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As primeiras detetives da literatura

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Por Carmen Morán

Não acreditem que mulheres detetives ou investigadoras são coisas da literatura policial de nossos dias. De maneira alguma. Tampouco foi esgotado seu modelo com Agatha Christie. O diário de Anne Rodway, publicado por Wilkie Collins em 1856 não só figura como a primeira história protagonizada por uma mulher detetive como a impulsionadora a que escritoras se incorporassem a este gênero um quarto de século depois de iniciar os famosos crimes da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, em 1841. Muitas delas incluíram investigadoras em seus relatos. Foram as primeiras detetivas, vale a pena o uso do termo, num mundo em transformação onde também começa a existir tais figuras de carne e osso.
Aquelas personagens (as mulheres detetives) romperam os princípios engessados da época vitoriana, driblando as convenções e os papéis estabelecidos. Algumas porque eram pobres e necessitavam de dinheiro para levar para casa, outras porque eram ricas e faziam o que lhe davam na telha e todas merg…

Ensaio sobre a obra "Plantar rosas na barbárie" Luís Serguilha

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Por Ana Maria Oliveira




Luís Serguilha, poeta argonauta, expande-se como explorador de enigmas espaciais avançando no seu registo como prospetor de subterrâneos linguísticos, submergindo no abismo oceânico. A sua escrita explora fissuras e avalanches sendo fruto de um permanente olhar vigilante, precursor de terrenos insondados, denunciadores da mutação existencial.
O poeta desprovido de ego, mente espontânea e aberta, transformante invasor de amplitudes, acede à distensão do acontecer. Metamorfoseia-se com o mundo, distanciando-se do humano. Torna-se viajante e arqueólogo, mantendo sobre os espaços e tempos, um enxergar multidimensional, onde o surgimento de reentrâncias de ligação, provoca a interdependência entre o poeta e geografias díspares. 
A palavra para Serguilha tatua-se como veículo instigador de saltos quânticos, onde simbologias primitivas acenam, como hélices originadas por sinapses em conexões atemporais. Labirintos transformam-se num alastramento de fractais onde porvent…

Boletim Letras 360º #258

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Amigos, que acompanham o divulgam o trabalho do Letras in.verso e re.verso, somos só agradecimentos; nossa página no Facebook alcançou esta semana os 70 mil amigos. Será que chegamos aos 100 no fim de 2018? Será? Ansiosos. Bom, a seguir estão as notícias que esta semana circularam por lá; vejamos.


Segunda-feira, 12/02
>>> Estados Unidos: Um software de caçar plágios de estudantes encontra uma possível fonte para peças de William Shakespeare
Os pesquisadores estadunidenses Denis McCarthy e June Schlueter publicam um estudo que aponta um manuscrito nunca publicado de finais do século XVI como fonte para Ricardo III, Henrique V, Macbeth e outras oito peças de Shakespeare. Para chegar a estas conclusões utilizaram um programa muito popular entre pesquisadores universitários para buscar plágios: o software WCopufind. A fonte é A Brief Discourse of the Rebellion and Rebels, de George North. O professor emérito da Universidade de Chicago e editor da obra de Shakespeare, David Bebing…

Anotações sobre O velho e o mar, de Ernest Hemingway

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Por Albert Lladó




“O velho pensava sempre no mar como sendo la mar, que é como lhe chamam em espanhol quando verdadeiramente o querem bem ... o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evitá-lo”. 
Quem fala é o narrador de O velho e o mar, a fábula de Ernest Hemingway em que os conceitos como sucesso e fracasso terão que se refazer ante a luta e a dignidade de seu protagonista, o pescador Santiago. Aparecido na revista Life, em 1953, este conto foi a última grande obra de ficção do escritor de Illions que nesse mesmo ano recebeu o Prêmio Pulitzer e um ano depois, o Prêmio Nobel de Literatura.
A vida de Hemingway foi uma aventura constante e não é estranho que isso se reflita em sua obra. Com apenas dezenove anos participou, como membro da Cruz Vermelha, da Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, como correspondente, foi testemunha direta de…

Entre facas, algodão, de João Almino

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Por Pedro Fernandes


O passado é uma ilusão que não volta mais. Tivéssemos esta certeza e não persistiríamos em remoê-lo com a melhor das intenções – a de encontrarmo-nos outra vez ante alguma felicidade que no presente não possuímos e por isso a imaginação e a memória, suspeitamente, fabulam o vivido com a mais envolvente das atmosferas. Tivesse esta certeza e o narrador das histórias de Entre facas,algodão não empreenderia o projeto de sua obsessão: deixar Taguatinga, onde já criou raízes e voltar para a fazenda onde viveu sua infância.
Ainda assim não podemos condená-lo por uma ideia gorada desde sua concepção. Não fosse a atitude cética do narrador e uma certeza de que a decisão projetada realmente possa significar outra possibilidade para sua vida este romance não existiria. A dúvida e a ação são não apenas condutores dessa narrativa, são pedras de sua fundação. E, claro, não podemos acusar este narrador de apenas se deixar conduzir pelo falso sentimento que a dúvida sem a atitud…

Corpo elétrico, de Marcelo Caetano

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Por Pedro Fernandes


Uma narrativa que a um só tempo trate do Brasil e seja universal. A lista de obras cinematográficas que conseguem esta façanha é um bocado extensa, embora possamos perceber pelos filmes capazes de chegar aos circuitos maiores que essa possibilidade se apresente toldada por uma influência castradora e problemática para a criação brasileira, a importação dos modelos vazios e bestiais do cinema folhetim estadunidense.
Pelos elementos recorrentes na cena, Corpo elétrico assume ainda outra frente nas produções brasileiras, a dos filmes que abordam o universo operário, vertente marcada por títulos como Os libertários, documentário de Lauro Escorel ou Chapeleiros, de Adrian Cooper. Esses dois filmes, importantes para o contexto de sua produção e agora para a história do cinema no país, adquirem dois papéis fundamentais na filmografia sobre o trabalhador e o trabalho: aqueleconstrói um retrato acerca dos movimentos de defesa dos direitos trabalhistas e este pela observação…

Uma biblioteca do Boom Latino-Americano: vinte e um romances essenciais

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Quando apareceu, o Boom já existia. E quando acabou, o Boom continuou a existir. Qualquer inventário sobre os melhores romances latino-americanos do século XX  não pode deixar de fora o famoso Boom. Veja: é mesmo possível numa lista deixar de fora nomes como Mario Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes ou Julio Cortázar? Certamente não. Porque sem A cidade e os cachorros, Cem anos de solidão, A morte de Artemio Cruz ou O jogo da amarelinha não se pode explicar nem a literatura do século XX nem a seguinte neste continente.
Se é impossível deixar de citar determinadas obras, também o é deixar de fora outras que naquela ocasião podem não ter, de imediato, passado à memória literária do movimento. Como o grandiosíssimo Jorge Ibargüengoitia e As mortas, sem o  qual não falaríamos sobre Carrère nem sobre isso que agora chama-se romance de não-ficção. E mais: se sempre se fala em Truman Capote, por que não nesta investigação também sobre um crime escrita pelo autor mexicano.