O erudito, o popular e a doce virtude da ignorância


Por Rafael Kafka

©Bruno Novelli


Sempre tentei entender por que as pessoas são tão apaixonadas pelos filmes de super-heróis. Mesmo em minha fase adolescente tendo sido um entusiasta dos desenhos animados japoneses, certas condutas típicas de geeks e otakus me aborreciam, como essa vontade de fazer cosplays. Ao mesmo tempo, porém, havia em mim uma certa sensibilidade imaginativa provocada em demasia pelos temas discutidos dentro de animes e mangás e muitas vezes me peguei envolvido com personagens desse universo em um grau maior do que com o tido com pessoas do mundo real.

Mas o meu purismo prevaleceu sobre meu bom senso e durante anos eu julguei pessoas que gostavam de filmes de super-heróis como tolas e infantis. Demorei a me libertar dele e demorei mais ainda para decidir ver um filme e avaliar por conta própria o charme dessas obras de arte. Por mais que nunca tenha lido nada dos autores os quais se utilizam do conceito de indústria cultural, esta foi uma noção muito utilizada por mim para criticar gostos diferentes dos meus durante anos de minha vida. Foi preciso um dia pegar na estante dos meus livros Dos meios às mediações, de Jesus Martin-Barbero, para eu entender o quão meus argumentos eram limitados e não os dos fãs que discutem sobre quem é melhor: se a Marvel ou a DC.

A ideia do conceito de indústria cultural em meu percurso existencial sempre soou como um grupo economicamente favorecido querendo ganhar dinheiro e usando um simulacro de arte para obtenção desse lucro. Criam-se então ritmos tolos e fajutos para ficarem nas mentes das pessoas, as quais de tanto consumirem aquilo e comprarem produtos e serviços ligados à marca garantem ao empresário e ao artista uma profunda felicidade financeira. Com o passar dos anos, esse conceito se ampliou em minha vida e foi para o campo da recepção. Martin-Barbero me fez entender que o povo que consome a chamada cultura de massa não é ingênuo, estúpido ou preguiçoso e sim um povo que de alguma forma se enxerga naquelas obras.

Já então outra expansão no conceito de indústria cultural havia ocorrido em mim: se o povo estava ouvindo brega e funk nas periferias era a arte à qual eles tinham acesso. Queria que meus familiares ouvissem coisas como sonatas de Beethoven, mas não havia como tais sonatas chegarem a eles e numa espécie de ato de revolta marcado pela espontaneidade essas pessoas consumiam músicas que falavam de forma simples e divertida daquilo que eles vivenciam até hoje, em especial as dores de amor e o desejo de dançar. A expansão final surgida com Dos meios às imediações é a expansão de entender que o sujeito da periferia não deve ouvir as sonatas de Beethoven e deixar de lado o funk e o tecnomelody: ele deve ter acesso aos dois, ter gozo com os dois.

Minha amiga Walquíria talvez seja a pessoa que ao lado de Martin-Barbero mais me despertou para essa questão. Quando eu a visitava, ela me falava de coisas que ela gosta, como os filmes dos X-Men, e de como havia ali debates políticos interessantes a serem feitos. Walquíria é uma das pessoas mais inteligentes e sensíveis que conheço, capaz de ouvir Chopin para relaxar e um bom funk quando quer simplesmente extravasar e relaxar de outras formas. Por causa dela, decidi ver os filmes dos X-Men e senti outro tipo de prazer não sentido quando vejo filmes de Godard, por exemplo, além de um interessante conjunto de diálogos acerca da inclusão e da diversidade.

Assim sendo, hoje acredito que gostamos de filmes de super-heróis porque nos vemos neles. Tal gênero de filme, mesmo com uma aparência mais massiva, possui muito do antigo discurso épico e serve para nos fazer querer ir além de nossas simples existências. A arte em geral faz isso e tais gêneros fazem de sua maneira. O filme de super-herói serve para aquilo mesmo: fazer a gente querer ser mais do que é, fazer a gente querer ter poderes sobre humanos. Por isso, surgem as pessoas que se fantasiam de super-heróis, os quais para muitos são seres gloriosos porque não perderam sua infância, seu jeito criança. Prefiro vê-los como sujeitos inconformados que não desistiram de viver a vida além da ordem cronológica existente nela.

Assim, não acredito mais na ideia tola de anos atrás que consiste em fazer a pessoa abrir mão do popular para focar no “erudito”. O ideal hoje é entender por que as pessoas se enxergam no popular e entender que muito do considerado erudito hoje em dia foi popular em outra época. Basta analisarmos diversos elementos presentes em músicas populares como o folk, o jazz, o blues e nossa MPB. São coisas que vieram do gueto e hoje são sinônimos de requinte e sofisticação. Os filmes de Glauber Rocha e de outros membros do cinema novo também captam bem o absurdo de se separar o popular do erudito, não obstante esse diretor tivesse uma ideia de cinema depurado que mostrasse a verdadeira face do Brasil. O erudito aqui tinha a missão de mostrar o popular.

