Miacontear - Na tal noite

Por Pedro Fernandes


A bem da verdade vale dizer que simpatizei e muito com essa Mariazinha, personagem desse conto. Fazendo uma brincadeira de palavras com o substantivo 'Natal' aqui partido em duas sílabas, 'Na-tal', para estabelecer um fio de duas pontas de sentido. 'Natal', a data de 25 de dezembro, a noite em que Mariazinha recebe, anualmente, a visita de seu "episódico" esposo, Sidônio Vidas, e a noite de uma dessas visitas, 'na tal' noite ou na noite tal. Esse Sidônio traz uma alcunha que lhe singulariza na narrativa; é ele dono de outras vidas, fora essa construída episodicamente com Mariazinha. Trabalha noutro país (supostamente) e lá também mantém família própria, certamente não-episódica como a de Mariazinha.

Nas visitas anuais, Sidônio faz as vezes de Papai Noel. Enche os filhos de presentes. Mostra também por sobre a pobreza dessa família episódica a riqueza em que vive - seja na troca (anual) de carro, dos cordões de ouro que traz ao pescoço, dos anéis que traz nos dedos. Só os presentes para os filhos é que são mirrados ganhando a embalagem sobre o conteúdo. Na tal noite que o narrador relata, Sidônio não mais corresponde aos desejos da carne de Mariazinha. Parte antes de qualquer coisa e deixa novamente a mulher à espera de sua vinda (ou não) para o ano vindoura.

Diferentemente de Maria Metade que nutria um desejo de posse sobre o marido, Mariazinha não padece desse sentimento. Aceitaria até que o marido trouxesse a outra família para junto de si. Possivelmente. Possivelmente porque esse desejo de Mariazinha e a suposta inocência que o nome da personagem possa carregar são ambos posto em suspense. Tem razão Sidônio quando desconfia de Mariazinha quando esta lhe oferece a sobremesa feita com o açúcar do vizinho, o senhor Alves? Se até o momento em que o doce é oferecido a Sidônio não ocorrera nenhum envolvimento com o tal vizinho não sabemos, mas o desfecho do conto acena - ou não, dá mesmo todas as provas - de que Mariazinha não está submissa a Sidônio. Enquanto o marido tem suas outras vidas pelo estrangeiro, enquanto Sidônio não faz as vezes de marido a ela, Mariazinha tem cá também as suas e faz as vezes de esposa com o senhor Alves.

Entendem porque simpatizo com ela? 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carolina Maria de Jesus, a escritora que catava papel numa favela

20 + 1 livros de contos da literatura brasileira indispensáveis

José Saramago e As intermitências da morte

José Saramago e Jorge Amado. A arte da amizade

Cecília Meireles: transcendência, musicalidade e transparência

Sor Juana Inés de la Cruz, expoente literário e educativo do Século de Ouro espanhol

Visões de Joseph Conrad

Ensaios para a queda, de Fernanda Fatureto

A melhor maneira de conhecer o ser humano é viajar a Marte (com Ray Bradbury)

Os diários de Sylvia Plath