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Mostrando postagens de 2020

São Petersburgo por alguns de seus escritores

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Por Joaquim Serra


Com a construção de São Petersburgo em 1703, a Rússia foi invadida culturalmente. O projeto de Pedro, o Grande (1672 - 1725) visava a modernidade e isso tem a ver com a formação do próprio tsar que viajou pela Europa e aprendeu a construir barcos na Holanda. Quando voltou, foi a vez de suas investidas para modernizar a Rússia. Agora os aristocratas e burocratas tinham um manual de como se portar e vestir, e um plano de carreiras para os cargos militares e civis baseado no mérito (assim como aconteceu com o apadrinhado de Pedro, Abram Petrovich Gannibal, bisavô de Púchkin). Tolstói evidencia isso muito bem quando resolve voltar à época da invasão napoleônica da Rússia e escreve Guerra e paz (1865-69), já no início do romance híbrido de Tolstoi, é possível notar a influência da língua e cultura francesas impregnadas na vida aristocrática russa.
O projeto de Pedro é tanto uma janela para a Europa como um espelho para si mesmo. Pedro, o primeiro tsar com o nome traduzido…

Emil Cioran. Um escritor intempestivo

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Por Ignacio Vidal-Folch



Alguns livros não existem para serem lidos mais ou menos de uma vez, mas para tê-los em mãos e folheá-los de vez em quando, ler uma página ou duas e voltar a fechá-los novamente. A lucidez e a energia que emana deles são muito fortes e podem se tornar tóxicas. São frequentemente livros fragmentários e inacabados, que não haviam sido concebidos como tais, que foram publicados um pouco aleatoriamente, e que, a propósito, acrescenta aquele certo encanto que tem o mais ou menos espontâneo, um certo traço de excepcionalidade, certa aura lendária.
Essa qualidade de inconcluso e desorganizado, por outro lado, parece corresponder bem a um certo espírito de nosso tempo, um tanto cansado e incrédulo da obra redonda e da pretensão da totalidade. É o caso, por exemplo, do Diário de Jules Renard – reescrito várias vezes pelo autor, mas amputado por sua viúva –, do Livro do desassossego, de Fernando Pessoa ou dos Cadernos de Cioran (Rasinari, Romênia, 1911-Paris, 1995), que …

Palavras impossíveis: livros a partir do horror de Auschwitz

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Por Guillermo Altares

Elie Wiesel, Prêmio Nobel da Paz, sobrevivente de Auschwitz, autor de livros como A noite, acabava de voltar de Sarajevo, sitiada então (em 1992) pelas forças genocidas sérvias. Visitou Madri e falou do longo século XX, em que a violência parecia não ter fim. Perguntado sobre o campo de extermínio nazista, explicou: “Ainda não conseguimos abordar este tema. Está fora de todo entendimento, de toda percepção. Podemos dizer algumas situações, alguns fragmentos; mas não a experiência. O que vivemos ninguém jamais conhecerá, ninguém compreenderá”.
Setenta e cinco anos depois do fechamento do campo nazista alemão, em 27 de janeiro de 1945, Auschwitz-Birkenau gerou uma incontornável produção literária e histórica, milhares de volumes em todas as línguas. Os livros sobre o campo de extermínio poderiam se dividir em três categorias. A primeira, a fundamental, os relatos dos que estiveram aí, entre os quais se contam uma variedade de obras-primas como as de Wiesel, Primo L…

