George Orwell, cartas da guerra


George Orwell (o mais alto, ao centro) quando integrante do Partido Operário da Unificação Marxista.
George Orwell vem de uma família da classe média inglesa intimamente ligada ao colonialismo europeu na Ásia; mas não seguiu os passos do pai, um obscuro burocrata da administração imperial. A partir de 1927 ele troca essa possibilidade de vida confortável pela de operário e escritor freelancer. Como não foi fácil para nenhum grande escritor, os louros da vida só vieram muitas décadas mais tarde depois de passar por inúmeras dificuldades pessoais e já gravemente enfermo.

Quando apareceu ferido em Espanha – uma bala lhe atravessou o pescoço embora não tenha produzido danos de grande consideração e se recuperou bastante rápido – George Orwell escreveu: “Me alegra ter recebido uma bala porque acredito que a todos isso ocorrerá num próximo e me gosta saber que não é doloroso”. O autor de Homenagem à Catalunha intuiu em 1937 que a Guerra Civil só era o começo de um conflito muito mais demorado, supondo desde o princípio que os dois totalitarismos do século XX iam deixa uma estrada de destruição a seu passo.

Poucos escritores hão tido uma influência tão duradoura e tão profunda como Orwell. Quando veio á tona o escândalo de espionagem massiva através das denúncias de Edward Snowden, por exemplo, as vendas de 1984 – seu romance mais conhecido juntamente com A revolução dos bichos – dispararam ao redor do mundo.

Entre 2009 e 2010 foram publicadas, em língua inglesa, as cartas e os diários do escritor, já traduzidas para outras línguas. As correspondências têm circulação inclusive no Brasil: a Companhia das Letras, editora que tem cuidado de sua obra para os lados de cá, apresentou um recorte com parte desse material público de Orwell. Organizado por Mario Sergio Conti e com tradução de Pedro Maia Soares, o material é um adendo ao contato do escritor junto a amigos, editores, parentes e simples leitores desconhecidos. Por todo tempo, o escritor britânico correspondeu-se largamente com todos aqueles que, de uma forma ou de outra, exerceram influência sobre sua vida e produção literária.

Membro da Brigada Militar Internacional, Orwell sobreviveu milagrosamente à guerra civil dentro da Guerra Civil, o que representou a repressão stalinista contra os trotskistas em Barcelona e passou a Segunda Guerra Mundial na Inglaterra sob as bombas nazis. As cartas e os diários confirmam o grande segredo da indelével lição de Orwell: sua honradez. “O que mais me preocupa não que se divulguem essas mentiras, normais em tempo de guerra, mas que imprensa inglesa da esquerda tenha se negado a ouvir a versão do outro lado”, escreve. Entre a justiça e sua mãe, Orwell sempre elegeu a justiça. 

A seguir traduzimos do espanhol três cartas do escritor. As correspondências e os diários de Orwell ganharam tradução recente na Espanha.




A Rayner Heppenstall - 31 de julho de 1937

A temporada que passamos na Espanha tem sido interessante, mas muito difícil. Certamente nunca teria deixado ir Eileen [sua companheira] e tampouco eu, provavelmente, ter previsto o curso dos acontecimentos políticos, sobretudo a proibição do POUM [Partido Operário da Unificação Marxista], partido em cuja milícia eu estava combatendo. Foi tudo muito estranho. Começamos sendo heroicos defensores da democracia e acabamos cruzando a fronteira furtivamente com a polícia pisando nossos passos. Eileen esteve maravilhosa, de fato creio que até desfrutou. Mas, embora nós tenhamos saindo bem devagar, quase todos nossos amigos e conhecidos estão na prisão e é provável que sigam aí indefinidamente, sem que lhes tenham acusado de nada, apenas por serem suspeitos de “trotskismo”. Quando me fui estavam ocorrendo algumas coisas terríveis, detenções massivas, feridos arrastados para fora dos hospitais para serem metidos na prisão, gente lotada em sujos calabouços onde apenas há lugar para ser enterrado, presos espancados e meio mortos de fome etc. [...]

Me alegra ter recebido uma bala porque acredito que a todos isso ocorrerá num próximo e me gosta saber que não é doloroso. O que vi na Espanha não me fez converter-se num cínico, mas sim me convenci de que nos espera um futuro bastante sombrio. É evidente que se pode enganar a gente com contos antifascistas igual ao engano com o conto da pequena e corajosa Bélgica, e quando chegar a guerra é o primeiro que farão. Não obstante, não  concordo com a atitude dos pacifistas como você. Creio que há que combater pelo socialismo contra o fascismo  e me refiro a combater fisicamente, com armas em punho, embora antes haverá que distinguir um do outro. Estou desejando ver Holdaway [professor e teórico marxista] para ver o que diz sobre a Espanha. É o único comunista mais ou menos ortodoxo que conheço que me merece certo respeito. Me arriscaria descobrir que se dedica a repetir os mesmos tópicos sobre a defesa da democracia e o trotskismo-fascismo que os demais.


