Antonio Machado, poesia e filosofia


Por Juan Malpartida



Antonio Machado foi o poeta de língua espanhola mais próximo à filosofia e que, por outro lado, mais profundamente viveu a lírica como problema. Embora não a partir de sua poesia e sim de sua prosa. O poeta, no sentido profundo, além de alguma observação em verso, ou algum poema tardio de caráter metafísico, parece ignorar o prosador, que é em quem – e nisto concordo com alguns enquanto discordo de outros – está sua verdadeira modernidade. A originalidade reflexiva de Machado, acredito, radica no que desperta a partir de seu interesse por Kant, especialmente pelo deslocamento que levou a cabo a uma maior subjetividade, depois de Descartes situar o pensar como fundamento do eu. A liberdade, a coisa em si, é algo no qual podemos pensar mas não é compreensível, só acessamos intelectualmente o mundo fenomenológico. Além disso, Kant afirmou o elemento interpretativo da mente humana, que projeta fora o que leva no seu interior. Num texto autobiográfico de 1913, Machado nos informa que se ocupa sobretudo do que Kant denomina conflito das ideias transcendentais. Como se sabe, estudou também Platão, Leibniz, Husserl, Bergson e os idealistas alemães. Não lhe interessava os pragmatistas ingleses nem os empiristas. Como professor de língua francesa, o que professou verdadeiramente foi aversão pela cultura francesa, algo que compartilhava com Unamuno. Confessou tudo em cartas enviadas a Juan Ramón e a Ortega y Gasset, além de ter deixado evidente em muitos dos seus artigos. Os filósofos franceses pareciam-lhe pedantes tradicionalistas. Machado, apesar de seu talento para o ceticismo, tendia a exagerar, porque não ignorava que a cultura espanhola devia aos séculos XVIII e XIX “três quartas partes” do que era o começo do século.

Machado se inicia como poeta dentro do modernismo, com uma clara presença de Paul Verlaine da qual logo ia se afastar, embora nunca tenha deixado de admirá-lo em alguns aspectos. O simbolismo (especialmente Mallarmé e, um pouco mais tarde, Valéry) foi sua besta-fera contra a qual se lançou sempre que teve oportunidade, e não lhe faltaram razões para isso, mesmo que lhe restassem alguns prejuízos como compreender certos desafios e conquistas de poética e, sobretudo, seus acertos literários, além, é claro, do significado geral do Simbolismo ou do Barroco sobre uma cultura. Nosso autor aspirava uma lírica cuja expressão maior via em Jorge Manrique, em Berceo, em alguns momentos de Lope, e em Bécquer. Tinha um conceito raso de Garcilaso e de Luis de León, mas contraditório de Quevedo, Góngora e Calderón. O que via como falta em todos eles é que não haviam bebido numa fonte sensível. O que é o sensível? Veremos mais adiante. Num momento de extremismo – e em circunstâncias pessoais dramáticas –, numa carta a Ortega y Gasset de 1912, chega a dizer que “entre Garcilaso, Góngora, Frei Luis de León e Juan de la Cruz só é possível reunir cinquenta versos que merecem o trabalho de lê-los”. Ele mesmo se viu como alguém que já não podia cantar, e no “Projeto de Discurso de ingresso na Academia Espanhol”, iniciado em 1931, reitera que “a lírica se converteu para nós em problema”. Se as Coplas de Manrique eram o exemplo maior do que pensava que devia ser a lírica, parece óbvio que não podia ler com bons olhos a acentuação subjetiva própria ao gênero, que seu amigo Juan Ramón Jiménez cultivou ao excesso, embora é verdade que transcendendo-a felizmente em muitas ocasiões ao longo de toda sua obra. Para Machado, a nova lírica, tanto romântica quanto modernista, sofria um excesso de subjetividade solipsista e uma falta de intuição do objeto e do tempo. Além disso, no uso metafórico, tanto nos poetas barrocos como nas novas tendências que se firmavam na França (de Apollinaire a Reverdy) e em língua espanhola com o criacionismo, acreditou ver uma fascinação pela imagem ela própria, desprovida do tu essencial, de um tempo vivo. Portanto, esta hiperimagem era, mais que uma revelação do vivo, uma transferência de abstrações de um e outro tipo.

