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A visão biblioteconômica do mundo

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Por Carlo Frabetti


Em minha sombra, o oco breu com desvelo investigo, o báculo indeciso, eu, que me figurava o paraíso tendo uma biblioteca por modelo.

Jorge Luis Borges, “Poema dos dons”

Existem diferentes maneiras de ver o mundo e contar sua história. Algumas se excluem mutuamente, outras se ignoram e outras tantas se complementam; mas, por um motivo ou outro, todos elas merecem ser conhecidas. Uma delas é o que poderíamos chamar de visão biblioteconômica do mundo (VBM), segundo a qual o livro é o culminar de um processo evolutivo que começa com a matéria inanimada, se inflama com a vida e se ilumina com a consciência. E a luz da consciência é condensada na palavra (a carne se torna verbo), que por sua vez se cristaliza na escrita.
O livro seria, portanto, epítome e emblema da consciência e sua continuidade. Pouco importa, para fins teóricos (embora muito para fins práticos), que o suporte de escrita seja a pedra, o papel ou o silício (novamente a pedra): um fio de palavras salvas d…

A utopia do título perfeito

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Por Cristian Vázquez



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Há alguns escritores muito talentosos para intitular seus livros; outros, por sua vez, nem tanto, e muitas vezes necessitam ajuda de fora. Certa vez ouvi dizer de um autor – acredito que isso tenha uma pouco de anedota mas tem também muita verdade – que às vezes lhe apareciam títulos e gostava tanto deles que logo se sentia motivado a escrever romances ou contos apenas para intitulá-los. Com frequência é o editor, no fim de tudo, o responsável pelo título, quem o melhora com sugestões à proposta do autor. Um dos casos mais célebres é o do romance O coração é um caçador solitário, que sua autora, Carson McCullers, havia pensado chamar O mudo.
Segundo Elena Rius, em seu livro A síndrome do leitor (tradução livre de El síndrome del lector, publicado em espanhol pela Trama Editorial em 2017), “os autores se dividem mais ou menos em dois grupos iguais, entre aqueles que desde o princípio pensaram um título para o livro que ainda não começaram a escrever e os que mant…

Velhos amigos, de Ecléa Bosi

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Por Pedro Fernandes



Das vizinhas ao meio, Sobre a escada a fiar, uma velhinha, Naquele ponto onde se perde o dia; E recordando vai do seu bom tempo Quando em dias de festa se adornava E ainda fresca e esbelta Costumava dançar entre os que foram Seus companheiros da idade mais bela.
– Giacomo Leopardi, “O sábado da aldeia”, tradução de Ecléa Bosi


Desde muito antes a literatura servir à ciência como repositório para a compreensão sobre determinadas circunstâncias sociais e humanas, se formou um movimento criativo ao contrário. Isto é, pensadores de campos diversos do saber experimentaram suas ideias através do literário. Os nomes que talvez logo nos saltam da lembrança são os de Albert Camus, Jean-Paul Sartre ou Simone de Beauvoir, pensadores e autores de ficções que animavam os conceitos por ele pensados. Mas, eles não foram precursores desse recurso; se formos aos primeiros livros que se propõem oferecer alguma resposta para inquietações de ordem diversa e uma explicação sobre o mundo…

Uma torre de Babel de marfim

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Por Antonio Muñoz Molina





Pelo menos uma entrevista faz parte da história da literatura. Bernard Pivot a realizou com Vladimir Nabokov em seu programa de televisão Apostrophes, em maio de 1975, e agora foi publicada em um livro de prosa livre, Think, Write, Speak, numa edição de Anastasia Toltoy e Brian Boyd. Este último discorreu sobre a vida e os livros de Nabokov nos dois volumes de uma biografia que é uma das melhores já escritas sobre um escritor. Durante a conversa, Nabokov estava bebendo uma xícara de chá que Pivot enchia ocasionalmente, não sem cerimônia, com uma chaleira. A chaleira, conta Boyd, estava cheia de uísque.
As perguntas e as respostas fluíram com uma nitidez admirável, sem dúvida alimentadas pelo conteúdo da chaleira, e também pelo fato de Nabokov conhecer as perguntas com bastante antecedência e estar na verdade lendo suas respostas, meticulosamente escritas a lápis naquelas fichas de cartão que ele tanto gostava e que, nesse caso, ficam bem dissimuladas por entr…

O dia em que os nazistas atacaram Pablo Neruda

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Por David Marcial Pérez




A cidade da eterna primavera esteve prestes a ser renomeada como a da sepultura de Pablo Neruda. Era 1941, em plena Segunda Guerra Mundial. O poeta, nomeado cônsul do Chile no México apenas um ano antes, havia saído da capital no fim de semana com alguns amigos com destino a Cuernavaca, famosa por seu clima ameno e os balneários.
Depois de comer no restaurante de um hotel, eles brindaram à sorte dos Aliados. Os vivas a Roosevelt, Churchill e Stálin chegaram à mesa próxima e um grupo de alemães armados atacou ao poeta e os amigos. Voaram cadeiras, socos e disparos de revólveres. Neruda findou com um corte feio na cabeça e foi levado a um hospital de onde estava ao Distrito Federal para descartar o risco de uma concussão.
Três dias após o incidente, em 31 de dezembro, Neruda escreveu uma carta ao poeta Diego Muñoz contando o que havia acontecido: “Numa mesa vizinha, bebiam um grupo de nazistas, 8 ou 10 indivíduos com pescoço de boi e cabeça de ferro (...). Fazen…

Boletim Letras 360º #349

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Alcançamos um novo sábado. Com a mesma rapidez com que se alcançam todos os dias quando entramos na corrida pelo fim do ano. Mas, até o fim de 2019, ainda temos datas importantes para destacar. E uma delas é o 27 de novembro. Foi nesse dia, em 2007, que se apresentou online a primeira post de um blog que seria apenas o espaço particular de um professor para divulgar suas atividades e leituras acadêmicas e acabou por ser um distrito virtual coletivo que hospeda 3.478 textos (sete dezenas ainda em revisão) que alcançaram a base de quase 3 milhões de acessos. Os números nos animam, porque este trabalho se desenvolve voluntariamente com a colaboração de muitas mãos. São pessoas que dedicam frações importantes de sua vida para pesquisar, ler, escrever, atrair novos leitores. Gesto nobre num país marcado pela desvalorização da cultura, pelo não-reconhecimento dos que lidam com as Ciências Humanas, e já agora fundado na ignorância e sua celebração. Não é gratuito, nem simples alcançar algum…

Coringa e o olhar sobre o que não queremos ver

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Por Rafael Kafka


Coringa é daqueles filmes necessários de se chegar ao mainstream que esperemos não seja esquecido em suas provocações centrais. Como obra de arte, não devemos cobrar do longa de Todd Phillips uma mensagem pronta, acabada e muito menos otimista para ser entregue ao público, por mais que seja isso o esperado de boa parte da indústria hollywoodiana. Coringa é uma interessante reflexão fílmica de nossos tempos e por isso merece demais nossos olhares e nossos pensamentos.
Mais do que um nascimento de uma personagem específica, o vilão do universo DC, o que o filme transmite para o telespectador é como a convulsão social que são nossos tempos pode deixar qualquer um louco a ponto de surtar. Quando o surto ocorre, vem outro dilema bastante ambíguo: seria o surto uma reação anormal ou uma forma de agir racional diante de um universo perturbador? Arthur Fleck em dado momento decide fazer de sua loucura trágica uma comédia e fazer da existência um universo surrealista no qual o …