A Stephen Spender - Abril de 1938

Pergunta você por que lhe ataquei sem lhe conhecer e por que mudei de opinião depois de lhe ver. Não recordo tê-lo atacado, embora desde logo fiz alguns comentários ofensivos de relance sobre os “bolcheviques de salão, como Auden [o poeta] e Spender [Stephen] [ambos foram da Brigada Internacional]”, ou algo pelo estilo. Quis utilizar você como símbolo do bolchevique de salão porque a) os seus versos que havia lido não me haviam parecido grande coisa, b) me parecia que você era uma espécie de pessoa elegante e de êxito, além de comunista ou simpatizante do comunismo, e como não nos conhecíamos podia considera-lo um tipo e até uma abstração. Inclusive se você tivesse me desagradado, depois de conhecê-lo, teria de ter mudado minha atitude, porque ao conhecer alguém um repara em seguida que se trata de uma pessoa e não uma espécie de caricatura que personifica determinadas ideias. Em parte por essa razão não frequento muito os círculos literários, porque sei por experiência que depois de falar com alguém já não poderei demonstrar nenhuma brutalidade intelectual, inclusive mesmo que considere minha obrigação, semelhante a esses tipos parlamentares  laboriosos que se perdem sem remédio quando os duques lhe dão as palminhas.

É muito amável resenhar meu livro sobre a Espanha. Mas não se meta em problemas com seu próprio partido. Não vale a pena. Mesmo podendo você discorda, como provavelmente fará, sem chamar-me de mentiroso. Gostaria muito que viesse ver-me. Não sou infeccioso. Não creio que chegar aqui [Aylesfor, sudeste da Inglaterra] seja complicado, porque os ônibus de linha verdade param na porta. Estou bastante contente e muito bem cuidado [estivera passando por uma enfermidade], embora por isso é um incômodo não poder trabalhar e tenho gastado meu tempo fazendo palavras cruzadas.


Ao diretor de Time and Tide - 22 de junho de 1940

É quase certo que a Inglaterra será invadida nos próximos dias ou semanas, e é provável que se trate de uma grande invasão com tropas transportadas pelo mar. Num momento assim o slogan deveria ser ARMAR O POVO. Não sou competente para tratar sobre questões como o modo de evitar a invasão, mas defendo que a campanha na França e a recente Guerra Civil espanhola tenham deixado as coisas claras. Um é que, se a população civil está desarmada, os paraquedistas, os motoristas e algum outro tanque isolado não podem causar muito dano, se não distrair a um grande número de soldados regulares que deveriam estar enfrentando-se contra o inimigo.  O outro feito (demonstrado pela Guerra Civil espanhola) é que as vantagens de armar a população superam o perigo de colocar armas em mãos equivocadas. As eleições parciais celebradas desde que começou a guerra têm demonstrado que na Inglaterra não há uma só minúscula minoria de desafetos que em sua maioria estejam identificados.

ARMAR O POVO é em si mesma uma frase vaga e, por certo, ignoro quais armas estão disponíveis para sua partilha imediata. Mas há ao menos várias coisas que deveriam e poderiam fazer-se já, isto é, nos próximos três dias:

1. Granadas de mão. É a única arma de guerra moderna que pode fabricar-se rápida e facilmente e uma das mais úteis. Na Inglaterra há centenas de milhares de homens que estão acostumados a utilizá-las e que estariam dispostos a instruir outros. [...]

2. Escopetas. Fala-se da possibilidade de armar alguns dos contingentes das Local Defence Volunteers com escopetas. Poderia ser necessário se os rifles e os fuzis Bren fizessem falta para as tropas regulares. Mas nesse caso a distribuição deveria fazer-se agora e todas as armas deveriam requisitar-se das lojas que vendem esses produtos. [...]

3. Bloquear os campos para prevenir aterrissagens do inimigo. Tem se falado muito disto, mas só foi feito de forma esporádica. [...]

4. Limpar os nomes dos lugares. Já se fez no que se refere a cartazes e além disso, mas em todas partes há cartazes, furgonetas etc. que seguem procurando o nome de seu povo. As autoridades locais deveriam ter autoridade para apaga-los de imediato. Entre entes, os nomes dos cervejeiros das tabernas. A maioria fabrica cerveja para zonas muito especificas e os alemães provavelmente sejam bastante metódicos para saber sobre.

5. Emissoras de rádio. Em todas as sedes e os Local Defence deveriam ter uma emissora, para o caso necessário de receber ordens. É fatal confiar nos telefones num momento de emergência. [...]

Tudo isso poderia fazer-se em muito poucos dias. Entretanto, sigamos repetindo ARMAR O POVO com a esperança de que unamos mais e mais vozes. Pela primeira vez em várias décadas temos um governo com imaginação, e ao menos há uma possibilidade de que nos escute.


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