Postagens

O tempo em A montanha mágica: anotações da leitura de Paul Ricoeur

Imagem
Por Joaquim Serra   Thomas Mann. Foto: Bridgeman Imagens   É inegável, diz Ricoeur, que A montanha mágica seja um romance sobre o tempo. Hans Castorp, o homem comum escolhido pelo narrador, passará sete anos no sanatório “até que o trovão da declaração da guerra de 1914 o arranque do feitiço da montanha mágica; a erupção da História, porém, só o restituirá ao tempo dos de baixo para entregá-lo a essa ‘festa da morte’ que é a guerra” (p. 200). Para Ricoeur, o fio condutor da obra é o confronto de Hans Castorp com o tempo abolido do sanatório Berghof. O filho enfermiço da vida, em visita ao primo Joachim (tuberculoso e há seis meses internado), adentrará o mundo dos mortos para se tornar íntimo dele, se aclimatar e vivê-lo na pele. O projeto frustrado de Hans Castorp é o de passar três semanas com aqueles que não reconhecem essa medida de tempo, o que irá gerar, num primeiro momento, a convivência dos contrários para aflorar a significância do tempo. Segundo Ricoeur, “as primeiras discu

Akhmátova e Modigliani, um amor nascido da arte

Imagem
Por Andrés Seoane Retrato de Anna Akhmátova por Amedeo Modigliani.     “Tudo aquilo aconteceu na pré-história de nossas vidas: a sua muito breve; a minha, muito longa. O sopro da arte ainda não havia incendiado, transfigurado essas duas existências. Era a hora diáfana e passageira que sucede a aurora.” Assim recordava, anos depois, a poeta russa Anna Akhmátova (1889-1966) o incendiário e fugaz amor que dividiu com o artista italiano Amedeo Modigliani (1884-1920) na efervescente Paris da belle époque .   Uma relação, fina e delicadamente construída pela escritora francesa Élisabeth Barillé (Paris, 1960), que mergulhou nesta história depois de reconhecer Akhmátova numa escultura do artista leiloada em Paris no ano de 2010 batendo todos os recordes depois alcançar o preço de 43 milhões de dólares. Encantada pelo busto e pela história que nele poderia estar guardada, a autora de ascendência russa viajou a São Petersburgo para interrogar os arquivos ainda preservados da poeta.   Viajando at

Boletim Letras 360º #449

Imagem
    DO EDITOR   1. Caro leitor, só registro os agradecemos por sua preciosa companhia por aqui e noutras redes do Letras com a leitura, o comentário, a partilha e o apoio sempre bem-vindos e nunca demais. Estejam bem e boas leituras! João Cabral de Melo Neto. Foto: Elpidio Lins Suassuna.   LANÇAMENTOS   A obra de Abdulrazak Gurnah, escritor que recebeu o Prêmio de Literatura em 2021, sairá no Brasil pela Companhia das Letras .   O anúncio foi publicado na manhã da quinta-feira, 14 de outubro de 2021, nas redes da editora: “Com muita alegria, a Companhia das Letras anuncia que se tornará a casa brasileira de Abdulrazak Gurnah, vencedor do prêmio Nobel de literatura de 2021”, abre a nota. A casa afirma ainda que publicará inicialmente quatro títulos: Afterlives , Paradise , By the Sea e Desertion . Afterlives , o livro mais recente do autor, será lançado ainda no primeiro semestre de 2022. Ambientado no início do século XX, o romance tem como pano de fundo a Rebelião Maji Maji, revolta

