Boletim Letras 360º #430

DO EDITOR
 
1. Caro leitor, outra vez é sábado e ainda estamos aqui. Este boletim é uma publicação criada há 430 semanas com o interesse de reunir as notícias que foram copiadas em nossa página de informações no Facebook.
 
2. Reitero, em nome do blog, os agradecimentos pela companhia e pelos gestos de divulgação e de diálogo, tão importantes para este trabalho. Obrigado e boas leituras!

Ana Luísa Amaral. Foto: Onomatopeia.



 
LANÇAMENTOS

A Ponto Edita reúne em projeto especial inéditos de Zelda Fitzgerald.
 
A antologia Artigos e textos jornalísticos, que a Ponto Edita lança agora, reúne 13 textos raros de Zelda Fitzgerald e propõe uma leitura contemporânea de suas facetas de ensaísta, contista, bailarina e artista plástica. Concebida como um livro de artista, a edição apresenta esses escritos menos conhecidos em diálogo com as intervenções artísticas originais da escritora brasileira Clara Averbuck e da cartunista Bruna Maia. Completa a edição um ensaio crítico exclusivo escrito por Marcela Lanius, doutora em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio e uma das principais pesquisadoras da obra de Zelda Fitzgerald no Brasil. A escritora estadunidense publicou apenas um livro durante sua vida, o romance Esta valsa é minha (1932). No entanto, entre os anos de 1917 e 1948, a it girl original, que ficou conhecida como a primeira melindrosa, escreveu uma série de contos, artigos e textos jornalísticos. Embora muitos desses escritos tenham se perdido ao longo do tempo, alguns chegaram a ser publicados na época. Entretanto, como eram assinados também por seu marido, F. Scott Fitzgerald, o nome de Zelda acabou sendo apagado e sua autoria só reapareceu anos depois, quando se descobriu que o próprio Scott atribuiu os créditos a ela em seus cadernos de registro. Parte dessa produção esparsa começa finalmente a chegar ao público brasileiro em uma publicação que, pela primeira vez no país, coloca Zelda em seu lugar devido (o de autora) e propõe que ela seja lida não como grande heroína ou esposa de um escritor famoso, mas como uma escritora modernista por seus próprios méritos.
 
Livro assinala a estreia no Brasil da escritora indiana Janice Pariat.
 
Nove personagens relembram seu relacionamento com uma jovem — a mesma mulher — que eles amaram ou que os amou. Nós a juntamos, assim como fazemos com outras pessoas em nossas vidas, em lascas incompletas, mas iluminadoras. Situado em cidades conhecidas e sem nome, movendo-se entre o leste e o oeste, Nove partes de um coração é um compêndio de perspectivas mutáveis ​​que acompanham a vida de uma mulher, tornando-a deslumbrantemente real em um momento e obscurecendo-a no momento seguinte. O novo romance, primorosamente escrito, de Janice Pariat, é sobre a natureza frágil e fragmentada da identidade — como os outros nos veem apenas em pedaços e como às vezes tendemos a nos tornar o que os outros nos percebem ser. A tradução de Camila Araujo é publicada pela editora Moinhos.
 
Uma coletânea de ensaios da juventude de Albert Camus, essenciais para entender a obra de um dos mais importantes autores do século XX.
 
