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João Cabral olha Joan Miró

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Por Pedro Fernandes


Em Manual de pintura e caligrafia, um dos primeiros romances de José Saramago, encontramos um pintor que, tomado pelo progressivo desinteresse das pessoas pela pintura expressiva se dedica à pintura figurativa, exclusivamente de retratos, esta que, possivelmente pela popularização da fotografia também cai em desuso. A última opção de H. é pela escrita, construída esta a partir de sua leitura interpretativa, espécie de crônica de observação, ainda eivada do plano visual e imagético que caracteriza seu modo de ver. A circunstância se apropria de uma discussão bastante clara no universo interartes (literatura-pintura) – ou mesmo anterior a ele, que é a relação entre palavra e imagem.
Não é interesse nestas notas enveredar por uma leitura deste livro do escritor português; tampouco ensaiar-se num itinerário, amplo e diverso qual o destas relações. Alinhavemos as duas questões, entretanto, numa compreensão aparentemente simples e comum, mas não simplista, a que compree…

Ivan Turguêniev, espelho das contradições russas

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Por Andrés Seoane



“Um dos princípios básicos da vida é a união entre os tempos, a transmissão patrimonial de valores. Um mundo sem tradição cria órfãos”. Honrando o espírito dessa frase, recordamos no 200º aniversário de seu nascimento, a figura do escritor russo Ivan Turguêniev (1818-1883), perfeito modelo do complexo século XIX num império czarista tomado de irresolutas contradições e de grandes figuras literárias. Nobre latifundiário defensor da emancipação dos trabalhadores, liberal dividido entre o conservadorismo e o anarquismo, fervoroso europeísta numa sociedade eslavófila, o escritor sempre se posicionou nas grandes polêmicas políticas de seu tempo. Muitas dessas lutas que povoaram a vida de Turguêniev já caducaram, mas, dois séculos depois, resta-nos a sua literatura, marcada pela arte da descrição, na qual brilhou como poucos.
De origem nobre, nasceu em 9 de novembro de 1818 em Oriol, ao sul de Moscou, e se criou na propriedade rural de sua mãe, a rica latifundiária Varvára…

A segunda vida de Lucia Berlin

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Por Andrea Aguilar


Sua via transcorreu entre o Alaska, Texas, Santiago do Chile, Novo México, Califórnia, Nova York, Cidade do México e Colorado. Seu sobrenome era Berlin. De nome, Lucia. Falava bem espanhol. Publicou 77 contos, recolhidos em meia dezena de livros. Dos últimos venderam-se pouco menos de mil exemplares.
Lydia Davis, a grande contista estadunidense, escreve que sempre teve fé que as mulheres escritoras, mais cedo ou mais tarde, subirão o mais alto, como a espuma, e serão exatamente tão reconhecidas como deveriam. Ela – apelidada durante antes como “escritoras de escritores” – já deixou o passado e, agora, parece que enfim chegou a vez de Lucia Berlin, embora tenha se passado mais de uma década de sua morte em 2004, aos 68 anos.
Algumas semanas depois de entrar na mesa de novidades das livrarias estadunidenses, em meados de agosto de 2015 com a coletânea de contos Manual for cleaning women [Manual da faxineira, em tradução no Brasil publicada em abril de 2017] o livro ch…

Se tens tempo suficiente

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Patricio Pron





Jean-Jacques Rousseau caminhava para pensar; Friedrich Nietzsche o fazia pelas montanhas e para poder escrever; Martin Heidegger passeava pela Floresta Negra para experimentar o “ser” de uma forma mais autêntica que a vida em sociedade lhe permitia (e também para coletar cogumelos); Immanuel Kant atravessava Königsberg (a atual Kaliningrado) sempre às cinco da tarde, sozinho, respirando profundamente pelo nariz (considerava que fazê-lo pela boca ao ar livre poderia prejudicar a saúde), sempre pelas mesma ruas e vestindo exatamente o mesmo que no dia anterior. Robert Louis Stevenson, Walt Whitman, William Wordsworth, Ezra Pound, Jack Kerouac, Patrick Leigh Fermor, Bruce Chatwin, Régis Debray, Gary Snyder, Patti Smith e Sophie Calle foram ou são grandes caminhantes (e escreveram sobre isso) e alguns dos textos fundamentais de várias culturas (a Epopeia de Gilgamesh, o Mahabharata, o Pentateuco) narram largos trajetos a pé. “Todos os lugares são acessíveis a pé se você tive…

Boletim Letras 360º #296

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Aqui estamos, como de costume, com as notícias que foram apresentadas durante a semana em nossa página do Facebook. Boas leituras!


Segunda-feira, 05/11
>>> França: Vai a leilão uma carta do poeta francês Charles Baudelaire escrita antes de uma das suas tentativas de suicídio
Foi em 1845 e, como se sabe, o poeta sobreviveu. A carta foi leiloada na França por 234 mil Euros, três vezes mais que o valor do primeiro lance. Na missiva, Baudelaire explicava à sua amante Jeanne Duval, os motivos que o levava a por fim à vida: "Quando a senhorita Jeanne Lemer lhe entregar esta carta, estarei morto [...] Mato-me porque não posso mais viver, pois o cansaço ao dormir e o cansaço ao acordar são insuportáveis para mim", escreveu o poeta antes de apunhalar-se, mas sem grandes consequências. Tinha então 24 anos e viveu ainda outros 22; morreu em 1876 em decorrência da sífilis. Os problemas familiares, as críticas literárias, a falta de dinheiro e o alcoolismo haviam levado o poeta …

“Babbitt”, uma taxonomia do homem médio contemporâneo

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Por Rafael Kafka


Muitos veem no capitalismo o caminho para a liberdade política em seu maior sentido possível. O consumo seria para tais pessoas a prova viva de que mesmo um pobre trabalhador dentro da sociedade regida pelo lucro tem mais liberdade de ação do que o sujeito que vive em uma sociedade sem classes. O poder econômico gerado pelos estudos e pelo esforço pessoal dentro do trabalho ampliaria essa liberdade, a qual seria garantida e estabelecida pela unidade central da família.
Babbitt, de Sinclair Lewis, é formidável em expressar os mitos por trás dessa crença no sistema capitalista e em seus códigos morais de um modo ao mesmo tempo sutil e profundo. Não há neste romance um primor narrativo e estético que o coloque ao lado de grandes obras do pensamento literário universal marcadas pelo atrevimento e pelo experimentalismo. Do ponto de vista formal, Babbitt é uma obra simples, com começo, meio e fim bem delimitados e com um clímax bem marcado. Talvez o maior atrevimento estilíst…

Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha, de Liudmila Petruchévskaia

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Por Pedro Fernandes


Uma tarefa da literatura dentre as mais belas, e da qual escritores de variado tempo e escolas têm se afastado – o que não o fazem menores, de forma alguma, mesmo porque renovou faces diversas do literário –, é a criação do fabular. Esta, aliás, constitui a base de toda literatura. E, para que esta constatação faça sentido é suficiente citarmos os registros diversos que determinaram as bases criativas para toda ficção do Ocidente (e certamente do restante do mundo). No nosso caso, por que esquecer das epopeias gregas, a Ilíada e a Odisseia, se cada uma, alimentadas ora pelo mítico, ora pela história dos povos, não deixa de se constituir pelas filigranas próprias da imaginação? Ou dos vários livros bíblicos povoados, uns integralmente, pelo conteúdo fabular?
O que aqui se chama por criação fabular pode ser compreendida como a expressão de ordem exclusivamente imaginativa, ou, se preferir – até porque resulta impossível tratar de conteúdos literários integralmente d…