Boletim Letras 360º #390


DO EDITOR

1. Muita gente nova chegou às redes sociais do blog Letras in.verso e re.verso por esses dias. Continuo, desde 2007, a agradecer a atenção de todos. Sintam-se bem e em casa, unidos em torno do propósito principal: o amor à arte e ao literário.

2. Aproveito a ocasião para convidar aos novos amigos a acompanhar o trabalho do blog nas várias frentes com a presença nas reações, nos comentários e na partilha do nosso conteúdo. Tudo aqui é feito livremente e gratuitamente por gente atenta e amante do que faz. Então, tudo isso que peço é uma maneira de incentivá-la.

3. Este boletim é publicado a cada sábado desde há 390 semanas. Desde 2012, a página do blog no Facebook passou a veicular informações variadas em torno do nosso universo de interesse e, muitos meses depois, a baixa visibilidade de conteúdo pela segmentação nesta rede social levou a gente a criar um espaço aqui capaz de oportunizar um (re) encontro com o material divulgado.

4. Agradecemos a companhia do fiel leitor e deixamos o pedido de trazer para nós seus mais achegados que admiram os livros e a literatura. Fique bem. Boas leituras!


Yukio Mishima. Foto: Joji Saito.


LANÇAMENTOS

Obra atemporal e que oferece um vívido retrato da sociedade americana nos anos 1920 ganha segunda tradução no Brasil.

Irene Redfield e Clare Kendry têm algo em comum: ambas são mulheres negras de pele clara que podem se passar por brancas. Essa, porém, é a única similaridade entre elas. Após perderem contato durante a adolescência, as duas se reencontram por acaso em uma cafeteria de um hotel em Chicago. Um encontro que muda para sempre a dinâmica entre as duas mulheres, suas famílias e suas comunidades. Irene parece ter tudo que poderia desejar. Casada com Brian, um médico proeminente, eles são donos de uma confortável casa no Harlem, onde criam seus dois filhos. O trabalho de organizar bailes de caridade em que celebra toda a riqueza da cultura afro-americana dá a Irene um propósito e um senso de responsabilidade. Sua única preocupação é o desejo insistente do marido em se mudar para o Brasil, um país onde, segundo ele, não há racismo. Clare Kendry, por outro lado, vive no limite. Após perder o pai aos 14 anos, saiu da vizinhança negra em que vivia para ir morar com as tias e começou a se passar por branca, mantendo sua verdadeira ancestralidade miscigenada em segredo para todos, principalmente para o homem racista com quem se casou. No entanto, após o reencontro e à medida que começa a se envolver cada vez mais na vida de Irene, Clare vê a energia da comunidade que abandonou, e sua vontade ardente de retornar a ela ameaça a farsa cuidadosa que é sua vida. Identidade oferece um vívido retrato da sociedade americana nos anos 1920 e discute não apenas a questão de raça, mas também de classe e gênero. Através de uma brilhante narrativa e de personagens complexos, Nella Larsen prova que ser leal às próprias origens não é apenas um ato de orgulho, mas também de coragem. Esta tradução é de Rogerio Galindo, conta com posfácio de Rayne Leão e  é publicada pela HarperCollins Brasil. O mesmo livro sai também pela Imã Editorial, cf. noticiamos na edição anterior deste Boletim, com tradução de Julio Silveira; nesta, o título é Passando-se.

Livro reúne quatro títulos do poeta Guilherme Gontijo Flores.

Todos os nomes que talvez tivéssemos é uma tetralogia formada dos livros Brasa enganosa (2013), Tróiades — remix para o próximo milênio (2014/2015), L’azur Blasé, ou ensaio de fracasso sobre o humor (2016) e Naharia (2017). Trata-se de um multifacetado poema de fôlego, fora da curva, feito de quatro tempos, cada um funcionando como um livro de poemas dentro do livro maior; é uma obra construída ao longo de uma década e que mistura diversas linguagens e vozes, experimentos e subgêneros literários, num movimento construído a partir da teoria dos quatro elementos, quatro humores, quatro estações e quatro fases da vida. O resultado é um caleidoscópio de formas, tons e estilos, um estilhaço programado numa descontinuidade subjetiva, como a vida. O livro é publicado pela editora Kotter.

Uma defesa apaixonada à imagem.

