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O último suspiro, de Daniel Roby

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Por Pedro Fernandes


Um leitor de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, não deixará de estabelecer, à primeira vista, uma relação entre esta obra e o filme de Daniel Roby. É que aqui, como no romance do escritor português, estamos diante uma modificação radical e casual do mundo qual o conhecemos pela instauração de uma situação-limite capaz de conduzir a humanidade a uma profunda revisão de seu estágio e de sua condição.
Num dia qualquer, um tremor de terra favorece o aparecimento – ao menos é este o diagnóstico primeiro apresentado pelas autoridades – de um pesado nevoeiro branco que cobre até certa altura quase toda Paris. A princípio os sobreviventes são aqueles que moram em lugares mais altos, os que conseguem se refugiar para o telhado ou pessoas como Sarah, a filha do casal Mathieu e Anna, quem, devido a uma rara doença precisa viver presa a uma câmara estéril. Com este grupo, Daniel Roby depositará o fio de esperança despontado no final da narrativa e abrirá a construção d…

A arte do romance

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Por Antonio Muñoz Molina


Terminei de ler The other house e fiquei um tempo com o livro nas mãos, sem fazer nada, deixando que o romance se fixasse em mim, como quando termina um filme no cinema e alguém ainda está tão tomado pelo que viu que não se move do seu assento e não tem vontade de se levantar nem de sair logo à rua. (Deveria existir momentos assim num concerto, ao final de uma obra, parêntesis respeitosos de silêncio, antes do frenesi algo exibicionista dos aplausos). Depois de terminar Ther other house e de ficar paralisado por um tempo voltei ao começo e me concentrei de novo na leitura, agora com a clareza da segunda vez, que me permite dar conta de todos indícios que Henry James vai insinuando desde a primeira página. Sempre se está distraído quando se começa um romance. É como entrar da rua num lugar em penumbra. Há pormenores fundamentais que não se ver logo de primeira: motivos que se enunciam rapidamente, mas que o ouvido não sabe distinguir. Por isso um romance que me…

Górki, os engenhos da alma e o novo homem soviético

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Por Javier Bilbao



É verdade que a empatia não era um dos pontos fortes de Stálin, não que fosse mal em julgar a psicologia dos que o rodeavam, fosse para detectar traidores ou para se servir deles com mais eficácia. Maksim Górki o calou certa vez: “És um homem vaidoso, devemos prendê-lo com correntes ao partido”. Assim, o escritor que passou um tempo autoexilado da União Soviética, fora do alcance repressor do regime, alguém que havia mostrado em ocasiões um critério independente e que pode converter-se totalmente num símbolo da dissidência ante os olhos do mundo, terminou sendo vigiado na volta à redoma, onde teria lugar uma relação simbiótica entre o intelectual e o poder extraordinariamente proveitosa para ambos. De maneira que sua cidade natal Níjni Novgorod passou a se chamar Górki, assim como uma das principais ruas moscovitas; recebeu a Ordem de Lênin, uma mansão e uma casa de campo junto a substanciosas somas de dinheiro; foi investido do cargo de presidente da União de Escrit…

Boletim Letras 360º #279

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Amigas e amigos do Letras, os que nos acompanham ativamente por aqui e nas nossas redes sociais já sabem que a obra do mestre J. R. R. Tolkien está em nova casa e passa a ter novas traduções no Brasil. Se ainda não sabem, o nosso colunista Guilherme Mazzafera preparou uma post em nosso Tumblr sobre as novidades. A partir dele, nós temos duas notícias que vocês deverão amar: somos agora parceiros da editora HarperCollins Brasil e todas (anote bem) todas as obras do Tolkien que forem publicadas, ganharão texto aqui no blog e (o melhor) terão exemplares para sorteio entre vocês a partir de nossa página no Facebook. Nada a perder! Agora, passemos às notícias apresentadas durante a semana lá no nosso oásis. Agradecemos a visita. Boas leituras!


Domingo, 08/07


>>> Inglaterra: O paciente inglês, de Michael Ondaatje foi coroado o melhor trabalho de ficção das últimas cinco décadas do Prêmio Man Booker.

No ano do cinquentenário o Man Booker criou um prêmio exclusivo para revelar o dest…

Ler para ver

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Por Justo Navarro


De dentro do carro não entende o que vê: em Bab el Khemis, Marraquexe, um camelo corre sobre três patas com a quarta atada ao corpo. Elias Canetti olha os camelos. Pela cara, todos parecem o mesmo e todos são diferentes. Parecem velhas damas inglesas entediadas em torno do chã e Canetti descobre alguém que lembra um parente próximo. As cidades que não são estranhas se tornam em situações de encontros imprevistos. Estou em 1954, em Vozes de Marraquexe, queCanetti publicou em 1968: ler é um modo sedentário de visitar outros lugares e outros tempos, inclusive do futuro. 
Quando o viajante não sabe o idioma do lugar, necessita, desemparado, de um mediador, um guia. Olha sem entender os mendigos cegos que murmuram à sua comum litania de pedinte. Não deixa dinheiro ao catador de esmolas, e logo se dá conta de que é o mais observado dos presentes na cena, “criatura assombrosa a quem havia que explicar tudo”. Mas lhe atraem sem necessidade de intermediários as mercadorias ex…

Um artista do mundo flutuante, de Kazuo Ishiguro

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Por Pedro Fernandes 

Há uma passagem de Um artista do mundo flutuante importante de ser recuperada aqui porque, em parte, justifica a existência do próprio romance. Não é o caso, ressalte-se, que estejamos numa obra de cariz metaficcional – ao menos não diretamente. Preocupado com a reputação da família para o bom casamento da filha caçula, Noriko, Masuji Ono revisita algumas das figuras de Kawabe, aquelas mais próximas no seu passado. Numa das ocasiões, encontra-se diante de uma pintura que julga ser do amigo Kuroda; o jovem rapaz que o recebe responde, meio acanhado, que se trata de um trabalho de sua autoria. Admirado, o protagonista afirma que, antes de desenvolver um estilo que o defina, todo artista começa por imitar bem aos seus mestres.   Esta passagem serve para dizer o mesmo de Kazuo Ishiguro. Um artista do mundo flutuante é o segundo romance do escritor nascido em Nagasaki, no Japão, e que ainda criança foi viver na Inglaterra. Este livro, juntamente com o primeiro, Uma pál…