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Tema ou técnica? I – Notas sobre um debate crítico-literário

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Por Guilherme Mazzafera
“Uma técnica artística não é uma receita: é um conjunto de exigências interiores que condicionam e determinam a forma exterior de uma obra de arte.” Álvaro Lins

No fragmento XLII do seu Notas de um diário de crítica (1943), ausculta Álvaro Lins: “Uma argumentação que está se formando no íntimo de nossas consciências artísticas, e que eu gostaria de ver tomar corpo e vencer, é a da revalorização do estilo, a da importância da ‘forma’ na obra literária.” Pode-se dizer, sem qualquer dúvida, que o desejo de Lins foi atendido: tal argumentação tornou-se verdadeiro mantra crítico da época, bandeira defendida por nomes como Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Almeida Salles, Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda, João Cabral de Melo Neto, entre outros, em ensaios veiculados em periódicos entre o final dos anos 1930 e o início dos anos 1950.
Em Antonio Candido, por exemplo, nota-se a consciência aguda de que o valor de um romance não depende do seu significado soc…

Um passeio pela obra de Anton Tchekhov

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Por Joaquim Serra


Não só no século XX veríamos o esfacelamento do entendimento através da linguagem. Se em Beckett a sintaxe é subversiva para representar a incomunicabilidade dos seres no mundo pós-guerra, em Tchekhov, mesmo com o pleno exercício das frases acabadas, as personagens nem sempre se entendem através da comunicação, porque são vazias de sentido, ou não encontram uma continuidade do diálogo no interlocutor. O tragicômico Ivan Tolkatchov, o pai de família na peça Trágico à força, depois de seu monólogo no qual mostra seu mundo atarefado, de obrigações e abusos, não obtém do amigo interlocutor uma palavra que o acalme.
Tolkatchov entra em cena com um globo de luz, um velocípede de criança, três caixas de chapéus femininos, uma grande trouxa de roupas, um cesto com cerveja e uma infinidade de pacotes pequenos. Pede um revólver emprestado ao amigo e não demora a se lamentar: “sou um mártir, sou um trapo.” Tolkatchov sente o incômodo do casamento. Através de seu monólogo, mesmo q…

Boletim Letras 360º #387

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DO EDITOR
1. Amigo leitor, em nossa página no Facebook, até agora nosso lugar no espaço virtual, depois deste blog, de maior trânsito, iniciamos uma campanha em busca do leitor 80 mil.
2. Ora, este é um dos desafios quase impossíveis de se alcançar pensando na queda de usuários desta rede e na situação das segmentações algorítmicas e o comércio desbragado. Mas, não é pago para se sonhar.
3. Por isso, deixo dois convites a você que agora se prepara para ler este boletim: se tem presença naquele espaço e tem interesse pelo universo literário mas ainda não acompanha a gente por lá, faça-nos uma visita, curta e siga nossa página. Basta ir aqui.
4. Abaixo registra-se as notícias que passaram, ou não, pelo mural de nossa página no Facebook. Além delas, as demais seções com novos conteúdos, sempre com o interesse de enriquecer e ampliar sua experiência cultural e literária. Fique bem. Boas leituras!


LANÇAMENTOS
Novo livro do poeta Thiago de Mello.
O que as águas têm a nos revelar sempre foi …

O espaço mínimo para a memória

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Por Paula Luersen


Uma blusa cor-de-rosa de mangas curtas, gola dobrada, pequenos botões. Ao que tudo indica, uma blusa cor-de-rosa de tamanho médio. O tecido está amassado. As mangas estão rasgadas. Faltam os primeiros botões. Nas costas e na lateral, mistura-se ao cor-de-rosa um tom terroso que também aparece salpicado em outras partes do tecido. É o vestígio material de uma tragédia. Antes, ali, entre rasgos e manchas de terra, habitava um corpo. A blusa foi fotografada pela artista Ishiuchi Miyako e é uma das peças de roupa que compõem o memorial das vítimas da bomba de Hiroshima, no Japão.
Uma série de placas de mármore com imagens gravadas. Pela sequência de fotos e textos informativos, entendemos que ali está a narrativa heroica de uma guerra. Na placa de mármore final, a imagem derradeira: o grande cogumelo causado por uma explosão nuclear. Logo abaixo da imagem, uma descrição curta a situa como um registro da bomba de Hiroshima. Acima da imagem, em letras maiúsculas, lemos: VI…

Carta à rainha louca, de Maria Valéria Rezende

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Por Pedro Fernandes


Integrado à tradição do romance epistolar, Carta a rainha louca é um livro feito de duas superfícies podendo, inclusive, ser lido como duas narrativas. Assumindo as feições de um recurso muito comum aos textos dos primeiros séculos da escrita e adotados em quaisquer circunstâncias em que os materiais necessários ao trabalho de escrever sejam raros ou escassos, este livro não é assim mais que uma crônica sobre o período colonial brasileiro; é sobretudo a revelação de uma voz coletiva de todas aquelas que pereceram ao longo desse tempo pelos silenciamentos impostos por aqueles que tinham o direito de mando. É que à medida que tomamos conhecimento sobre as peripécias da heroína missivista, não deixamos de ler, por debaixo da rasura todas as imprecações que, se públicas, falariam contra a própria escrevente ou justificariam a condição a qual foi rebaixada, a de mulher herege e/ ou tresloucada.
Assim, na primeira superfície, o que encontramos, entre quatro anos que cobr…