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Boletim Letras 360º #345

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O Letras in.verso e re.verso publica há 345 semanas as edições deste boletim que reúne as informações copiadas pela página do blog no Facebook: traços do mercado editorial com a literatura no Brasil, curiosidades e outros temas relacionados ao nosso circuito de interesses passam por aqui. Um informativo com notícias, acreditamos, melhores que as continuamente veiculadas noutras redes e nas mídias comuns. Boas leituras!


Segunda-feira, 14 de outubro
A Editora Âyiné divulgou a primeira lista com as últimas publicações de 2019.
1. Blues dos fins dos tempos, de Ian McEwan
A humanidade sempre se deixou encantar pelas histórias que anunciavam sua destruição total: os últimos dias, o fim dos tempos, a extinção da vida no planeta. Hoje, a fantasia de um fim violento e coletivo ressurge nos movimentos apocalípticos: pacíficos ou belicosos, muçulmanos ou cristãos, mas todos capazes de influenciar a política contemporânea. Assistimos impotentes ao reaparecimento do pensamento apocalíptico, porque …

O engajamento docente

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Por Rafael Kafka


O engajamento dentro da filosofia existencialista é algo simples em essência, mas profundo no tocante à tomada de decisão. Por isso mesmo, ele é síntese de temor e tremor, pois somos confrontados com a ideia de condenação à liberdade em uma realidade que não nos deixa ser livres de maneira absoluta. O menor de nossos gestos é uma mudança do mundo, é uma forma de desafiar o concreto da realidade a qual nos circunda para obtermos o que queremos.
Penso que O que é a literatura?, de Jean-Paul Sartre, seja uma bela síntese desse engajamento existencial. O escritor engajado é tão somente aquele que encara a realidade a sua frente e decide falar sobre ela, mostrá-la, provocar o seu leitor a também encarar e sentir os fatos exibidos ali. Um escritor que silencia diante da violência é um sujeito que deixa clara sua posição política sobre a violência.
O engajamento da obra de arte literária é bem elucidativo inclusive de uma ética de respeito ao outro. O texto literário não busca …

O supermacho, de Alfred Jarry

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Por Pedro Fernandes


O título do romance de Alfred Jerry dificilmente não levará o leitor ao termo utilizado por Nietzsche para designar o que ele compreendia como um modelo ideal de homem capaz de com ele elevar toda a humanidade. O supermacho foi publicado em 1902 e o filósofo alemão havia morrido dois anos antes; logo, as relações não serão gratuitas, se considerarmos o impacto que foram as ideias do autor para o pensamento, além das evidências um tanto óbvias do romance. Para Nietzsche, o super-homem não poderia se unir a outro ser humano que não fosse igualmente superior; o amor é impedimento ao bom senso. Neste homem, de educação eugênica, no sentido de melhoria da condição humana, corpo e alma aprenderiam a obedecer; o super-homem seria, por fim, aquele capaz de se elevar além dos limites estabelecidos pela normalidade.
Quem tiver lido o romance do escritor francês, logo poderá recuperar a sentença de André Marcueil, o supermacho, segundo o qual “Fazer amor é um ato sem importâ…

Harold Bloom, guardião do cânone ocidental

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Por Pedro Fernandes


“A ideia de que beneficiamos os humilhados e ofendidos lendo alguém das origens em vez de ler Shakespeare, é uma das mais curiosas ilusões já promovidas por ou em nossas escolas.”
No início de 2019 revisitei O cânone ocidental — de onde é pinçada a frase acima. Este é talvez um dos textos de crítica literária mais lidos ao redor do mundo; até este ano aparece publicado em mais de quarenta idiomas. É também um dos mais contundentes da crítica literária, por mais controverso que pareça aos olhos de muitos aferrados à desconstrução ou de puros inimigos do conservadorismo. Mas denuncia que o seu autor era um homem de rigor.
Possivelmente, tão cedo não teremos outra figura capaz de construir enfrentamentos com perspicácia e grande fôlego. Sim, os ambientes intelectuais como os por onde circulou estão empestados de senhores vestidos de convicções, de opiniões, de alguma sagacidade, enquanto do que mais carecem é de rigor, perspicácia e fôlego.
Harold Bloom, o nome em que…

Moby Dick e a alegoria

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Por Javier Ozón Górriz


Entre as figuras da retórica, a alegoria, isto é, a arte de expressar algumas coisas em virtude de outras que são mais fáceis de entender, como quando o mistério do Espírito Santo é representado graficamente com a imagem de uma pomba, não é a menos frequente. Isso ocorre por uma razão universalmente reconhecida: a imaginação humana entende o concreto melhor que o abstrato. A alegoria serviria assim como uma representação simbólica de ideias abstratas por meio de figuras visíveis, de modo que, para esclarecer o conceito de “piedade”, nos voltamos para um conjunto escultural no qual uma mãe apoia o corpo de seu filho moribundo, por exemplo; ou expressamos a ideia de “amor nacional” – o abstrato – através da vida exemplar de um soldado – o concreto – sacrificado em nome de seu país e assim por diante. Ciprión, um dos podengos de A cidade e os cachorros, diz sobre o sentido alegórico de que “não significa o que a letra soa, mas outra coisa que, embora diferente, a t…