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Lendo o escuro é que encontramos a luz

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Por Tiago D. Oliveira Ana Luísa Amaral. Foto: Eduardo Martins.   Lendo Escuro , de Ana Luísa Amaral, encontramos a inegável influência de Fernando Pessoa, como se a poesia desse acesso a uma nova forma de convivência com o poeta. Assim como a presença do um tempo e espaço históricos de Portugal e da Europa. Há também releituras e reinvenções imaginativas que passam por outros nomes da literatura e da história. Ela consegue esse alcance; é o que vibra quando a leitura de cada poema chega ao fim. A presença de diversas vozes coloca-se também como parte definidora da razão deste livro, que apresenta um cotidiano como tema para diversos poemas, mas reflete sobre a própria literatura, o mundo e sobre o indivíduo, pontos que são desenhados diante de um contínuo desconforto, uma certa inquietude, ou a palavra mais oportuna a definir o percurso, desassossego. Diante desta constatação, percebemos a grandeza da poeta e de seus versos regados pela presença viva de uma herança que se coloca como f

Guerra em Surdina, de Boris Schnaiderman

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  Por Joaquim Serra   “Que diabos um civil está procurando neste inferno?” Isaac Bábel, “A família do paizinho Marescot” Boris Schnaiderman.   O breve século XX também nos legou diversas narrativas de guerra e de outras experiências negativas. São famosos entre os leitores os escritos de Primo Levi, Ernst Jünger, Joseph Heller, e do visceral Céline. Os modelos adotados pelos escritores variam muito para representar épocas tão conturbadas. Se por um lado Primo Levi registra o Holocausto pelo viés da perda de identidade, mimética em essência, Céline opta por uma transgressão linguística e perceptiva para falar de um delírio diante dos destroços da guerra de trincheiras. Mas nem sempre apenas pela realidade construída pelo romance é possível identificar o autor por trás dela. Céline é o mais emblemático exemplo disso. Viagem ao fim da noite foi muito bem recebido pela crítica de esquerda, era um “livro que denunciava com tanta veemência a guerra, o colonialismo, o capitalismo”, tornou-se

Para entender Virginia Woolf

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  Por Anthony Burgess Virginia Woolf. Foto: Man Ray Os dois romancistas de língua inglesa mais inovadores do século XX nasceram no mesmo ano, 1882, e morreram no mesmo ano, 1941. Mortes, ambas prematuras, de James Joyce e Virginia Woolf. Ele escapou da guerra europeia refugiando-se na Suíça, onde morreu de peritonite. Ela se livrou de si mesma atirando-se nas águas do rio Ouse. Essa guerra ia mal para sua Inglaterra natal, mas o desespero que a levou ao suicídio não tinha nada a ver com o futuro do Império Britânico. Seu desânimo não é fácil de explicar, nem mesmo em termos de sua carreira literária. Seu último romance, Entre os atos , é tão admirável quanto o primeiro que escreveu, O quarto de Jacob ; sua reputação estava assegurada e seu casamento feliz. Na verdade, Leonard Woolf, seu marido, era a rocha a se segurar no redemoinho de sua instabilidade mental. Ela nunca foi louca, mas era hipersensível. Herdou dos seus antepassados, a família Stephens, um refinamento excessivo da sens

Boletim Letras 360º #411

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DO EDITOR 1. Saudações, leitor! Na segunda-feira, 25, retornamos com as postagens diárias aqui no blog. Aproveito a ocasião, para refazer o convite que divulgamos há algumas semanas nas redes sociais do Letras e que registrei aqui na edição anterior deste boletim. Falo sobre a chamada para novos colunistas. Se já conhece o blog (ou passou a conhecer agora) e tem interesse em compor nossa equipe, então, envie sua inscrição. 2. É simples. O interessado deve enviar pelo correio eletrônico blogletras@yahoo.com.br até o dia 1º de fev. de 2021 o seguinte: um resumo biográfico que contenha seu nome, fale sobre experiência de leitura e com a escrita (se já publicou, onde, quando, como ― essas coisas) e sobre o interesse em compor a equipe de colunistas do Letras (qual sua relação com o blog, desde quando o conhece, como conheceu etc.); e três textos (exceto conto, crônica e poema) observando as normas de publicação do Letras. Elas estão disponíveis aqui .   3. Os resultados devem sair até

A grande mentira de Patricia Highsmith

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Por Guillermo Altares   Patricia Highsmith, 1980. Foto: Maurice Rougemont.  No centésimo aniversário de seu nascimento, a obra da escritora estadunidense Patricia Highsmith ( Fort Worth, EEUU, 19 de janeiro de 1921 ― Locarno, Suíça, 4 de fevereiro de 1995 ) ganha nova relevância. Se há um tema que une seus melhores livros ― a série de Tom Ripley, O tremor da suspeita , alguns de seus contos ― é a ideia da mentira como forma de vida. Na era das notícias falsas e dos fatos alternativos de Donald Trump, a possibilidade de uma vida inteira ser construída sobre uma mentira e vivida assim, tranquilamente, é especialmente poderosa. Nesse sentido, Highsmith antecipou o tema central de romances que tiveram enorme repercussão nos últimos anos, como O adversário , de Emmanuel Carrère, ou O impostor , de Javier Cercas.   O outro argumento sobre o qual a literatura de Highsmith, uma texana que vive na Suíça, que amava os gatos (e os caracóis que ela criava como animais de estimação) gira em torn

A cena do crime

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Por Patricia Highsmith Positano. Foto: Umberto D'Aniello   Em meu primeiro livro sobre Tom Ripley, este é um homem de 25 anos, inquieto e desempregado em Nova York, morando temporariamente no apartamento de um amigo. Havia ficado órfão numa idade jovem e foi criado em Boston por uma tia bastante mesquinha. Tem um certo talento para a matemática e a mímica, e essas duas habilidades permitem que ele continue, por carta e por telefone, um pequeno jogo de intimidação aos contribuintes estadunidenses: ele pede um novo pagamento a uma repartição da Receita Federal cuja filial, diz, se encontra num certo endereço: o do amigo em cuja casa ele mora, e Ripley recolhe as cartas quando elas chegam, embora não haja nada que ele possa fazer com os cheques recebidos, exceto rir com estranha satisfação.   Quando Ripley percebe uma noite que está sendo seguido nas ruas de Manhattan por um homem de meia-idade, seu primeiro pensamento é que o homem é, ou poderia ser, um policial enviado para prendê-