela dão conta da celebração do amor romântico. Julieta a Romeu: “Não jures de modo nenhum. Ou, se quiseres, jura pelo teu ser gracioso, que é o deus da minha idolatria, e acreditarei em ti.”

Outro tratamento trágico e sombrio acerca do amor se encontra em Rei Lear.  Aqui todas as personagens, homens ou mulheres, perseguem seu destino porque suas vidas estão assoladas constantemente pelas ambivalências e as ambiguidades do amor familiar e seus sombrios deslocamentos, diz Harold Bloom. Os versos de Cordelia parecem antecipar enormes tormentas: “Infeliz de mim que não consigo trazer meu coração até minha boca”. Porque a tragédia maior no amor é a tragédia doméstica, que flui e desgarra a partir do próprio sangue: “és um tumor, uma ferida inchada, um furúnculo apostemado em meu sangue apodrecido”, diz Lear à sua filha Goneril. Com Lear, Shakespeare nos mostra que todos somos ou podemos chegar a ser como bobos (fools – palavra que arrasta vários sentidos: amados, enganados, loucos, bufões, mas sobretudo, vítimas).

Nas histórias de traição que tanto impressionavam ao público se exibe o jogo das mentiras recíprocas no amor; é o caso de Marco Antonio e Cleópatra, em que o amor aparece preso com a tessitura da teatralidade e as mentiras mutuamente consentidas, amar é simular. “Amar é simular confiança mútua”.

“Os homens são a primavera de abril quando se enamoram e namoram, e são o inverno de dezembro quando se casam. As donzelas são a primavera de maio quando são donzelas, mas o céu muda quando elas se tornam esposas. Vou sentir mais ciúmes de ti que um pombo-macho de sua fêmea”. Com esses versos uma mulher excepcional como Rosalinda em Como gostais, destaca abertamente a imemorial e constante angústia masculina pelas traições. Em Trabalhos de amor perdidos encontra-se outra advertência, desta vez, de um homem, Biron, que menciona Cupido sob a vingança de prometer a traição: “Esse chorão de cueiros, rabugento, menino-velho, míope, anão-gigante, Dom Cupido, regente dos sonetos amorosos, senhor de mãos vazias, ungido soberano dos suspiros e gemidos, de todos os madraços e descontentes, príncipe temido das saias, rei de todas as braguilhas, único imperador, grande caudilho dos meirinhos vagantes.” E em Muito barulho por nada encontra-se outro aviso sobre o vívido medo dos homens às traições conjugais; desta vez é pela boca de Benedito, homem casado quem traz à cena a obsessiva preocupação de Shakespeare: casa-te e te prepara para que te ponham chifres. Mais adiante voltaremos ao assunto das traições conjugais; adultério é coisa examinada por outros escritores como Honoré de Balzac.

Loucura, cegueira e dor em torno do amor doméstico se juntam em Rei Lear, considerada a mais sombria e violenta das peças de Shakespeare. Lear ante o cadáver de sua filha mais nova, Cordélia lamenta: “Por que um cão, um cavalo, um rato têm vida e tu já não respiras? Nunca mais voltarás, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca! São as palavras de amor mais dolorosas que possivelmente Shakespeare escreveu. É a dor de um pai ante a morte de seu filho.

Mas, antes desta cena, o velho Lear lançou um feroz ataque contra a condição feminina a partir de sua imaginação doente e assediada pela dúvida sobre a paternidade. Quando Lear fala sobre suas duas filhas mais velhas, ele trata os limites profundos das piores desgraças com fortes metáforas: “Da cintura para cima são mulheres; da cintura para baixo são centauros. Só pertencem aos deuses até a cintura; embaixo é tudo do demônio. Ali está o inferno, a treva, o poço sulfuroso – queimando, ardendo, fedendo, consumindo. Que asco! Asco!” Também há doses de perversão nas intervenções de Edmundo: “Tu, Natureza, és minha deusa [...] Quem, na luxúria furtiva da paixão, recebe o fogo vital, constituição mais robusta, nós, ou os germinados numa cama insípida, sem calor, leito cansado, uma raça de frouxos e depravados, gerados entre o sono e a insônia?” E, não menos escandalosa pode ser a frase de Edgar ao referir-se ao sexo da mulher como “esse escuro e vicioso lugar”.

