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O amante detalhista, de Alberto Manguel

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Por Pedro Fernandes 


“A totalidade não deixa espaço para o desejo”. A constatação do narrador de O amante detalhista explica claramente sobre o tema principal de sua narrativa. Descrita de maneira errônea por grande parte das leituras como a história de um voyeur, consideração que despreza mesmo a sinopse oferecida na divulgação da obra ou mesmo a explicação, certamente motivo para a nota, do próprio narrador, quem assim explica: “Vasanpeine não era um expectador. Era um ator à espera do sinal para entrar em cena”.  
Anatole Vasanpeine, é um solitário homem de existência anódina qual as paredes da catedral Notre-Dame-la-Grande, da qual é vizinho, que começou muito cedo a trabalhar na casa de banhos de Poitiers. O narrador, herdeiro da estirpe dos grandes enciclopedistas, decide, motivado pela leitura de um ensaio de um tal Terradillos reanimar essa “vida desperdiçada”. Não é, ao que parece, o contato com este texto o elemento principal da investigação, mas um interesse pela chamada ge…

Primavera em Casablanca, de Nabil Ayouch

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Por Pedro Fernandes


Hollywood eternizou Casablanca como a do céu mais bonito e a qual os que almejam alguma ponta de felicidade decidem dela fugir; este contexto do filme de Michel Curtiz é o do conturbado período da Segunda Guerra Mundial e a cidade marroquina era ponto de passagem de gente da França de Vichy, da Alemanha de Hitler, refugiados, ladrões. Enquanto isso, Nabil Ayouch recupera a cidade vista pelos estadunidenses – e também sua terra natal – como uma ilusão da qual se é impossível fugir.
Não é que Casablanca seja o motivo principal do filme que carrega seu nome; nem no de Curtiz, tampouco no de Ayouch. No último, a cidade é apenas um motivo para o drama vivido por cinco personagens que constituem cinco núcleos específicos e todos num só ritmo: a contínua necessidade de agir para viver. O cineasta revisita assim a condição da liberdade, patente já no filme de 1942, para repensar que da visão romântica da luta pela realização plena dos indivíduos só restou a luta. Repete-s…

O livro pequeno mais longo do mundo

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Por Kiko Amat



Alice Otterloop é a protagonista da tirinha cômica Cul-de-Sac. Ela gosta de dançar sobre tampas de bueiros, mas em certa ocasião fica presa num deles “durante dias”, rodeada por um mar de lama. Quando sua mãe a resgata, no último quadrinho, descobrimos que na verdade só se passaram 15 minutos. A angústia do confinamento é relativa à passagem do tempo em seu relógio interno. Cada segundo se transforma em uma hora.
Ler Cândido de Voltaire é uma experiência semelhante. E nem sequer se pode fazer o que fez John Carey em Paraíso perdido de John Milton quando editou a obra para o leitor moderno sem a retórica enfadonha ou a digressão embaraçosa preservando apenas as passagens mais importantes – uma solução que, também, valeria muito para Moby Dick. Isso porque o livro é muito pequeno: uma tacada de cento e poucas páginas insignificantes que, sem dúvidas e segundo avançamos, nos trai ao se mostrar em forma da Grande Enciclopédia Catalã, lida de A-Ami a U-Zw. Qual é sua estratég…

Hilda Hilst e o inominável das palavras

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Por Fernanda Fatureto



Hilda Hilst saiu do terreno das sombras. As sombras eram elementos presentes nas queixas da própria autora, que reclamava que lhe faltava em vida leitores e críticos interessados em sua obra. Escreveu mais de vinte livros de poesia, muitos de prosa e teatro. Recebeu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA) em 1981 e o Jabuti em 1994, mas ainda assim afirmava que ninguém a lia. A partir dos anos 2000, sua obra começou a ser reeditada  – aumentando seu número de leitores. Dessa safra de edições, faz parte Fico besta quando me entendem (Biblioteca Azul, 2013), coleção de vinte entrevistas que Hilda Hilst deu dos anos 1950 a 2003 reunidas pela Editora Globo com organização do pesquisador  Cristiano Diniz.
Alegava que, se muitos definiam sua literatura como inacessível, era porque lidava com o sagrado. Afirmou a Vilma Arêas e Berta Waldman em 1989: “A poesia tem a ver com tudo o que não entendo. Tem a ver com a solenidade diante do mundo. Algo sagr…

Boletim Letras 360º #275

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Desde o início da semana disponibilizamos uma nova promoção para os leitores do blog Letras in.verso e re.verso. Desta vez, o sorteio acontecerá na página do Facebook e será um exemplar da edição Da prosa, de Hilda Hilst mais um título surpresa. O regulamento e outras informações podem ser obtidas logo na post fixa no mural. Desejamos a todas e todos boa sorte! Enquanto isso, convidamos às informações que circularam em mais uma semana de atividades neste Facebook — semana, aliás, riquíssima, com muitas novidades sobre novos títulos que chegarão às livrarias brasileiras entre o final de junho e início de julho. Vê só!


Segunda-feira, 11/06
>>> Brasil: A Editora Nova Fronteira amplia sua coleção de caixas com clássicos reeditando várias obras de Bram Stoker
Reconhecido como um dos maiores mestres do terror da literatura mundial, Bram Stoker produziu textos dos mais variados gêneros. A caixa é uma mostra de sua produção literária de tramas sobrenaturais. O primeiro volume traz a …

Do (des)engano

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Por Guilherme Mazzafera





... a razão de ser do ensaio consiste menos em encontrar uma definição reveladora do objeto e mais em adicionar contextos e configurações em que ele possa se inserir.

Max Bense, “O ensaio e sua prosa”

1.

Ledo engano: poucas expressões idiomáticas são tão assertivas em seu acoplamento de contrários. O descaminho que conduz ao encontro com o novo é a vereda do sábio e “Os sábios só falam do que conhecem”. O logro de Leda por Júpiter transformado em cisne, eternizado no quadro perdido de Leonardo, deu à luz figuras de primazia nos mitos gregos: Cástor, Pólux, Clitemnestra e Helena, aquela cuja beleza – topos do engano clássico – raptada moveu o exército grego às plagas de Ílion, pondo em marcha a literatura ocidental.

*
Para a teologia cristã, o ledo engano irmana-se à felix culpa, engastada por Eva, cujo ouvido cede ao verbo melífluo do ínfero anjo. A queda que demanda expiação potencializa-se em símbolo na entrega apaixonada dos mártires, em gozo profundo de um …

Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac

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Por Pedro Fernandes


A liberdade, no sentido mais íntimo que este termo recupera, só existe no estágio mais primitivo de solidão e na nossa existência se manifesta naquelas situações quando somos arrastados para fora de qualquer lei sem qualquer motivo aparente. Pode parecer paradoxal (e é), mas a liberdade se apresenta em parte enquanto realização das forças instintivas, desde que tais forças não se revelem enquanto instinto. Num conto nascido de uma crônica, “As águas do mundo”, de Clarice Lispector, a voz narrativa se interroga: “Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga”. Está esclarecido o paradoxal do ser-livre.
Em Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, se constata o que se esconde no motivo dessa indagação clariceana. Ao perguntar-se por que um cão é tão livre, quem se pergunta compreende que a liberdade se apresenta em graus diferentes, mas o que é, por assim dizer, o mais verdadeiro, é o de um sentimento revelado no vácuo da consciênci…