No pensamento moderno iniciado com Kant, Machado havia visto uma inclinação perigosa pelo sujeito em detrimento do mundo como outridade: o que está aí e é irredutível à minha experiência e sensações. A famosa revolução copernicana de Kant negava que se pudesse chegar a nenhuma conclusão metafisica sobre o universo, afirmando que a compreensão se limita à experiência. O resto é pensável mas não conhecível. Kant quis resolver um problema na verdade fundamental: a tensão entre o empirismo e o racionalismo. Nossas sensações e impressões são reais, mas qual é sua validade enquanto conhecimento? A queda do sonho dogmático o levava a duvidar das verdades metafísicas, mas sabia que a experiência o situava frente a uma pergunta epistemológica: como é possível o conhecimento que temos dos fenômenos e até onde alcança? Nossas percepções não são puras mas estão mediadas pela capacidade estruturante de nossa mente. Não descrevemos a realidade exterior enquanto tal mas como uma mistura das estruturas apriorísticas de nossa mente e da percepção exterior. Espaço e tempo – recordará – não são conceitos mas formas de intuição. Não há um empirismo puro, desprovido de nossa subjetividade, tampouco vivemos num mundo regido meramente pela sensação. O mundo se constitui no ato simultâneo de percepção e juízo. Alguns filósofos comentaram que com Kant o homem volta a estar no centro do universo, lugar que havia sido desfeito em alguma medida por Copérnico, mas que agora esse universo se reduziu a ser o seu, não o universal. Em Kant o sujeito é genérico porque a razão e a moral também o são, embora todo ato moral me individualiza, é uma decisão que compete a uma pessoa e não a um grupo ou gênero. A influência disso no pensamento alemão e francês foi notável, sobretudo em sua deriva para a subjetividade, no cultivo desse espaço que Kant abre não intencionadamente para o pessoal e não apenas no pensamento mas nas poéticas desde o Romantismo a Samuel Beckett. Já num pequeno texto autobiográfico de 1913, Machado nos informa que seu pensamento “está geralmente ocupado pelo que Kant chama conflitos das ideias transcendentais e buscou na poesia um alento a esta ingrata tarefa. No fundo sou um crente numa realidade espiritual oposta ao mundo sensível”. Machado se revela, realmente, e durante toda sua vida adulta, em duas coisas que, ditas muito sinteticamente, são os problemas epistemológicos e a ontologia. Em algum outro momento se refere novamente a Kant para sublinhar que o filósofo alemão nos dá “uma limitação do real ao campo do fenomenológico e às formas e categorias subjetivas, sem pretender por isso fazer do conhecimento uma aparência vã”. O que é o ser? É idêntico a si mesmo? É possível a identidade ou esta consiste em ser a revelação de uma alteridade? Por que é tão importante o tempo e o que tem a ver com a poesia? Estas são algumas das perguntas filosóficas que Machado começou a se fazer antes de finalizar a primeira década do século e que o acompanharão até o fim da vida.