Privadas de Henry Miller

Imagem
Por Álvaro Corazón Rural Henry Miller.   Cuide do seu ânus. Cuide do seu ânus! De todo o conhecimento universal, este é o único conselho que vale a pena dar a uma criança. Pode-se quebrar o quadril, sofrer de estômago, não enxergar bem, ter dores nos ossos: muitas dores aguardam o envelhecimento, mas todas as decisões tomadas na vida devem ter como objetivo garantir que o sofrimento nunca venha da flor sagrada.   Durante o século XX, milhões de homens se jogaram nos braços da enfermidade retal, ignorando os riscos que corriam. Não importava se eram carecas com bigodes franquistas ou liberais barbudos de óculos; ambos os universos irreconciliáveis ​​se trancavam da mesma forma no banheiro para esvaziar suas necessidades sem sair até que não tivessem completado as palavras cruzadas. Sim, as palavras cruzadas ou as autodefinidas, esse arcano indecifrável para um rapaz da atualidade doutorado em qualquer licenciatura em Humanidades.   Na literatura científica, quem além de dilatar o intest

Acontecimentos na irrealidade imediata, de Max Blecher

Imagem
Por Pedro Fernandes   Foi com Acontecimentos na irrealidade imediata que Max Blecher fez continuar um projeto criativo breve iniciado em 1934 com um livro de poemas publicado numa edição artesanal e restrita. A brevidade não foi obra própria, se deveu a circunstâncias negativas: o escritor morreu quando contava apenas 28 anos. Além deste romance, escreveu outros dois: Corações cicatrizados e A toca iluminada .  Esses trabalhos, se não de imediato, o colocaram no rol dos importantes ficcionistas da literatura romena no século XX. Posto que ocuparia se apenas fosse o autor do livro aqui em destaque: seja pela renovação estabelecida na natureza do tema, seja pela maneira como articula as duas forças poéticas, a poesia e a prosa, na constituição da narração. Sabe-se que Blecher iniciou a escrita de Acontecimentos… em 1933, isto é, antes de Corpo transparente , o primeiro livro, e retoma um ano depois até publicá-lo em janeiro de 1936.   O leitor atento não deixará de encontrar no romanc

Pedro Almodóvar, filmes paralelos

Imagem
Por Carlos Reviriego “Não há história muda.” As palavras de Eduardo Galeano que fecham o drama das Mães paralelas , usadas com inteligência e sugestão lírica, funcionam como elo de um filme fragmentado, uma espécie de film-frankenstein desdobrado praticamente como dois “filmes paralelos” que partilham personagens, mas que poderiam muito bem não fazê-lo. No último longa-metragem de Pedro Almodóvar — que, para não sobrecarregar o leitor sem uma avaliação prévia, é um filme magnífico, comovente e de grande relevância — assistimos a um prólogo (em Madrid, 2016) e a um epílogo (numa cidade não identificada, 2019) que, se juntamos, formaríamos um sublime e inestimável curta-metragem.   Jamais saberemos como o filme teria sido submetido à operação, antes utilizada pelo manchego, de estrear simultaneamente um curta e um longa-metragem ( Abraços partidos + A vereadora antropófaga , em 2009) com personagens comuns (ou pelo menos a autoria do curta, assinado pelo cineasta que protagoniza o lon

Stanisław Lem, o homem que fez o que pode

Imagem
Por Andrea Calamari Stanisław Lem. Foto: Aleksander Jałosiński   “Cago-me trabalhando como escritor com a mesma bravura de um peido.”   Isso é o que Stanisław Lem escreveu. Não com essas palavras, é claro, ele escreveu em polonês. O que mais me interessa em Lem é a figura de um escritor de vanguarda que fez toda a sua obra à margem da literatura mundial e por isso me parece um gesto de justiça poética abordá-lo através de uma biografia escrita por um polonês e em uma tradução feita também nas margens.   Quando escreveu essa linha em uma carta a um amigo, ele já era o escritor mais conhecido da República Popular da Polônia, Stálin já estava morto e estava perto a alguns anos dos cinquenta. Também os problemas financeiros de Lem, que o acompanharam desde o início da guerra. Agora pagam adiantado: tem três contratos assinados para três livros que ainda não começou a escrever e nem tem ideia. Quando os terminar e publicar, um deles será Solaris , a sua obra mais reconhecida e levada três