O amor em qualquer das modalidades, familiar, erótico ou social é transformado no maior e no mais denso dos valores dramáticos e estéticos, embora o dramaturgo o despoje de todo suposto valor comum. Shakespeare se nega a considerar o amor como um agente universal; segundo Johnson, para o bardo inglês, “o amor é apenas uma entre muitas paixões e como não tem muita influência no cotidiano da vida tem pouca presença nos dramas de um poeta que tomava suas ideias do mundo vivo e exibia unicamente o que via ante si” (Ben Johnson, poeta e amigo de Shakespeare, se refere particularmente ao amor entre os amantes).

E se o amor é apenas uma entre as muitas paixões humanas, então Shakespeare sabia que qualquer outra paixão, seja comedida, seja transbordante, era a causa da felicidade, das tragédias e das desgraças. Em todo caso, as variedades do amor constituem uma linha ardente e uma constante inquietude na obra do inglês. Nos sonetos, considerados por muitos estudiosos como documentos biográficos, há um ritmo amoroso e sexual extremo; esse ritmo mobiliza e conjuga vitalidade e morte, prazer e repugnância, saudade e aborrecimento (cf. Greenblatt, 2015).

Casais e casamentos

Voltemos ao outro tema enunciado. Há poucos casamentos felizes se considerarmos os conteúdos da literatura e da mesma maneira há poucas representações da bondade no seu âmbito. Pelo lado contrário as narrativas e retratos da longa chatice e do intermitente desastre sobram. Shakespeare em particular não tem interesse em mostrar que os casais se saiam bem. Em Muito barulho por nada, Beatriz condensa em três palavras muitas e diversas histórias humanas. “Apaixonar-se, casar e se arrepender...”

A última frase de Shakespeare não encerra um tom sombrio. Mas não deixa de soltar uma dose de humor e realismo sobre os espectadores que são convidados a entrar no círculo encantado do amor sabendo-se de sua ilusão transitória, enquanto dura a obra, ali no teatro mágico, o teatro do mundo.

Seguindo suas obras, notamos que aparecem duas visões igualmente desagradáveis do casamento: uma, quando o casal passa sua vida entre brigas e ofensas a todo tempo; a outra, quando a vontade da mulher é completamente dobrada. De qualquer maneira, o dramaturgo não deposita muitas expectativas de felicidade ao longo prazo.

Atendendo ao tema dos casamentos e dos casais, curiosamente Shakespeare se mostra bastante reservado nas descrições sobre como era na realidade estar casado. Assim, nos vínculos entre os casais, o que se conta é a extensa gama expressiva que alude à complexidade, os dissabores e os vaivéns na dita relação. Confeccionamos alguns outros pontos para sistematizar e apresentar este tema:

- Shakespeare chegou a produzir imagens perduráveis sobre os casais presos no abismo escuro do ódio, como Goneril e o Duque de Albânia.

- Na maior parte dos casos, eles se encontram incomunicáveis num estado de distanciamento muito sutil e complexo, como Hotspur e Kate.

- O casamento está caracterizado pelo isolamento mútuo, assim, alguém permanece intencionalmente excluído da vida do outro e incomunicável; no casal Brutus e Pórcia, esta fica desterrada do leito, da vida dele, a ponto de se lamentar e sentir-se mais uma rameira que uma esposa.

- O tema dos ciúmes é o centro e força motriz de Otelo e, segundo Dedalus, coloca em relevo uma face de Shakespeare: “Seu intelecto inexorável é o de Yago, louco de ciúmes, desejando incessantemente que sofra a delinquência que habita nele. O rapaz do primeiro ato é o homem maduro do quinto ato. Em tudo e por tudo. Em Cibelino, Otelo, é o chulo e cornudo. Atua e sofre”.

- Shakespeare não é o único escritor de seu tempo em que é difícil imaginar uma intimidade conjugal plenamente conseguida.

- Ante a impossibilidade do divórcio, aos escritores estava aberta a opção de fazer piada sobre a resistência e a resignação; de plasmar em suas personagens os anos de casamento sob um discreto e esquivo silêncio; de escrever poemas de amor, sublimes ou eróticos para outra mulher, mas não à esposa.