Juan de Mirena – personagem mais inteligente de toda a literatura espanhola, que é pobre, certamente, em personagens inteligentes – aconselhava aos seus alunos a ler Kant. E nosso poeta o fez de maneira parcial e muito viva. Numa das primeiras cartas a Ortega y Gasset confessa ter relido várias vezes a Crítica da razão pura. Essas leituras o levaram a pensar que no século XIX quase tudo havia militado contra o objeto. Também Ortega y Gasset, em A desumanização da arte (1925), havia dito mais ou menos o mesmo, embora numa direção diferente, uma vez que Ortega afirma que durante o século XIX a arte era mentirosa porque estava repleta do patético, e desta forma confundia o espectador ou o leitor oferecendo-lhe não uma forma mas um espelho: o que o leitor reconhece não é o que está foram mas o dentro. Nos novos poetas Ortega vê que o homem acaba onde o começa o artista, o que não parece um exagero. Na realidade, por momentos, Ortega pensa o contrário de Machado. No citado livro, Ortega reflete que “a percepção da realidade vivida e a percepção da forma artística são, a princípio, incompatíveis por requerer uma acomodação diferente em nosso aparato preceptor. Uma arte que nos proponha essa dupla visão seria uma arte desviada. No século XIX, sobremaneira desviado; por isso seus produtos artísticos, longe de representar um tipo normal de arte, são talvez a máxima anomalia na história do gosto”. Machado lê Ortega mas sua análise do problema estético é mais sutil e coerente e às vezes o refuta sem fazê-lo explicitamente. Para Machado a poesia também se desumaniza, mas não por acentuação da arte, pelo cumprimento do que lhe é mais próprio, mas pela perda do elemento principal que a vitaliza e que não é o patético que Ortega sublinha no século XIX, mas sim, de alguma maneira, a “percepção da realidade vivida”, essa que está indissoluvelmente unida ao tempo, à morte e ao esquecimento, os três termos do canto de fronteira de Abel Martín (“Al gran cero”).

O objeto, segundo Machado, desapareceu da razão porque esta se revelou como estrutura ideal de conhecimento, mas sem nada exterior a ele. E o positivismo não fez se não levar ainda mais longe estas consequências desacreditando a metafísica. Não há objeto absoluto e o homem se debate no centro de sua experiência sem transcendência alguma. O sujeito, nos alvores do século XX, ocupa cada vez mais espaço, e o homem, em seu sentido clássico, menos. Na acentuação da subjetividade no Romantismo, Machado observa ímpeto universalizador: o que ocorre em mim ocorre em todos, mas apesar disso, o que esse mundo poético expressa, segundo ele, é a “intimidade do sujeito individual”, por desprezo ou esquecimento da razão e do sentimento (que chamará melhor de cordialidade), que são ambas formas que transcendem o indivíduo. Já o simbolismo expressa para Machado a redução do cordial em favor da sensação e, além disso, significa um eclipse total das ideias. E posterior, depois do simbolismo, se assiste a uma descida à minuciosidade psicológica e aos próprios infernos do subconsciente. A exploração do magma dos sonhos e do inconsciente no surrealismo era o oposto do que postulava Machado, que era o despertar, algo que falou em prosa e em verso, tanto ele quanto nas vozes de Mairena e seu mestre Abel Martín: seus singulares heterônimos e complementos. Machado abarca em sua crítica não o romantismo anterior, através do qual vê ampliadas as faltas de seus maiores, e, como acabo de dizer, o surrealismo em que a exaltação da subjetividade mais dissociada da razão alcança alto grau de desagregação imaginativa. E mais, a fragilidade das estruturas dos gêneros (no tempo quando se estabelece o romance) se acentua notavelmente com as vanguardas, e Machado via com receio também essa fusão vista por ele como uma confusão.