Em agosto de 1944, membros do Sonderkommando de Auschwitz-Birkenau, auxiliados pela Resistência polonesa, conseguiram fotografar de forma clandestina parte do processo de gaseamento a que eram submetidos os judeus, operação de extermínio que levou à morte milhões de pessoas. Trazidas à luz numa grande exposição sobre a memória dos campos em 2001, essas quatro imagens tornaram-se o centro de uma acirrada polêmica que opôs, de um lado, aqueles que eram radicalmente contra qualquer tipo de representação do Holocausto e, de outro, os que defendiam a importância vital de todo registro, entre eles, o autor deste livro. Em Imagens apesar de tudo, Georges Didi-Huberman faz uma defesa lúcida e apaixonada da imagem como forma de resistência, quando se furta à ordem dominante e, longe de se assumir como imagem absoluta, capaz de dizer toda a verdade, se apresenta fulgurante e lacunar, abrindo brechas em meio à obscuridade e ao horror. Dialogando com Benjamin, Bataille, Godard e outros, este livro ilumina um nó de questões fundamentais que envolvem a noção de testemunho, o uso dos arquivos, o estatuto do documento visual, a montagem, os múltiplos regimes da imagem e da palavra, e conecta de modo exemplar a ética, a estética e a política. A tradução é de Vanessa Brito e João Pedro Cachopo é publicada pela Editora 34.

Os textos de quando Walter Benjamin viveu na França.

Diário parisiense e outros escritos reúne quinze textos de Walter Benjamin de 1926 a 1936, enquanto viveu na França ― dentre eles seu próprio diário escrito entre 1929 e 1930, que dá nome ao livro, é e inédito em português. A seleta de textos remete também ao trânsito entre Alemanha e França percorrido por Benjamin, em vários sentidos: literário-crítico, filosófico, artístico, político e biográfico. Nesse trânsito, procuramos pelo “lugar” de Benjamin, como um crítico literário exemplar, judeu-alemão e refugiado político, inserido no debate literário francês no período entre-guerras. O volume também apresenta as suas análises dos que considerava principais nomes da literatura francesa: Gide, Valéry e Proust. O caráter legítimo ou autêntico de Benjamin como crítico literário, pouco ou nada ortodoxo, tornava os escritores não apenas o objeto de sua crítica literária, mas co-autores de um sentido de crítica inusitado. Textos como “Cartas parisienses” também são claros exemplos do lugar político e social que assumia, quando exigia-se dos intelectuais um posicionamento em face do tempo em que viviam. Walter Benjamin (1892-1940), judeu alemão, foi ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo, sociólogo e tradutor (de Baudelaire, Proust e Balzac, entre outros). Estudou filosofia num ambiente dominado pelo neokantismo, em Berlim, Freiburg, Munique e Berna, onde defendeu tese de doutorado sobre os primeiros românticos alemães. Durante o seu exílio em Paris, nos anos trinta, foi ligado ao Instituto de Pesquisa Social, embrião da chamada Escola de Frankfurt. Entre seus interlocutores e amigos, encontram-se personalidades marcantes do século XX como Theodor W. Adorno, Hannah Arendt, Bertolt Brecht e Gershon Scholem.

A Editora Moinhos anuncia a publicação de mais dois volumes da Coleção Artaud.

1. Para acabar com o juízo de Deus é composto pelos textos: “Fragmentos de um diário do inferno”, “As novas revelações do ser”, “À margem das novas revelações do ser” e “Para acabar com o juízo de Deus”. De acordo com a pesquisadora Marcia Schuback esses textos “expõem o duro aprendizado da identificação com a carne cruel e bruta do ‘estar sendo’. São textos que representam três décadas da vida de Artaud, décadas que são cadências e ritmos e não uma mera sucessão na cronologia da vida e do tempo.”

2. Correspondência com Jacques Rivière, como nos conta o pesquisador Edgard de Assis Carvalho, traz as trocas de cartas entre Artaud e Rivière, que “começa em primeiro de maio de 1923 e termina em oito de junho de 1924, distribuída em três plots intercambiáveis. Mais assertivo e questionador, composto de três cartas, o primeiro abrange os meses de maio e junho; o segundo, também com três cartas, datadas de 1924, pode ser considerado uma ontologia da criação e inclui o lancinante poema ‘Grito’; finalmente, o terceiro, com cinco cartas, abrange os meses de maio e junho de 1924 e espelha dilemas, sofrimentos, ambivalências, aspirações e resiliências da alma humana.” Os dois livros têm tradução de Olivier Dravet Xavier.

REEDIÇÕES

A Companhia das Letras reedita parte da obra de Yukio Mishima sob seu catálogo; primeiro em formato digital. São títulos que há muito se encontrava fora de circulação.

1. Confissões de uma máscara. Autobiográfico, o romance conta a história de um adolescente que, no Japão da Segunda Guerra, descobre a própria homossexualidade. Por detrás da máscara com que encobre sua natureza, porém, ele sabe que não corresponde aos padrões convencionais e que terá de enfrentar conflitos e preconceitos. Koo-chan vive um momento de conflito interior no Japão do entre-guerras. No começo da adolescência, tem fantasias que combinam impulso sexual e violência sado-masoquista, desejo e morbidez. O rapaz chega a imaginar um “teatro da morte”, em que jovens lutadores se enfrentariam como gladiadores, exclusivamente para êxtase do próprio Koo-chan. À medida que avança na adolescência e a Segunda Guerra Mundial se desenrola , o rapaz tenta se interessar por mulheres, entre as quais Omi e Sonoko. Por detrás da máscara de “normalidade”, porém, ele sabe que sua orientação sexual não corresponde aos padrões convencionais. O protagonista empreende, aos poucos, uma viagem interior de descoberta e construção da própria identidade. Publicado em 1949, este é um dos livros mais importantes de Mishima. A tradução é de Jaqueline Nabeta.