- O mais sensato era esperar que o casamento trouxesse consigo estabilidade e comodidade e nada mais que isso; não se descarta a amargura do coração e o ardor dos olhos pelas noites em claro.

-  Até 1580, em Stratford e outras cidades, o casamento não existia como solução imaginária nem como prática; ante as poucas expectativas culturais, em Shakespeare se nota certa distância ao representar o casamento a partir do interior exceto nas tragédias, como Hamlet e Macbeth.

- Representar o casamento a partir do seu interior inclui considerar o problema da infidelidade da esposa e este assunto é tratado por Shakespeare com várias saídas; no drama passional de ciúmes e suspeitas, em grande parte infundadas para logo depois o  desenlace, por vezes trágico como em Otelo e encerrado em peripécias como em Conto de inverno; nas duas obras, no fim, prevalece a inocência da mulher.

- Também mostrou o desejo frustrado de intimidade conjugal  atribuído quase exclusivamente às mulheres, às esposas abandonadas; o caso espetacular é Adriana em A comédia dos erros; uma angústia salta em seus versos: “Que aconteceu, querido esposo, para que estranho, assim, ficasses de ti mesmo?” Ou seja – ao aproximar-se da sua esposa, ele muda, é outro ser. Essa grandiosa frase, “para que estranho, assim, ficasse de ti mesmo” encerra em nosso entendimento uma imensa e dolorosa pergunta.

- Na solidão frustrada da intimidade, se vislumbra a provocação que um faz do outro, como é o caso de Leontes e Hermione em Conto de inverno; a entonação do verso permite seguir neles dois a luta combinada entre a zorra sexual e a jura de amor, o elogio e a piada, a tensão reprimida e a provocação; sendo a obra da maturidade, aqui Shakespeare mostra um casamento complicado com um marido atormentado pelas suspeitas da traição.

- No final desse conto de inverno sugere que o casamento não pode manter-se, não pode recuperar a intimidade emocional, sexual e psicológica que possuiu há algum tempo, quando foi gratificante e arrebatadora.

Há mais características temáticas que cabe destacar a partir de outras comédias. Trata-se do fio do desconforto no casal, fio que combina temores, brigas, má-fé, insultos, suspeitas e, no fim, traição. Também se detecta uma mistura alquímica quando se trata de um casal com uma longa intimidade, como no caso de Beatriz e Benedito em Muito barulho por nada; apesar dos contínuos insultos entre os dois e as mútuas declarações de amor. Beatriz sai e lança-se à frente em todos as brigas do casal.

Em Trabalhos de amor perdidos, durante vinte e dois longos versos Shakespeare faz uma homenagem à visão e ao olho feminino, para logo passar à relação entre o intelecto e a visão feminina, de onde se desprende que os homens se apaixonam muito cedo graças ao estímulo visual e as mulheres se apaixonam de maneira mais compreensiva e sutil. Também as mulheres têm um sentido mais autêntico da realidade, enquanto os homens sempre são infantis e demoram a alcançar a maturidade (cf. Bloom, 2002).

No casal Rosalinda e Orlando é ela quem corteja o homem e não o contrário – na obra Como gostais, onde a vaidade masculina se vê vencida. Rosanlida, entretanto, é a personagem feminina mais completa e admirada pelos leitores e espectadores do bardo inglês. Ela chega a transcender porque instrui o público sobre como conquistar, como ser uma consciência harmoniosa. Ela é vital, está distante da malícia, é um espírito livre e sem ressentimentos. É a representação da felicidade e, acima de tudo, é única e incomparável a outras personagens. Rosalinda sobre os amantes, diz: “Eles são uns ingênuos ao comprar nossas provocações”. Sendo muito pragmática, não se lamenta da desigualdade frente ao homem, não se detém nisso e se dedica a instruir Orlando. Em Shakespeare, os casamentos, cômicos ou não, resultam ser bobagens ou grotescos, pois as mulheres tendem a se casar por debaixo de seu nível; é o caso de Rosalinda.  Ou não são muitos os acordes do sexo masculino com a bela escultura humana de Rosalinda.

