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Entre a cruz e a máscara. “O crime do padre Amaro” de Eça de Queirós

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Por Flaviana Silva


O crime do padre Amaro foi publicado em 1876 e é situado em um contexto histórico no qual Portugal passa por grandes transformações; as informações chegam à capital de forma mais rápida através das relações com Paris e os jovens lusitanos se interessam cada vez mais pela comunicação, adotando novos pensamentos. Neste cenário, percebe-se que Eça de Queirós adotou em seu trabalho o objetivo de constituir pela escrita uma função social. Transmitindo a exposição de um cenário de problemas, seu realismo vem como uma apresentação do que ainda significava o grande atraso português, sobretudo aqueles lugares que se distanciam do grande centro; é este algum dos motivos que levam a obra a receber várias críticas no seu tempo, o que só mostra o seu valor em uma sociedade que até hoje se utiliza de múltiplos disfarces para as suas relações.
O espaço é apresentado de forma muito detalhada: o narrador utiliza de descrições para evidenciar onde se constitui as ações que permeiam a …

Amora, Natalia Borges Polesso: mulheres reais, vivendo vidas reais

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Por Amanda Lins


Natalia Borges Polesso é escritora e tradutora, além de doutora em Teoria da Literatura pela PUC-RS. Recortes para álbum de fotografia sem gente, seu primeiro livro, venceu o prêmio Açorianos de 2013, na categoria contos. Ainda em 2019, lançará outro livro, Controle. Em Amora, livro vencedor do prêmio Jabuti 2016, na categoria contos e crônicas, além do Jabuti Escolha do Leitor, você se apaixona, tem seu coração partido, aprende a se reinventar – ou todos esses ao mesmo tempo – junto com as protagonistas. São contos sobre mulheres que amam mulheres, mas não só. São mulheres que caem da escada, que plantam abobrinhas, que aprendem quando criança o que é uma “machorra”, para depois desaprender. Como nós. Mulheres.
A perspectiva dada aos fatos, mesmo que cotidianos, revela ao leitor – este que, por muitas vezes, encontra o personagem LGBTQ+ no lugar-comum do sofrimento, seja amoroso ou em seus outros âmbitos de vivência – que é possível existir além. Além da dor na qual m…

Numa catástrofe, quais livros salvaríamos de nossas bibliotecas pessoais?

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Eterno é o fogo. Esteve adormecido desde as imemoriais eras até ser descoberto e controlado. O controle fica por conta daquelas ilusões que construímos ao longo da vida para garantir nossa própria existência. Na prática quase tudo é sempre o contrário. E esse é um desses casos. É o fogo que nos controla. Mesmo inconsciente. Alguma vez, o leitor poderá ter imaginado não conseguir acordar porque a casa ou o apartamento perece sob as chamas enquanto dormia. Ou que, na ausência de quem o controle, de um sorrateiro curto-circuito, coisinha qualquer, um fogo pode nascer e devorar tudo e deixar só as cinzas... Nossa condição de controlados pelo fogo é tamanha que fomos levado a pensar que se não respeitamos as leis divinas iremos perecer no inferno, descrito por extensa parte da cultura humana como um imenso caldeirão ardente.
E foi, tomado pelo horror de algo que nos encanta que fomos levados a um desafio para este Dia do Livro. Numa tragédia como a do Museu Nacional e a de Notre Dame em no…

Marly de Oliveira, a suave pantera

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Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece,
essa é a face necessária.

“O poema é uma estrutura de significantes que absorve e reconstitui os significados, na medida em que seus padrões formais têm efeitos sobre suas estruturas semânticas, assimilando os sentidos que as palavras têm em outros contextos e sujeitando-as a nova organização, alterando a ênfase e o foco, deslocando sentidos literários para sentidos figurados, colocando termos em alinhamento, de acordo com padrões de paralelismo”. A precisa, mas não esgotável, definição sobre o poema, sua ordem, natureza e comportamento, está num texto, certamente conhecido de muitos estudantes de Letras, do teórico estadunidense Jonathan Culler. E a retomada dele no início destas breves notas biográficas não é gratuita, tampouco cumprem um interesse de servir para uma discussão sobre a forma literária, mas porque guardam estreita aproximação com a obra poética de Marly de Oliveira.
Ela nos deixou uma vasta…

Boletim Letras 360º #319

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No último dia 13 de abril sorteamos um exemplar de Sagarana, de João Guimarães Rosa, em novíssima edição pela Global Editora. O livro já está a caminho de um leitor do Letras in.verso e re.verso de Curitiba. Terá mais do escritor mineiro, em breve, no nosso Instagram. Bom, e nesta semana, especificamente, tivemos o privilégio de receber mais dois novos colunistas para compor o blog Letras in.verso e re.verso: Beatriz Martins e Davi Lopes Villaça. Não deixem de passar a acompanhá-los. Recadinhos apresentados, vamos às notícias que fizeram o mural do blog no Facebook.

Segunda-feira, 15 de abril

Uma releitura de 1984, para a HQ.

Em 2020 passam-se sete décadas sobre a morte de George Orwell. Passa assinalar a data, a Companhia das Letras prepara uma adaptação em HQ de um dos romances mais conhecidos do escritor britânico e também um dos mais vendidos da casa. A ideia segue a mesma lógica da que tem sido um sucesso recente na editora: a da adaptação de A revolução dos bichos, outro título d…