Bodas em Tipasa é a reunião de dois livros de Camus: Bodas e O verão. O primeiro, escrito entre 1936 e 1937, é um de seus primeiros trabalhos, e nele o autor já lida com questões que abordaria em toda sua obra — o absurdo e o suicídio. São quatro ensaios líricos com caráter autobiográfico: “Bodas em Tipasa”, texto mais famoso, se passa na cidade argelina onde, com suas ruínas romanas e o mar, “exibimos, todos, a lassidão feliz de um dia de bodas com o mundo”; “O vento em Djemila”, com suas ruínas seus afloramentos rochosos, onde “reinava um silêncio pesado e compacto”; “O verão em Argel”, em que apresenta um dos grandes fundamentos de sua filosofia, pois “se há um pecado contra a vida, talvez não consista tanto em desesperar dela quanto em esperar outra vida, e se furtar à implacável grandeza desta”; e “O deserto”, sobre sua viagem à Toscana com um “deserto singular [que] só é sensível aos que são capazes de nele viver sem jamais enganar sua sede. É então, e só então, que ele se povoa das águas vivas da felicidade”. Já O verão, é um ensaio de Camus escrito poucos anos depois, entre 1939 e 1953. Nele o autor se debruça sobre uma viagem que parte da Argélia, do fio de Ariadne no encalço do Minotauro para evocar Orã e seus arredores, revisita o mito de Prometeu à luz da violência do mundo então e sonha com a beleza de Helena e da Grécia, que nos envolve numa viagem pelo Mediterrâneo e por seus mitos. A tradução de Sérgio Milliet é publicada pela editora Record.
 
Uma história sobre trauma, violência sexual e as agruras da vida das mulheres turcas.
 
Depois que o coração para de bater, o cérebro permanece ativo por 10 minutos e 38 segundos. Para Leila Tequila, uma prostituta de Istambul que acabou ser assassinada, cada um desses preciosos minutos traz à tona uma memória: o gosto do guisado de bode sacrificado pelo pai para celebrar o esperado nascimento de um filho, o cheiro de limão e açúcar da cera que as mulheres usavam para se depilar na sala de estar de sua casa, o gosto do café de cardamomo que ela toma com um estudante bonito no bordel em que trabalha. Essas memórias, que se esvaem nos breves minutos que lhe restam, trazem de volta as amizades que ela formou em sua vida agridoce, amigos que agora estão desesperadamente tentando encontrá-la. Profundo, brutal e emocionante, 10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho traz em suas páginas um vórtice de dor e beleza. Elif Shafak apresenta uma história sobre trauma, violência sexual e as agruras da vida das mulheres turcas, que estão sujeitas a um sistema social cruel, regido pelo regras e amarras do patriarcado. A tradução de Julia Romeu é publicada pela HarperCollins Brasil.
 
Uma espécie de introdução às obras e ao estilo literário de Clarice Lispector.
 
“De Natura Florum” é um texto que foi publicado pela primeira vez em 3 de abril de 1971, no Jornal do Brasil (Rio de Janeiro). Em 1984 foi incluído no volume A descoberta do mundo. Agora, um livro publica-o em formato independente. A Global Editora o faz com projeto internacional desenvolvido por Elena Odriozola, Prêmio Nacional de Ilustração, e Alejandro G. Schnetzer. O texto, à maneira de um herbário em verso, é estruturado a partir de vinte e quatro verbetes. As cinco primeiras são definições botânicas gerais, as dezenove restantes são descrições de flores, com uma poética particular. Tornado livro De Natura Florum é uma espécie de introdução às obras e ao estilo literário de Clarice, com fácil entendimento e assimilação.
 
Com uma narrativa seca e dura, este é um romance sobre o atual momento do país, desde a ditatura militar até seus reflexos na ascensão de Bolsonaro ao poder.
 
Fernando Bonassi, roteirista, dramaturgo e escritor, é uma das vozes contemporâneas mais importantes que temos. Seus textos ― roteiros, peças, romances e contos ― registram, sob o olhar privilegiado de quem conhece as mazelas da sociedade brasileira, os vários revezes pelos quais o Brasil passou. Degeneração, seu novo romance, narra a saga de um filho que precisa liberar o corpo do pai que acaba de morrer e está no necrotério de um hospital público de São Paulo, às vésperas da eleição que colocará Jair Bolsonaro e a extrema direita no poder. A partir desse pano de fundo, o narrador-personagem se vê então diante de um confronto íntimo protagonizado pela figura do pai, o que o leva a fazer uma retrospectiva da história dos dois, de sua infância, remontando desde a um episódio traumático a que o pai o submeteu até a descoberta de que o mesmo, na ditadura, agiu como delator e assistente de torturadores, colaborando para um batalhão da PM. Degeneração é o retrato dos subúrbios brasileiros, habitados por uma classe média baixa que luta, se defende e sobrevive com todas as armas que possui, flagelada pela violência e pela falta de perspectivas. É também uma leitura contundente sobre a história do Brasil, da ditadura ao momento atual, em que o país permitiu a ascensão de Bolsonaro, da extrema direita e das milícias ao poder. O romance é publicado pela editora Record.
 
