Postagens

O retorno, de Dulce Maria Cardoso

Imagem
Por Pedro Fernandes


O retorno, de Dulce Maria Cardoso chegou no Brasil um ano depois da publicação em Portugal; isto é, em 2012, o livro já trazia consigo toda a repercussão alcançada no país de origem – não só as muitas resenhas elogiosas, os interesses acadêmicos, a obra havia sido premiada como o Livro do Ano / Prêmio Especial da Crítica. A história desse sucesso, apesar de o nosso país padecer de uma anomia quando o assunto é a recepção de uma obra literária (há casos escusos mas que não cabem na acepção do termo), se repetiu de alguma forma. Evidentemente que não com o mesmo furor português, mas nada de se passar despercebido.
No caso de Portugal, parte da maneira como livro chegou aos àqueles leitores se deveu ao fato de ser O retorno uma narrativa, apesar de integralmente ficcional, que toca profundamente um passado que não foi de um todo esclarecido – ou ao menos os sentimentos em relação a ele traduzidos de maneira diversa e, portanto, clara. Possivelmente essa claridade é alg…

Revolução invertebrada

Imagem
Por Carlos Pardo

A morte de V. S. Naipaul (1932-2018) reaviva uma polêmica que acompanha o escritor desde quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 2001: o velho clichê de se os gênios são boas ou más pessoas. E se “quanto mais sutil e intensa se fazia sua prosa, maior era a impudência de seus comentários em público”, como escreve seu biógrafo Patrick French, de Naipaul chegavam a expor como contradições ideológicas ambíguos segredos de alcova. Também lhe chamaram de racista, preconceituoso e “lacaio depreciável do imperialismo”; opiniões gravadas inclusive nos obituários. Muitos dos exemplos contrários estão em O escritor e o mundo [tradução livre], contundente compilação de crônicas de viagens datadas entre 1962 e 1992. Lidas hoje, alguém pode recordar o desejo de Schiller: não dês ao teu tempo o que te pede, mas o que necessita.
Nascido numa família indiana emigrada na ilha de Trinidad, escritor em língua inglesa, Naipaul define suas intenções: “Viajo para descobrir outros es…

Amor, casais e casamentos em William Shakespeare (2)

Imagem
Por María Méndez Peña






Amor pode significar amante, amigo, ou um tipo de ação. Há uma aberta proximidade entre amor e amizade. Às vezes por amor significa de todas as formas. Os assuntos do amor luzem por trás das cortinas, de onde saem os cenários: ali se conjuga uma fina sensibilidade ao prazer e à dor com uma enorme capacidade de idealização estética.
As alusões maravilhosas ao amor em Shakespeare provêm de uma personagem muito jovem e apaixonada, Romeu. Ele, no começo da tragédia, afirma: “O amor é dos suspiros a fumaça; puro, é fogo dos olhos que os olhos ameaça; um mar de lágrimas de amantes. Que mais será? Loucura temperada, fiel ingrato, doçura refinada”.
Sobre o amor, um caso extremo mas retorcido, como corresponde ao personagem, aparece na corte do Duque de Gloucester a Lady Ana viúva, em frente ao caixão de seu esposo, num confuso jogo de palavras, matar-amor, matar-amante. “O amor de uma mulher já foi feito dessa maneira? E ainda assim, a conquisto! O universo contra nada!”…

Advertência e ruminação: breves notas sobre Esaú e Jacó, de Machado de Assis

Imagem
Por Guilherme Mazzafera


Boa parte do que hoje se entende por teoria do romance decorre do posicionamento dos autores em prefácios que, muitas vezes, cumpriam a função de justificativa para o empenho da pena em uma forma nova, arredia a métricas e poéticas, dada a enchimentos e digressões e, acima de tudo, que carecia do caráter sério que os gêneros estabelecidos pelas preceptivas emanavam e exigiam. Embora se possa vislumbrar no século XIX – o “século sério” na poderosa definição de Franco Moretti – um momento de supremacia da forma em sua afirmação de pintura da vida, o recurso dos prefácios e advertências permanece como elemento poroso que reforça ou, nos casos mais interessantes, contesta seu próprio anseio mimético.
Nos romances de Machado de Assis, o prefácio, prólogo ou advertência ao leitor tem certa composição proteica. Em Ressurreição (1872), seu primeiro romance, escutamos a voz do autor empírico que percebe a obra que oferece ao público como “ensaio em gênero novo”, em que…

Boletim Letras 360º #288

Imagem
Na sexta-feira, 14 set.'18, publicamos o resultado da promoção que sorteou o Dom da amizade, de Colin Duriez (HarperCollins Brasil). Isso em nossa página no Facebook, de onde copiamos as notícias apresentadas a seguir.


Segunda-feira, 10/09
Brasil: Premiado e quisto por figuras como Margaret Atwood, chega às livrarias Fique comigo, da nigeriana Ayọ̀bámi Adébáyọ̀
Yejide e Akin se apaixonaram na faculdade e logo se casaram. Apesar de muitos terem esperado que Akin tivesse várias esposas, ele e Yejide sempre concordaram que o marido não seria poligâmico. Porém, após quatro anos de casamento — e de se consultar com médicos especialistas em fertilidade e curandeiros, tomar chás estranhos e buscar outras curas improváveis —, Yejide não consegue engravidar. Ela está certa de que ainda há tempo, mas então a família do marido aparece na sua casa com uma jovem moça que eles apresentam como a segunda esposa de Akin. Furiosa, chocada e lívida de ciúmes, Yejide sabe que o único modo de salvar seu …