Romantismo e Alemanha: uma questão de necessidade

Por Marcelo Moraes Caetano

Caspar David Friedrich. Dois homens à beira-mar. 1817.


 
 
A identidade cultural — ou ao menos a sua busca — tem sido elemento incontestável na formação de indivíduos e de coletividades desde, no mínimo, o início do Paleolítico Superior, com a “Revolução agrária”, e o início da Idade dos Metais, com a “Revolução da escrita”. Há quem conteste, sempre sem êxito, ao menos até hoje, a tese.

Os marcos da Germânia (ou Hermania, “terra dos irmãos”, em latim), que fundaram a mais ostensiva dinastia europeia, a dos Habsburgo; que praticamente inventaram a infalibilidade da tática da guerrilha, com Aníbal; que atestaram a quimérica convivência entre o Sacro Império Romano-Germânico e a Reforma Protestante de Lutero e Calvino; que observaram, mudos, por séculos, verdadeiras hidras de Lerna como o Império Austro-Húngaro, a Tchecoslováquia, a Iugoslávia, Weimar, Boêmia, entre outras peripécias; esses marcos necessitavam, após a “Revolução intelectual” dos séculos XVI, XVII e XVIII, enfim, de um rosto.

Afirmar-se muitas vezes requer negar-se anteriormente. E não apenas negar-se: negar o outro também é sine qua non para a difícil equação de inventar-se dos escombros e escolhos que se têm. E que não se têm.

Dois elementos, assim, podem ser apontados, mais de imediato, na fertilidade de terreno que a futura Alemanha demonstraria para arar a sebe do Romantismo. O primeiro deles diz respeito ao que se queria: uma face cultural, um “eu-nação” contrário ao “você-estrangeiro”; trata-se da face afirmativa ou associativa da formação antropológica de que falei. O segundo elemento diz respeito ao que não se queria: nem o Iluminismo de Isaac Newton, Hume, D´Alembert ou Voltaire, nem a monarquia nos moldes britânicos, guilhotinada em parte do mundo pelo roldão napoleônico; estamos diante da face negativa ou dissociativa da questão.

O desaire que representava demonstrar-se passional ou, até mesmo, fraco encontrou fogo cruzado na eloquência precisa (suíça) de Rousseau, mas foram Schiller e Goethe que obtiveram o melhor resultado na intrincada equação entre dizer “sim” a uma face e “não” à outra do mesmo torvelinho, como um verdadeiro Deus Janus ou Janeiro, com uma face para o passado e outra para o futuro. Equilibrado justamente sobre o frágil dínamo da instabilidade (que Hegel virá a somatizar aos pósteros).

Como eu já disse, mudos e observadores, os alemães saíram do casulo provavelmente apenas com Kant, cuja crítica da (e à) razão pura impulsionou a potestade teutônica a pensamentos insuspeitos, grosso modo, cognominados de Irracionalismo, como o do já aludido Hegel, além de Schopenhauer, Nietzsche, Freud, Husserl, Hanna Arendt, Melanie Klein.

A tradição de povo bárbaro, desafeito ao pensamento, comprova-se até mesmo em dois dos grandes revolucionários do pensamento e da pragmática nascidos em terreno germânico:  Lutero e Gutemberg. Ao passo que as línguas modernas haviam sido criadas alhures por verdadeiros estetas — Cervantes, Camões, Dante, Petrarca, Bocaccio, Shakespeare, Molière —, a língua alemã foi igualmente forjada, mas por um ex-monge, atual-herege, que se restringiu a traduzir uma obra arcaica e medieval: a Bíblia.

Lutero, sabe-se, foi o precursor da língua alemã moderna, mas o fez por uma tradução, e de uma obra medieval, nos dois sentidos do adjetivo, enquanto seus pares promoviam a ruptura de pensamentos vigentes. Lutero criou a base da expressão alemã reiterando o caráter arcaico e bárbaro de seu povo. Gutemberg, por sua vez, e sem maiores divagações, revolucionou o mundo com uma invenção técnica cuja função foi expandir ao povo o conhecimento dos píncaros celestiais que Lutero, voltando a ele, tão bem (e também) fizera ao traduzir os abstrusos grego e latim à vernaculidade rude e inculta de seu povo.