Uma personagem interessante quanto à conduta masculina é Malvolio em Noite de reis. É um caso pontual sobre o autoengano, a arrogância e a autoestima. Ao longo da obra ele recebe várias degradações, merecidas. É um egocêntrico cego e Shakespeare com ele exibe um estudo cruel e humilhante do homem: “O fátuo acredita que todos os que o vê o amará”. Acrescentamos, o admirará o aplaudirá. No fim, todos os seus dissabores voltam “no moinho do tempo e trai suas vinganças”, porque Malvolio acredita pomposamente em suas próprias fantasias e suas armadilhas eróticas. Em Shakespeare a imaginação erótica é o universo mais vasto e pode chegar a ser o mais vergonhoso, dada as oscilações em torno da autoestima e do autoengano. Estas teses apontam diferentes níveis de consciência com significados velados.

Charles Robert Leslie. Catarina e Petruchio (Ato IV, cena 1)


Catarina e Petruchio formam o casal mais felizmente bem-realizado de Shakespeare e em permanente e belicosa provocação. A megera domada é uma comédia e uma farsa, ou uma obra dentro da obra, onde a força e a fragilidade intercambiam significados. Quem cura? E quem é curado? O casal numa rua de Pádua vê-se em troca de galanteios, o que é bastante excepcional se se considera a conduta de Shakespeare para com os casamentos. Catarina, como se por ironia, diz: “Envergonha-me que as mulheres sejam tão simples”. Parece um conselho às mulheres de como obedecer fingindo, mas não cabe outro sentido mais sutil e estético: ela instrui com a arte de sua vontade, uma vontade ferina, refinada e esmerada. Segundo o título da obra, a fera a domar é Catarina, mas é Petruchio, seu arrogante e vociferante esposo, a quem Catarina irá curar e instruir.

Noutras comédias românticas Shakespeare não mostra um só casal de amantes que passem a sensação de estar profunda ou intimamente feitos um para o outro. Embora não deixem o galanteio e o desejo, não se encontram promessas de compreensão ou de partilha a longo prazo. Pelo contrário, mostram-se casais que embarcam felizes em tudo aquilo que oficialmente promete ser um bom casamento ou mostram-se casais que estão na direção diametralmente oposta. “Rogo-lhes, Senhor, não me fazeis casar com uma puta”, pede Lucio em Medida por medida.

A angústia ao fim destas obras, famosas pelo incômodo que elas propiciam, não deriva de uma desatenção do dramaturgo ante os infelizes amantes que se encontram e desencontram, se amam, se ofendem e saem de cena. Incômodas também por outra característica própria destes casais: eles vivem entre as contínuas brigas ou agressões verbais e às sutis formas de distanciamento e incomunicabilidade. No fim, isto pareceria a mostra de um profundo ceticismo sobre as perspectivas da felicidade a longo prazo no casamento, embora o autor não deixe de insistir neste tipo de união como solução social e saída legítima para os desejos e as buscas humanas.

Estes retratos retirados do teatro de Shakespeare exibem parte do mistério de seu poder criativo e sua imaginação extraordinária. Também revelam um saber e uma consciência refinada a partir da experiência e da sensibilidade, saber nunca alcançado na literatura considerando o lado das relações humanas pelo interior do mundo afetivo, o mundo dos casais e casamentos.

“Para um homem essa coisa rara, o gênio, sua própria imagem é a norma de toda experiência, material e moral”, aponta Joyce com clarividência em Ulysses. Esse qualificativo de gênio e a reflexão do escritor irlandês encerram características inequívocas de Shakespeare, só que elas aparecem desamparadas ao longo de suas obras. Numa ou outra, aqui e ali, esse olhar se desdobra seu próprio modelo e norma.

Há duas exceções sobre a vontade ou incapacidade por parte de Shakespeare para imaginar um casal casado numa relação íntima vigorosa. São dois casos estranhos, entretanto e desconcertantes: Gertrudes e Claudio, em Hamlet e Macbeth e sua esposa. As duas tragédias tratam além disso do problema medular do exercício do poder usurpado ou tomado por reis e rainhas. Vejamos alguns traços.

Ao revisitar estas obras surgem em nós mais dúvidas que certezas sobre as relações de casais e casamentos. Agora, esse ressurgir maior é um mistério e uma sedução que Shakespeare suscita ao longo do tempo, seja no mesmo leitor quando relê, seja no coletivo no interior de um teatro. Outros estudiosos comentam sobre os poderes lúdicos que o bardo ainda exerce.

