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George Orwell, a verdade está fora das redomas de poder

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  Por Pedro Fernandes George Orwell, 1946. Foto: Vernon Richards. Passado o século dos grandes totalitarismos, conseguimos acreditar que na democracia como um sistema se não o mais seguro para as liberdades individuais e coletivas o mais representativo e coerente. É possível que a segunda possibilidade ainda se sustente enquanto valor indelével; a primeira, entretanto, para os mais céticos, nasceu caduca. E reside nela algumas linhas fundamentais para o debate sempre adiado enquanto ainda for possível revisar o sistema, aperfeiçoá-lo em direção ao que se propõe. Mesmo que os rumos tenham sido alterados para o impasse e mesmo sua falibilidade, fora do ideal democrático ― já sabemos ― tudo é sempre pior.   Agora, o levantamento do capitalismo predatório deixa sempre à mostra que as representações de poder não passam disso, no pior sentido do termo, são falseamentos de poder, uma vez as regras do mando evoluírem num tabuleiro nem sempre às vistas da sociedade. Sua visibilidade, ...

A recusa das utopias

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Por Davi Lopes Villaça Joan Miró. Mulher e cachorro diante da lua (1936). Aldous Huxley e George Orwell escreveram os mais célebres romances distópicos do século passado, buscando expor, na imagem de sociedades futuras, as tendências de seu próprio presente. Em 1984 , Orwell apresentou uma realidade miserável, administrada por um regime totalitário no qual o leitor de 1949 podia reconhecer traços dos recém-derrotados regimes fascistas e do stalinismo ainda vigente; vale lembrar: para Orwell, seu livro refletia também algumas inclinações de potências ditas liberais e democráticas, como Estados Unidos, França e Inglaterra, com seu nacionalismo e autoritarismo crescentes. No romance, as pessoas passam fome, trabalham como escravas e são continuamente vigiadas, mesmo durante o sono. A liberdade é quase nula e   qualquer atitude suspeita ou desviante daquela esperada pelo Partido é punida com a morte. Já em Admirável mundo novo (1932) Huxley imaginou um futuro dourado, verd...

1984, de George Orwell. 70 anos depois

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Eric Arthur Blair (mais conhecido como George Orwell) não conseguia gostar do título O último homem na Europa . “A ideia do livro é boa, mas a execução poderia ter sido melhor, se não tivesse escrito sob a influência da tuberculose”, advertiu antecipadamente ao seu editor Fred Warburg, que queria um título mais comercial. “Estou inclinado a 1984 ”, reagiu o autor, “embora poderia pensar em algo diferente nas duas ou três semanas seguintes”. Mas, não deu mais voltas e quanto entregou o datiloscrito final – escrito numa velha máquina de escrever ora na cama e entre nuvens de fumaça dos seus inseparáveis cigarros – bastou inverter a data de entrega do arquivo dezembro de 1948 por 1984. Embora exista quem defenda que o ano é também uma referência ao centenário da Sociedade Fabiana (fundada em 1884) ou uma homenagem ao seu querido Chesterton, que situou O Napoelão de Notting Hill numa fictícia “realidade alternativa” de 1984 em Londres. A sorte literária estava lanç...

George Orwell e a podridão dos livros

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Por Javier Borràs Um livro velho fede a moscas mortas, o pó rasga a garganta e deixa a língua pesada. Mas, durante o frio inverno londrino, na livraria Booklover’s Corner, ele precisa carregar quilos de romances em degradação, protegido com um lenço e sem aquecimento porque se não os vidros embaçam e os clientes não podem ver o mostruário. Quando um possível comprador entra pela porta, Eric Blair deve mostrar um sorriso e, na maioria das vezes, mentir. Odeia os clientes comuns, em especial as irritantes senhoras que buscam presentes para seus netos e os compradores pedantes de edições especiais, esses que acariciam a capa do livro que acabam de adquirir e o abandonam para sempre numa estante, onde acumula esse espesso purê de pó e cadáveres de insetos a que todo dia deve enfrentar este cansado livreiro. Durante seu longo turno de trabalho, deve se encarregar de raros ensaios que ninguém virá recolher, recusar quilos de romances que um senhor com odor a ranço tenta lhe vend...

George Orwell, cartas da guerra

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George Orwell (o mais alto, ao centro) quando integrante do Partido Operário da Unificação Marxista. George Orwell vem de uma família da classe média inglesa intimamente ligada ao colonialismo europeu na Ásia; mas não seguiu os passos do pai, um obscuro burocrata da administração imperial. A partir de 1927 ele troca essa possibilidade de vida confortável pela de operário e escritor freelancer . Como não foi fácil para nenhum grande escritor, os louros da vida só vieram muitas décadas mais tarde depois de passar por inúmeras dificuldades pessoais e já gravemente enfermo. Quando apareceu ferido em Espanha – uma bala lhe atravessou o pescoço embora não tenha produzido danos de grande consideração e se recuperou bastante rápido – George Orwell escreveu: “Me alegra ter recebido uma bala porque acredito que a todos isso ocorrerá num próximo e me gosta saber que não é doloroso”. O autor de Homenagem à Catalunha intuiu em 1937 que a Guerra Civil só era o começo de um conflito muito...

Relendo A revolução dos bichos

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Por Christopher Hitchens  A revolução dos bichos , como escreveu seu autor mais tarde, “foi o primeiro livro em que tentei, de forma plenamente consciente, fundir intenção política e intenção artística num todo”. E certamente, suas páginas contêm uma síntese de muitos dos problemas que sempre chamamos de “orwellianos”. Entre eles, o ódio à tirania, o amor pelos animais e o campo ingleses, e uma profunda admiração pelas fábulas satíricas de Jonathan Swift. A isso pode acrescentar o desejo de Orwell de ver as coisas desde o ponto de vista da infância e da inocência dessa idade: sempre desejou ser pai e, temendo ser estéril, adotou uma criança pouco antes da morte de sua primeira companheira. O meio irônico subtítulo do romance é “Um conto de fadas”, e Orwell se sentiu satisfeito quando ouviu amigos como Malcolm Muggeridge e Sir Herbert Read lhe contar que seus próprios filhos haviam desfrutado do livro. Como grande parte de seu trabalho posterior – mais conspicuamente ...