Um romance imagina a fictícia viagem de Karl Marx e sua filha à Comuna de Paris.
 
Escrito por Michael Löwy e Olivier Besancenot, O caderno azul de Jenny: a visita de Marx à Comuna de Paris é uma obra de ficção que acompanha Karl Marx e sua filha Jenny Marx em uma fictícia viagem a Paris, durante os acontecimentos da Comuna. Os autores reconstroem o que seria o caderno azul de Jenny, uma espécie de diário escrito durante a passagem da dupla pela cidade. Um descendente da família Longuet descobre, num velho baú, um documento que permaneceu inédito e cuidadosamente escondido por Jenny, a filha mais velha de Marx. Este Livro azul, escrito em alemão, inglês e francês, descreve a visita clandestina de Jenny e de seu pai Karl à Paris em abril de 1871. Durante duas semanas, os dois encontrarão os Communards. Para não ser reconhecido, Marx se disfarça, tinge o cabelo de preto e encurta sua barba, na tentativa de passar despercebido. Jenny descreve os encontros de Marx com diferentes personagens históricos como Leo Frankel, Eugène Varlin, Charles Longuet, Elisabeth Dmitrief e Louise Michel. Ele fica fascinado com a experiência que observa e descobre uma nova forma de fazer política. A tradução de Fabio Mascaro Querido é publicada pela Editora Boitempo.

Ricardo Lísias retorna ao trabalho de reimaginar o Brasil evidenciando o projeto de genocídio e negacionismo que fez do país um recordista de mortes na pandemia de Covid-19.
 
Se, no Diário da catástrofe brasileira: Ano I, Ricardo Lísias mostra como o Brasil assistiu à destruição de sua imagem no exterior com o isolamento político, os desastres ambientais e as declarações absurdas do governo Bolsonaro em seu início, neste Ano II o autor evidencia como o país se tornou sinônimo de morte, com o cumprimento eficaz das tétricas promessas de campanha feitas pelo presidente da República. Em um inspirado resumo do que foi o ano de 2020, Ricardo Lísias mostra como uma catástrofe foi preparada no Brasil: a disseminação de um vírus contagioso e letal ofereceu ao presidente da República a oportunidade para um genocídio — calma e organizadamente preparado, à luz do dia e sem nenhum tipo de oposição efetiva. A cuidadosa negligência com que o governo federal tratou a pandemia, na verdade, obedece ao plano que seu líder já anunciava na campanha de 2018. Embora atracado aos fatos do presente, este Diário não é um livro passageiro: diluindo a fronteira entre os gêneros literários, forçando os limites que estabelecem a diferença artificial entre arte e realidade, Lísias dá mais um passo em sua obra radical e confessadamente voltada para lidar com os problemas mais urgentes da sociedade brasileira. Com o texto cuidadoso de sempre, aqui não há contemporização, e o nome do pior candidato da história eleitoral brasileira, tristemente eleito, é trocado por seu correlato direto: a Morte. O segundo ano do diário de um dos escritores mais elogiados da literatura contemporânea é um livro doloroso, às vezes violento e outras trágico, mas necessário.
 
A Coleção Clássicos Ateliê dá a público sua edição de O Coruja, romance de Aluísio Azevedo. Uma história em que há algo de patético, trágico e alegórico.
 