O popular é aquilo que nós produzimos em nosso cotidiano e que olhamos de forma superior e etnocêntrica por conta de nossa arrogância cultural. Diante de uma sociedade que nega o acesso a diversos meios culturais, incluindo as bibliotecas, utilizamos um discurso meritocrático para fazermos julgamentos sobre o gosto alheio e dele zombarmos, usando uma argumentação cuja lógica faz um bom simulacro de discurso científico. Mas assim como o preconceito linguístico se volta para quem fala e não para o que é falado, o etnocentrismo se volta para quem tem aquela cultura e não o que ela é em si. Separar o mundo em erudito e popular é até válido no sentido de crítica de uma mídia que aos domingos de tarde atinge o ápice das tentativas de estupidificar as pessoas, mas procuro entender cada vez mais porque as pessoas se enxergam nesses produtos culturais.

Muitas das vezes elas se enxergam ali por não terem mais para onde olhar e se enxergar ou assim pensarem. Quando mais jovem, eu tinha de ver programas de canais abertos cujo conteúdo era algo altamente tosco e a MTV Brasil naquele período me salvou me fazendo ver programas com ar mais jovem e musical, iniciando-me em pautas políticas interessantes. Ainda assim, penso que o gosto pelas novelas mexicanas reprisadas incessantemente pelo SBT me fez criar uma sensibilidade a qual anos depois se mostraria em amor pela literatura. Hoje, mesmo com tantas formas de distração oportunizadas pelos canais de streaming, perco horas do meu dia vendo memes e rindo de piadas tolas na internet, porque meu cérebro simplesmente não consegue ser culto o tempo todo. E porque naquele momento aquelas piadas representam bem a catarse que quero sentir. Fico a imaginar a situação do trabalhador que não consegue ter uma wi-fi decente em casa ou mesmo que não teve aulas de cultura digital e acesso à informação e à arte em sua escola quando mais jovem, pois os tempos eram outros.

Nesse sentido, quando entendemos que a arte resiste nos menores gestos e que embora seja negada aos mais pobres ela se mantém viva em seu desejo de fazer dançar, cantar, sorris, sofrer e chorar, paramos de fazer da divisão popular/erudito uma distinção entre superior e inferior. Passamos a entender uma diversidade de processos de produção e recepção os quais se conectam e marcam muitas vezes uma luta contra o sistema social em que vivemos.

Quando comecei a dar aulas, fazia um trabalho o qual consistia em um aluno escolher um livro à vontade e fazer sobre esse livro uma resenha. Naquela época, era uma forma que eu tinha de auxiliar o aluno a ler algo e ao mesmo tempo melhorar as médias na escola. Independente da eficácia ou não da ideia, não pude deixar de reparar como os alunos leitores de Harry Potter tinham argumentos sólidos para diversas questões e como minha amiga Walquíria, ouvindo todas as minhas viagens, sempre pegava cenas de Harry Potter para complementar meus pontos de vista. Hoje ela também cita muito Game of Thrones também. Dia desses, vi um aluno empolgado com o paradoxo temporal exposto em Vingadores: Ultimato e passei a sentir as garotas mais orgulhosas de si por verem tantas super-heroínas juntas. Muitas vezes, esses pequenos seres citam outros fatos de outras obras por eles amadas para fazerem críticas sociais e políticas e mais uma vez, o que mostra a capacidade de enxergar na realidade deles aquilo que veem nos filmes, um curioso e interessante caso de reflexo-refletidor.

Por conta disso, vi Birdman, de Alejandro Iñárritu, como uma espécie de grito de rendição perante os novos tempos. O salto para a morte ao final do filme é na verdade um salto para a vida. Após tanto sucesso como super-herói e depois de uma tentativa de ingressar em uma arte mais “culta”, Riggan Thomson parece aceitar não haver mais sentido na dicotomia usada por ele para entender a realidade. O culto e o popular estavam misturados e o seu espaço era na ambiguidade dos dois. O culto e o popular somos nós e nosso discurso colonizador precisa começa a ser derrubado para nos enxergamos mais plenamente e sermos mais felizes e plenos.

Agradeço a Walquíria e a meus alunos por terem me feito enxergar isso ao mesmo tempo que recomendo a leitura de Martin-Barbero a todos os puristas culturais que ainda circulam por aí.

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