Primeiro, falemos sobre Gertrudes. Há algo importante na obra que não se esclarece em nenhum momento e no fim resulta crucial: se sabia ou não que Claudio havia assassinado o marido dela, o velho Hamlet; quando Claudio confessa seu crime não o faz diante de sua esposa e sim para si mesmo em seus aposentos numa tentativa (fracassada) de limpar sua consciência. Claudio, tão falso em tudo quanto diz, fala com muita ternura sobre sua esposa e de seus sentimentos por ela. Hamlet então percebe (com horror) que o vínculo profundo entre sua mãe e seu tio esconde uma intensa atração sexual mútua. Ele chega para desmascarar sua mãe para quem o tumulto do sangue está domesticado. Isso porque a imagem do leito real o obceca tanto como a visão fantasmal do pai. Alma e mente de Hamlet são corroídas por duas situações cortantes: o assassinato e o incesto. Hamlet como obra e personagem domina boa parte dos comentários de Dedalus em Ulysses para alinhavar pormenores na vida e no casamento de Shakespeare. Voltaremos a este assunto espinhoso.

Robert Smirke. Sarah Siddons como Lady Macbeth


Vejamos o caso de Macbeth e sua esposa. Este casal sombrio e assustador – e o espectador lhe surpreende como e até onde um habita a mente do outro, como os dois gostam de agir ambiciosamente até cumprir com a feroz ambição pelo trono. As bruxas dizem profecias e maldições contra Macbeth, que passa a viver, desde este fatídico encontro entre a ambição e o crime para alcançar o poder. Elas como o casal são um retrato de uma intimidade obscura no leito e atormentada fora dele. O público se sente igualmente atraído e intrigado pela cumplicidade deste casal que invoca com seus versos os elementos relacionados à maldade: feitiçarias, assassinatos, terror, excitação, ambição, poder, inveja e enfermidade mental. Várias análises revelam a superioridade e a força de Lady Macbeth enquanto desejo obscuro e força assassina, uma vez que ela supera seu marido em reflexões e premeditações.

No outro extremo humano aparece Banquo, quem é interpelado por uma cabal premonição: “Não existe arte que ensine a ler no rosto as feições da alma”. A partir de Lady Macbeth se mostra o tom sensual e a incitação ao seu esposo para que não vacile em assassinar Banquo, impulso manifestado nestas palavras: “Que besta foi então que fez com que você me sugerisse tal empresa? Quando ousava, então você era um homem. E para ser mais que aquilo que era, você deveria ser homem muito mais. Nem tempo, nem lugar o propiciavam, mas você os criou do nada”. E Macbeth trata sua esposa por “querida esposa”. Ela está sempre atenta para que ele seja o perfeito cúmplice em sua constante perseguição pela coroa real.

A complexidade aparece desde o primeiro ato. Lady Macbeth medita sobre o caráter e as características de seu esposo e esse relato passou para a literatura como peça magistral da acuidade feminina para escavar, dominar a mente do esposo e infiltrar-se em seu interior: “Apressa-te para que possa instilar minha coragem em teu ouvido, fustigando com minha língua valorosa tudo o que te impede de aceder ao círculo dourado, com o qual o destino e a ajuda sobrenatural parecem ter-te coroado antecipadamente”. Aqui aparece o sólido nó do casal quando ela, depois de pensar, estima os cálculos e os passos a seguir para que os dois se apoderem do trono: “Glamis tu és, e Cawdor; mas temo tua natureza, que é tão cheia do leite da bondade humana para perceber o caminho mais curto. Tu serás grande, ambição não te falta, mas não possuis a maldade que a deveria auxiliar. A grandeza que aspiras gostarias de obtê-la com lisura; não trapacearias, mas aceitarias vencer um jogo sujo”. A luta incessante pelo poder marca a vida de ambos, que no fim expiam seus crimes, ela com a loucura e ele com a morte. Com Macbeth se criou com meridiana precisão o pathos do tirano traído por seus tormentos interiores e elevado pelo poder da bruxaria; Shakespeare soube manejar a intensidade e a luta mantida na e pela relação crime e poder. Até o último verso Macbeth reafirma seus delírios e torturas: “minha alma já está demasiado carregada com o sangue dos teus”.

