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Boletim Letras 360º #404

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    DO EDITOR   1. Saudações, leitores! Como estão? Abaixo, encontram as notícias que fizeram a semana em nossa página no Facebook. A invenção denominada Boletim Letras 360º foi criada há 404 semanas, quando os algoritmos da rede social mais frequentada da casa passou a esconder (como faz cada vez mais abruptamente nos dias de hoje) nossas posts.   2. A poucos dias de outro centenário importante nas letras brasileiras, as seções da segunda parte desta edição são dedicadas a Clarice Lispector. A escritora nasceu a 10 de dezembro de 1920 e é desde sua primeira obra, entre nós, autora de uma parte mais singulares da nossa literatura. Boas leituras! Clarice Lispector. Arquivo Instituto Moreira Salles. LANÇAMENTOS   Giorgio Agamben e arte arrancada de seu contexto museográfico.   Nos palácios renascentistas, Studiolo era o nome dado ao pequeno quarto no qual o príncipe se retirava para meditar ou ler, rodeado pelos quadros que amava de modo especial. Para o autor, este livro é uma espécie

O amor à beira abismo. Uma entrevista com o escritor Adriano de Paula Rabelo

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Por Márcio Rodrigues  “Não acreditamos em reumatismo nem em amor verdadeiro até o primeiro ataque”. Esta constatação bem-humorada foi feita pela escritora austríaca Marie von Ebner-Eschenbach, que produziu grande parte do seu trabalho na segunda metade do século XIX. Ao longo dos séculos, muitas criações literárias têm se concentrado em retratar, de maneira triunfal, o momento em que ocorre esse “ataque”, com todo o encantamento e o desassossego que ele produz. Há toda uma vastíssima literatura folhetinesca, fartamente recriada no cinema e na televisão, cujas histórias terminam sempre num momento em que o casal protagonista supera todas as dificuldades e pode seguir junto. E todo mundo se lembra dos contos infantis que acabavam invariavelmente com um “E foram felizes para sempre...”. Será que foram mesmo? É o que parece questionar o escritor mineiro Adriano de Paula Rabelo em O amor é um abismo furtivo , livro de contos que acaba de ser publicado pela editora Aglaia. Vejamos o que ele

O Decameron, o livro de novelas que atravessa uma pandemia

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    Por Joaquín León O Decameron . Salvatore Postiglione A peste bubônica desembarcou na Sicília de navios vindos da Síria e se espalhou pela Europa, semeando morte, ruína e paralisando o frenético ritmo social das cidades. Em 1348, o mundo de Giovanni Boccaccio e o destino da cidade de Florença mudaram dramaticamente.   O então centro mercantil, condenado pelo fluxo de viajantes e mercadores, tornou-se o centro da pandemia e seus muros tornaram-se o símbolo de uma cidade sitiada e afligida pela doença. Cessou o comércio, cessou a comunicação entre municípios e regiões, e os florentinos adotaram o distanciamento social como medida que se mostrou, na época, ineficaz diante de uma doença pouco conhecida, que não se sabia como se transmitia, não pelo contato humano, mas pela picada de pulgas, roedores ou parasitas; e com o aparecimento de bubões negros no corpo, matava suas vítimas logo após o terceiro dia.   Quase vazia de habitantes, a cidade viu seus cidadãos adoecerem e morrerem aos m

Máquina Kafka

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Por Gabriela Massuh © Yosl Bergner Kafka. Por quase um século, essas cinco letras serviram para parafrasear ― se não explicar ― uma multiplicidade de fenômenos. Não só literários, mas também políticos, psicológicos, teológicos, filosóficos, existenciais e outros. O simples adjetivo kafkiano se apresenta sempre que determinada situação não tem saída, ou quando é fatal e só se permite ser remediada por uma parábola do mal. As estatísticas apenas destacam a profusão do fenômeno Kafka: desde 1960, a fábrica acadêmica que produz versões sobre o autor de A metamorfose gera, em média, um livro por semana.   As respostas que uma mesma tradição acadêmica oferece para explicar a euforia exegética em torno de uma obra tão monumental quanto breve são variadas e, na maioria das vezes, insatisfatórias. Diz-se que é justamente a fragmentação da produção de Kafka que abre sua obra a múltiplas interpretações. Na verdade, muito do que lemos hoje não foi publicado durante a vida do escritor. Outra exp

João Cabral de Melo Neto, outros caminhos a se permitir pela “Poesia completa”

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Por Pedro Fernandes “O ato do poema é um ato íntimo, solitário, que se passa sem testemunhas.” Essa afirmativa de João Cabral de Melo Neto é parte de uma conferência ministrada pelo poeta oferecida em novembro de 1952 na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, no âmbito de um curso de Poética promovido pelo Clube de Poesia do Brasil. Sendo um ato que se pratica sozinho, o poeta guarda, reiterando a imagem de um demiurgo sempre a ele atribuída, toda a liberdade decorrente no tratamento criativo. E a principal atitude é a de desfiguração da realidade. É da natureza da lírica que o mundo e as coisas são transfigurados pelo eu, singularizando-se, alcançando então força que mantém sua condição circunscrita nas fronteiras próprias do objeto poético.   Com esses novos elementos, o poeta desenvolve um mundo que se alimenta e é sustentado por sua voz; este mundo, disperso ou condensado, é uma unidade de significação no interior da qual se movimenta e para o qual, se quiser compreender, o leitor

Verlaine e Rimbaud, o abraço maldito

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  Por Carlos Mayoral   “Dirigirei o teu ódio que me devasta Para o instrumento odioso de teus atentados” Charles Baudelaire, “Benção”, As flores do mal , 1857 Rimbaud e Verlaine. Desenho: Félix Régamey   Bruxelas, 1873. Ele mal tem trinta anos, mas um curtido Paul Verlaine sente o peso de uma vida que ameaça esmagá-lo. Um intelectual conhecido, um homem de bom nome, um burguês famoso, casado em felizes núpcias. Todas essas características, uma por uma, desaparecem do outro lado da retrete em que seu futuro se tornou. Não há Paris que sustente sua intelectualidade, nem sobrenome que a rotule com dignidade. A burguesia o despreza, para dizer o mínimo em favor da própria burguesia. E sua companheira, Mathilde, foi embora antes da penúltima surra. Ele é, para resumir em poucas palavras, um homem destruído.   Dentro do velho motel onde Verlaine se abriga em Bruxelas, não há espaço para o desespero quase doentio que o exauriu por semanas. Olha sua figura nua no espelho e vê o que ele sempre