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História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, de Luís Sepúlveda

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Por Pedro Belo Clara


Evocamos hoje, se tal exercício sequer comportar qualquer utilidade prática, um dos maiores e mais bem sucedidos escritores sul-americanos da actualidade. A comprová-lo estarão os inúmeros prémios que ao longo dos anos lhe têm adornado o currículo, dos quais o Prémio Eduardo Lourenço, em 2016, é somente o exemplo mais recente; além, e é aqui que o foco maioritário deverá incidir, de uma considerável difusão da sua obra a nível mundial, com especial destaque para os países latinos europeus, onde Sepúlveda desfruta por norma de um enorme carinho.
A obra que trazemos hoje à lembrança, ainda que para alguns leitores possa ser uma completa novidade, foi editada em 1996 e, desde então, tem gozado de um estatuto idêntico ao de O Velho que Lia Romances de Amor, de 1989, por muitos ainda hoje considerado um dos melhores livros deste autor nascido no Chile, no ano de 1949. Na verdade, nos primeiros anos do século XXI, em Portugal, esta adorável história de uma improvável am…

Boletim Letras 360º #301

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Em breve abrimos em nossa página no Facebook uma enquete sobre qual foi a sua melhor leitura do ano. Nos últimos três anos fizemos essa consulta que resulta numa lista dos melhores livros do ano construída apenas pelos que acompanham o blog. E este ano, novas surpresas. Aguarde. Enquanto isso, vamos às notícias apresentadas nesta semana por lá. 


Segunda-feira, 10/12
>>> Brasil: Outra oportunidade de visitar a obra de Mário de Sá-Carneiro
O poeta e ficcionista foi, ao lado de Fernando Pessoa e Almada Negreiros, um dos principais representantes do Modernismo português. Sua figura é de suma importância para a compreensão do modo como o Modernismo português se formou. No Brasil, sua obra ainda é pouco conhecida, apesar de já temos entre nós algumas publicações de seus poemas. A Editora Moinhos lança-se a mais uma empreitada excelente, que é trazer toda a sua obra ao longo dos próximos anos, ao Brasil. O primeiro título é este: Dispersão & Indícios de Oiro.
Terça-feira, 11/12
&…

Literatura muito além da literatura

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Por Javier Cercas


Um dos melhores textos literários que li na minha vida não é um texto literário. Nem sequer foi pensado para ser publicado. Foi escrito pelo escritor israelita David Grossman e lido no funeral de seu filho Uri, morto em 21 de agosto de 2006, quando o tanque onde estava avançava pelo sul do Líbano e foi alcançado por um míssil do Hezbollah; os jornalistas presentes nas exéquias reproduziram com mais ou menos fidelidade passagens do discurso fúnebre e no fim, para evitar confusões, Grossman o corrigiu e entregou aos jornais e vários o reproduziram. Embora dias antes da morte de seu filho Grossman tenha assinado com outros escritores um pedido ao Governo israelita para que desse por terminadas suas operações militares no Líbano, ao longo do texto apenas se diz uma única palavra sobre o conflito, exceto o título: “Nossa família perdeu a guerra”.
Grossman fala das coisas que nunca voltará a fazer com seu filho, como ver Os Simpson, e das coisas que aprendeu com ele. Descr…

O imoralista, de André Gide

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Por Pedro Fernandes


“Das mil formas de vida, cada um de nós só pode conhecer uma. Desejar a felicidade dos outros é loucura; não saberíamos que fazer dela. A felicidade não se compra feita, quer-se sob medida”. Estas sentenças são de Ménalque, uma figura que frequentaria o mesmo clube de Lord Henry Wotton, amigo de Michel, a personagem principal do romance de André Gide que também faria par na mesma estante de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. O que Ménalque oferece é mais do que assanhar os desejos intocados, guardados nos lugares mais adormecidos da consciência do amigo, quem a esta altura, depois de atravessar uma complexa enfermidade, vive imerso na vontade de negar totalmente o modo de vida que até então lhe determinara e abrir-se a outras expressões de viver, como se infectado repentinamente por uma doença do Carpe Diem; as sentenças de Ménalque funcionam como chaves de acesso aos sentidos principais desse romance de André Gide. Ou, de maneira ainda mais eficiente, forma…

Gulosa por livros

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Por Victoria Livingstone


Em dezembro de 1948, o New York Times publicou um artigo sobre a tradutora Harriet de Onís intitulado “Sra. De Onís põe o saber latino-americano em livro, mas o sabor latino invade sua cozinha” [“Mrs. De Onís puts Latins’ Lore in Book, but Their Cuisine Goes Into Her Kitchen”]. O artigo começa por uma breve menção a The Golden Land: An Anthology of Latin American Folklore in Literature, editado por de Onís e publicado pela Alfred A. Knopf apenas dois meses antes, mas, em seguida, reduz suas conquistas tradutórias a trabalho doméstico. O jornalista descreve o que a tradutora cozinhava para seu marido Federico de Onís, renomado estudioso de literatura hispânica, e cita Carl Ackerman, então decano da faculdade de jornalismo da Universidade Columbia, que disse que uma “aula de torta de maçã” ministrada por Onís na Venezuela “faria mais para consolidar as relações entre a América do Norte e a do Sul do que todas as suas preleções literárias”. Apesar disso, Harriet …

Em busca da adolescente que abriu caminho a Virginia Woolf e Sylvia Plath

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Por Héctor Llanos Martínez


“Oxalá nunca me transforme, horror, num animal tão normal e livre; nessa monstruosidade deformada: a mulher virtuosa. O que for, Diabo, menos isso”.
Muito se falou sobre a escritora canadense Mary MacLane (1881-1929) nos primeiros momentos do século XX e logo tardou em desaparecer sua sombra depois de sua morte, prematura, enigmática e, tal como havia desejado, pouco virtuosa, numa pensão de Chicago aos 48 anos de idade. O documentário Between My Flesh and the World’s Fingers, apresentado no Festival de Documentários de Montreal RIDM, transpõe em imagens a confessional estreia literária da adolescente que abriu caminho para Virginia Woolf e Sylvia Plath, quando a palavra feminista era ainda um neologismo.
Talena Sanders, diretora do filme, não se mostra muito entusiasmada com a classificação de “a primeira blogueira da história” que tem sido imposta a MacLane nos últimos anos. “Entende-se que se coloque essa etiqueta, ao escrever de uma forma tão direta em p…

O projeto é escrever. Um perfil de Mario Levrero

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Por Mauro Libertella


A romancista uruguaia Fernanda Trías o definiu assim: “O escritor de culto, o fanático dos gêneros menores, o ermitão, o mestre de tantos aspirantes a escritor, o raro, o fóbico, o leitor generoso, a figura mítica, o fenômeno literário”.
Era tudo isso e um pouco mais. Também foi uma personagem difícil de se fotografar; quase não viajou, saía pouco e sua biografia não está marcada por grandes aventuras. Foi apenas um homem que escreveu cerca de vinte livros e quem a literatura latino-americana do século XXI reconhece como um mestre, como alguém que mostrou o caminho para as gerações seguintes.
Mas, quem foi Mario Levrero? O registro de nascimento indica que nasceu em Montevidéu no dia 23 de janeiro de 1940, e que foi registrado com o nome de Jorge Mario Varlotta Levrero. Sua família e amigos o conheceram sempre como Jorge Varlotta. Hoje ainda o chamam assim: Jorge.
Seu pai, o sr. Mario Julio Varlotta, trabalhava nas lojas London-Paris de Montevidéu, na área dedicad…