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Mostrando postagens de 2020

A superfície de Hemingway (II) – O moderno em A volta do soldado

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Por João Arthur Macieira

No ensaio de Eric Auberbach, “A cicatriz de Ulisses”, é comentada a forma como o reconhecimento da cicatriz do herói – disfarçado de mendigo, ocultando-se de sua esposa Penélope e dos demais – é suficiente para fazer com que sua antiga ama, Euricléia, perceba a verdade escondida sob aquela superfície. O evento é marcado por diversas características da narração homérica, onde tudo “modelado com exatidão e relatado com vagar”. Na epopeia, essa narração atinge as superfícies dos objetos com iluminação; cuja potência é capaz de arrancar o leitor do Canto XIX, e levá-lo aos tempos do acidente que garantiu a cicatriz a Ulisses, em sua juventude.
A coexistência de temporalidades distintas só pode ser percebida na passagem a partir da percepção de Euricléia; que, mesmo sob a imagem do mendigo, é capaz de atravessar a superfície e encontrar submersa o verdadeiro herói. A experiência estética vivida pela ama, ao reconhecer aquela cicatriz, causa na narrativa uma suspensão…

Desonra, de J. M. Coetzee

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Por Pedro Fernandes


É recorrente entre os leitores de J. M. Coetzee que uma de suas principais frentes criativas reside em revelar a complexidade étnica-social de seu país natal com o acurado interesse de alguém em distanciamento mas incapaz de negar os estreitamentos da pertença. É possível que este conceito seja derivado de Desonra uma vez ser este o romance do escritor sul-africano mais provocativo nesse sentido, principalmente se atentarmos para as implicaturas entre campo e cidade, ou mesmo certa dificuldade entre as leis pessoais e o estamento jurídico herdado, como se sabe, dos modelos ocidentais. Nele repousa a síntese de perfeita e radical impotência do sujeito, capaz de nos colocar entregue a certo fatalismo do fim, com todas as características do ocaso, a ruína, a perdição, a usura, a penúria, o opróbrio, a injustiça, marcas que transformam o futuro numa impossibilidade, o recomeço numa utopia inviável. Isso significa que este lugar forjado pelo romancista não é exclusivamen…

Damas da lua, de Jokha Alharthi

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Por Joaquim Serra
Apesar do arcaico mundo ficando nas tradições, a escrita de Jokha Alharthi em Damas da lua é ágil e moderna. Os recortes das vidas são feitos através do registro coloquial de seus personagens, dos ditados populares que viram máximas sintetizadoras e regem comportamentos e pensamentos, do passado e do presente narrativo. Damas da lua intercala entre um narrador em terceira pessoa, este, através do indireto livre, mostra o que pensa as personagens, e a narrativa em primeira pessoa de Abdallah, marido de Mayya. Mayya é uma costureira destinada a se casar com o filho de um comerciante. Esse tal destino, que força a vida e os laços, é feito por um contrato entre seus pais. Mayya não ama o marido. Abdallah, o filho do comerciante, ama a mulher e se preocupa com os filhos. É dele a voz em primeira pessoa que recorda em fragmentos as longas barbas do pai, a demência do velho que, antes da morte com seu discurso e perdido no tempo, relembra e grita para o filho punir o escravo…

Tema ou técnica? II – Mário de Andrade e a verdade pessoal do artista

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Por Guilherme Mazzafera

 “a obra é tanto mais artística quanto mais definidos os seus canais de expressão”
Herbert Read1



Em “A raposa e o tostão”, texto originalmente publicado em 1939, Mário de Andrade alerta sobre os jovens escritores de então que, dotados de evidente valor, mas apressados e “ignorantes dos problemas da forma”, pensam que escrever é simplesmente “deixar correr a pena sobre o papel” (ANDRADE, 1944, p. 93). Em um diagnóstico mais amplo, reconhecendo a grande vitalidade e produtividade do período, Mário observa: 

“A literatura brasileira está numa fase de apressada improvisação, em que cultura, saber, paciência, independência (só pode ser independente quem conhece as dependências) foram esquecidos pela maioria. E foi principalmente esquecida a arte, que por tudo se substitui: realismo, demagogia, intenção social, espontaneidade e até pornografia.” (p. 94)
Diante desta situação, Mário advoga pela necessidade do apuro formal em face da predominância do interesse pela políti…

