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Laços, de Domenico Starnone

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Por Pedro Fernandes


A que ponto somos determinados pelo outro? Qual a força dos laços que casualmente se formam entre nós e os outros? Ao que nos submetemos para manutenção de uma ordem de dominação cujas linhas são apenas aparentemente inofensivas aos rumos de nossas vidas? Como seria nossas vidas se as relações que agora mantemos não fossem essas mas outras? Estas são perguntas que se formam ao longo da leitura de Laços, um romance que se filia a uma tradição em formação na prosa romanesca contemporânea, que poderíamos designar como literatura sobre os afetos.
Numa época quando a condição do amor foi institucionalizada pela mecânica da jurisprudência e seus desenlaces explicados de maneira diversa pela psicanálise este sentimento de natureza romântica que dominou vigorosamente a cena literária desde há muito, parece desvanecer. Claro que é o amor o elemento mobilizador dos imbróglios entre pessoas dentro e fora da ficção, mas este ganha agora outros tons que o distanciam da nobreza…

Lady Bird, de Greta Gerwig

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Por Pedro Fernandes


Há dois filmes encantadores que o expectador pode lembrar o nome da diretora de Lady Bird: Frances Ha, de Noah Baumbach e Para Roma com amor, de Woody Allen. Sua escola, portanto, não é para malnascidos e aí está a resposta para a pergunta por que este filme, o primeiro dela como diretora, nos encanta tanto. Com uma matemática simples, que somam esses dois títulos nos quais Greta Gerwig foi atriz, chega-se à síntese de Lady Bird.
O filme também acrescenta e muito na filmografia sobre o tema da transição entre a adolescência e a vida adulta num território, como é recorrente em outros, onde a predominância dessa narrativa é com personagens masculinas. Quer dizer, durante muito tempo foi comum tratar sobre os medos, os anseios, as relações familiares, as incertezas da vida sexual, de garotos. Há uma extensa lista que inclui do drama à comédia e reflete sobre, portanto, por ângulos diversos. Muitas gerações de não-homens, logo, cresceram sem a alternativa de se verem …

As primeiras detetives da literatura

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Por Carmen Morán

Não acreditem que mulheres detetives ou investigadoras são coisas da literatura policial de nossos dias. De maneira alguma. Tampouco foi esgotado seu modelo com Agatha Christie. O diário de Anne Rodway, publicado por Wilkie Collins em 1856 não só figura como a primeira história protagonizada por uma mulher detetive como a impulsionadora a que escritoras se incorporassem a este gênero um quarto de século depois de iniciar os famosos crimes da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, em 1841. Muitas delas incluíram investigadoras em seus relatos. Foram as primeiras detetivas, vale a pena o uso do termo, num mundo em transformação onde também começa a existir tais figuras de carne e osso.
Aquelas personagens (as mulheres detetives) romperam os princípios engessados da época vitoriana, driblando as convenções e os papéis estabelecidos. Algumas porque eram pobres e necessitavam de dinheiro para levar para casa, outras porque eram ricas e faziam o que lhe davam na telha e todas merg…

Ensaio sobre a obra "Plantar rosas na barbárie" Luís Serguilha

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Por Ana Maria Oliveira




Luís Serguilha, poeta argonauta, expande-se como explorador de enigmas espaciais avançando no seu registo como prospetor de subterrâneos linguísticos, submergindo no abismo oceânico. A sua escrita explora fissuras e avalanches sendo fruto de um permanente olhar vigilante, precursor de terrenos insondados, denunciadores da mutação existencial.
O poeta desprovido de ego, mente espontânea e aberta, transformante invasor de amplitudes, acede à distensão do acontecer. Metamorfoseia-se com o mundo, distanciando-se do humano. Torna-se viajante e arqueólogo, mantendo sobre os espaços e tempos, um enxergar multidimensional, onde o surgimento de reentrâncias de ligação, provoca a interdependência entre o poeta e geografias díspares. 
A palavra para Serguilha tatua-se como veículo instigador de saltos quânticos, onde simbologias primitivas acenam, como hélices originadas por sinapses em conexões atemporais. Labirintos transformam-se num alastramento de fractais onde porvent…

Boletim Letras 360º #258

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Amigos, que acompanham o divulgam o trabalho do Letras in.verso e re.verso, somos só agradecimentos; nossa página no Facebook alcançou esta semana os 70 mil amigos. Será que chegamos aos 100 no fim de 2018? Será? Ansiosos. Bom, a seguir estão as notícias que esta semana circularam por lá; vejamos.


Segunda-feira, 12/02
>>> Estados Unidos: Um software de caçar plágios de estudantes encontra uma possível fonte para peças de William Shakespeare
Os pesquisadores estadunidenses Denis McCarthy e June Schlueter publicam um estudo que aponta um manuscrito nunca publicado de finais do século XVI como fonte para Ricardo III, Henrique V, Macbeth e outras oito peças de Shakespeare. Para chegar a estas conclusões utilizaram um programa muito popular entre pesquisadores universitários para buscar plágios: o software WCopufind. A fonte é A Brief Discourse of the Rebellion and Rebels, de George North. O professor emérito da Universidade de Chicago e editor da obra de Shakespeare, David Bebing…

Anotações sobre O velho e o mar, de Ernest Hemingway

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Por Albert Lladó




“O velho pensava sempre no mar como sendo la mar, que é como lhe chamam em espanhol quando verdadeiramente o querem bem ... o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evitá-lo”. 
Quem fala é o narrador de O velho e o mar, a fábula de Ernest Hemingway em que os conceitos como sucesso e fracasso terão que se refazer ante a luta e a dignidade de seu protagonista, o pescador Santiago. Aparecido na revista Life, em 1953, este conto foi a última grande obra de ficção do escritor de Illions que nesse mesmo ano recebeu o Prêmio Pulitzer e um ano depois, o Prêmio Nobel de Literatura.
A vida de Hemingway foi uma aventura constante e não é estranho que isso se reflita em sua obra. Com apenas dezenove anos participou, como membro da Cruz Vermelha, da Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, como correspondente, foi testemunha direta de…

Entre facas, algodão, de João Almino

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Por Pedro Fernandes


O passado é uma ilusão que não volta mais. Tivéssemos esta certeza e não persistiríamos em remoê-lo com a melhor das intenções – a de encontrarmo-nos outra vez ante alguma felicidade que no presente não possuímos e por isso a imaginação e a memória, suspeitamente, fabulam o vivido com a mais envolvente das atmosferas. Tivesse esta certeza e o narrador das histórias de Entre facas,algodão não empreenderia o projeto de sua obsessão: deixar Taguatinga, onde já criou raízes e voltar para a fazenda onde viveu sua infância.
Ainda assim não podemos condená-lo por uma ideia gorada desde sua concepção. Não fosse a atitude cética do narrador e uma certeza de que a decisão projetada realmente possa significar outra possibilidade para sua vida este romance não existiria. A dúvida e a ação são não apenas condutores dessa narrativa, são pedras de sua fundação. E, claro, não podemos acusar este narrador de apenas se deixar conduzir pelo falso sentimento que a dúvida sem a atitud…