São dois pensadores que reforçam a tese da rudeza; que assumem que ser alemão é ser popular, sem ser populista. (Quando um tal de Führer confundiu ser popular com ser populista, tivemos “bastardos inglórios”, os filhos espúrios do espírito Romântico maiúsculo. É Arendt, mais uma vez, quem nos avisa, entre outros, dessa associação triste em Origens do totalitarismo, com seu conceito de “banalidade do mal”.)

Regressemos à linha do texto, mas avancemos no tempo. Os Decretos de Carlsbad, do poderoso Metternich, em 1819, que intervieram sobre o pensamento mudo, conquanto pujante, das universidades da Confederação Germânica, talvez tenham desconcertado o concerto europeu pós-Congresso de Viena (1815), em que a Europa e seus destroços e galardões foram distribuídos a vencedores e perdedores dos paradoxos do franco-genovês Napoleão Bonaparte. Obrigaram a mudez a falar.

O desdouro da derrocada do Sacro Império Romano Germânico, que só caíra de vez em 1806 (em parte por causa das guerras franco-prussianas e em parte mais imediata por causa das batalhas posteriores à Revolução Francesa), e a proximidade ideológica com a Rússia (que, aliás, se revalidou após a II Guerra Mundial, quando Berlim e a Alemanha cravaram literalmente um muro ideológico alinhado parcialmente à mesma Rússia, então URSS) foram estopim do imbróglio entre Rússia e o Império Otomano (Turquia), que pode ser encarado como a antevisão da I Guerra Mundial. Isso porque o Império Russo, a Grã-Bretanha e a França, de um lado, contra o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro, a Bulgária e o Império Otomano, do outro, engendraram uma guerra tão maior que a II Guerra Mundial, que esta última pode ser considerada apenas uma (dentre as inúmeras, apenas mais uma) consequência daquela primeira.

Ser romântico era necessário no fim do século XVIII e início do século XIX nos ducados, condados e principados germânicos. Era preciso dizer “sim” e “não” simultaneamente. Era peremptório adotar-se a afirmação e a negação concomitantes como as duas faces muito posteriores do cerebrino suíço Ferdinand de Saussure, um dos criadores do estruturalismo.

Negar o Reino Unido do mesmo modo que o Ultrarromântico Mohandas Karamchand, conhecido como Mahatma Gandhi, o fez. Negar a França como Jinnah...

Era preciso ser popular com a lauta distribuição do conhecimento de Gutemberg.

O Romantismo é o desaguar de uma antiquíssima refrega que os “nórdicos” (uso o termo em acepção evidentemente anacrônica) sempre ostentaram, desde os “primitivos flamengos”, passando por Bosch, Vermeer, Rubens, Van der Weyden, Dührer, Van Eyck, Grotius... Lutero etc., etc. Trata-se da afirmação definitiva de toda uma História de negação e silêncio. Trata-se de um grito pujante — que o surdo e romântico Beethoven soube manufaturar como ninguém — de “sim” à tragicômica realidade da vida utópica e heroica.

Trata-se de uma aposta que ficara congelada, em crisálida, por séculos, mas que desabrochou para mudar a face do mundo com Marx, Rosa Luxemburgo... mas também Hitler, Goebels. O “imperativo categórico” de Kant (voltamos a ele...), que coeria uma pletora de motivos determinando que um indivíduo devesse agir como uma comunidade inteira (e, pior: versa-vice), acabou, ironicamente por dedução cartesiana, concluindo que as urbes de todo o mundo deveriam agir como o potencial orbe alemão. Hitler imantou-se a isso.

A Alemanha, em poucas décadas, ombreou com filosofias antiquíssimas, como a egípcia, a grega, a hebraica, e outras ainda mais antigas, como a hindu, a chinesa.

O Romantismo nasceu na Alemanha porque seu silêncio de milênios não era um silêncio passivo, mas o silêncio do aprendiz reverente que só na hora adequada se propõe à análise da Verossimilhança.
 
 

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