Para Machado a lírica está unida à intuição do tempo. E percebe que na modernidade (ele a chamaria “o século” ou melhor “nosso tempo”) o tempo se volatilizou: a lírica se emancipou do tempo. Vejamos o que entende nosso autor por esta intuição da temporalidade, sobre a qual pensou e poetizou ao longo de toda sua obra. A tarefa do poeta – disse de várias formas memoráveis – é o diálogo do homem com seu tempo, mas não com a mera subjetividade desse tempo. Não se trata do tempo que cai apenas do lado do sujeito, mas do tempo que sendo de alguém pode ser de todos. Há, pois, que retirar o tempo próprio da subjetividade mas não convertê-lo em operação gratuita nem em mera abstração o conceito em que a outridade, o outro persistente, como um desaparecido. A outridade existe porque o ser é heterogêneo, e para Machado o abstrato e a lógica estão fora do tempo, é o terreno do desrealizado  (termo usado por Ortega). Nosso pré-socrático poeta e pensador parece retornar a Heráclito e pensar com ele que tudo está incompleto porque se referirá sempre ao outro. Dizia Machado que dizia Mairena que o poeta queria eternizar o tempo sem que este deixasse de ser tempo, uma tarefa que leva toda a vida porque é a tarefa realmente radical. O exemplo a seguir é muito semelhante a andar pela casa: o poeta como pescador de peixes que vivem depois de pescados. A poesia, que é intuição do tempo vivo, logra sustentar esse tempo no poema. Longe de generalizar, o pensamento poético cria diferenças, por isso os peixes pescados continuam vivos e não se transformam em alimento ou em algo visível, razoavelmente, mas morto. O ser é ser no tempo. E a vida é sempre algo concreto. “A razão humana milita toda ela contra a riqueza e a variedade do mundo” – disse Mairena que afirma seu mestre, Abel Martín, algo que lhe parecia evidente, embora Mairena note que quando seu mestre dizia algo que lhe parecia evidente era porque não estava seguro do que dizia. Esta ideia das diferenças entre pensar e poetizar foi ampliada poucos anos depois por María Zambrano (1904-1991) num de seus melhores livros, Poesia e filosofia (1939): “O poeta apaixonado pelas coisas se apega a elas, a cada uma delas, e as persegue através do labirinto do tempo e das mudanças, sem poder renunciar a nada disso: nem a uma criatura, nem a um instante dessa criatura, nem a uma partícula [...] nem ao fantasma que já em ausência suscita”. Machado havia conceitualizado o pensamento como não-ser. Por isso afirma que o pensar e ser não coincidem. Além de afinidade com Heráclito tinha-a também com Parmênides? Se tudo o que é é nada e nada não pode ser, segundo o poema de Parmênides, e Machado situa a lógica no terreno do não-ser, talvez seja legítimo filiá-lo a ambos os filósofos.

A relação antinômica em que o ser se dá sempre no tempo, e portanto é a verdadeira concretude, enquanto que o pensamento necessariamente tende ao abstrato e a desprender-se da temporalidade. Numa nota de 1915 nos oferece uma pequena explicação: “Chamamos não-ser ao mundo das formas, dos limites, das ideias genéricas e aos conceitos esvaziados de seu núcleo intuitivo, ao mundo quantitativo, limpo de toda qualidade”. Frente ao simbolismo, nosso poeta e pensador quer reivindicar o acento mais vital e que não pode se basear numa exacerbação da sensação e da subjetividade (que detecta no romantismo) ou na sugestão simbolista que parte da negação do mundo para afirmar formas não-intuitivas. Frente à sensação Machado situa, de maneira conflituosa, o sentimento. A sensação me afirma, o sentimento (do tempo, do outro) sublinha o elemento alterador. Assim, pois, não é a sensação do tempo mas o sentimento do tempo o que postula para o poema. Machado não foi um crítico literário, mas escreveu sobre escritores espanhóis de seu tempo, alguns deles jovens. Sobre quem escreveu mais e com maior entusiasmo foi sobre o malaguenho José Moreno Villa (1887-1955). Trata-se de um ensaio em que às vezes toma como pretexto o poeta para defender suas ideias. Aí encontramos uma nova volta de parafuso ao tempo: “são imagens no tempo que comoveram a alma do poeta; não estão na região intemporal da lógica – só a lógica está fora do tempo – mas na zona sensível e vibrante da consciência imediata” (1924?). Três palavras definem o que Machado buscava na literatura e sobretudo na poesia: o vivo, o intuitivo, o temporal (psíquico); e outras três palavras definem bem o que reutiliza: o artificial, o conceitual, a atemporalidade. No plano moral e estético, detestava o vazio, o afã pelo difícil, o pedantismo.

