No seu pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie

Por Jéssica Accioly Lins




Chimamanda Adichie, uma das vozes africanas mais reconhecidas e premiadas atualmente na cena literária mundial, vencedora do Orange Prize, pelo romance Meio sol amarelo, ganhou notoriedade em uma conferência da organização TED (Tecnologia, Entretenimento e Design), no ano de 2009. Na ocasião, ela proferiu o discurso intitulado O perigo de uma história única, em cujo escopo questiona os perigos da disseminação de uma única visão sobre a África e propõe, em sua fala, uma reflexão acerca da generalização de uma ideia preconcebida do continente africano.

Em No seu pescoço, livro de contos traduzido por Julia Romeu e publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras em 2017, Chimamanda explora a ideia de “lugar de fala” ao abordar temáticas relacionadas à visão estereotipada do continente africano e, consequentemente, às experiências vivenciadas pelos seus pares. As doze narrativas que compõem o livro trazem à tona temas socialmente relevantes e necessários, como o da imigração, o do preconceito racial, o da desigualdade social, o da objetificação da mulher negra, o do choque entre diferentes culturas e religiões, bem como o das relações inter-raciais.

Os contos apresentam narrativas fluidas, bem desenvolvidas e estruturadas, personagens profundas e ricas descrições dos ambientes. Tais aspectos contribuem positivamente para as narrativas, mas, certamente, o que fundamenta a relevância dos contos escritos por Chimamanda é, além da sensibilidade da autora em relação à abordagem dos temas, a clara intersecção entre a ficção e a realidade. Os temas são tratados, pela autora, ao longo dos contos, sob um viés crítico, propondo, aos leitores, importantes reflexões acerca de determinados comportamentos sociais.

Como em “Jumping Monkey Hill”, o sexto conto do livro. No conto, o leitor é apresentado a uma mulher, Unjunwa, escritora, e acompanha, durante um workshop para autores africanos, uma sequência de acontecimentos vivenciados pela personagem.

Jumping Monkey Hill é o nome dado ao resort em que o evento ocorre, localizado na Cidade do Cabo. Logo no início da narrativa, Unjunwa demonstra, ao chegar ao resort, um certo incômodo, não só por considerar o nome do lugar uma afronta, mas também por se tratar de um hotel de luxo, o tipo de lugar, na visão da personagem, em que os negros só costumam entrar para limpar ou servir turistas estrangeiros ricos. Chimamanda propicia, ao leitor, desde então, uma reflexão sobre a questão da desigualdade social, em muitos casos, estar estritamente associada à questão racial, não somente na África do Sul, local onde a narrativa é ambientada, mas também em diversos outros países, como no Brasil.

No conto, Edward, um inglês que deu aulas, durante um tempo, na Universidade da Cidade do Cabo, fica responsável pela organização do workshop. Em um determinado momento, Edward demonstra um grande interesse pela personagem Unjunwa, que se sente desconfortável com as investidas do professor e tenta disfarçar sempre que percebe os olhos dele em sua direção, que, segundo a personagem, estavam sempre fixos em seu corpo, nunca em seu rosto.

Com o passar dos dias, as investidas de Edward se intensificam, chegando ao ponto do inglês dizer que gostaria que Unjunwa se deitasse pra ele. Unjunwa, em conversa com outros colegas, ouve, de um outro participante do evento, que Edward: “jamais olharia daquele jeito para uma mulher branca, porque o que sentia por Unjunwa era desejo sem nenhum respeito.” (p. 119.)

A autora faz, ao longo do conto, ao abordar a relação entre o professor Edward e Unjunwa, uma crítica extremamente pertinente sobre a erotização e objetificação da mulher negra, um esteriótipo que o movimento feminista negro, tenciona, incessantemente, combater.

Além disso, quando Unjunwa questiona os colegas sobre o silêncio do grupo em relação ao comportamento de Edward, a autora toca em outra questão muito importante, a do silenciamento social diante de situações como as vivenciadas pela personagem: “Por que nunca dizemos nada?” (p.121.) As personagens, apesar de verbalizarem suas opiniões e caracterizarem o comportamento desrespeitoso do inglês como assédio, não fazem nada para impedi-lo.

“Jumping Monkey Hill” e os outros onze contos presentes em No seu pescoço se locupletam, no sentido de constituírem peças que, juntas, fornecem, para a grande maioria dos leitores, um contato com uma cultura diferente, a partir da ótica de alguém que pertence a ela, ou seja, sob o olhar de alguém de dentro.

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