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Gulosa por livros

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Por Victoria Livingstone


Em dezembro de 1948, o New York Times publicou um artigo sobre a tradutora Harriet de Onís intitulado “Sra. De Onís põe o saber latino-americano em livro, mas o sabor latino invade sua cozinha” [“Mrs. De Onís puts Latins’ Lore in Book, but Their Cuisine Goes Into Her Kitchen”]. O artigo começa por uma breve menção a The Golden Land: An Anthology of Latin American Folklore in Literature, editado por de Onís e publicado pela Alfred A. Knopf apenas dois meses antes, mas, em seguida, reduz suas conquistas tradutórias a trabalho doméstico. O jornalista descreve o que a tradutora cozinhava para seu marido Federico de Onís, renomado estudioso de literatura hispânica, e cita Carl Ackerman, então decano da faculdade de jornalismo da Universidade Columbia, que disse que uma “aula de torta de maçã” ministrada por Onís na Venezuela “faria mais para consolidar as relações entre a América do Norte e a do Sul do que todas as suas preleções literárias”. Apesar disso, Harriet …

Em busca da adolescente que abriu caminho a Virginia Woolf e Sylvia Plath

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Por Héctor Llanos Martínez


“Oxalá nunca me transforme, horror, num animal tão normal e livre; nessa monstruosidade deformada: a mulher virtuosa. O que for, Diabo, menos isso”.
Muito se falou sobre a escritora canadense Mary MacLane (1881-1929) nos primeiros momentos do século XX e logo tardou em desaparecer sua sombra depois de sua morte, prematura, enigmática e, tal como havia desejado, pouco virtuosa, numa pensão de Chicago aos 48 anos de idade. O documentário Between My Flesh and the World’s Fingers, apresentado no Festival de Documentários de Montreal RIDM, transpõe em imagens a confessional estreia literária da adolescente que abriu caminho para Virginia Woolf e Sylvia Plath, quando a palavra feminista era ainda um neologismo.
Talena Sanders, diretora do filme, não se mostra muito entusiasmada com a classificação de “a primeira blogueira da história” que tem sido imposta a MacLane nos últimos anos. “Entende-se que se coloque essa etiqueta, ao escrever de uma forma tão direta em p…

O projeto é escrever. Um perfil de Mario Levrero

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Por Mauro Libertella


A romancista uruguaia Fernanda Trías o definiu assim: “O escritor de culto, o fanático dos gêneros menores, o ermitão, o mestre de tantos aspirantes a escritor, o raro, o fóbico, o leitor generoso, a figura mítica, o fenômeno literário”.
Era tudo isso e um pouco mais. Também foi uma personagem difícil de se fotografar; quase não viajou, saía pouco e sua biografia não está marcada por grandes aventuras. Foi apenas um homem que escreveu cerca de vinte livros e quem a literatura latino-americana do século XXI reconhece como um mestre, como alguém que mostrou o caminho para as gerações seguintes.
Mas, quem foi Mario Levrero? O registro de nascimento indica que nasceu em Montevidéu no dia 23 de janeiro de 1940, e que foi registrado com o nome de Jorge Mario Varlotta Levrero. Sua família e amigos o conheceram sempre como Jorge Varlotta. Hoje ainda o chamam assim: Jorge.
Seu pai, o sr. Mario Julio Varlotta, trabalhava nas lojas London-Paris de Montevidéu, na área dedicad…

Boletim Letras 360º #300

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Nesta semana iniciamos nossa campanha de fim de ano em nosso Instagram; em 2018, há um sabor a mais por sermos parte por adesão da campanha nacional #DêLivrosDePresente. Mas, sem deixar de dizer que, muito antes disso, sempre foi nosso costume no Facebook tal incentivo e desde há quatro anos, no Instagram dedicamos os dias que antecedem as celebrações de fim de ano para apresentar dicas de livros para presente. E, por falar em livro de presente, restam só dois dias para o sorteio de uma caixa contendo o Último caderno de Lanzarote, o diário inédito de José Saramago que foi publicado em outubro deste ano em Portugal e que chega ao Brasil agora em dezembro, e o Um país levantado em alegria, livro do jornalista Ricardo Viel que recompõe os bastidores do Prêmio Nobel ao escritor português no ano quando se passam duas décadas desse acontecimento. É no nosso Facebook. Recados passados, vamos às notícias que copiamos por lá nesta semana.


Segunda-feira, 3/12
>>> Estados Unidos: Um mu…

O desabrochar do primeiro homem

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Por Rafael Kafka


A leitura de O estrangeiro sugere que Albert Camus era alguém de mente adstringente, seca. Fria. Ao menos, para o Rafael que o leu há mais de dez anos. Mesmo na época estando em profundo amor pelo existencialismo, fiquei com tal imagem em minha mente diante de um escritor que, de forma clara, mostrava como nossa sociedade é baseada em sentimentos de afeição construída e impostas socialmente. Pois mais do que o crime bárbaro cometido por Mersault, que hoje começa a ganhar conotações racistas – debate válido dentro da obra de Camus que discute a relação entre colonizador e colonizado de forma pungente –, o julgamento do protagonista do romance mais célebre do escritor franco-argelino tem como fatores intensificadores o fato de ele não chorar no enterro da própria mãe. Essa falta de sensibilidade coloca Mersault como um monstro e mesmo os leitores mais críticos e desprendidos de tais convenções sociais acabam estranhando um pouco sua postura. O que ajuda um pouco a tornar…

Algumas notas sobre "Poemas", de Pier Paolo Pasolini

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Por Pedro Fernandes


No Brasil, Pier Paolo Pasolini é uma figura, ao mesmo tempo, conhecida e desconhecida. Apesar de autor de um cinema integralmente situado fora dos chamados circuitos comerciais, é pouco provável que alguém não tenha deixado de ao menos ouvir falar em títulos como Salò ou os 120 dias de Sodoma, talvez o seu filme mais conhecido. Seestreitarmos ainda mais o público, é possível lembrar outros títulos, quais Medeia, Teorema ou Os contos de Canterbury. Desses títulos, o leitor deste texto que nunca tenha assistido nenhum deles, não deixará de perceber a estreita relação que o cinema do italiano mantém com o universo literário. E isso não é em nada gratuito.
Romancista que se preocupou em construir uma obra interessada em revelar a periferia proletária da Itália de seu tempo – país com o qual desenvolveu intenso, e nem sempre cordial, (para dizer nunca) diálogo – ele próprio considerava-se acima de tudo um poeta. E não faltará quem também assim o reconheça quando toma c…