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Boletim Letras 360º #445

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, em nome do Letras reitero os agradecimentos pelas ajudas enviadas durante todo o período de nossa campanha de arrecadação dos custos de pagamento do domínio e hospedagem. Graças ao empenho de todos — de uma simples partilha das chamadas de divulgação nas redes ao menor valor doado, de uma aquisição no nosso bazar à doação de livros — conseguimos a maior parte do que precisávamos.   2. Para os próximos dias, sairá a divulgação do prometido sorteio entre os nossos apoiadores. As possibilidades de ajudas ficarão permanentes; em breve, também saberão melhor sobre. Por enquanto, para saber mais sobre como ajudar pode ir  aqui no Facebook   ou   aqui no  Instagram .  3. Eis as notícias que passaram pela página do blog no Facebook durante a semana e as demais dicas nas outras seções deste Boletim — com especial interesse aos sete séculos sobre a morte de Dante Alighieri marcados no último dia 14 de setembro. Muito obrigado pela companhia. Boas leituras! Dante A

A imagem na distância

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Por Tiago D. Oliveira   Pensar O porto, de Leda Cartum, passou a ser uma experiência que observa o trânsito da memória, muito além de toda simbologia apenas, mas um exercício de percepção do tempo e como as raízes e o ar se configuram em seu pleno exercício. O lugar que se distancia, nós que nos distanciamos, essa imagem vista de fora, o outro, dentro ou fora também de tais formatações. Pensar a poesia como um alçapão a gerir os versos é também aqui um olhar sobre a forma como eles são grafados no papel. A estética assumida no livro, tão bem editado pela Iluminuras, traz também essa possibilidade de trânsito entre as formas, poesia, prosa, cabe tudo nessa alegoria que também podemos chamar de vida. Logo no início o leitor recebe o chamado, Venha ver: é que parece que tem um movimento nas coisas ao nosso redor. (p.9), que vai se configurando em constatações sobre as subjetividades que a poesia vem a revelar, mas que ressignificam a leitura de cada um ao passo que crescem identificações

Os desvalidos, de Francisco J. C. Dantas

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Por Pedro Fernandes   Tanto tempo passado e com uma recorrência tão marcante que podemos falar de uma tradição do romance sobre o cangaço na literatura brasileira: O Cabeleira , de Franklin Távora; Coiteiros , de José Américo de Almeida; Os cangaceiros e Pedra Bonita , de José Lins do Rego; Seara vermelha , de Jorge Amado; Grande sertão: veredas , de João Guimarães Rosa. Estes e Os desvalidos , de Francisco J. C. Dantas são os que trabalham o tema como objeto principal da narrativa. São os mais conhecidos, mas certamente existem outros. E, se considerarmos aqueles títulos que em alguma passagem façam referência à questão, a lista se amplia; com os romances existem ainda contos, crônicas e outra variedade de formas e expressões literárias que figuram, positiva ou negativamente, a vida e as atitudes no-do cangaço.   É simples pensar no assunto como sobressalente em Os desvalidos , afinal é o que se encontra à superfície da narrativa. Mas, comecemos por aqui até alcançar outra camada,

A crítica dos escritores

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Por Kim Nguyen Baraldi Ilustração: Jungho Lee.   Minha passagem pela Sorbonne foi um fiasco. Cursei letras modernas e literatura comparada e me senti decepcionado. Embora aqueles anos de universidade tenham sido até certo ponto proveitosos, deles ficou um resíduo amargo: tudo ali era demasiado acadêmico, árido e frio. Demasiadas estátuas de mármore, demasiadas mesas de madeira e nenhum bar onde pudesse conversar com os colegas. As aulas não eram estimulantes, os professores não conseguiam se conectar com os alunos, e era possível sentir que, quanto mais horas absorto em livros de crítica especializada, mais distante me achava da literatura. Estudar desse modo não tinha qualquer atrativo para mim. Hoje, sigo perguntando-me, um pouco entristecido, em que momento a universidade, desorientada pelos quatro cantos, decidiu anestesiar o prazer de ler. Por volta dessa época, registrei em um de meus cadernos esta breve anotação: “Propósito: ler como um escritor”. Não me julgava escritor, é cla

A eternidade de Dante Alighieri

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Por que lemos Dante Por Matthew Pearl Domenico di Michelino.  La Commedia ilumina Firenze . (1465) Catedral de Florença. Santa Maria del Fiore.  Nunca existirá outro Dante. Não apenas porque Dante Alighieri, o poeta florentino do século XIII, foi um gênio irrepetível, mas também porque as condições modernas provavelmente não poderiam levar ao aparecimento de um novo Dante. Considere a personalidade de Dante, que, pelo pouco que sabemos, provavelmente era um tanto intolerante. Estava muito certo de possuir razão, em tudo. Tinha certeza de sua teologia católica idiossincrática e do seu sistema de valores, que diferia o suficiente dos ditames oficiais do Vaticano tanto que alguns de seus escritos foram proibidos; estava certo o suficiente sobre sua própria compreensão dos assuntos religiosos para descrever o território inexplorado do purgatório e nos dizer como a Santíssima Trindade deveria se parecer; tinha certeza de que diferentes religiões estavam erradas ao colocar seus líderes no

Dante e a experiência

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Por Marco Perilli Gustave Doré. Dante. Ilustração para o Canto I de A divina Comédia , 1861.   Embora o rosto meu, qual por um calo, agora pelo frio, qualquer evento estivesse impedido de afetá-lo,   ainda me pareceu sentir um vento¹   Assim é como o peregrino, chegado ao centro da Terra, percebe a presença de um limite tenebroso, algo que atemoriza e o enche de terror. Não ignoro o que acontecerá. Encontro-me a poucos metros de profundidade. Dante, por sua vez, suspeita, deduz, pergunta ao seu guia; seguramente teme alguma coisa. Tem medo, muito medo. Viu alguns gigantes que distante pareciam torres: um deles lhe acenou com a mão, junto com Virgílio, para descer até ao fundo do abismo. Agora sopra um vento frio, que lembra o inefável. Ou algo tão físico e concreto como o espasmo do homem que encara o possível.   pelo que eu: “Mestre, eu sinto algo mover; não é isto aqui de todo sopro isento?”   E ele a mim: “Poderás logo saber; teu próprio olhar vai te dar a resposta […]   A resposta