Será o gato o animal favorito da literatura?



Por Matías Moscardi



Certa vez, Jean Cocteau disse que preferia os gatos aos cachorros porque não existem gatos de guarda. Os gatos estão na moda. Por todos os lados, gifs e memes de bichanos simpáticos, ternos, graciosos: invariáveis símbolos cristalizados pelo marketing. O ambíguo poder desses bichinhos parece ter sido reduzido e nivelado pelo mercado, como se o mito segundo o qual “os chineses comem os gatos” fosse uma forma de exteriorizar uma metáfora do sinistro: sim, consumimos gatos, mas apenas como publicidade. Escritores como Truman Capote, Herman Hesse, Aldous Huxley, Jorge Luis Borges e Julio Cortázar; estrelas do cinema como Bettie Page, Brigitte Bardot, Elizabeth Taylor e Marilyn Monroe; e, mesmo os heróis do rock, de Bob Dylan, David Bowie, Freddie Mercury, Kurt Cobain e Johnny Ramone – até Marilyn Manson! Todos foram fotografados com seus gatos. Por que os cães não gozam do mesmo tipo de estatuto cultural? Qual é o segredo do sedutor magnetismo que os gatos exercem sobre as pessoas? Uma parte da tradição literária, porém, relaciona a figura do gato com o romance gótico, a bruxaria, o mau agouro. Que estranha alquimia os transformou no que se apresenta hoje?

Uma das constatações cotidianas mais verdadeiras sobre o caráter semiótico da cultura bem poderia residir, precisamente, no estatuto simbólico dos animais. Não há equivalência possível: a morte de um gato não é a mesma coisa que a morte de uma formiga. Entre os animais de estimação, talvez pelo interdito de uma provável projeção inconsciente, algo se humaniza. Ante a cena de um gato matando lentamente um rato, por exemplo. Denise Levertov escreve num de seus poemas: “Quão cruel é o gato ante nossos olhos de culpa”. O poema é intitulado “O inocente”. Em O mal-estar na cultura Freud observava que nós nunca nos perguntamos sobre o propósito da vida animal. Dito de outra maneira, apesar de existir uma vastíssima tradição filosófica que se interrogou sobre o sentido da vida humana, a pergunta por uma verdadeira metafísica animal parece extravagante, inclusive quando os modos comuns de abordar a ética de nossos mascotes radicam, como no poema de Levertov, nos parâmetros governados pela língua e cultura próprias: os animais “se comportam bem” ou “se comportam mal”. E, ainda assim, há um remanescente nietzschiano nos animais, mas sobretudo nos gatos: algo – uma qualidade inerente à sua existência – parece colocá-los para além do bem e do mal.

Talvez a primeira cultura em que o gato ocupa um lugar privilegiado seja a cultura grega. No Louvre, há uma escultura milenar, realizada em bronze, de Bastet, deusa egípcia com forma de gato que representava a maternidade. Precisamente, em sua origem mítica, algo dos gatos parece instalar-se por sobre a esfera humana, como uma divindade. Esta primeira associação histórica entre a gata como símbolo materno conectará com alguns significados que aparecem, posteriormente, em outras línguas. Por exemplo, de acordo com o prestigiado Oxford Latin Dictionary, o adjetivo cattus – de onde possivelmente deriva, quase intacta, a palavra gato – significa inteligente e também cauto; em francês, o verbo guetter refere-se, por sua vez, ao ato de espiar. Mas, a quem espiam estes sigilosos e astutos animais?

Na somatória de todos estes sentidos acumulados ao longo da história, os gatos parecem descidos à terra diretamente do Olimpo e aqui estão com a estrita e secreta missão de velar maternalmente pelos humanos. De fato, só de olhar o andar de um gato – seu extremo refinamento e sua leveza, a parcimoniosa delicadeza que, num abrir e fechar de olhos, pode se transformar numa rápida reação – percebemos que o modo de ser dos gatos, sua existência, parece estar se passando noutro lugar, em outra dimensão. O cão é o melhor amigo do homem: isso implica, de algum modo, uma relação de igualdade. O gato, ao contrário, parece estar sempre um pouco mais além do humano. Poderíamos dizer que os gatos são seres do imaginário enquanto o cão é um animal da realidade.

