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A descoberta da realidade em O Aleph, de Jorge Luis Borges

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Por Candido Pérez Gallego


As duas citações apresentadas na abertura de O Aleph indicam ao leitor as duas dimensões entre as quais se move este conto. A referência a Hamlet, com uma alusão ao infinite space se liga com uma menção ao Leviatã onde se fala sobre Infinite gretnesse of Place. As duas coordenadas mantêm com O Aleph uma espécie de oportuno prólogo e ambas frases, a de Shakespeare e a de Hobbes, nos oferecem um testemunho sobre a infinitude. Daí que devemos entrar em O Aleph com um vago pressentimento de que esconde algo marcado de eternidade. É assim que Borges se comunica com o futuro. Suas narrativas, tão rodeadas muitas vezes do presente com centenas de referências e suportes bibliográficos, se perdem no que seja o tempo porvir; são como projetos improváveis, hipóteses incertas. O Aleph não é uma exceção.
A história que Borges nos conta está centrada numa figura pertencente a esse plano ambíguo real-ideal que se chama Beatriz Viterbo. Os heróis da obra do escritor são como…

Boletim Letras 360º #326

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Bem-vindo leitora e leitor do Letras in.verso e re.verso! Esta postagem reúne todas as informações de interesse de nossa linha editorial que foram apresentadas durante a semana em nossa página no Facebook. A ideia para o Boletim Letras 360º que chega à sua semana n.326 nasceu quando aquela página começou a limitar a quantidade de acessos das publicações aí apresentadas. O registro no blog se mostra como uma garantia de acesso aos leitores que perderam a notícia divulgada. Boa leitura!


Segunda-feira, 12 de agosto
Depois da reedição de A sucessora, novo título de Carolina Nabuco volta às livrarias pela Editora Instante.
Em Chama e cinzas, Carolina Nabuco mais uma vez faz um retrato da posição da mulher burguesa, agora no final da primeira metade do século XX, apresentando os valores e os tabus que orientavam o lugar social da mulher, mas trazendo também uma nova voz feminina que parece emergir desse contexto. Há, com isso, um distanciamento significativo de A sucessora, seu romance anter…

O esforço de assimilação em Pastoral americana

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Por Rafael Kafka


Em seu Modernidade e ambivalência, Zygmunt Bauman fala de regimes totalitários, em especial o nazismo movido por ideias de pureza racial, como um sistema de pensamento ligado à ideia moderna de homogeneidade. Para o pensador polonês, sistemas como o nazismo encontram suas fontes nos ideais de harmonização de intelectuais como Kant, obviamente em uma interpretação motivada por ressentimento, complexo de inferioridade e desespero.
O nazismo e outros totalitarismos, inclusive o soviético, são formas de eliminação do outro. O desejo aqui, mesmo que contido apenas no campo da ideologia mais rasa para disfarçar interesses mais profundos, é criar um ambiente social em que a ambivalência não existe, a contradição e o choque de ideias deixem de ser uma problemática para os sistemas políticos. Nesse sentido, elementos como o nacionalismo, já tão destacado por Stuart Hall em seu curto, porém seminal, A identidade cultural na pós-modernidade”, são formas que o sujeito encontra d…

A uruguaia, de Pedro Mairal

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Por Pedro Fernandes


“Conto isso porque ultimamente andei pensando bastante no tema família e casamento. Pode parecer que estou dando uma de liberado, mas te digo com toda a sinceridade: precisamos pensar de um jeito novo. Crescemos imersos numa ideia de família que nos encheu de angústia quando vimos as rachaduras.” Este excerto integra a segunda parte de A uruguaia. Está situado nos instantes finais da narrativa e o seu estilo é o de uma assertiva resultada de uma ampla investigação sobre o tema discorrido; o desfecho do romance assume propriamente o tom de uma crônica conclusiva sobre a extensa parte das ações registradas por esse narrador/ cronista. Mas, o leitor não está diante de um romance-tese ou de um ensaio sobre uma questão e sim de uma história que recria um drama recorrente desde sempre para os literatos: o das relações amorosas falidas.
A uruguaia se constitui por pelo menos três principais linhas viandantes: uma viagem de ida e volta da Argentina ao Uruguai; trânsitos de…

Elena Garro, uma escritora contra si mesma

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Por Jan Manrtínez Ahrens


Elena Garro (1916-1998) nunca encontrou a paz. Hipérbole de si mesma, sedutora e delirante, a vida da mais enigmática escritora mexicana do século XX é ainda uma ferida aberta no México e na América Latina. Falar sobre ela é sempre falar de quem o foi o lado contrário, obsessivo e doloroso, de Octavio Paz. Ela viveu contra ele e contra ele escreveu. Mas não reduziu sua biografia na luta contra o totem. Sua aproximação com o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e seu serviço secreto e, sobretudo, seus enganos ante à matança de Tlatelolco, não a transformaram numa escritora maldita. Romancista, dramaturga e poeta, Garro fez de sua existência um conto fantástico, mas deu ao mundo uma literatura que só agora começa a ser contemplada em toda sua imensidão.
Há um dia na vida da escritora que marca toda sua vida. Foi o 24 de maio de 1937. Ante quatro testemunhas, Elena Garro, uma estudante que sonhava em ser bailarina, casou-se com o poeta Octavio Paz. Estavam …

Controle, de Natalia Borges Polesso

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Por Amanda Lins



Natalia Borges Polesso recebeu o prêmio Açorianos 2013, na categoria contos, com seu primeiro livro, Recortes para álbum de fotografia sem gente. Amora, seu segundo trabalho, lançado em 2016, foi vencedor do prêmio Jabuti e novamente do prêmio Açorianos, ambos na categoria contos – também recebeu o prêmio Jabuti na categoria “escolha do leitor”, neste mesmo ano.
Agora, em 2019, a Companhia das Letras publica o seu primeiro romance – Controle. Maria Fernanda, a protagonista da história, se arrebenta numa queda de bicicleta. O leitor se arrebenta ainda mais, do começo ao fim, porque o livro trata, com a leveza característica da narrativa da autora, sobre vários dilemas existenciais que se seguem à queda. E, aqui, nem falo sobre o diagnóstico de epilepsia, porque não é apenas isso. Aliás, na escrita de Natalia, nunca é apenas isso.
“A música mastigada na fita it’s a strange day and the people around me o mofo e uma colônia de bactérias, ouvi a voz da professora na aula de …

A literatura do desejo

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Por Ian McEwan


Os processos lentos e cegos da evolução descobriram por tentativa e erro que o melhor meio para impulsionar os seres humanos e outros mamíferos a fornecer cuidados parentais, comer, beber e procriar é oferecer-lhes um incentivo na forma de prazer ligado a cada atividade. Há nisso uma maravilha cotidiana que não apreciamos como se deve. Satisfazer a fome comendo não só elimina uma sensação desagradável. O que comemos é “requintado”, “delicioso” ou “saboroso”. Se estamos com muita fome, até mesmo uma refeição simples nos dá alguma satisfação. Há muito tempo, a neurociência localizou e descreveu o local de onde fluem esses dons, bem como seu complexo funcionamento, na base do cérebro. A fonte de deleite é conhecida como o sistema de recompensa. Sua função é motivar e gratificar. A motivação para o sexo é chamada desejo. Quando o desejo cumpre seu propósito no sexo, esse sentimento transbordante e indescritível é a nossa recompensa.
Após a invenção da agricultura, o aumento…