Em algumas declarações a Ernesto Jiménez Caballero, publicadas na Gaceta Literaria em 1929, Machado nos oferece algumas das perguntas que os jovens poetas de seu tempo deviam formular: “Se a lírica é atividade estética, pode existir lírica puramente intelectual? Se existe ou pode existir uma lírica intelectual, como, sem forçá-la artificialmente, pode escapar à compreensão dos demais? Servem as imagens para expressar intuições ou para turvadores de conceitos? Ao fazer depender, tão profundamente, a arte poética do tempo, a dimensão artística se ressente escorada no vivo. Os peixes estarão vivos depois de pescados, mas de que forma? A literatura interessa a Machado pelos seus conteúdos e a palavra escrita lhe cansa “quando [lhe] recorda a espontaneidade da palavra falada”, confessa no esboço de seu discurso à Academia. Sem dúvida esta última forma parte da preceptiva aplicada, com tão bons resultados, aos seus apócrifos, também apreciável em alguns de seus poemas. As imagens e os conceitos formam parte do jogo que esquece o elemento cordial e genérico. Sem cordialidade, porque prescindem dos sentimentos próprios e do outro o tempo (não há sensibilidade profunda que seja só minha); e falta a aparência genérica porque ao se entregar ao jogo conceitual ou de imaginação meramente criativa caem fora do tempo, do lado do abstrato ou da mera estética. Nem os sentimentos nem as palavras, sendo nossos são de todos: nos precedem e nos conformam, vivemos neles como únicos mas sempre que descubramos que sua unidade é nostalgia do outro constituinte. O ser em Machado é plural, não pode ser idêntico a si mesmo porque ao se descobrir a si mesmo descobre sua alteridade. Sem dúvida isto é um postulado, mas enormemente atraente. As consequências ontológicas e epistemológicas do pensamento filosófico e estético de Machado são mais importantes, creio, que as literárias, não porque careceria de interesse como poeta, pelo contrário, é um poeta que encerra uma época, não abre outra. Mas, o pensador metafísico influenciou profundamente, para colocar um exemplo notável, Octavio Paz, quem se ocupou destas ideias desde sua juventude, isto é, podemos segui-las em Las peras del olmo (1957), O arco e lira (1956) e num ensaio de seus últimos anos, “Nosotros los otros”. Esta diferença entre o poeta e o ensaísta se deu em numerosos autores, mas as explicações são distintas. Em Machado, o gosto literário estava fixado, inclusive incrustado às possibilidades que abriam suas ideias. E às vezes as consequências que Machado extrai são realmente intuitivas e terríveis, como quando disse em 1929 que essa “lírica artificialmente hermética [se refere a Valéry, Guillén, Salinas], é uma forma barroca da velha arte burguesa que aguarda piétinant sur place nas fronteiras da futura arte comunista – não nos assuste a palavra – que lhe seja imposto o imperativo da racionalidade, as normas irredutíveis do pensamento genérico”. É certo que quando Machado fala de comunismo se refere, ainda pensando na Rússia, ao comunismo cristão assistido pela cordialidade do Novo Testamento e não a Marx e Lênin, que os situa no Velho Testamento. Não obstante, e como bom herdeiro que era de uma família influenciada por Herder e o folclore, embora longe da Espanha de charanga e pandeiro, Machado acreditava que a poesia não deia ser hermética, tampouco artística no sentido de aprofundamento nos aspectos formais que a distraem do conteúdo: devia falar com seu vizinho, para dizer em termos coloquiais e sempre que fosse possível, a expressão devia ser a mais direta possível, e o tempo preferível – caro ao romântico – o passado imperfeito. O lance da “sintaxe hiperbática e da imaginação hiperbólica” é o mesmo que denuncia no pensamento que, ao desprender o centro de gravitação da subjetividade, se afasta do mundo, do real por acentuação do homogêneo. O vivo, o intuitivo e o temporal são, fundamentalmente, realidades heterogêneas e formam parte do ser, do que é; enquanto que o pensamento homogêneo e abstrato, a forma hiperbólica, a imagem intuitiva e a metáfora usada aí onde há uma designação direta formam parte do não-ser.

