Herdeiras da geração marginal

Por Pedro Fernandes




Qual nome receberá o grupo organizado por Heloisa Buarque de Hollanda para As 29 poetas hoje? A resposta para a pergunta pode ainda não está pronta, mas encontra alguns caminhos possíveis e estabelecer conjeturas não é de um todo inválido. Mesmo porque os interesses conceituais se oferecem seja por aquilo que o livro contempla seja pela leitura de alguma maneira estabelecida pela organizadora no prefácio “É importante começar essa história de algum lugar, ainda que arbitrário”.
 
Quando o espelho original para essa antologia tomou forma, os seus autores estavam agregados em torno de uma variedade de designações, incluindo a poesia marginal. O designativo não esclarece um tipo ou um conceito de poesia, afinal, se voltarmos a aporia dos gêneros literários descobriremos — pela recepção sobretudo — que a poesia, embora chegue a ser compreendida como maior pelo trato criativo e não puramente mimético, sempre apareceu situada num campo às margens. Isso amplia ainda mais os limites definidores daquele grupo de poetas dos anos setenta do século XX ou mesmo dilui a especificidade do que passou a se admitir como uma seção/ tipo da poesia.
 
No âmbito dos vários movimentos da arte com palavras num período que, às vistas de hoje, foi de bastante efervescência — o que explica nossa sempre limitada capacidade de avaliar o tempo em curso, se recordamos com Heloisa Buarque de Hollanda o tratamento dado por Zuenir Ventura chamando aqueles anos de vazio cultural — a poesia marginal, no caso brasileiro, se estabeleceu enquanto uma prática criativa de ruptura com uma variedade de determinações, incluindo as da necessária determinação pelo aparato dos conceitos.
 
O que não deixa de ser curioso, afinal, uma parte significativa dos nomes envolvidos no que poderíamos agora designar como movimento independente se organizava sempre em pequenos grupos; mesmo que em muitas circunstâncias o poeta fosse uma espécie de ovelha desgarrada, nunca, é bom dizer, era pelas distâncias criativas. A antologia 26 poetas hoje — ainda que tenha todo o necessário capricho de uma publicação do tipo em que o antologista estabelece o fio imantizador dos textos — responde por pelo menos dois grandes grupos que combinam os destinos de uma parte da poesia brasileira.
 
O primeiro deles, talvez o aspecto que mais chama atenção à primeira vista, é a irreverência do conteúdo poético. Estabelecidos no tempo de elevada sisudez — os terríveis anos da ditadura militar — o tratamento jocoso é uma alternativa excepcional de desconstrução. A pena da galhofa, é claro, não é um invento dos marginais, mas um recurso de intervenção que remonta às próprias origens da literatura e, no nosso caso específico, uma matéria executada com maestria pelos nossos modernistas. O singular é que o riso se estabelece por uma dinâmica mais complexa que o sério e exige do criador, portanto, um grau de elevada criatividade. Ao repararmos que na poesia a mimese se amplia enquanto criação, logo descobrimos o material com o qual grande parte dos nossos poetas lidavam.
 
Outro grupo de poetas, interessado em ampliar as experimentações com a forma, rompe com os limites entre a prosa e a poesia, fazendo o poema um discurso abertamente permissivo, integrando-se às mais diversas práticas linguageiras. Noutras vezes, o poema se organiza enquanto território bastante centrado, em alguns casos, autocentrado; ou conjuga expressões que vão do tom aforístico, anedotário ou o relance da ideia capturado em seu estágio mais iminente. Quer dizer, o espaço texto vigora como uma região de rica experimentação formal e linguística e o poeta como ente um encantado pela polivalência do discurso e sua multiplicação em sentidos. É possível dizer nessa circunstância que se estabelece entre nós uma redescoberta da linguagem poética que determinará de vez os múltiplos lugares alcançados pela poesia posterior aos anos setenta — um trabalho cujas diretrizes estavam levantadas desde a premissa modernista de uma literatura autossuficiente.
 
Esses grupos, obviamente, não estão separados nem em oposição. E os aspectos reparados no primeiro são facilmente encontrados no segundo. A distinção nesse caso é puramente didática e fim de reparar que as poetas (e não mais os poetas) constituem agora uma extensão dessas duas linhas firmadas entre os 26 poetas hoje. Antes, ressaltemos uma coisa: sabedora dos impasses que o termo marginal adquiria entre os poetas reunidos na sua antologia, em parte alguma da primeira edição apresentada em 1976 pela recém-chegada ao Brasil editora Labor, identifica ou mesmo menciona tratar-se de uma antologia da poesia marginal, mas, foi como tal que passou para a história da literatura.
 
A antologia editada em 2021, apesar de constituir claramente uma continuidade da primeira, dela se diferencia em muitos aspectos. O primeiro deles é a presença de um artigo que define o grupo; 26 poetas hoje sugere um recorte específico dentre um grupo maior — como depois se viu. Embora As 29 poetas hoje queira identificar que esta é uma obra composta por mulheres, o sintagma abre outra sugestão, a de que as poetas aqui reunidas são as poetas de hoje no Brasil — e isso pode soar pretenciosismos, afinal, toda obra dessa natureza é quando muito uma amostra abrangente e, claro, muitas ausências de nomes demonstram isso.
 