Num poema intitulado “Meus gatos”, Charles Bukowski, escreve: “caminham com uma dignidade surpreendente. / dormem com uma simplicidade direta que / os humanos simplesmente não conseguem entender. / seus olhos são mais / belos do que os nossos olhos. / e eles conseguem dormir 20 horas / por dia / sem / hesitação ou / remorso. / quando estou me sentindo / pra baixo / tudo que preciso fazer é / observar meus gatos / e a minha / coragem / retorna. / estudo essas / criaturas. / são meus / professores.”* Pablo Neruda tem sua própria “Ode ao gato” na qual atribui um caráter semelhante, relacionado com a superioridade. Neste poema, Neruda diz que o gato é o animal perfeito: chama-o “pequeno imperador”, “mínimo tigre de salão”, “fera independente da casa”, “arrogante vestígio da noite / preguiçoso, ginástico / e alheio”.

Em definitivo, existe algo na motricidade felina, em sua agraciada condição estética de constante modelagem, que tem marcados efeitos psicológicos nas pessoas. Fabián Casas – que tem uma cadela – escreveu certa vez: “as coisas não importam para os mortais”. Poderíamos reescrever: “para os gatos não importam os mortais”. Há uma indiferença tipicamente gatuna: os gatos raramente vêm quando os chamamos, mostram-se autônomos, independentes. Por isso, o escritor Ray Bradbury aconselha, numa entrevista, tratar as ideias como os gatos: fazê-las com que nos sigam. Assim seria a dificuldade do pensamento. Desta enfática atitude de apatia em relação às pessoas, possivelmente provém seu poder simbólico, sua ambiguidade para encarnar sentidos contrários. Por isso, também ante uma força de transmutação semiótica tão grande, a forma com que nossa cultura termina metabolizando a figura do gato tem a ver com a redução de seu poder simbólico à mera simpatia, a uma ternura estereotipada.

Em “O gato de botas”, Charles Perrault enaltece para sempre a astúcia gatuna. Na mesma linha, o Gato de Cheshire que aparece em Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, além do dom da invisibilidade e da onipresença, tem o dom da reflexão filosófica. Seu sorriso marcante, sem dúvida, soma um primeiro tom inquietante e prefigura o riso grotesco do Coringa. A inteligência destes animais se transforma em picardia e excentricidade em O livro dos gatos sensatos do Velho Gambá, que o poeta T. S. Eliot escreveu para seus netos e que inspiraria anos depois o lendário musical Cats.

Num poema intitulado “O gato”, incluído em As flores do mal, Charles Baudelaire se refere a esta personagem como “amável fera” (aimable bête). O sorriso desconcertante do gato de Alice somado ao caráter ferino que se mostra nessa mínima caracterização baudelairiana, talvez tenham uma referência anterior: “O gato preto”, de Edgar Allan Poe. Nesse famoso conto lemos que todos os gatos pretos são bruxas disfarçadas. O gato em questão, de nome Plutão, é depositário do sadismo, da violência, e ao mesmo tempo carma do protagonista, que mata sua mulher e é delatado para a polícia por um miado do gato. Talvez este conto represente a primeira cena de metamorfose: primeiro do amado, terno e carinhoso, logo odiado, sinistro e vingativo. Da mesma obscuridade se nutre Church, o primeiro gato zumbi que aparece em Cemitério de animais, de Stephen King.