Diferentemente de Shakespeare, noutros escritores e pensadores [1] o tema do casamento aparece quase sempre acompanhado com bastante humor e anedotas enquanto as mensagens e as metáforas revela doses de desamor, desencanto e arrependimento e no fim mostram que o casamento não sobrevive à erosão dos moinhos do tempo. As alusões ao tema (como objeto de análise ou de observação) e-ou as menções ao casamento (como contrato, instituição, acordo social) incluem um contexto pleno de aforismos, advertências e chistes sorrateiramente mas mordazes sobre a resistência e a resignação de cada um; o escárnio para  humilhar-se entre ambos cônjuges; a tensão reprimida e liberada com agravos e ofensas; as contendas verbais amarguradas; os jogos entre o mutismo e a tempestade; o silêncio ante aqueles assuntos tácitos e íntimos que lenta, lentamente os anos proscreveram. É a tragicomédia cotidiana dos casais [2].

Também em cada cultura e idioma, a tradição tem acumulado provérbios carregados de conselhos cáusticos: “Casamento e mortalha no céu se talha”; “O amor é um jardim florido e o casamento um campo de urtigas”; “O casamento é o túmulo do amor”; “Aliança no dedo, corda no pescoço”. A lista é curiosa, exuberante e cheia de percepções captadas da vida cotidiana, uma vez que os provérbios mantêm de boca a ouvido a diversidade da sabedoria ancestral.

Essas alusões se aproximam de outras que vimos examinando no teatro de Shakespeare. É sabido que entre os gêneros literários o teatro é o mais propício para nossas indagações em razão de sua alteridade – diálogos, tensão, intensidade, paixão e feitos sensoriais – e suas contribuições servem inclusive para compreendê-lo enquanto caminho precursor para a escrita deste ensaio.

Enquanto uma pesquisa profunda acerca dos casais e casamentos, Honoré de Balzac a denominou fisiologia do casamento. Este estudo continua sendo o mais bem-acabado e rigoroso sobre o tema e sua chave descansa no uso minucioso de anedotas como recurso explicativo, pois Balzac mostra com “chistes de bom gosto” seu gozo intelectual e um inesgotável conhecimento da natureza humana no marco doméstico e social do casamento”[3].

“Vamos ao teatro para divertirmo-nos com o sofrimento dos outros”, dizia um ditado popular na época isabelina de Shakespeare; por sua vez, Balzac oferece “aos casados de ontem e de hoje, e aquém não sei porque egoísmo lhes faz dizer, ante as desgraças alheias, ‘isso não aconteceria comigo’, a estes dirijo está obra.

Com as sobras precedentes se desprende outro assunto de suma importância e de alcance universal: Shakespeare contribuiu sem medida para a riqueza e evolução da língua inglesa. Algo semelhante se atribui a Dante em relação à Itália, a Cervantes na Espanha e a Goethe na Alemanha. Do bardo inglês se disse que esteve obcecado pelos infinitos recursos da linguagem e a magia das palavras, talvez a raiz das obras e representações do teatro ambulante que presenciou quando jovem. Shakespeare acima de tudo é um mestre da palavra e suas personagens são eloquentes e incansáveis pensadores. Outro atributo que os estudiosos lhe dão é o poder de sua imaginação certamente ajustada à linguagem. Trata-se do poder assombroso da imaginação enquanto complemento da razão e da inteligência.

A variedade e o poderoso manejo da linguagem em Shakespeare tem sido avaliado inclusive pelo lado quantitativo; calcula-se que o vocabulário de suas obras tenha inserido algo em torno de 30 mil novas palavras ao idioma e este número é quatro vezes maior que versão autorizada da bíblia aparecida em sua época, versão que conta apenas com 8 mil palavras (cf. Walter, 1994). Também se sabe que lia obras em castelhano através de frases ou objetos próprios da Espanha (vinho, xerez, espadas e danças), termos intercalados em seus trabalhos e que manejava o francês segundo mostram os chistes novos, bilíngues inglês-francês entre o rei, a princesa Catarina e Alice na obra Henrique V. Alguns recordariam a frase do velho Johnson que aludia ao pouco latim que o bardo manejava. Essa apreciação se suspenderia ao observar em Shakespeare sua audácia para manipular a sintaxe em versos e sonetos e tal maestria se alcança quando se leu e recitou em latim os clássicos.