A consciência de Antonio Machado se compraz pouco na concepção de um eu idêntico a si mesmo ou mesmo como lugar de espelhismos e espectros. O que haveria pensado se tivesse lido Jorge Luis Borges? Borges conceituou o eu num extremo como ilusório, ou melhor, como uma perpétua possibilidade, graças à imaginação, de ser outro. Um homem é todos os homens, e só as ideias e as metáforas são, em certo sentido, reais. Em ambos os casos, em Borges, a percepção de si mesmo não é fonte de uma alteridade cordial, afirmativa, mas profusão de espelhos e de reflexos. Para Machado, por sua vez, chama-se como quiser chamar isso que irredutivelmente somos cada um; esse núcleo que chamamos pessoa existe e o entende como fundado na outridade. Ao perceber-se a si mesmo se percebe como outro, um outro que não é o mesmo se não a essencial outridade. A outridade absoluta em Machado é Deus, mas o Deus de Machado não é o do cristianismo, não é um Deus criador do mundo mas de nada. O mundo não criação divina. Para Machado, o mundo é real e a realidade única, assim a criação do mundo por um Deus significaria a criação de si mesmo. O mundo é concebido como um aspecto da divindade, e o que Deus cria é o Nada, o que se constata em vários momentos de sua obra, sobretudo num interessante poema intitulado “A gran cero”. Mas deixemos o aspecto teológico. Deus é o Outro supremo, mas a mulher é o reverso do ser, isto é, que se queremos conhecê-lo devemos ir de uma face a outra, ou melhor: uma leva a outra de maneira contínua. Para Machado, a mulher é o acesso mais intenso à outridade. Por que? Porque ao sentir-se a si mesmo o homem se sente como carência do outro e desejo do outro. Machado postula a heterogeneidade do ser, não a unidade. Não há possibilidade de reconhecimento no eu nem de complacente ou agônico narcisismo: ao perceber-se a si descobre sua outridade e o que é mais, sua apetência desse outro. Essa apetência é erótica, uma afirmação apaixonada do outro ser que se revela para si toda vez que se sente a si próprio como ausência. Se a heterogeneidade fosse completa, se não estivesse mediada pelo tempo, não seria realmente diversa de si mesma. O que esta autognose descobre sempre no eu é um tu. Naturalmente, acredito que é lícito pensar que nesse outro não é necessariamente uma mulher mas outro ser. A mulher – penso por minha conta, porque do contrário ela seria alheia à ontologia e epistemologia descrita – padece (o termo é de Machado) a mesma alteridade constitutiva e o mesmo desejo do elemento ausente. O outro está no início de nossa autopercepção e por sua vez é uma ausência. O outro que nos constitui aparece no início e no fim, daí Machado não se sentir tão perto do místico, cuja paixão e meditação em torno da unidade postula o encontro ao fim de sua ascese. Em Machado não há ascese nem caminho de perfeição. A visão da identidade do uno se revela como plural e esta dualidade alteradora está regida pelo afeto. Se a heterogeneidade é o fundamento de nosso ser, sempre terá que sê-lo e toda resposta é só uma resposta, uma afirmação do real inesgotável. Não existe pois a possibilidade de desilusão radical: a queda em mim, para dizer em termos cristãos, me deve lançar de novo ao mundo. Assim, o donjuanismo, sobre o qual Machado falou tanto, é, como metáfora, uma exta definição da errância erótica da outridade. Machado está longe de pensar, com o budismo ou com Schopenhauer, que o mundo é ilusão (e portanto também a pessoa que o pensa). Não se trata de um simples realismo, ou talvez se for realismo, não tão simples. Para Machado o mundo existe, é real. “As coisas – afirma – estão ali onde as vejo, os olhos aí onde veem”. O urgente para nosso filósofo é, num tempo que segundo ele não sabia onde tinha os olhos, encontrá-los. O mundo é real e meus olhos e minhas o tocam, embora o absoluto seja para mim inalcançável. Isto devia supor para Machado o ato de despertar. Do sonho dogmático da metafisica do qual Kant havia despertado? Não exatamente, mas despertar do sonho solipsista que havia acentuado a subjetividade de maneira extraordinária mas ao mesmo tempo a havia desabitado do mundo. A subjetividade havia se carregado de reflexos e de fantasmas, de especulação neurótica, de incomunicação e dialética, mas o mundo e com ele os outros, haviam se convertido num pretexto ou numa ausência. Machado, socrático, sabe que quem pensa afirma a seu vizinho, que ninguém pensa sozinho, que o erotismo não coincide com a complacência mas com a descoberta passional do outro. E, como Wittgenstein, quem sem dúvida não leu, sublinha que nenhuma obra (portanto a linguagem) pode ser mera subjetividade e necessariamente estará regida pelo comum, porque graças às leis do comum (pensar é afirmar tu) “pode o poeta captar o íntimo fluir de sua consciência”.

