Boletim Letras 360º #407

 
 
DO EDITOR
 
1. Saudações, leitores! Continuamos nosso mês de recesso. As posts por aqui deixaram de ser diárias, mas nossas atividades nas redes sociais continuam. Aqui estão reunidas as notícias que divulgamos em nossa página no Facebook.
 
2. Que tenhamos um rico 2021! É o que já posso desejar com todas as forças positivas, para agora. O próximo BO já estará fixado no novo ano.

3. Agradeço aos leitores pela companhia!

Dyonelio Machado. Último romance publicado em vida do escritor ganha reedição.


 
LANÇAMENTOS
 
Livro conta a história entrelaçada de três mulheres em continentes diferentes, mas com a mesma sede de liberdade.
 
Smita é uma intocável, membro da casta mais inferior da Índia. Seu grande sonho é ver a filha escapar da condição miserável em que vivem e ter acesso à educação formal. Na Sicília, Giulia trabalha como ajudante na oficina do pai. Mas, quando ele sofre um acidente e ela precisa assumir o comando, logo percebe que o negócio está à beira da ruína. No Canadá, Sarah é uma advogada renomada. Quando está prestes a ser promovida a chefe no escritório em que trabalha, descobre estar gravemente doente. Sem saber que estão conectadas por suas questões mais íntimas, Smita, Giulia e Sarah recusam o destino que lhes está reservado e decidem lutar contra ele. Vibrantes, suas histórias remontam a uma imensa gama de emoções muito familiares e que, por isso, tecem uma trama que fala sobre dois aspectos essenciais de nossas vidas: esperança e solidariedade. A trança, de Laetitia Colombani, é publicado pela Intrínseca.
 
As tentações de Santo Antão por Flaubert.
 
Pode-se ler este livro como uma alegoria: o deserto em que vagueia o anacoreta, por entre penhascos e areia, tudo povoado por fantasmagorias e alucinações, é também o da literatura, aquele espaço literário, já esvaziado, repleto de tentações, e que Maurice Blanchot, num gesto de pura e absoluta genialidade, soube ler, de modo tão preciso quanto complexo, como etapa decisiva na formação da chamada literatura moderna. Aliás, seria toda uma outra e longa história pensar no deserto como espaço formador da própria literatura: neste caso, deserto é, ou pode ser, sinônimo de recusa e de negatividade, uma das categorias fundamentais, como se sabe, do moderno em literatura e nas artes. É um arco tenso: desde o que há de desértico na Mancha, de Cervantes e do comovente Cavaleiro da Triste Figura, até aquele dos tártaros de Buzatti. Ou aquele capaz de provocar o aparecimento de um pomar às avessas, como está no João Cabral de Melo Neto de Psicologia da composição. A tensão do arco se desfaz, no entanto, pela entrega às tentações da positividade que são os significados sem risco: a aceitação da literatura que diz, com certeza, algumas coisas já consumidas pela tradição literária. Flaubert sabia disso e a primeira grande tentação era aquela do conhecimento enciclopédico que viria eliminar o deserto por uma acumulação impiedosa de livros e saberes cuja maior crítica ele haveria de realizar em Bouvard e Pécuchet. Este livro deixa ver, de modo incipiente, como cabe a obras iniciais, traços dessa resistência e, por que não dizer, dessa luta sobre-humana em prol da recusa e do risco. Não é a isso que se chama de flaubertiano, por excelência, a essa luta pelo esvaziamento de um espaço que deve ser assumido pelo rigor quase suicida da linguagem? A história foi contada em detalhes por esse admirável Maxime du Camp no quinto capítulo de suas ricas Souvenirs littéraires (1822-1894), intitulado precisamente La tentation de Saint Antoine. Gustave Flaubert convocara dois amigos, Maxime e o poeta Louis Bouilhet, para ouvir, sem direito a interrupções, a leitura do novo livro que ele terminara de escrever, depois de anos de trabalhos que envolviam pesquisas históricas e religiosas volumosas e rigores estilísticos. Trabalhos tão exigentes que chegaram a pôr em perigo a saúde do jovem escritor, o que motivará a viagem que fará, em seguida, ao Oriente. Reuniram-se no retiro flaubertiano de Croisset e, com paciência e contenção, submeteram-se à audição do longo texto. É a obra refeita que agora se lê nesta edição, enriquecida pelas obras de Odilon Redon e pelos ensaios de Paul Valéry, Contador Borges e Denis Bruza Molino, assim como pela competente tradução de Luís de Lima, bem na linha de Novembro, do mesmo autor, publicado pela Iluminuras.
 
Livro inédito no Brasil explora discussões sobre a arte e a Estética.
 
“Por isso, mais atuais do que as perguntas pelo pós-moderno, são e permanecem – e também no campo do estético – as perguntas pelo moderno. Como, por exemplo: que é a arte? Pode e deve ela tornar-se tema de uma estética? Por que esse tema só aparece na Idade Moderna? Antes de se converter em estética, que era a filosofia do belo e da arte? Por que a arte – as belas-artes e a não mais bela – converteu-se em tema da estética, justamente em face do “fim da arte”? Por que a estética se apresenta essencialmente como “dupla estética”? Como o estético se relaciona com o processo moderno da reificação [Versachlichung] e com a filosofia revolucionária da história? Que significa a “propensão para a obra de arte total”? Por que o estético é e permanece irrecusável para o mundo moderno, sendo o mundo moderno inevitavelmente a era do estético?” Essas questões e outras semelhantes são exploradas nos oito ensaios que compõem este Estética e anestética, primeiro livro de Odo Marquard publicado em português, pela série aisthesis, da coleção ideia e memória da martelo casa editorial, com tradução do alemão de Luiz Costa Lima.
 
REEDIÇÕES
 
Última obra editada em vida, em 1982, de Dyonelio Machado, ganha primeira reedição.
 
Fada é uma história de amor entre jovens que buscam romper com os ditames patriarcais do padrasto de Mafalda, apelidada Fada, e o casamento arranjado que ele planejava. Ambientado na campanha gaúcha, e por vezes no ambiente universitário, Fada dialoga com o universo fantástico próprio do imaginário local, desmistificando-o a partir de uma análise racional. Uma característica da narrativa é seu caráter metaficional, seja para pensar o ofício literário e a criação artística, seja para sublimar as dificuldades que o próprio Dyonelio sentiu num período de ostracismo que viveu. Neste sentido, estão inseridos personagens escritores, o alter ego Dionísios Madureira e o enamorado D'Artagnan, autor de uma narrativa fantástica que figura nas páginas de Fada e traz para o pampa a figura de Parsifal, sem deixar de lado o panteão feminino medieval. “A época era da Magia. Pouco faltava para a revivescência da Idade Média. As condições se assemelhavam em muitos aspectos: miséria, insalubridade, condensação do poder nas mãos duma oligarquia. Apelava-se para o fantástico, como recurso extremo da salvação”. A presente edição, organizada por Camilo Mattar Raabe, conta com apresentação de Antônio Hohlfeldt, posfácio de Altair Martins, depoimento de Marco Túlio de Rose, a quem há uma referência na obra, e notas de José Francisco Botelho sobre mitologia; também apresenta originais relacionados ao processo criativo e o início de um romance inédito idealizado por Dyonelio como continuação da obra. A nova edição é publicada pela Editora Zouk.

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