Sofrer ou morrer? A Cristandade em Tchekhov

Por Guilherme França

Henri de Toulouse-Lautrec. Nuit Blanche


 
Como mera introdução, recordo-me de assistir a uma entrevista do escritor Ruy Castro para a SescTV, na qual o autor disse algo interessante: havia trocado a escrita em jornais pela escrita de livros pois, na sua visão, as suas ideias não cabiam no espaço concedido pelos artigos ou colunas. De outro lado, pensando neste espaço para escrita, certo é que um livro não traz qualquer limite específico para o escritor. Entretanto, Castro faz um alerta:  não é porque o espaço do livro é ilimitado que o escritor vai “se esbaldar e escrever desnecessariamente”. 
 
O trecho da entrevista me veio à mente quando refleti sobre o fato de que alguns gênios da literatura, de fato, não precisam escrever muito para deixar uma grande marca em seus leitores, diferente daqueles que se esbaldam e escrevem páginas e mais páginas sem realmente dizer algo. E a pequena analogia serve apenas para dizer que Tchekhov, em seu conto “A aposta” (1889), demonstra (mais uma vez) pertencer ao primeiro grupo.
 
O enredo deste conto traz basicamente dois personagens centrais: um velho e milionário banqueiro e um estudante de direito, que à época contava com mais ou menos vinte e cinco anos. O encontro entre ambos ocorreu em certa noite, mais precisamente em 13 de novembro de 1870, durante uma festa promovida pelo banqueiro, em que estavam presentes diversos intelectuais. No meio da noite, surge uma discussão acalorada entre os convidados: seria melhor ser punido com a pena de morte ou com a prisão perpétua?
 
Na visão do banqueiro, a pena de morte seria mais moral e humana do que a prisão perpétua, na medida em que a execução do condenado acabaria com o seu sofrimento de uma vez só, enquanto a prisão perpétua extinguiria pouco a pouco a sua humanidade e a sua capacidade de sentir a vida, causando uma morte lenta e, portanto, mais desumana. Em contraponto, surge o estudante. Na sua opinião, mais vale viver na circunstância que for do que não viver sob circunstância alguma.
 
O comentário do jovem pareceu ter gerado um incômodo inexplicável no velho, que depois de muita discussão, sugeriu uma aposta ao estudante: pagaria a ele dois milhões em dinheiro vivo caso fosse capaz de submeter-se por cinco anos ao cárcere. Em resposta, o estudante disse que aceitaria a aposta não por cinco anos, mas por quinze! O trato estava feito: quinze anos de cárcere, em um pequeno quartinho no quintal do banqueiro, em troca de dois milhões. O preso tinha direito a algumas concessões: um instrumento musical, livros, papel e caneta, vinho e fumo.
 
No decorrer do texto, que descreve a vida do então estudante durante os quinze anos de cárcere, Tchekhov como que insere pequenos detalhes, seja em forma de pensamentos, atos ou falas, que exigem do leitor uma atenção mais detida para que compreenda e problematize o não dito pelos personagens. Aliás, este trabalho de reflexão crítica sobre o texto pode ser iniciado logo na cena em que os convidados da festa discutem os aspectos morais e jurídicos da pena de morte e da prisão perpétua. Um dos homens chega a dizer que ambas são inaceitáveis por aniquilarem a vida, argumentando que “o Estado não é Deus” para destruir aquilo que não poderia devolver.
 
Voltando à narrativa central, o encarcerado bebe, toca piano, come, mas a maior parte do seu tempo definitivamente é utilizada para leituras. Bem por isso, pede ao banqueiro livros sobre os mais variados temas: romances, novelas policiais, línguas, filosofia, história, ciências naturais, poesia, dentre outros. Contudo, para a surpresa do velho, o seu prisioneiro havia passado um ano inteiro lendo apenas o Evangelho. Questionava-se como um sujeito como aquele, capaz de ler mais de seiscentos volumes em quatro anos, precisava de um ano inteiro para concluir um texto pouco volumoso e, na sua visão, fácil de compreender.
 