Trata-se de uma edição criteriosa quanto ao estabelecimento do texto do autor, com atualização mediante o Acordo Ortográfico de 1990. Notas editoriais foram acrescidas, sobretudo, em vista do leitor em formação. Um ensaio luminoso de Maria Schtine Viana antecede o texto da obra, esclarecendo aspectos críticos relevantes e inerentes à narrativa. Destaca-se também um posfácio com informações sobre a vida e a obra de Aluísio Azevedo com farta iconografia. O volume se enriquece com as ilustrações do artista plástico Kaio Romero.
 
REEDIÇÕES
 
Nova edição do Auto de João da Cruz.
 
O Auto de João da Cruz, na medida em que se baseia no tema secular da disputa de uma alma entre o demônio e os emissários divinos, tudo terminando num julgamento, faz indubitavelmente um pendant com o Auto da Compadecida, cinco anos posterior, mas se neste o elemento cômico domina tudo, nas falas do primeiro encontramos vários dos momentos de maior lirismo na obra de Ariano Suassuna. A nova edição é publicada pela editora Nova Fronteira.
 
Nova edição das Cartas a Theo reúne material inédito.
 
A grande novidade desta edição é a inclusão de um precioso material – até então inédito em nosso país: a primeira e única crítica sobre a obra de Vincent van Gogh publicada enquanto ele vivia. Trata-se de uma minuciosa e muito elogiosa análise sobre o trabalho do pintor realizada pelo poeta, escritor e crítico de arte Gabriel-Albert Aurier (1865-1892), publicada na respeitada revista Mercure de France. Está aqui incluída também toda a repercussão que provocou esta elogiosa crítica: a troca de correspondência entre Vincent, seu irmão Theo e amigos como Gauguin, Émile Bernard, entre outros. O leitor encontrará neste volume, igualmente, o inédito necrológico de Vincent van Gogh publicado três meses depois de sua morte, em setembro de 1890, na revista Mercure de France. A presente edição contém ainda uma seleção das principais cartas enviadas por Vincent a seu irmão Theo. Um material emocionante e revelador, tanto por sua obsessiva convicção de ser realmente um artista, como também pela paradoxal consciência da própria loucura. Esta antologia é um impressionante depoimento autobiográfico, praticamente um diário onde se percebe claramente a evolução estética e a degradação da saúde mental do pintor. Além das cartas e dos esboços para futuros quadros, esta edição traz um glossário de nomes e alguns fac-símiles da correspondência, para que o leitor tenha uma ideia precisa sobre a relação intelectual e de afeto entre Theo e Vincent. Na maioria das cartas, Vincent submete ao irmão esboços e croquis dos quadros que pretende fazer. A tradução de Pierre Ruprecht e Julia da Rosa Simões é publicada pela L&PM Editores.
 
A editora Nova Fronteira reedita tradução de João do Rio de quatro ensaios de Oscar Wilde.
 
Estes quatro ensaios de Oscar Wilde, nas palavras do icônico escritor e jornalista João do Rio, que assina a tradução e o prefácio desta edição, compõem a “biografia de uma alma” — um livro que, sozinho, “vale uma época literária”. São textos sobre artes plásticas, literatura, teatro e crítica que, colecionando frases memoráveis, celebram a estética, atacam os moralismos e evidenciam o quanto o autor estava à frente de seu tempo.
 
PREMIAÇÕES
 
Ana Luísa Amaral ganha o Prêmio Rainha Sofia de Poesia.
 
Em 2021, o galardão celebra sua trigésima edição, sempre atento a reconhecer o criador pelo conjunto da obra poética ressaltando o valor literário e seu papel de relevância para o patrimônio cultural comum entre Ibero-América e Espanha. Agora, esse reconhecimento é atribuído para Ana Luísa Amaral. A poeta portuguesa é autora de vasta obra que transita por gêneros variados, como o ensaio, a ficção e o teatro. Sua estreia na poesia se deu em 1990 com Minha senhora de quê; em Portugal, seu mais recente título neste gênero foi Ágora (2019). No Brasil, estão publicados pela editora Iluminuras Vozes, Ar e Escuro. O Prêmio Rainha Sofia de Poesia é um dos mais importantes galardões e, entre outros, foi atribuído a nomes como João Cabral de Melo Neto em 1994, Sophia de Mello Breyner Andresen em 2003 e Nuno Júdice em 2013.
 