Nesse sentido, Heloisa Buarque de Hollanda parece que transferiu o tom polêmico da sua primeira antologia para outro campo. Como chegamos a alguma consonância acerca das variedades poéticas, nem a presença feminina nas letras desperta, felizmente, negativas das já enfrentadas, o debate se desloca do conteúdo e da autoria para a maneira como se apresenta. No interior de algumas aprendizagens positivas alcançadas no nosso tempo parece interessante destacar que os universalismos são sempre questionáveis. Assim, de que maneira poderíamos interpretar que esse elemento definidor não se reveste de interesses dominantes — o perigo de todo cânone?
 
A resposta encontra-se definida no que dizíamos no penúltimo parágrafo. O fator derivação — que situa a origem de As 29 poetas hoje — é fundamental aqui. Uma das mulheres incluídas na antologia de 1976 — poucos nomes, aliás — que se projetou com maior expressão foi Ana Cristina Cesar. Com ela, estavam Zulmira Ribeiro Tavares, Vera Pedrosa, Isabel Câmara, Leila Míccolis. Parte dessas não fez grandes voos, o que também é um caso curioso e comentamos depois. Enquanto isso, a poeta de A teus pés, se estabeleceu como um paradigma da poesia brasileira pós-1970 e um dos nomes centrais quando se fala sobre a poesia marginal, a Geração Mimeógrafo, o movimento Alissara. Nesse sentido, os nomes que agora se reúnem têm em Ana Cristina Cesar seu ponto de inflexão; as 29 poetas hoje são suas herdeiras: “Essas poetas são as que, com mais evidência, experimentaram o legado, ou, melhor dizendo, o efeito Ana C.” — corrobora a própria antologista.

Ana Cristina Cesar. Foto: João Almino.



Esse legado / efeito não se encontra apenas na emulação de uma poética. Ana Cristina Cesar foi uma das poucas que estabeleceu em torno de suas perquirições literárias alguma reflexão sobre seus interesses literários, com atenção para alguns debates caros ao seu tempo, como os de uma escrita feminina, delicada expressão, igualmente ou mais problemática que a poesia marginal. Embora a poeta não tenha estabelecido um conceito para os termos — e é mesmo possível que guardasse variadas reservas sobre o seu uso, num momento quando a ideia de escrita feminina era apenas um disfarce duvidoso das velhas intenções reducionistas estabelecidas sobre o trabalho das mulheres com a literatura — conseguimos pensar a partir da sua obra e das escolhas de leituras que fez (Emily Dickinson, Sylvia Plath, Angela Melim, Katherine Mansfield, entre outras) quais aspectos se manifestam preponderantes entre a literatura produzida por mulheres: o corpo e suas variâncias biológicas, sociais e políticas, o cotidiano enquanto singularidade, a realidade sensível capturada por uma visão intimista, a palavra enquanto simulacro etc.
 
O trabalho criativo de Ana Cristina Cesar ao invés de repetir lugares ou apenas buscar inovações no âmbito do estabelecido se filia muito propriamente numa complexa e universal rede de fazeres particularizados no modo, na forma e na expressão particulados por outras mulheres, o que não se percebe com a mesma vivacidade entre as suas companheiras de antologia. Não é o caso aqui de distinguir escritas mais ou menos de mulheres; é o caso de dizer que Ana C. se aproximou melhor daquelas variantes assumidas — dentro e fora do seu tempo — numa dicção feita de escritoras. Em parte, isso diz sobre sua permanência. A outra possibilidade para tanto está em como a poeta se projeta no interior dos modelos poéticos em efervescências, neles integrando-se de maneira expansiva.
 
Ou seja, falamos sobre uma poeta ora integrada, mas continuamente em rebeldia, não querendo buscar sobreposições, mas interessada em se reconhecer entre outras poéticas. Esta talvez seja a melhor característica que podemos estabelecer para compreender seu papel na ordem desse rico universo agora descortinado por Heloisa Buarque de Hollanda. Fora de uma filiação à Geração C., essas poetas nos mostram — outra vez frente a afirmação segundo a qual o contemporâneo apresenta-se esvaziado de criações artísticas — a riqueza da presença feminina nas nossas letras. A antologia demonstra, em gesto de revisão, como um mirrado universo dos anos setenta do século XX se expande vertiginosamente; e sabemos que muitas outras 29 constroem criteriosa e parcimoniosamente suas obras: nem todas as poetas são seguidoras de Ana; nem o Brasil é feito apenas do Rio de Janeiro e de São Paulo (as prevalências esperadas numa publicação sudestina).  
 
Qual dessas poetas permanecerão? Qualquer leitor, obviamente, poderá estabelecer seus palpites por questão de gosto ou proximidade com a obra de determinado nome. De toda maneira, é cedo para uma resposta definitiva, mas, se fosse tarde, era capaz de não encontrarmos também uma conclusão. As movências do tempo nesse sentido são em nada previsíveis. Mas, fora as querências pessoais, a continuidade de Ana Cristina Cesar entre nós oferece um indicativo importante de considerar porque é recorrente universal: ficam as poéticas autênticas. Leia-se por isso: aquelas que são capazes de ouvir e se integrar ao seu tempo, sem artificialismos, mas que alcancem amplitude, que se acrescentem ao infinito cordão coral de poetas, onde se faça possível ouvir suas vozes a um só tempo alinhadas e dissonantes. Por mais que se alargue o cânone, mesmo que o negue, essa dinâmica — que independe da crítica, se está dentro ou fora de uma antologia como esta, se pertence a este ou aquele ajuntamento de poetas — ainda é a mais competente e dela toda a literatura nunca se afastou.
 

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