Postagens

O “Jogo do Senhor e do Servo”, de Paulo Leminski, na Visão de Seguei Eisenstein

Imagem
Por Wagner Silva Gomes


No "Jogo do Senhor e do Servo", poema criado por Paulo Leminski, o olhar do senhor sobre o servo é a própria autonomia, sua margem de emancipação, que o senhor vai adquirindo quando se vê humildemente como servo, aprendiz, em busca do êxtase da apreensão do conhecimento ou da sabedoria contida na relação com o outro; ao viver e entender o estado de ser relativo, vai então dominando a perda do absoluto até tornar-se o próprio estado de ser senhor, feito de autonomia e emancipação, numa dinâmica infinita da liberdade e seus pequenos pontos, suas pequenas percepções dos lugares, os pequenos olhares fundantes.
Nessa história de um mestre zen do poeta, o budista é um engenheiro das almas que domina a engenharia ocular como servo e senhor. Como Eisenstein que, estudante de engenharia e aluno de Levkuleshov, professor da Escola de Filme de Moscou (VGIK), ao ver no experimento do mestre que um plano cinematográfico só tem sentido ligado ao posterior, vislumbro…

As crônicas de Clarice Lispector

Imagem
Por Pedro Fernandes


Boa parte das frases que circulam na internet atribuídas a Clarice Lispector é produto de um gênio capcioso que sem qualquer valor pela memória de quem quer que seja dá-se ao trabalho de falseamento dos dizeres. Na outra ponta repousam os que cegamente acreditam no falso e reproduzem ad infinitum a barbárie. Fora isso, a outra parte dessas frases são provenientes dos textos que a escritora publicou em jornais – ainda que tais excertos agora repousem entre as linhas de algum dos seus contos ou romances.
Se desde a aparição do mundo virtual Clarice Lispector tem sido vilipendiada pelos detratores, antes foi ela própria vítima de si mesma. A sua obra sempre foi um extenso canteiro e esteve, enquanto viveu, aberto à experimentação. E pela contínua atividade de refazimento dos textos terá introduzido modificações ao ponto de um texto original passar a ser outro, tornando o anterior, por vezes, falso texto, ou a escrita de outra que não Clarice.
O texto, para Clarice Li…

O que podemos pedir às primeiras páginas de um romance?

Imagem
Por Natalia Chávez Gomes da Silva


Não existem fórmulas. Nem atalhos. Não existe “escrita for dummies”. Construir uma história requer algo mais que ter na mão algumas situações interessantes e definitivamente mais que um gatilho ou “boa fidelidade” para com o que conta. Não estamos competindo por atenção ou por amor, mas gestando e parindo um ente. As primeiras páginas de um romance não estão aí para vender ou para fazer amizades; não lhe pedimos isso.
Fisicamente, é verdade, por estar mais próxima à capa e porque lemos a partir da primeira página, esse trecho do livro sim tem uma missão “natural”: será o responsável de nos dizer o que interessa. Dirá que tanto o que nos permitirá saber e, como a autoridade que representa o ser na sua origem, deixará muito claro que não podemos pedir algo diferente do que já está nos dando.
O início do romance é um oráculo que responderá a perguntas como as seguintes: por quanto tempo é suficiente ficarmos diante – sobre, ou por trás – de cada persona…

Os filhos de Eros: homossexualidade militar na Grécia Clássica

Imagem
Por Alejandro García


Desde quando Ridley Scott recuperou com Gladiador o antigo gênero do cinema de romanos, o peplum, o interesse pela Antiguidade clássica na cultura popular experimentou um crescimento continuado em que um dos marcos é, sem dúvida, a adaptação para o grande ecrã da HQ de Frank Miller sobre outro mito guerreiro; os trezentos soldados espartanos que combateram e morreram heroicamente na batalha das Termópilas. Até o ponto de que esse discurso sobre a disciplina e o sacrifício militar tenha se convertido num referente cultural moderno.
É verdade que todo o filme, visualmente impactante, está atravessado por referências ao mundo grego clássico mais ou menos adaptadas ao gosto contemporâneo; há uma cena especialmente interessante em que o rei persa Xerxes, vestido como uma rainha de carnaval, faz uma proposta ao rei espartano Leonidas com uma mensagem homoerótica nem um pouco sutil. Nela se resumem muito graficamente duas tendências atuais: por um lado, o reconhecimento…

Sobre Patricia Highsmith

Imagem
Por Laura Broitman



Não acredito, além disso, faço doutrinação sobre, que a vida, a biografia e a personalidade de um autor sejam a explicação de seus textos, de sua obra. Pode ser que sim. Como um autor encara sua obra, suas ideias, suas convicções, tudo o que existe em sua mente antes da criação, tem a ver, será, como encara sua vida?
Inclusive influencia esta, sua vida (infância, relação com os seus pais, juventude) na forma criativa e as escolhas que estes fatos biográficos o impulsionam? É inegável que um autor não é uma ilha. Provém de algum lado e isto influencia na criação.
Mas logo, a análise do texto se centra mais nele que em tais convicções pessoais e opções estéticas; a análise não parte da personalidade e chega assim ao texto, mas parte deste para estudar a forma, a maneira de narrar, as opções estéticas e a escolha do ponto de vista, elemento primordial para explicar uma obra.
No caso da narrativa, partimos da análise sobre a forma para descrever as predileções estética…

Boletim Letras 360º #291

Imagem
Eis a edição desta semana do Boletim Letras 360º. Chamamos atenção dos leitores para a nova promoção apresentada em nossa página no Facebook. Desta vez, em parceria com HarperCollins Brasil sorteamentos uma edição da biografia de J. R. R. Tolkien escrita pelo Humphrey Carpenter e editada por esta casa editorial. Saiba mais aqui.

Segunda-feira, 01/10
>>> Brasil: Duas vezes Mary Poppins
Ela é uma das personagens mais originais e amadas da ficção infanto-juvenil moderna. Carregando uma maleta e um guarda-chuva, surgiu pela primeira vez voando, literalmente – e essa é só a primeira das surpresas que essa fabulosa babá tem para você. Um aniversário no zoológico, a história da Vaca Dançante, um chá da tarde nos ares, delicados remendos no céu noturno... Mary Poppins é durona e misteriosa, e também irresistível! Publicada em 1934, a primeira história de Mary Poppins foi um sucesso imediato e desde então fascina crianças e adultos. A Zahar prepara uma edição que traz o texto integral…

Quando as estratégias de leitura matam o prazer de ler

Imagem
Por Rafael Kafka


Há uma preocupação imensa em desenvolver estratégias de leitura com os alunos do ensino fundamental e médio. Algumas são atitudes bem curiosas e que remetem a métodos bem arcaicos. Há quem defenda, por exemplo, a cópia. O aluno fica na missão de copiar determinadas páginas do livro didático com intuito de estudar o conteúdo em seu caderno, melhorar sua caligrafia e mesmo a ortografia. Confesso que esse método me pareceu útil quando fiz um curso de inglês anos atrás, mas só pareceu.
Há também quem defenda o uso do ditado. O professor fala algumas palavras e frases e o aluno deve copiá-las no caderno. Após isso, o professor coloca a resposta no quadro e o aluno verifica quantas delas ele foi capaz de acertar. Há os que falam em cadernos de caligrafia para a melhoria da letra. Em suma, métodos antigos que muitos de nós provavelmente sentimos na pele e que eu de vez em quando me pego questionando a validade dos mesmos, para usar um eufemismo. Porque na verdade, não há val…