David Diop, International Booker Prize 2021.
 
“Irmão de alma”, escrito por David Diop e traduzido do francês por Anna Moschovakis, foi anunciado como o vencedor do International Booker Prize em 2021. Nascido em 1966 em Paris, David Diop é o primeiro autor francês a receber o galardão. Criado no Senegal, ele agora vive na França, onde é professor de literatura na Universidade de Pau. Este é o segundo romance de Diop e ganhou outros importantes prêmios como Goncourt na França. O livro está publicado no Brasil pela editora Nós com tradução de Raquel Camargo. Em “Irmão de alma”, Alfa Ndiaye e Mademba Diop, dois escaramuçadores senegaleses, entre todos aqueles que lutavam sob a bandeira francesa na Segunda Guerra Mundial enfrentam um grande dilema no front: Mademba cai, ferido de morte, sob os olhos de Alfa, seu amigo de infância, e sozinho na loucura do grande massacre, perde a razão.
 
OBITUÁRIO
 
Morreu Antonio Fernando de Franceschi.

Paulista de Pirassununga. Antonio Fernando de Franceschi nasceu em 1942. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Foi Diretor do Museu de Arte de São Paulo, editor-responsável pela prestigiada publicação Cadernos de Literatura Brasileira, editados pelo Instituto Moreira Salles. Escreveu poesia e ficou reconhecido por títulos como Tarde revelada (Brasiliense, 1985; prêmio Jabuti), Caminho das águas (Brasiliense, 1987; prêmio Jabuti e prêmio da APCA), Fractais (Brasiliense, 1990), A olho nu (Companhia das Letras, 1993) Sete suítes (Companhia das Letras, 2010) e Sal (Companhia das Letras, 2017). Franceschi morreu no dia 31 de maio de 2021, em São Paulo.

DICAS DE LEITURA
 
José Lins do Rego nasceu no Engenho do Pilar a 3 de junho de 1901; isto é, recentemente passou o 120.º aniversário do escritor que ingressou todo um modo de vida do Brasil profundo ao conhecimento do restante do país: uma das fases do ciclo da cultura canavieira no Nordeste. Pela passagem da data, destacamos três livros essenciais para conhecer a sua obra.
 
1. Fogo morto. É para muitos, inquestionavelmente sua Magnum opus. Publicado em 1943, este título conclui uma sequência de romances designada como Ciclo da Cana-de-açúcar ao assinalar a decadência dos engenhos na Paraíba por uma variedade de transformações vividas pelos setores sociais, a considerar o empenho numa política de expansão dos centros urbanos, em parte advinda por um ideal de modernização do país. Junto com a crise da economia canavieira, o romance assunta uma variedade de outras modificações: as estabelecidas no interior do patriarcado, a das relações de trabalho e dos setores de produção. Com este livro José Lins fixa um grande painel sobre o Nordeste açucareiro iniciado com Menino de engenho em 1932 — romance que forma, no interior do Ciclo do Açúcar uma trilogia com Doidinho (1933) e Banguê (1934).
 
2. Menino de engenho. Foi com este romance que José Lins do Rego fez sua estreia. Calcado numa relação estreita com circunstâncias vividas pelo próprio escritor, a obra recria a vida no Engenho Santa Rosa, verificando os impasses entre um presente e o passado colonial. A narrativa acompanha a infância e a adolescência de Carlinhos. Órfão de mãe e separado do pai, o menino é conduzido ao engenho do avô. A vida, as amizades da infância, o contato direto com a natureza, a precoce iniciação sexual, a convivência com personagens que moram e trabalham na casa-grande e na antiga senzala tudo se desenvolve por um ponto de vista em contínua descoberta de si e do mundo. 
 
