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Boletim Letras 360º #368

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DO EDITOR
1. Ao que se avista de outros países, estamos apenas no princípio de um longo tempo de dificuldades. E parece que, para nós tudo poderá se estender por mais tempo e com consequências dolorosas muito piores, devido ao empenho descoordenado entre governo e população. Enquanto pudermos, cuidemos de nós e dos que estão próximos – é um reforço ao pedido oferecido na edição anterior deste Boletim.
2. Nesse tempo, é impossível segurar uma verdade: o mercado editorial brasileiro entrará em colapso. Assim, na já longa lista de ajudas aos próximos, sempre que possível devemos incluir, nas compras de livros (e divulgação) as editoras independentes e as pequenas livrarias. Não é apenas o caso de, em grande parte, estas constituírem a única fonte de renda de uma família, é o caso de não deixar perecer o esforço, a dedicação e um trabalho que, em tempos de isolamento, se torna ainda mais necessário.
3. A seguir as boas notícias que nos chegaram nesta primeira semana de isolamento social.…

Contrata-se

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Por Paula Luersen
Este anúncio, por certo, não corresponde às usuais ofertas de emprego publicadas em classificados online ou em páginas de jornal. A vaga pertence, contudo, ao bibliotecário Oshima, longevo funcionário da Biblioteca Memorial Komura, centro cultural localizado em Takamatsu, no Japão. Embora a cidade possa ser localizada nos mapas e globos, a biblioteca será encontrada somente nas páginas do livro Kakfa à beira mar, de Haruki Murakami. Diferente de outras bibliotecas, o Memorial Komura é um espaço ficcional. No livro, ele se insinua nos sonhos daqueles que devem visitá-lo, tornando-se o lugar em que o personagem que dá título ao romance irá empreender o árduo caminho de descoberta de si mesmo. Sendo um centro de pesquisa em arte, história e literatura japonesa, a biblioteca oferece amplas áreas verdes, atendimento especializado, poltronas confortáveis e aparições reveladoras.
Mais do que me tornar frequentadora dessa biblioteca, certa vez almejei trabalhar nela. Como se…

Lasca, de Vladímir Zazúbrin

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Por Pedro Fernandes


A certa altura do segundo capítulo de Lasca, o narrador que acompanha Srúbov, um agente da Tcheká, Comissão Extraordinária para Luta contra a Contrarrevolução e Sabotagem, primeiro órgão de segurança da União Soviética, antecessor da KGB, o narrador registra o encontro da personagem com uma carta do pai que assim diz: “Pense nos milhões de torturados, fuzilados, aniquilados para erigir o edifício da felicidade humana... Você está errado... A humanidade futura recusará a ‘felicidade’ criada sobre o sangue das pessoas...” Este excerto, sem desprezar toda a sua dimensão profética, pode ser tomado como uma síntese sobre um livro que atravessou as fronteiras do horror e se tornou numa das primeiras peças sobre um regime de dor e morte cujas marcas são indeléveis na história do povo russo.
O que acompanhamos nas poucas páginas dessa novela é a crise de uma consciência que, mesmo obnubilada pelos interesses de uma ideologia, não deixa de hesitar entre a renúncia e denúnc…

Suave é a noite. O declínio de um roteirista chamado F. Scott Fitzgerald

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Por Manuel de Lorenzo

Quando F. Scott Fitzgerald traçou em Suave é a noite a história de Dick River, sua glória e queda, a doença mental de sua companheira, a descida aos infernos do álcool, sua insegurança emocional e a falta de controle financeiro, estava deixando um testemunho por escrito de sua própria história. Uma jornada de vida que o coroou como a voz mais talentosa de uma geração extraordinária, a de John Dos Passos, Robert B. Parker, Ernest Hemingway e William Faulkner, e acabou jogando-o na lama, derrotado por seus próprios demônios. Em 1921, um ano depois de publicar Este lado do paraíso, seu primeiro romance, ele fez uma confissão profética no artigo “My Lost City” (Minha cidade perdida): “Lembro-me de viajar de táxi uma tarde entre edifícios altos e um céu cor de rosa e malva; Comecei a chorar muito, porque tinha tudo o que queria e sabia que nunca seria tão feliz novamente”. Treze anos depois, quando terminou de escrever Suave é a noite, seu quarto e último romance, est…

Isaac Asimov e Ray Bradbury: dois centenários

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Por Albero Chimal


Saímos da segunda década do século XXI e no ano se juntam dois importantes centenários: os dos escritores estadunidenses Isaac Asimov (1920-1992) e Ray Bradbury (1920-2012). Ambos são figuras opostas e complementares, da ficção científica ou narrativa especulativa – uma literatura muito mais influente do que parece na cultura de nossa época – e lê-las hoje também dá para pensar, de modo mais geral, sobre nossas atitudes em relação ao futuro, como manifestado nesta era de incerteza.
O termo “ficção científica” (tradução literal de Science fiction, narrativa científica) é usado para falar de obras de qualquer período da história literária, mas, na realidade, não chega nem aos cem anos: foi cunhado e popularizado em 1926 por Hugo Gernsbacher (1884-1967), editor e escritor luxemburguês exilado nos Estados Unidos, na revista Amazing Stories, fundada por ele e ainda ativa até hoje. Amazing, e várias outras que apareceram depois de sua estreia, tornaram famoso a designação …

O Boom, modelo para desarmar

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Por Verónica Boix


Julio Cortázar chamou os leitores passivos, que não aceitam desafios, com o triste célebre designativo “leitor feminino”. Mas, além do óbvio menosprezo, a associação deixa à vista os males de uma sociedade patriarcal no século XX. Não é de estranhar, então, que nenhuma mulher tenha constituído parte do chamado Boom Latino-americano. Assim, seria impossível pensar a literatura atual – e a inusitada vitalidade que as mulheres imprimem – sem antes faltar sobre as escritoras latino-americanas que em meados do século passado já utilizavam as letras de forma transgressora, revelando-nos subjetividades novas e emoções complexas.

Se já um processo literário que acontecia nos países da América Latina ou uma invenção publicitária impulsionada pela agente literária Carmen Balcells, o certo é que o Boom captou em diversos escritores características essenciais: a busca de uma identidade local e a inovação estética são algumas delas. Mas, essa perspectiva excluiu as mulheres. Se s…