No cultuado livro The Language of Cats, de Spencer Holst, o conto que dá título à antologia narra a história de uma personagem solitária cujo gato se transforma no centro de sua vida. Tanto é assim que, certo dia, decide estabelecer como meta comunicar-se com seu gato. E chega a conseguir tal feito! Seu amigo felino então comunica algo revelador: que os gatos não têm medo da morte”. Neste ponto compreendemos, logo, essa atitude enaltecida e endeusada de todo gato: não apenas são indiferentes aos humanos, mas àquilo que os humanos mais temem. Marcel Mauss dizia, precisamente, que os gatos são os únicos animais que conseguiriam domesticar o homem. A poeta brasileira Angélica de Freitas reafirma isso assim: “o que dizem dos gatos / é verdade / nós somos deles / e não o contrário”*.

Doris Lessing, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2007, dedica um livro inteiro às suas mascotes: Sobre gatos. A autora conta a história dos gatos que passaram por sua vida. Num momento chega à conclusão de que todo gato é adorável. Volta, aqui, nesse pequeno atributo, algo do sentido originário, egípcio, de adoração do gato como um deus. Na condição de adorável os gatos reúnem as principais características históricas da espécie: por um lado, são temíveis e sublimes, como um deus e, por outro, produzem um tipo de ternura particular.

O cinema e a animação também têm suas respectivas homenagens à picardia gatuna: Meu amigo Totoro (Hayao Miyazaki, 1988) ou O reino dos gatos (Hiroyuki Morita, 2002) reforçam a ideia de que os gatos vivem, literalmente, noutra dimensão, em seu próprio mundo. Em 2016 estreou um documentário turco intitulado Kedi (Ceyda Torun) que se centra na vida dos gatos em Istambul, cidade famosa pela quantidade de felinos que andam pelas ruas. Neste caso, os gatos se tornam estrelas de cinema: são o centro da câmera, que nos mostra como é sua vida cotidiana, o que fazem e inclusive qual é sua característica psicológica distintiva em cada situação.

O poder simbólico do gato é tal que, na atualidade, a palavra se emprega como expressão popular: refiro-me ao conhecido apodo de “gato”, que talvez venha do lunfardo e que fazia referência, com certa conotação negativa, a pessoas refinadas*. Hoje, inclusive, pode utilizar-se tanto de maneira negativa como de maneira positiva: como se a própria palavra se comportasse como um gato inquieto e não deixasse se prender num sentido fixo e estável.

Por fim, uma anedota pessoal: minha namorada tem uma gata negra chamada Tinta. Eu nunca tive muita gana pelos animais. Uma vez, adotamos uma cadela com uma ex e foi desastroso. Por isso, Ana nunca trouxe a gata em casa. Tinta vivia com uma amiga dela. Um dia, não se saber bem como, num de seus passeios diários, Tinta voltou com os quadris literalmente desfeitos, destroçados. O veterinário, depois de olhar a radiografia, diagnosticou que não voltaria mais a andar. A amiga de Ana tinha programado uma longa e inadiável viagem. Moral da história: Tinta se mudou para morar conosco, em nosso apartamento. Em menos de três semanas, a gata se recuperou completamente: agora salta, corre, brinca. E todas as manhãs executa um misterioso ritual: sobe em nossos criados-mudos e fica um tempo parada aí, como uma orgulhosa esfinge do deserto.


Notas
* A tradução do poema de Charles Bukowski é a de Rodrigo Breunig apresentada em Sobre gatos (L&PM Editores, 2017); a tradução do poema de Angélica de Freitas é do poema “El gato se fue”, da antologia organizada por Liliana García Carril, El libro de los gatos (Bajo la luna,2008).

* lunfardo refere-se àquele ladrão sorrateiro, mais afeito ao furto. Figura que intenta replicar traços refinados e isso o faz sedutor. Pode corresponder, por aproximação, ao malandro brasileiro. Por aqui, é comum o termo gatuno.



* Este texto é uma tradução de “Es el gato el animal favorito de la literatura?”, que foi publicado inicialmente em Eterna cadencia. O original está aqui.

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