3. As melhores crônicas de José Lins do Rego. Este é um livro ainda em organização por Bernardo Buarque de Hollanda e é publicado pela Global Editora, casa que assumiu o trabalho de reedição da obra do escritor paraibano desde 2020. O livro reúne inclusive alguns textos ainda inéditos nesse formato. Homem ativo no seu ofício, a produção de José Lins neste gênero é vasta: só no jornal O Globo, veículo com o qual contribuiu entre 1944 e 1956, terá escrito mais de dois mil textos. Para os leitores que quiserem conhecer melhor sobre, é possível buscar títulos como Gregos e troianos (1957) ou Ligeiros traços — escritos de juventude, uma seleção preparada por César Braga-Pinto e publicada em 2007.
 
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
 
1. Cartas, manuscritos e desenhos do escritor tcheco Franz Kafka foram digitalizados e disponibilizados online ao público pela Biblioteca Nacional de Israel. O arquivo agora exposto foi recuperado depois uma longa batalha judicial e reúne cerca de 120 desenhos, mais de 200 cartas endereçadas Max Brod, entre elas o original de seu testamento literário no qual pedia o amigo queimasse todos os seus escritos. A história desse arquivo é mais ou menos conhecida de todos. Depois da morte de Kafka em 1924, Brod não cumpriu o pedido do escritor. Em 1939, ele deixou a Tchecoslováquia ocupada pelos nazistas e se fixou Tel Aviv, a partir de quando publicou inúmeras obras de Kafka e contribuiu em grande parte para sua fama póstuma. A morte de Brod em 1968 desencadeou uma novela, ironicamente “kafkiana” sobre o destino do que restou do arquivo. Um tribunal decidiu transferir parte dos arquivos que se encontrava num cofre da Suíça fosse entregue em maio de 2019 à Biblioteca Nacional de Israel, em Jerusalém, decisão que se manteve depois de muitas idas e vindas. Apesar de nenhum texto inédito, dos desenhos e das cartas, o material reúne um retrato da mãe de Kafka, um autorretrato e um caderno azul de estudos em hebraico. Veja o arquivo aqui.
 
2. A biblioteca de Julio Cortázar está digitalizada. Iniciado na leitura por sua mãe desde pequeno, a criatividade e curiosidade do escritor se alimentaram de grandes obras da literatura. Na biblioteca pessoal de Julio Cortázar se encontram muitos dos livros que o acompanharam desde muito jovem, alguns carregados desde Buenos Aires, outros adquiridos em Paris das idas às livrarias à beira do Sena e outros ainda presenteados e dedicados por autores como Alberti, Pablo Neruda, Juan Carlos Onetti, Lezama Lima, Octavio Paz, Carlos Fuentes, entre outros. Todo esse tesouro nas mãos da Fundação Juan March depois da doação realizada em 1993 por Aurora Bernárdez, companheira do escritor, reúne quase 4 mil títulos em 26 línguas diferentes. Visite aqui.
 
3. O blog da revista 7faces disponibilizou quatro poemas do poeta Antonio Fernando de Franceschi; o leitor pode ler aqui essa amostra do trabalho do poeta paulista.
 
BAÚ DE LETRAS
 
1. No dia do 120.º aniversário de José Lins do Rego preparamos esta sequência de entradas no Twitter que apresentam parte dos textos publicados aqui no blog sobre a obra e o escritor paraibano.
 
2. Entre 2011 e o ano seguinte o blog Letras in.verso e re.verso acompanhou com alguma atenção o dilema sobre o arquivo de Franz Kafka que foi parar em Israel e que foi agora disponibilizado online pela biblioteca nacional do país. São três publicações: esta que apenas menciona sobre os papéis; esta que discorre sobre o imbróglio jurídico e como este se instalou; e esta outra, descrevendo o desfecho da novela kafkiana.
 
3. Em 2016, publicamos aqui um texto sobre a grande biblioteca de Julio Cortázar. Da visita, o leitor encontrará uma lista com alguns clássicos que possivelmente assaram pela formação leitora do escritor.

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Comentários

Anônimo disse…
faleceu também Paulo Schmidt, o mardito vírus o levou :(

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