"Carne viva", corpo que resiste: a poesia de Livia Corbellari

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Por Wagner Silva Gomes


A estreia da poeta Livia Corbellari, jornalista, integrante do núcleo editorial da revista Trino, além de blogueira literária de destaque na cena capixaba, com o blog Livros por Livia, dá-se com o livro Carne viva (Cousa, 2019) com o que há de melhor na poesia, a coragem de colocar o dedo na ferida, estas metáforas que camada por camada estão lá, na palavra, ora dando o óbvio e o não tão óbvio da dor, ora dando o óbvio e o não tão óbvio do prazer. Outras horas apenas sendo, acima de tudo, mulher, já que poesia, a criação, é palavra de gênero feminino, no que há de liberdade, pois como coloca a rapper Drik Barbosa “Menino, atenção! Menino / Não é à toa que liberdade é no feminino”.
O livro é dividido em três capítulos que podem ser entendidos como três poemas. São eles: “fluxo intenso”; “vias de fato”; e “mar aberto”.
Nestes capítulos-poemas, na passagem deles, entre estrofes, e principalmente entre páginas, a autora abusa no uso do enjambement, que é a passagem …

Seis livros para entrar no universo de Toni Morrison

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O lugar ocupado por Toni Morrison na cultura literária não se restringe ao de autora de uma obra imprescindível no interior das grandes criações do século em língua inglesa. Confunde-se, sua trajetória, com uma vivência do lugar político, assinalado pela recusa de integração numa perspectiva, experiência ou ideologia da cultura branca. Isto é, um respeito para com a memória de uma comunidade e a manutenção de uma expressão centrada na dinamização da cultura negra. A escritora estadunidense assume-se enquanto voz de / para o negro.
E esse gesto não se inscreve apenas na sua obra; na vida, ela também atuou nesse sentido. Quando assumiu uma cadeira na prestigiada editora Random House, poucos meses depois de sua estreia literária, Morrison abriu as portas desta casa para muitas figuras da literatura negra: Gayl Jones, Toni Cade Bambara, Angela Davis. Antes de tudo, os primeiros livros que tiveram sua intervenção formavam uma coleção de nomes da literatura africana como Wole Soyinka e Ch…

Boletim Letras 360º #356

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No último dia 26 de dezembro de 2019 o Letras in.verso e re.verso publicou as listas dos melhores do ano, a partir de anotações do editor Pedro Fernandes. São, desde há alguns anos, cinco listas diferentes: prosa, poesia, projetos editoriais, cinema e as leituras que marcaram o ano dos leitores do blog. Estas listas não são apenas formas de recordar o ano que agora termina, mas de aguçar interesses para o ano vindoura. Daí, sublinharmos nessa ocasião. Depois da visita ao Boletim com as notícias da semana apresentadas em nossa página no Facebook, podem ler / reler essas listas aqui


Segunda-feira, 30 de dezembro
A edição 19 da Revista 7faces homenageia a obra do poeta português Jorge de Sena.
Dois centenários marcaram a cena nas literaturas de língua portuguesa em 2019: o de Sophia de Mello Breyner Andresen e o de Jorge de Sena. No apagar das luzes deste ano, a revista de poesia 7faces trouxe online uma edição em homenagem a este último. Sena viveu no Brasil durante boa parte do seu ex…

As renegadas cartas de amor de T. S. Eliot

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Um manancial para os estudiosos e curiosos sobre a vida de T. S. Eliot. Um arquivo com 1.131 cartas de amor trocadas entre o poeta e Emily Hale, a grande musa e fonte do “êxtase sobrenatural” por mais de três décadas, foram divulgadas no dia 2 de janeiro de 2019 na elegante biblioteca Firestone no campus da Ivy League na Universidade de Princeton. 
Sim, o acontecimento se deu em meio a fortes especulações e alto aparato de segurança, tal como registra o jornal The Guardian. Entre os interessados, figuras como Lyndall Gordon, professora em Oxford e autora da biografia T. S. Eliot, An Imperfect Life (em tradução livre T. S. Eliot, uma vida imperfeita); o interesse dos que participaram desse momento não era apenas pelo conteúdo inédito, mas a oportunidade de estar entre os primeiros a acessarem o material produzido na febril relação assumida entre Eliot e a professora de teatro entre os anos de 1930 e 1957.
Os dois se conheceram quando ainda eram estudantes na Universidade de Harvard em…