Mario Benedetti, o escritor das classes médias

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Por Danubio Torres Fierro


Duas características definiram Mario Benedetti (1920-2009). A primeira: foi um escritor de (e para) as classes médias. A segunda: foi um escritor marcado por um compromisso ideológico. As consequências de tais características também foram duplas. Por um lado, sua difusão entre um público sociologicamente enraizado nos setores nos quais se localizam as donas-de-casa, os profissionais “liberais” (dentistas, escrivães, burocratas), alunos de ensino médio, talvez um atleta e também certos revolucionários sentimentais. Por outro lado, seu espírito literário sucumbiu a uma prosa catequética e a uma eficácia emotiva superficial que afastou a reflexão crítica e abriu caminho para um sistema de cumplicidades. Batizar Benedetti, como foi feito e continua se fazendo, como escritor popular, é mais uma imprecisão destes tempos imprecisos. Desde seus primeiros contos e poemas, surgidos nos anos cinquenta, almejou (e optou) retratar a arqueologia de algumas classes médias às …

Boletim Letras 360º #392

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DO EDITOR 1. Caros leitores, aqui está para leitura e partilha com os amigos uma nova edição do Boletim Letras 360º. As novidades da semana e as celebrações pelo 90º aniversário do poeta Ferreira Gullar integram este número. 2. Em nome do Letras, agradeço sempre a companhia do fiel leitor e deixo o pedido de trazer aqui os seus mais achegados que admiram os livros e a literatura. Fique bem. Boas leituras!



LANÇAMENTOS Dois livros inéditos ampliam a obra de Ruth Guimarães; são duas coletâneas de contos resultadas do longo convívio etnográfico com o interior do Brasil.  1. Contos índios. Todas as histórias deste livro foram extraídas apenas de registros orais. São, portanto, inéditas do amplo trabalho de Ruth. Os contos resultaram de pesquisa de campo, no Médio Vale do Paraíba do Sul, estado de São Paulo, tendo como centro e pião a cidade de Cachoeira Paulista. E, dali, feitas coletas nas cidades vizinhas também, e no litoral. É, claro, vieram também de informantes de outros estados, com pred…

Os encantos multifacetados de Ozark

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Por Rafael Kafka


Ozark é comumente associada a Breaking Bad por conta de sua temática ― um homem de meia-idade sem grandes traços psicológicos um dia se envolve com práticas criminosas sem ser o estereótipo do criminoso visto em filmes e gerando uma reflexão sobre a ambiguidade da condição humana por meio da ruptura com o maniqueísmo ainda tão forte em nossas visões. Essa comparação inclusive me levou a ver a série, pois Breaking Badé uma de minhas obras favoritas de todos os tempos ao lado de sua pré-sequência Better Call Saul. Ozarkentrou em minha vida numa fase de luto em relação à segunda série, a qual tenho acompanhado com afinco nos últimos anos. Mas na tentativa de reviver um pouco dos encantos de Breaking Bad, eu me deparei com um seriado que mesmo no começo tendo dificuldades de assumir uma identidade própria depois se torna dona de um ritmo próprio de contar histórias e de uma forma mais fluida de abordar temas mais contextualizados. 
Breaking Bad e Better Call Saul se caracter…

A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha

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Por Pedro Fernandes


Numa passagem singular das muitas que formam a entrevista de Clarice Lispector ao jornalista Julio Lerner, veiculada em 1977 no programa Panorama da TV Cultura, que foi também a última e a única em vídeo, a escritora, depois de confirmar que “o adulto é triste e solitário”, é confrontada com a pergunta sobre quando começamos a nos transformar para esse destino. Para ela, “isso é segredo” mas calcula que “a qualquer momento da vida, basta um choque inesperado e isso acontece”. O primeiro romance de Martha Batalha pode se inscrever no interior de uma tentativa por encontrar ou capturar esse instante e demonstra que a existência é um carrossel de pouca e quase nenhuma alegria e se viver é uma dádiva, as dívidas adquiridas para levar adiante uma vida, quando dela alcançamos a consciência, são tantas que nem mesmo toda uma eternidade seria suficiente para pagar. Dito assim, se sugere que A vida invisível de Eurídice Gusmão é um melodrama dos baratos; um livro feito de sus…