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Anatomia do ócio, de R. Leontino Filho

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Por Pedro Fernandes



As discussões sobre o texto poético quase sempre partem de um jogo de relações que dissociam, às vezes por oposição e exclusão, os elementos que distinguem a prosa narrativa. O que podemos chamar de submissão do poema a tais limites deve-se a um ponto impossível de deixá-lo de fora quando tocamos no assunto: o amplo lugar alcançado pela prosa e sua penetração no cotidiano comum faz este gênero ocupar a posição de partida ou grade de leitura para a compreensão da poesia. Esta, por sua vez, ampliou, no tempo dos exageros, sua condição de à margem. Dizemos isso, evidentemente, porque se considerarmos, no âmbito da história da literatura (e mesmo de sua teoria), sempre encontramos a poesia como a mais insubmissa das formas e consequente a que deve, por sua condição, prevalecer no lugar-qualquer; na Poética, Aristóteles não lhe dedica interesse e elege a tragédia como o gênero mais significativo no âmbito das criações com a palavra, enquanto na República, Platão prefere…

Cinco livros para conhecer a obra de Iris Murdoch

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Quando publicamos a tradução do texto de Antonio J. Rodríguez sobre Iris Murdoch (veja o final desta post), alguns leitores do Letras, chamaram atenção para o silêncio quase total sobre o nome da escritora no Brasil, principalmente no ano quando se comemora o seu centenário: aliás, 2019 assinala também os vinte anos da sua morte. Mas, uma visita às livrarias e aos sebos responde que, mesmo não colocada entre os interesses principais das editoras, ao menos até agora, não é motivo para dizer de um desconhecimento da literatura da escritora irlandesa no nosso país. Se algumas de suas obras principais ainda não foram traduzidas por aqui, é possível encontrar traduções em Portugal*, onde, ao que parece, Iris tem uma melhor recepção.
Enquanto visitávamos livrarias e sebos, encontramos com uma homenagem proposta pelo caderno Babelia, do jornal El País. O periódico espanhol sublinhava, no âmbito do centenário de Iris Murdoch, o legado da obra da autora de O mar, o mar; em língua espanhola, …

Günter Grass e seu pior segredo

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Por Hermann Tertsch


NoVerão de 2006, um grupo muito seleto de críticos literários e amigos de Günter Grass recebia os exemplares de uma pequeníssima tiragem de apresentação de seu novo e muito esperado livro: Beim Häuten der Zwiebel (Nas peles da cebola). “Apenas para uso pessoal. Críticas suspensas até 1º de setembro”, advertia-se na capa. Era, ninguém negou mesmo nos debates mais duros que seguiram durante os meses seguintes, um novo e grande livro do escritor de língua alemã mais famoso, lido e influente desde Thomas Mann. Semelhante ao autor de Os Bruddenbrook, Grass havia conseguido juntar sua celebridade e glória como autor ao seu prestígio como intelectual comprometido e uma aura de autoridade moral que carregava o levava a emitir opiniões com grande repercussão sobre muitas questões políticas, sociais, econômicas e morais.
Várias gerações de alemães foram educadas e cresceram com os livros e as opiniões de Günter Grass, especialmente no que se refere ao passado nacional-social…

A França contra Marie Curie

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Por Rocío P. Benavente





Paris, princípios de novembro de 1911. Uma multidão enfurecida se aglomera em frente a uma casa para o que hoje chamaríamos escracho embora então essa palavra ainda não existisse. Gritam insultos e acusações, jogam pedras, querem invadir o lugar. Há uma luz acesa na casa e os revoltosos acreditam que o motivo de sua ira está aí e não se atreve a sair. Mas não: ela regressa nesse momento da primeira conferência de Solvay, em cuja histórica foto (possivelmente terão visto, aqui colorizada) ela é a primeira e única mulher. É Marie Curie, volta para casa para encontrar a terrível cena. Suas filhas de sete e catorze anos, assustadas, estão em casa.
Vocês já ouviram falar sobre Marie Curie? Quem não, não é mesmo? É a única mulher cientista que muitos serão capazes de logo lembrar. A primeira que ganhou um Prêmio Nobel. A que descobriu o rádio. A mártir da radioatividade. Uma mulher pequena, magra, sóbria e séria que nos olha em preto e branco a partir de seu simples l…

Boletim Letras 360º #314

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Na sexta-feira, 15 mar. '19, finalizamos uma seleção de novos colunistas para o Letras in.verso e re.verso. Fomos motivados pelo sucesso da primeira vez quando cumprimos uma empreitada do gênero. E deu certo. Nas duas vezes. É verdade que recebemos menos inscrições, mas as candidaturas, dessa vez, estiveram melhora afinadas com nossa proposta editorial e superaram as do primeiro concurso em termos de qualidade. No final, foram dez os selecionados que começaremos a apresentá-los em breve. Estamos muito felizes com a propícia oxigenação de ideias porque passaremos nos dias vindouros, pelo fortalecimento e a ampliação desse despretensioso projeto num país cada vez mais precisado da arte para sua redenção e do debate para uma ruptura com a celeuma esquizofrênica que se abateu sobre nós. Agradecemos, de coração, a todos que participaram da seleção, que divulgaram e reiteramos, publicamente, os parabéns aos selecionados. Agora, passamos às notícias apresentadas nesta semana na página d…

Olavo de Carvalho e uma curiosa análise do banditismo literário

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Por Rafael Kafka


O guru da direita conservadora brasileira possui posições bem curiosas em seu livro O imbecil coletivo. Algumas delas estão ligadas à questão da segurança pública, como não poderia deixar de ser diferente. Lendo o que pude ler desse livro, ficou evidente para mim o motivo de tantas pessoas defenderem a ideia de a esquerda sentir empatia por crimes e por isso defender tanto aqueles que os cometem, como se fosse a mesma coisa defender uma sociedade pautada em direitos humanos e que as pessoas saiam por aí de forma impune cometendo barbáries.
Antes que me perguntem se ando com tempo excessivo para gastar lendo textos de Olavo, respondo ser importante nos permitirmos dentro de nossos tempos apertados esse exercício de crítica para fugirmos um pouco de uma maldição que um personagem de Bertolluci fala: a de que só conseguimos falar com quem pensa igual a nós. Após as eleições eu criei a ideia de me permitir ler textos de pensadores que fogem pouco ou muito de meu espectro …