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New Orleans, Faulkner e o jazz

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Por Paula Luersen

Não sabia para onde iria. Fui levada ao ponto de partida no escuro. Sabia que a saída estava marcada e era cedo, numa estação de trem em Atlanta. Mas não imaginava para onde correriam aqueles trilhos.
Foi só chegar ao destino, porém, para descobrir que era o lugar certo para encerrar 2016, antes mesmo de o calendário decretar seu fim. O problema é que o arrastar do ano tinha esgotado todo o meu desejo, toda a minha vontade. O que eu sentia era tristeza bruta que se agravava nos muitos momentos em que me via sozinha. Polarização política. Burrice institucionalizada. Instabilidade emocional. Demonstrações vazias de autoridade, de um lado; retórica do sacrifício, do outro. Intolerância soando no seu tom mais agudo, a ponto de tomar as ruas, a casa dos tios, a universidade, o pátio da vó e, às vezes, perigosamente, se incrustar pelos cantos do meu apartamento. O desânimo sentava à mesa, se estendia no sofá da sala, aguardava deitado na cama quando chegava a hora de dormi…

Noivado, de Shmuel Agnon

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Por Pedro Fernandes


Há uma moral da história em Noivado, de Shmuel Agnon¹, indispensável à unidade da narrativa: uma promessa quando realizada com o devido fervor jamais deixará de se cumprir. Na infância, Jacob Rechnitz, contrai um enlace afetivo com uma menina sua vizinha, Susan Ehrlich. O episódio, apesar da inocência de duas crianças que se gostam, acompanha toda a vida dessas duas personagens, muito embora o tempo e as circunstâncias estabeleçam para Jacob o progressivo distanciamento dos dois e, com ele, um apagamento da promessa pueril: primeiro é sua saída da morada vizinha à propriedade dos Ehrlich, depois, sua ida para estudar fora do país e seu estabelecimento em Jafa como professor e pesquisador de botânica, e, por fim, o irrecusável convite para uma cátedra na universidade de Nova York.
Ou melhor, aquilo que se estabelece ainda na nossa infância tem contínuas implicações para a vida adulta, o que significa dizer, é esta uma narrativa sobre as filigranas do destino e a im…

O poço

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Por Davi Lopes Villaça



O poço, filme do espanhol Galder Gatzelu-Urrutia, tem recebido várias críticas negativas, o que me parece justo em certa medida. Trata-se talvez de uma obra que deixa a desejar, que entrega menos do que promete. Mas o que de fato entrega é mais do que o suficiente para admirá-la pela maneira como articula, numa narrativa carregada de ação e suspense, temas fortes da filosofia e da religião. Isto sem falar, claro, nas boas atuações e nas qualidades propriamente cinematográficas, que não me proponho a analisar.
A história tem como premissa um estranho experimento social. Duplas de pessoas são aleatoriamente dispostas ao longo dos muitos andares (não sabemos quantos) do “poço”, um enorme edifício subterrâneo, uma prisão vertical. As celas comunicam-se umas com as outras apenas por um grande vão que atravessa seu centro. Esse espaço é de tempos em tempos percorrido por uma plataforma, uma mesa flutuante, contendo a refeição dos prisioneiros, detendo-se brevemente em …

Kimani. A representante do Brasil na Copa do Mundo de Slam

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Por Rafa Ireno
Entre os dias 18 e 23 de maio de 2020 aconteceu a Copa do Mundo de Slam, na França, quer dizer, era para ser em Paris, no entanto, devido a pandemia, o evento foi realizado pela internet. Dia 19, terça-feira, às 16h horário de Brasília (às 21h, Paris). Foi, justamente, sobre essa mudança que eu comecei a entrevista com Cinthya dos Santos, a Kimani, representante do Grajaú e do Brasil na competição. Essa entrevista foi realizada a poucos dias do evento. 


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“Vou colocar o celular num pedestal para ter mais espaço para me movimentar, com um microfone na lapela, daí eu fico um pouco mais livre. Estou pensando onde aqui, em casa, fica melhor de luz para ter esse espaço e fazer toda a performance que eu costumo fazer. O corpo, quando eu quero rodar, pular, quando quero mexer com a mão, de um jeito que eu fique muito livre. Tenho ensaiado bastante, pensando no enquadramento, porque ainda que seja mais contido, eu não quero perder esse lance do meu corpo. Fora isso, eu coloquei …

Maria Velho da Costa, a fulguração imaginativo-criativa

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Por Pedro Fernandes
“Não sei se sou escritora. Não me há estatuto de especialidade que sossegue. Sei que foi nesta língua que resisti ao que até hoje pretendeu colonizar-me o sentir e o pensar, acaso sem que o conseguisse.” Maria Velho da Costa


Maria Velho da Costa foi distinguida com alguns dos reconhecimentos mais importantes em seu país e mesmo no âmbito da língua portuguesa: em 1997 recebeu o Prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra; em 2008, recebeu pelo romance Myra, o Prêmio Correntes d’Escrita; em junho de 2003 foi condecorada com a medalha da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal; em abril de 2011, com a medalha da Ordem da Liberdade. Entre prêmios e condecorações, recebeu em 2002, o Prêmio Camões. Os méritos se reafirmam quando sabemos que sempre foi lida com louvor no âmbito acadêmico.
Mas, a escritora morreu no dia 23 de maio de 2020 e deixou por cumprir igual reconhecimento entre os leitores comuns de seu país. Sempre acusada de ser autora de uma literatura hermé…

Boletim Letras 360º #376

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DO EDITOR
1. Falei na edição passada deste Boletim sobre uma série de mensagens de ódio atiradas contra o escritor Sérgio Sant’Anna numa publicação no Instagram do Letras. Depois de receber várias respostas – às denúncias dos mantenedores e seguidores do blog nesta rede social – de que os ataques dos fascistas não feriam os princípios políticos do Instagram, fui informado que os comentários foram removidos.
2. As cobranças foram reiteradas fora do Instagram, através deste Boletim e através da minha conta no Twitter e nesta mesma rede do Letras. Não me chegou nenhum tipo de mensagem por parte do Instagram informando sobre a retirada dos comentários. De toda maneira, a não existência deles é alguma maneira de reparação.
3. Isso, no entanto, não fará com que repense a redução da presença do Letras no Instagram. No domingo, 17, foi noticiado por lá que não mais será publicada a chamada para as publicações que dão forma a este blog durante a semana. E assim continuará. A rede será utilizad…

Uma distopia e uma vida nua para chamarmos de nossa

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Por Rafael Kafka

Há dois livros que vejo sendo citados com relativa frequência para falar da atual conjuntura da pandemia de Covid-19. A peste, de Albert Camus, talvez seja a rememoração mais realista por abordar um clima existencial de confinamento o qual lembra demais o que atualmente vivemos. Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, já cria uma antítese interessante sobre como a perda da visão permite uma noção mais precisa do que é o ser humano, do quanto de barbárie há na leve superfície de civilização que temos a nosso dispor.
O primeiro me faz pensar mais na questão de algo que comecei a ver descrito no conceito de vida nua, de Giorgio Agamben. Longe de comparar o que nós, seres privilegiados que discutimos sobre a felicidade nos tempos pós-pandemia em nossas lives diárias, com o que foi vivido em campos de concentração como os nazistas, penso que de certa forma há uma analogia com essa vida crua que se mostra diariamente a nós e da qual não podemos fugir. Pouco antes da epid…