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Torquato Neto, exercício de liberdade

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Por Pedro Fernandes


eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do homem que iniciei na medida do impossível
Os versos que abrem este texto são do poema “Cogito” incluído na antologia Melhores poemas Torquato Neto preparada por Cláudio Portella. É um daqueles textos em que o poeta exercita uma definição sobre si, um trabalho de constituição de sua identidade pela obra da qual é criador e pela qual, por que não, também se cria. Possivelmente, este poema deve comparecer em quaisquer coletâneas do poeta, porque é uma de suas melhores composições. A afirmativa está livre de qualquer arroubo heroicizante sobre um poeta continuamente redescoberto nos últimos anos. E, muito menos, se interessa em reduzir o valoroso trabalho criativo do autor a apenas um texto. E, ainda que fosse, sosseguemos, era já motivo para não o desmerecer do epíteto que o designa.
O diálogo desse poema é com o pensamento fundador da razão proposto por René Descartes no seu Discurso do método. Rotineiramente a fra…

Livros para o Dia do livro

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Não podíamos fazer melhor. Um blog cuja vida está em grande parte marcada pela presença dos livros, encontra uma maneira à sua cara de celebrar uma data fundamental aos amantes deste objeto artístico de maior interesse. O Dia do Livro começou a ser celebrado na Catalunha em comemoração ao aniversário de Miguel de Cervantes, isto é, no dia 5 de abril. As celebrações depois foram transferidas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO) para o dia 23. Isso foi em 1995. No território de origem, a data já havia sido mudada para esta ocasião em 1930. Nas duas situações a marca era, agora revista, o dia da morte do autor de Dom Quixote. Sabe-se que Cervantes morreu um dia antes. De toda maneira, restou ainda uma data marcante, a da morte de William Shakespeare, embora ainda exista imprecisão sobre se este acontecimento aconteceu mesmo num 23 de abril.
Com ou sem acontecimento para assinalar este dia, o livro reúne todas as condições fundamentais para a e…

Boletim Letras 360º #267

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No dia 26 de abril findam as inscrições para o sorteio de Primeiro caderno do aluno de poesia de Oswald de Andrade; é o primeiro de uma parceria entre o blog Letras in.verso e re.verso e o projeto Leia Poesia Brasileira disponível no Twitter @LeiaPoesiaBr. Aviso entregue, vamos percorrer as notícias da semana apresentadas durante a semana na página do Letras no Facebook.


Segunda-feira, 16/04
>>> Brasil: Nova tradução para Almas mortas, de Nikolai Gógol
A grande obra-prima de Gógol, romance publicado pela primeira vez em 1842, no qual o autor, considerado o fundador da moderna literatura russa, elabora um retrato ao mesmo tempo lírico e satírico de seu país de adoção. O livro traz a história de Tchítchikov, um especulador de São Petersburgo que viaja pelo interior da Rússia adquirindo dos nobres locais documentos de posse dos servos (ou "almas") que já morreram, algo sem valor na província, mas papéis que poderiam dar a seu comprador um novo status diante da alta soc…

O homem do século

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Por Luiz Mendes


Sobre a capacidade única de escrutínio do homem pela literatura neste século
Há um homem a ser decifrado... sempre! E quem somos neste início de século? Em que nos diferimos de nossos vizinhos do século XX? Bom, talvez para você, que, como um Gurgel, acredita que a literatura deva ser primordialmente uma imersão nos clássicos, questões como essas não façam sentido e, por isso, parar a leitura por aqui certamente é o melhor a se fazer. Mas se, como eu, acredita que um dia um clássico foi um contemporâneo, atual, e que, por isso, se apropriou das características do homem de sua época e as interpretou sob o véu da ficção, vamos prosseguindo...
Quero dizer que um clássico como Odisseia, por exemplo, dialoga com sua época, a Antiguidade Grega, a grandiosidade das conquistas helênicas, a visão de mundo dos gregos sobre vida, morte, família e sociedade. Tudo isso pode parecer distante de nosso mundo contemporâneo, mas torna-se íntimo quando olhamos para Odisseu como um homem …

10:04, de Ben Lerner

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Por Pedro Fernandes


Com este romance, Ben Lerner parece querer dizer que toda literatura é literatura do eu: toda obra literária é produto de um movimento cujo epicentro é o próprio autor, para recordar um texto de Laura Fernández que concorda neste mesmo ponto. Sabendo disso, o romancista forja um narrador marcado pelas mesmas características que embalam a existência dessa categoria no romance: o de ser máscara, disfarce do autor. A diferença é que, como em toda metaficção, aqui o leitor tem acesso ao que se passa na coxia ou aos movimentos da caixa de máquinas desse sistema.
Antes de melhor compreender essas questões é necessário esclarecer que a ressurreição do autor não significa a morte do narrador tampouco o autor sobre o qual falamos deve se confundir com a pessoa física e cívica do escritor. Este último tem a existência marcada no texto pela referência pré-textual mostrada na inscrição de seu nome enquanto autor do texto que o leitor tem em mãos. Mas o autor é, assim como o na…

120 batimentos por minuto, de Robin Campillo

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Por Pedro Fernandes


Em 2014, Ryan Murphy construiu um retrato inquietante sobre o surto de AIDS na década de 1980; o filme é baseado na peça de Larry Kramer, ambientado em Nova York, nos Estados Unidos, e a narrativa transita entre o paradigma da liberação sexual, produto de uma reivindicação por assim dizer cultural que remonta ao fim dos anos 1950 e nas duas décadas seguintes e as imposições trazidas pela doença sobre as quais ainda nada se conhecia. A morte não dá trégua, mas The normal heart não consegue, apesar de todo apelo dramático, tocar tanto quanto este filme de Robin Campillo.
Poderíamos justapor 120 batimentos por minuto à produção anterior porque o contexto aqui refere-se a uma década depois dos acontecimentos tratados e apesar de estarmos agora noutra narrativa os dramas de alguma maneira se repetem. São dois filmes que poderíamos designar como interessados em registrar as transformações de uma doença das mais fatais na história recentemente da humanidade e cuja cura, t…

Introdução aos Poemas árticos

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Por René de Costa


Poemas árticos é o exemplo mais precoce de literatura vanguardista em língua espanhola e, porque contém poemas curtos, foi o volume mais acessível aos leitores pouco familiarizados com a nova estética. Seus poemas foram lidos e relidos, estudados e imitados por toda uma geração de jovens espanhóis dispostos a aceitar tudo o que era novidade. Os que não podiam comprar o livro copiavam a mão. Entre estes entusiastas, alguns, como Antonio Machado, se sentiram perturbados pelas imagens extravagantes de Huidobro, enquanto outros, como Gerardo Diego, viram nelas uma nova possibilidade para a poesia lírica (Cf. Antonio Machado, 1957). Juan Larrea, que foi um dos logo convertidos, recorda que, quando Gerardo Diego regressou de Madri em maio de 1919, “trazia escritos na mão três poemas de Vicente Huidobro, que acabava de copiar do livro Poemas árticos”. Para Larrea, estes poemas eram decisivos: “Impressionou-me a novidade de tal maneira que a partir desse dia comecei a me sent…