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A obra literária de Simone de Beauvoir

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Por Ana María Moix





Deixando de lado os livros dedicados ao ensaio político, ao ensaio feminista e os volumes que recolhem sua peculiar experiência como viajante atenta e incansável, a obra literária de Simone de Beauvoir (1908-1986) se inscreve em dois gêneros – as memórias e o romance – que na nossa opinião são inseparáveis uma vez que são obras que se completam e mesmo constituem um só universo se não linguístico, ideológico, anedótico e humano.
“Escrever sempre foi a grande preocupação de minha vida”, repetiu Simone de Beauvoir em várias ocasiões. Ao concluir seus estudos, enquanto preparava notas e dizia começar a escrever, anotou em seu diário: “Minha vida seria uma bela história que se tornaria verdadeira à proporção que a contasse a mim mesma.” E, de fato, não fez outra coisa mais que narrar a si própria e narrar sua vida e seu pensamento: de um modo objetivo, dirigindo-se ao leitor aberta e sinceramente, em suas memórias, e manipulando-as com os recursos próprios da ficção em …

Boletim Letras 360º #324

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Amiga e amigo leitor, estas foram as notícias que passaram pelo mural do blog Letras in.verso e re.verso no Facebook durante a semana. Em destaque, a grata surpresa do Prêmio Camões atribuído a Chico Buarque. Boas leituras!


Segunda-feira, 20 de maio
Terror e modernidade, de Donatella Di Cesare, o novo livro do catálogo da Editora Âyiné
Somos propensos a ver os ataques terroristas como uma aberração, uma incursão violenta em nossas vidas que não teriam relação intrínseca com as características fundamentais das sociedades modernas. Mas seria essa visão uma interpretação errônea da relação entre o terror e a modernidade? Neste livro, a filósofa Donatella Di Cesare adotando uma abordagem histórica argumenta que o terror não é um fenômeno novo, mas sim parte fundante da modernidade. Em seu nível mais básico, o terrorismo é sobre a luta pelo poder e pela soberania. A crescente concentração de poder nas mãos do Estado, elemento constitutivo das sociedades modernas, prepara o terreno para o ter…

Morangos mofados, 2019

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Por Amanda Lins





“Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também”, pensa o personagem de Caio, tranquilamente, numa terça-feira de carnaval. Como poderíamos pensar eu, ou você. A humanidade e absoluta simplicidade da frase assim, solta, me engancha ao conto. Há algo de não-estou-dizendo-aqui-nada-de-extraordinário e ao mesmo tempo de deveria-ser-simples-assim-mas-não-é nesse mundo arquitetado que lembra demais o nosso para que passe despercebido, sem desencadear uma espécie de comichão nas entranhas.
Continuo a ler, já transmutada para uma festa de carnaval, uma matinê no Rio, um bloco em Olinda um trio em Salvador, lança-perfume espalhado no ar e dois - por acaso - homens, fantasiados. Por acaso, flertando. Algo me angustia nessa troca de olhares, na proximidade da carne. Algo que ainda não sei racionalizar de onde vem e por que está ali. É o mesmo comichão. A narrativa anda. O samba despreocupado. Minha angústia. …

Huckleberry Finn

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Por Norman Mailer


Existe remédio mais doce para a depressão que as velhas resenhas sobre grandes romances? Na Rússia do século XIX, Anna Kariênina foi recebida da seguinte maneira: “A paixão de Vronski por seu cavalo é paralela à sua paixão por Ana [...] Lixo sentimental [...] Mostra-me uma página”, dizia The Odessa Courier, “que contenha uma ideia”. Moby Dick foi queimada: “Descrições gráficas de uma esterilidade tamanha que não recordamos encontrá-las antes na literatura marinha [...] Curiosa ocorrência de loucos [...] Coisa triste. Os quakers de Melville são alguns náufragos bobos e faladores e seu lunático capitão é um chato insuportável”.
Com esta medida, Huckleberry Finn – publicado em Londres durante a primeira semana de dezembro de 1884 e dois meses depois nos Estados Unidos – tampouco se salva. O Springfield Republican não o julgou pior que “um detalhe vulgar bem-intencionado [...] O Sr. Clemens não possui um sentido confiável de propriedade”, e a biblioteca pública em Concor…

A literatura nazista na América, de Roberto Bolaño

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Por Pedro Fernandes


As discussões crítico-teóricas sobre o que determinam as textualidades para o literário costumam citar a intertextualidade e a autorreflexão como dois elementos fundamentalmente recorrentes; isto é, pensando que a principal tarefa dos escritores têm sido a de renovação – e essa quase sempre se determina pela ruptura com forças já estabelecidas – é que se acredita que todo texto literário decorre do trabalho de revisão e da reflexão sobre esse trabalho. É evidente que, como todas as definições sobre o literário, essa não é (ou pelo menos não funciona como) uma verdade universal e absoluta. E sua recorrência aqui se apresenta porque A literatura nazista na América se filia a uma tradição que permitiu o pensamento crítico-teórico alcançar essa compreensão intertextual e autorreflexiva sobre a literatura. Isso porque a dicção do romance de Roberto Bolaño se constitui de uma estreita relação com o sistema literário e, por sua vez, com a materialidade que o determina, ao…

Felisberto Hernández, um autor com mais defensores que detratores

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Por Fernando Chelle


Em certa ocasião Carlos Maggi, o grande escritor uruguaio pertencente à Geração de 45, disse: “Felisberto foi o principal inimigo de sua literatura. Era um tipo inseguro, tímido, meio preso. Ansioso para ter confiança, buscando que o elogiassem ou que lhe dessem uma opinião favorável” (Di Candia, 2003)*. Seria bom analisarmos essas palavras e refletir, a partir de uma perspectiva histórica, por que Felisberto buscava ansiosamente a aprovação de seus contemporâneos.
A narrativa felisbertiana representou para as letras uruguaias uma ruptura significativa com o que havia sido feito até então. É verdade que o Uruguai contava já com uma tradição de contistas relevantes, com os da Geração de 900 – Javier de Viana no que se refere à literatura rural e Horacio Quiroga com seus contos urbanos; mas não existia um escritor cuja perspectiva narrativa estivesse tão associada ao psicológico, às associações mentais, mais que ao racional e bem-estruturado.
O ponto de vista narrati…