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Uma criatura dócil, de Fiódor Dostoiévski

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Por Pedro Belo Clara




É um daqueles nomes que dispensa quaisquer apresentações, mesmo para os menos interessados ou sabedores da literatura russa do século XIX. Carecerá talvez de adjectivos, e não só para quem nutre afeição por tais caracterizadores, mas o seu emprego apenas será honestamente exequível após um mergulho sério na obra do autor que hoje aqui se lembra e sugere. Como tal, esquivamo-nos a tal exercício, a não ser na constatação do óbvio, por ser universal, deixando assim ao critério de cada um dos nossos amigos leitores a devida apreciação do escritor e sua obra.
Nasceu em 1812, em Moscovo, filho de um médico militar rígido e autoritário, com tendências para o alcoolismo e depressão, e de uma mãe que até à sua morte precoce o educará em casa. Mais tarde, frequenta a escola militar onde começa a desenvolver um sério interesse pela literatura. Após concluir os estudos, inicia as suas primeiras traduções e esboços literários, abandonando definitivamente o exército. O esforço c…

Boletim Letras 360º #297

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A edição da semana do Boletim Letras 360º está disponível. Há uma notícia que colocamos em destaque e merece um breve comentário: a de publicação no Brasil do diário inédito de José Saramago seguido do livro do jornalista da Fundação José Saramago, Ricardo Viel, que reconstrói a recepção do Prêmio Nobel de Literatura atribuído ao escritor português há vinte anos. Os dois títulos saem em dezembro pela editora parceira do Letras, Companhia das Letras, e nós realizaremos, dentro em breve, sorteio de um exemplar para os nossos leitores. Fique atento a nossas redes sociais.


Segunda-feira, 12/11
>>> Brasil: O novo título da obra de James Baldwin, Se a rua Beale falasse
Lançado em 1974, o quinto romance de James Baldwin narra os esforços de Tish para provar a inocência de Fonny, seu noivo, preso injustamente. Livro que inspirou o filme homônimo dirigido por Barry Jenkins, vencedor do Oscar por Moonlight. Tish tem dezenove anos quando descobre que está grávida de Fonny, de 22. A sóli…

Depois dos rastros literários da Primeira Guerra Mundial

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Por Javier García-Galiano


Até o final de O estandarte, o romance de Alexander Lernet-Holenia, os soldados de um regimento austríaco permanecem destemidos ante as ordens de seus oficiais quando a derrota parecia iminente. “Os soldados, sem ousar sair das formações e deixar exteriormente a posição militar, colocavam de repente suas caras tão grotescas como se eles próprios tivessem medo do que faziam, e como se quisessem, uma vez começado a gritaria, aturdir com mais energia. Nós” – confessa um oficial, “desconcertados de imediato, não podíamos fazer outra coisa que olharmo-nos fixamente. Embora tivéssemos adivinhado algo, nunca haveríamos suposto que semelhante coisa, tão estranha e incompreensível, tão espantosamente diferente a tudo e até agora reprimido novamente, tivesse estado escondido sob a submissão desta tropa. Agora não obstante estalava, como rebanho que tivesse liberado uma força que o domesticava; e embora a tropa não fizesse de verdade outra coisa que irromper em gritos, …

João Cabral olha Joan Miró

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Por Pedro Fernandes


Em Manual de pintura e caligrafia, um dos primeiros romances de José Saramago, encontramos um pintor que, tomado pelo progressivo desinteresse das pessoas pela pintura expressiva se dedica à pintura figurativa, exclusivamente de retratos, esta que, possivelmente pela popularização da fotografia também cai em desuso. A última opção de H. é pela escrita, construída esta a partir de sua leitura interpretativa, espécie de crônica de observação, ainda eivada do plano visual e imagético que caracteriza seu modo de ver. A circunstância se apropria de uma discussão bastante clara no universo interartes (literatura-pintura) – ou mesmo anterior a ele, que é a relação entre palavra e imagem.
Não é interesse nestas notas enveredar por uma leitura deste livro do escritor português; tampouco ensaiar-se num itinerário, amplo e diverso qual o destas relações. Alinhavemos as duas questões, entretanto, numa compreensão aparentemente simples e comum, mas não simplista, a que compree…

Ivan Turguêniev, espelho das contradições russas

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Por Andrés Seoane



“Um dos princípios básicos da vida é a união entre os tempos, a transmissão patrimonial de valores. Um mundo sem tradição cria órfãos”. Honrando o espírito dessa frase, recordamos no 200º aniversário de seu nascimento, a figura do escritor russo Ivan Turguêniev (1818-1883), perfeito modelo do complexo século XIX num império czarista tomado de irresolutas contradições e de grandes figuras literárias. Nobre latifundiário defensor da emancipação dos trabalhadores, liberal dividido entre o conservadorismo e o anarquismo, fervoroso europeísta numa sociedade eslavófila, o escritor sempre se posicionou nas grandes polêmicas políticas de seu tempo. Muitas dessas lutas que povoaram a vida de Turguêniev já caducaram, mas, dois séculos depois, resta-nos a sua literatura, marcada pela arte da descrição, na qual brilhou como poucos.
De origem nobre, nasceu em 9 de novembro de 1818 em Oriol, ao sul de Moscou, e se criou na propriedade rural de sua mãe, a rica latifundiária Varvára…

A segunda vida de Lucia Berlin

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Por Andrea Aguilar


Sua via transcorreu entre o Alaska, Texas, Santiago do Chile, Novo México, Califórnia, Nova York, Cidade do México e Colorado. Seu sobrenome era Berlin. De nome, Lucia. Falava bem espanhol. Publicou 77 contos, recolhidos em meia dezena de livros. Dos últimos venderam-se pouco menos de mil exemplares.
Lydia Davis, a grande contista estadunidense, escreve que sempre teve fé que as mulheres escritoras, mais cedo ou mais tarde, subirão o mais alto, como a espuma, e serão exatamente tão reconhecidas como deveriam. Ela – apelidada durante antes como “escritoras de escritores” – já deixou o passado e, agora, parece que enfim chegou a vez de Lucia Berlin, embora tenha se passado mais de uma década de sua morte em 2004, aos 68 anos.
Algumas semanas depois de entrar na mesa de novidades das livrarias estadunidenses, em meados de agosto de 2015 com a coletânea de contos Manual for cleaning women [Manual da faxineira, em tradução no Brasil publicada em abril de 2017] o livro ch…