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O ano da morte de Ricardo Reis, de João Botelho

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Por Pedro Fernandes
É muito provável que quando se anuncia a realização de um filme a partir de uma obra literária de estima, logo cresça entre os leitores futuros espectadores um interesse por encontrar com o produto final. Esse impulso, obviamente, não deixa de acomodar no seu interior, ou talvez derive daí, o embate nunca superado de estabelecer comparativos entre o livro e a peça de filmografia ― ainda que se repita, uma e outra são obras distintas. Isso obviamente não poupa a leitura de João Botelho para este que é um dos romances mais importantes da significativa obra de José Saramago e não importa que o diretor português tenha no seu currículo recente obras ousadas como Filme do desassossego e Peregrinação, outros projetos cuja gênese remetem para outros dois títulos da literatura portuguesa ― o primeiro, do livro de Bernardo Soares / Fernando Pessoa e o segundo, do livro de Fernão Mendes Pinto. Entre um caso e outro existiu ainda a adaptação de Os Maias, de Eça de Queirós. E ant…

Cesare Pavese, o solitário das colinas

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Por José Andrés Rojo


Numa carta que Ítalo Calvino enviou ao crítico Geno Pampaloni em 1951, dizia: “Você não tomou precauções suficientes contra a infecção de um dos males mais tristes e comuns de nosso tempo: o anticomunismo”. Fazia-lhe algumas considerações sobre seus comentários, não muito favoráveis, à edição da poesia de Cesare Pavese, e o alertava para não esperasse encontrar em seu diário, que ainda não havia aparecido, muitos comentários políticos: “Pavese queria nos dar com seu diário um testemunho do antigo lado trágico da vida humana do qual ninguém escapa”, comentava Italo Calvino. O que resta do grande escritor italiano agora? Os preconceitos anticomunistas ainda pesam na hora de lê-lo ou com o tempo se impôs sua delicadeza para contar com verdadeira maestria as turbulências de homens e de mulheres? O episódio que mais fortemente marca a trajetória de Pavese é seu suicídio. Ele alugou um quarto no Hotel Roma em de Turim e tomou o conteúdo de cerca de vinte sachês de sonífer…

Sidarta, de Hermann Hesse

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Por Pedro Belo Clara



A certamente mais afamada obra do Nobel de 1946 é essencialmente o produto de uma viagem à Índia empreendida nos idos anos 1920.
O impacto de toda uma atmosfera rica e singular, com seus costumes, ideologias e modos de vida tão díspares dos ocidentais, foi profundo em Hermann Hesse. De forma sublime, diga-se sem qualquer vestígio de vassalagem intelectual, o autor conseguiu reproduzir em cada frase, diálogo e ideia que compõem este livro as mais vincadas características de tão exótico país – sob o ponto de vista europeu.
Por ter sido bem sucedido, esta extraordinária obra traz em si o condão de transportar o leitor para esses longínquos horizontes, contemplando-os sob a cristalina lente do seu autor. Sempre bem doseada, bem alimentada num equilíbrio que poderá aparentar fragilidade, não se demora por descrições que seriam desnecessárias ou, de exagero, eventualmente fastidiosas.
Em termos de cenografia é isto que, muito resumidamente, poderemos partilhar. Já no que to…

Boletim Letras 360º #398

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DO EDITOR 1. Saudações, caro leitor! Esta é uma post semanal criada desde quando os algoritmos do Facebook passaram a trair nós todos. Reúnem-se aqui todas as notícias compiladas ao longo da semana naquela rede social. Obrigado pela companhia por aqui e noutros canais do blog. Boas leituras!


LANÇAMENTOS Primeiro romance de uma das principais vozes da poesia brasileira contemporânea. O ausente, de Edimilson Pereira de Almeida, traz uma narrativa que retrata os embates dos personagens entre as exigências do destino e a ânsia da liberdade. A vida rural é o cenário vivo e atemporal onde se desenrola a trama, cenário reconstruído também pela linguagem poética e potente do narrador. Como nos diz Carolina Anglada em seu texto de orelha: “Inocêncio, Inoc, Esse de Agora, antigo peregrino e morador da região do Ausente, é o narrador que às vezes ocupa aposição de espectador, variando as perspectivas para espreitar de diferentes ângulos os modos como nos tornamos aquilo que (nosso nome sustenta que)…

Onze romances recomendados por Mario Vargas Llosa

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Mario Vargas Llosa é um desses autores integrados ainda em vida ao círculo dos grandes nomes da literatura universal. Autor de uma obra excepcional ― termo que pode se estender em várias dimensões, em quantidade e em qualidades criativa e literária, é também um grande leitor; talvez essa segunda constatação em relação à primeira ofereça alguma redundância, tendo em vista que a qualidade de um escritor mede-se pelo seu convívio com os livros. Quando ingressamos no isolamento social devido à pandemia do Corona vírus, o escritor peruano disse que estar em casa o permitia se dedicar melhor à leitura e pelo menos dez das vinte e quatro horas do dia passava diante de um livro. Quer dizer, um privilégio invejado por qualquer um que, ativo para o ato de ler, precise ocupar o dia com coisas desenxabidas: a burocracia do trabalho, a repetição cansativa do serviço doméstico, o stress da vida fora de casa, agora mais perigosa etc. O trabalho de leitor exercido por Mario Vargas Llosa resultou em ens…

George Orwell, a verdade está fora das redomas de poder

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Por Pedro Fernandes


Passado o século dos grandes totalitarismos, conseguimos acreditar que na democracia como um sistema se não o mais seguro para as liberdades individuais e coletivas o mais representativo e coerente. É possível que a segunda possibilidade ainda se sustente enquanto valor indelével; a primeira, entretanto, para os mais céticos, nasceu caduca. E reside nela algumas linhas fundamentais para o debate sempre adiado enquanto ainda for possível revisar o sistema, aperfeiçoá-lo em direção ao que se propõe. Mesmo que os rumos tenham sido alterados para o impasse e mesmo sua falibilidade, fora do ideal democrático ― já sabemos ― tudo é sempre pior. Agora, o levantamento do capitalismo predatório deixa sempre à mostra que as representações de poder não passam disso, no pior sentido do termo, são falseamentos de poder, uma vez as regras do mando evoluírem num tabuleiro nem sempre às vistas da sociedade. Sua visibilidade, aliás, começa a partir de quando se revelam mais nitidament…