Para o metafísico e poeta Abel Martín – mestre de Juan de Mairena, que foi professor de ginástica e apaixonado por retórica, homem “extremamente erótico” e “apaixonado por mulheres” –, a partir de Leibniz (e diferentemente dele) concebe o universo como uma mônada, espécie de alma total que tudo vê ao ver-se a si mesma. Como a esfera de Pascal, em qualquer ponto dela está a totalidade. Machado nos conta que Martin foi autor de várias obras de metafísica, entre elas a intitulada De la esencial heterogeneidad del ser, além de uma coletânea de poesia, Los complementarios. Para este filósofo preocupado pela possibilidade das formas e da objetividade, há compreensão que lhe interessa mais que outras, e que não é propriamente objetiva porque carece do objeto meramente exterior: se trata da representação dos outros. Se produz por rescisão de sujeito único. Martín talvez faça alusão aqui à noção de intersubjetividade sobre a qual falou Husserl. Mas há outra pretensão de objetividade “que se dá nas fronteiras próprias do sujeito” e que não se oferece tanto ao conhecimento como o amor. Para este homem “eminentemente erótico” – e acredito que é preciso entender este erotismo como revelação apaixonado pelo outro – a amada é “una com o amante” desde o início, desde antes de sua possível aparição. “A mulher é o anverso do ser”, afirma um dos versos. Machado (pai e discípulo de todos seus heterônimos) postula o amor como “a autorrevelação da essencial heterogeneidade da substância única”. Claro, se algo prescinde da metafísica, nós ficamos em outro campo: o da vida entendida como absurdo ou melhor como vontade, o querer baseado no cumprimento de meu desejo, na moral como acordo de aspiração ao bem-estar, justiça e equidade entre os homens e na resposta à sobrevivência instintiva da vida cujas metáforas seriam o progresso e a arte etc. Mas se aceitamos – como aqui fazemos – a meditação sobre princípios e fins, tudo isso tem um sentido profundo. O amor é, para este solitário que faz do diálogo o mais humano, uma experiência de revelação da ausência. Ao sentir-se a si mesmo não se sente como completude mas como outro, uma alteridade que por ser constitutiva acentua a solidão e a necessidade de afirmar, através da cordialidade, do desejo amoroso, não do meramente sensível, o perdido (quando?). Machado é o solitário que afirma nossa complementariedade, que afirma a existência objetiva do real, que reage contra o homogêneo por desajustamento e afirma o vital e heterogêneo carregado do acento do tempo. Machado é alheio ao complexo narcisismo que fascinou a Mallarmé e Valéry. Em seu poema “Al gran Pleno o Conciencia integral”, Abel Martín escreve: “não existe espelho; tudo é fonte”. A percepção de si mesmo é revelação do outro, o sentimento do amor, não um espelho que me devolve a imagem mas uns olhos que são outros não porque eu os vejo mas porque eles me veem, como disse belamente. A lógica da identidade não é para Machado a lógica do real porque em todo verdadeiro raciocínio as conclusões não podem estar contidas nas premissas. Isto é, o raciocínio que de verdade importa, porque nele nos a julgamos, se baseia não na imutabilidade dos conceitos mas em realidades vivas em perpétua mudança. Recordemos que o ser e o pensar, segundo nosso autor, não coincidem. Cito de suas próprias e eloquentes palavras: “Pensar é desqualificar, homogeneizar. A matéria pensada se resolve em átomos; o contrário substancial, em movimento de partículas imutáveis no espaço. O ser ficou para trás; continua sendo o olho que mira, e mais além estão o tempo e o espaço vazios, o quadro negro, o puro nada. Quem pensa o ser puro, o ser como é, pensa, de fato, o puro nada; e quem pensa o trânsito de um a outro, pensa o puro devir, tão vazio como os elementos que o integram. O pensamento lógico só se dá, de fato, no vazio sensível [...] contudo, o ser não é nunca pensado; contra a sentença clássica, o ser e o pensar (o pensar homogeneizador) não coincidem nem por acaso”.