Essa dedicação intensa do prisioneiro ao estudo do Evangelho, seguida pela reflexão do banqueiro sobre este fato, parece exercer um papel crucial para o desenrolar dos acontecimentos. Por que, de fato, um sujeito de tamanha erudição, que àquela altura já havia lido de maneira contumaz sobre todas as áreas do conhecimento humano e era capaz de escrever em seis idiomas, precisaria de um ano completo para ler pouco menos de cento e cinquenta páginas? O que a leitura atenta e incessante do Evangelho e, portanto, da vida e dos ensinamentos de Cristo, causaria naquele sujeito solitário? Tchekhov responde na conclusão do conto.
 
Um dia antes de o prisioneiro ser posto em liberdade, fato que obrigaria o banqueiro a pagar-lhe dois milhões, o velho, agora ainda mais velho, estava também em apuros financeiros. A vida desregrada e soberba fizera com que perdesse quase toda a fortuna que possuía há quinze anos, quando realizou a aposta com aquele jovem estudante, o que tornava impossível ceder tal quantia sem tornar-se um miserável. Planeja, então, resolver a situação: decide que é preciso matar aquele homem preso em seu jardim. Ao entrar no cárcere, vê o sujeito dormindo, numa situação fisicamente deplorável. Antes de acabar com a sua frágil existência, percebe uma carta em cima da mesa.
 
O banqueiro, então, passa a ler aquele escrito. Na carta, em síntese, o outrora estudante diz que planeja, no dia seguinte, deixar a cela horas antes do combinado, descumprindo o contrato e saindo sem um tostão daquele cômodo. Por qual motivo faria tamanha loucura? Afinal, eram quinze anos ali! Esperando unicamente por aquele bendito dia, no qual estaria livre e milionário. E a resposta vem com uma breve e poderosa aula sobre o que é a essência do cristianismo. Depois de descrever todas as leituras e estudos que fez naqueles quinze anos e dos sentimentos advindos dessas experiências, afirma:
 
“[...] Desprezo os vossos livros, desprezo todos os bens e a sabedoria deste mundo. Tudo é fútil, efémero, quimérico e enganoso, como uma miragem.
 
Embora sejais orgulhosos, sábios e belos, a morte há de apagar-vos da face da terra como os ratos dos campos, e a vossa descendência, a vossa história, a imortalidade dos vossos génios desaparecerão, gelados ou consumidos pelo fogo, juntamente com o globo terrestre.
 
Sois insensato e seguis caminho errado. Tomais a mentira pela verdade e a fealdade pela beleza. Espantar-vos-íeis se vísseis, de súbito, as macieiras e as laranjeiras produzir rãs e lagartos, em lugar de frutos, e se as rosas começassem a exalar cheiro a suor de cavalo. Pois igual espanto eu sinto ao verificar que trocais o céu pela terra. Não quero compreender-vos.” (p. 7-8).
 
Na leitura do poderoso trecho acima, o autor nos faz entender que naquele momento, ao abandonar o cárcere sem o dinheiro prometido, o prisioneiro estaria pondo à prova a sua teoria: a vida é sofrimento e vale, ainda assim, ser vivida. Mas não só isso. É preciso ir além. Na carta escrita pelo personagem e sobretudo na atitude prestes a ser tomada, podemos compreender o motivo de tamanha atenção ao Evangelho: ele tem ensinamentos de sobra para fundamentar a decisão tomada.
 
Isso porque, na visão daquele antigo milionário e agora devedor de um pobre encarcerado, caso não houvesse glória, dinheiro ou conforto, seria melhor não viver. Para o cristão, contudo, a vida só pode completar o seu verdadeiro sentido, dentre tantos outros aspectos, na renúncia de si (Lc 9, 23) e no desprezo pelos bens materiais (Mt 6, 19). Sabendo disso, ao terminar de ler a carta, o banqueiro beija a cabeça do estudante e passa a chorar. Segundo o narrador, nenhuma das perdas materiais sofridas por aquele velho homem havia sido capaz de fazê-lo sentir tamanho desprezo por si próprio como naquele momento. No dia seguinte, o estudante havia deixado a cela, sem qualquer pagamento, como prometido em sua carta — agora enfiada em um cofre pelo banqueiro.
 
É dessa forma que utilizando um texto consideravelmente curto, Anton Tchekhov, um escritor que passou longe de figurar entre os cristãos mais convictos, e talvez utilizando muito do que fora feito na obra de seu conterrâneo Dostoiévski, nos faz refletir sobre a importância da religião cristã e o seu impacto visceral na capacidade humana de compreender a realidade e a régua moral pela qual é possível fazer um importante julgamento: o valor da própria vida.

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