Notas:


1 Adiante nossa breve seleção (obviamente que deixamos muitas referências de fora): 1. Erasmo de Roterdã, o grande humanista do século XV, contribuiu e tentou mudar a visão negativa da união carnal ao lhe introjetar espiritualidade, quando afirma: “O casamento entre os espíritos é maior que entre os corpos”; 2. Montaigne bateu prego para selar aquele ataúde que para ele simbolizou o casamento: “Um bom casamento seria o de uma mulher cega com um marido surdo”; 3. Balzac chegou a escrever duas obras sobre o mesmo tema: Fisiologia do casamento, publicada em 1829 e é nesta que aparece a seguinte setença: “O amor no casamento é uma quimera”; em 1846, saiu uma edição ilustrada de outra obra de Balzac, Pequenas misérias da vida conjugal; 4. De Victor Hugo vem esta frase: “Você lida com negros: escravidão. Lida com brancos: casamento”; 5. Por volta de 1872, Fiódor Dostoiéski anota: “O casamento é a morte moral de toda independência”, no romance Os demônios.

2 Sinto um antigo gosto e admiração pelas obras de Rafael Cadenas. Dele vem um texto diferente e breve que contrasta com outras expressões acerca do tema dos casais e casamentos. A passagem interessa para partilhar dois assuntos: um, suas palavras iniciais: “A tragicomédia cotidiana de muitos casais”, palavras próximas às tragédias e às comédias de Shakespeare que vimos comentando; dois, a passagem incluir referências ao confucionismo e suas reflexões sobre a mística de San Juan de la Cruz. Cadenas intercala um “deve existir” – quando se refere “ao tratamento entre os seres e sobretudo no casal, trato de respeito e reverência” (a nosso juízo, convém então reter que a história e a cultura abonaram amplas diferenças do casamento e a família oriental sobre a família ocidental). Sobre o tratamento com respeito, Cadenas expõe: “Quão longe estamos disso, nos diz a tragicomédia cotidiana de muitos casais, cuja relação mais parece contenda, pois se engalfinham com suma dedicação em discussões sobre bagatelas, críticas mútuas, agressões verbais ou imprecações carregadas de tempestade, até que chegam a essa espécie de incomunicabilidade que consiste em se abster de não tocar naquilo que foi tácita e lentamente proscrito. A comunicação se reduz então a tópicos que não atinjam o ego. Tudo por escassa disposição a admitir a verdade. Assim, finalmente se vai a relação”.

3 Desde a dedicatória e a introdução à obra de Balzac pega o leitor. Segundo esse portentoso romancista francês, o casamento não deriva da natureza e pode portanto sofrer o complemento gradual ao qual estão sujeitas todas as coisas humanas. Aduz que a palavra adultério impressionou de maneira singular desde jovem, situação que seguiu observando com agudeza na idade adulta. A partir de suas observações encontrou que o número de famílias infelizes é muito maior aos casamentos felizes e também notou que entre todos os conhecimentos humanos, o do casamento conseguiu menos resultados e avanços. Assim como Mefistófeles mostra com o dedo a Fausto uns semblantes sinistros, do mesmo modo, diz ele, sentiu um demônio que em meio de um baile lhe tocou no ombro e lhe disse: “Vez esse sorriso faceiro? É um sorriso de ódio...” Esse demônio, que por vários anos não deixaria em paz, mais adiante mostra um cartaz provocativo que com grande sarcasmo lhe revelava “Fisiologia do casamento”. Balzac argumenta que, sendo a matéria tão grave, decidiu apresentá-la mediante “anedotas e chistes de bom gosto” – assim, quando escreve se confabula mais e melhor com o leitor. Desde a “Meditação I” aborda tal fisiologia como vinte e cinco perguntas estimulantes e segue abrindo o tema com vinte e três razões pelas quais a gente se casa (ambição, desdém, cansaço, ódio, loucura, aposta, honra, interesse, feiura, obrigação, paixão etc.).



Ligações a esta post:
>>> Amor, casais e casamentos em William Shakespeare (1)


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