Machado dificilmente poderia ler A náusea, de Sartre, publicado um ano antes da morte do poeta, mas teria encontrado nela, se lesse, o solipsismo da consciência e seu corolário: a existência como liberdade, contra o que tanto lutou. Sem o amor, Machado pensa que a consciência sempre está pendente de encontrar a si própria ante a impossibilidade de alcançar um objeto transcendente. O Roquetin, a personagem de Sartre, as coisas e o tempo aparecem suspensos na consciência e imediatamente caem no nada. Por sua vez, a consciência não pode encontrar o que sustém em si mesma se não em ser consciência de algo que por sua vez expressa sua dimensão impenetrável ou fugaz. Mas em Machado, a volta da consciência sobre si mesma, sua necessária operação reflexiva, supõe o tempo que a revelação de seus limites a percepção de sua tensão em direção ao inacessível outro. A consciência necessariamente está sujeita à racionalidade lógica, a dessubjetivar-se, o que supõe uma perda de intimidade. Para Machado o ser é consciência ativa, já vimos: ao ver-se a si mesmo, ao ser consciente de si se vê como outro (não há identidade que não seja produto errante de alternância). A paixão de conhecer da ciência e da lógica, necessariamente há de considerar o mundo como objeto, pondo o sujeito num entre parênteses inexistente ou manejável. Mas esse conhecimento não poderá revelar-nos objeto algum “oposto ou distinto do sujeito”, segundo Machado. Sem dúvida, graças ao amor e à poesia, as duas formas mais altas do conhecimento integral, o ser volta a seu ser e não se revela como nada se não como intuição real. Por isso, dizia Machado que filosofar era ir de beco e beco até acabar num beco sem saída. Momento, sem dúvida, de salto. Talvez por isso Nietzsche tenha afirmado que necessitamos da arte para não morrer de tanta verdade (entendida como lógica, ou como desrealização). E não é isso o que nos o budismo ao situar o saber na experiência integral físico-psíquica, que o conhecimento próprio da reflexão pura não pode alcançar?

O mundo da poesia, pois, para voltar ao começo, não é para Machado o mundo dos conceitos ou das formas abstratas, das figuras e números mas o da expressão de um conteúdo psíquico individual, algo único não quantitativo mas qualitativo. A fidelidade de Machado à vida como algo temporal e portanto precioso e único é admirável, e nela se dão certos paralelismos com Unamuno e sua defesa do homem rela. O pensamento filosófico é para ele totalmente necessário e se encontra longe de qualquer irracionalismo e reivindicação do homem meramente instintivo. Machado é filósofo e poeta pela mesma descoberta: o que o leva ao outro. Mas uma vez mostrado graças à lógica o outro lado, por desrealização da realidade, toca a poesia devolver-lhe sua integridade real, na qual carece da contradição. Machado não concebe o nada como o oposto do ser mas sim com o outro lado do ser. Não há uma dialética de Hegel porque, entre outras razões, acredita no precioso curso do tempo, esse que não fala seu sentido no futuro nem no passado mas no que sempre está passando. A nostalgia em Machado (portanto do que foi alguma vez) é importante se consegue tocar de maneira ia o presente. Não a eternidade nem o imóvel, mas a anedota vital no fluido de uma palavra feita de tempo.

* Este texto é uma tradução de "Antonio Machado", publicado em Letras Libres.


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