2. Cores proibidas. Depois de três casamentos fracassados, a paixão que move Shunsuke é sua profunda misoginia. Seu único prazer é contemplar o sofrimento das mulheres. Quando encontra Yuchi, um jovem homossexual de beleza rara, Shunsuke vê no rapaz o instrumento para sua vingança contra as mulheres, o meio perfeito para lhes causar infinito sofrimento. A narrativa compõe uma trama de alto teor erótico sobre a repressão do desejo e a proximidade entre pulsão sexual e dissolução de velhas convicções morais na sociedade devastada do Japão pós-Segunda Guerra. No romance, Shunsuke é um velho escritor que, depois de três casamentos fracassados e uma existência dedicada aos exercícios espirituais, encontra na homossexualidade uma nova aspiração existencial. Shunsuke conhece Yuichi, um jovem de beleza frágil e estonteante que se torna seu amante e uma espécie de fantoche para seus planos de vingança contra as mulheres. O enredo encadeia revelação atrás de revelação, provocando no leitor um misto de curiosidade e atordoamento, já que os personagens assumem atitudes contraditórias e comportamentos escorregadios. Entre os primeiros livros de Yukio Mishima, Cores proibidas foi publicado pela primeira vez em 1953. A tradução brasileira é de Jefferson José Teixeira.

3. Mar inquieto. O jovem pescador Shinji conhece Hatsue, uma mergulhadora de beleza inquietante, na orla da praia de Utajima, onde mora com a mãe e o irmão. Hatsue é filha de Terukishi Miyata, um dos homens mais ricos da pequena vila pesqueira japonesa. Shinji e Hatsue se apaixonam e frustram a vontade do pai da garota de vê-la casada com Yasuo, pretendente a quem ela fora prometida. Tem início uma história de amor proibida, de desenlace imprevisível. Mar inquieto acompanha as venturas e desventuras do jovem casal, que logo faz pensar em Romeu e Julieta. No embate com os obstáculos que colocam em perigo seu amor, Shinji e Hatsue assumem feições exemplares, que os transportam do mundo do romance para o universo da fábula. Publicado em 1954, este foi o livro que confirmou a reputação de grande narrador que Yukio Mishima conquistara com seus primeiros livros. Em contraste com as obras complexas e polêmicas que, poucos anos antes, haviam proporcionado um sucesso clamoroso ao autor como Confissões de uma máscara e Cores proibidas , este romance breve impressiona pela singeleza de seu tom e pela discrição de um estilo cristalino. O livro ganhou adaptações para o cinema, a primeira delas realizada pelo diretor Senkichi Taniguchi no mesmo ano de lançamento do livro. A tradução é de Leiko Gotoda.

4. O pavilhão dourado. Narrado de forma densa e original, o romance mostra que a beleza absoluta pode ser tão opressiva e enlouquecedora quanto qualquer imperfeição. Durante a Segunda Guerra, em Quioto, um jovem assistente de sacerdote frequenta o templo do Pavilhão Dourado, ambiente antes cultuado por seu pai como o lugar mais belo do mundo. Ali, Mizoguchi, adolescente inseguro, introspectivo, que sofre de gagueira e é incapaz de estabelecer verdadeiras amizades, encontra refúgio para suas aflições. Quando conhece Kashiwagi, deficiente físico muito mais experiente no mundo e no sexo, Mizoguchi desperta para o que chama de mal absoluto. O conhecimento do mal, associado à ideia de perfeita beleza, princípio básico do Pavilhão Dourado, faz com que o jovem alimente sonhos de destruição e autodestruição, estranhas conjecturas sexuais e reflexões sobre o significado dos valores universais, numa tortura mental que revela que o mal e a beleza não estão tão distantes quanto parecem. A tradução é de Shintaro Hayashi.

Nova edição de um clássico da literatura mexicana.

O realismo fantástico como hoje se conhece não teria existido sem este livro. Desta fonte beberam o colombiano Gabriel García Márquez e o peruano Mari Vargas Llosa. A partir da combinação de dois elementos essenciais ao sucesso da literatura latino-americana o realismo fantástico e o regionalismo , Rulfo se destaca pela sua habilidade em contar uma história reunindo relatos e lembranças. De enredo conciso e preciso, o único romance de Juan Rulfo trata da promessa feita por Juan Preciado à mãe moribunda. O rapaz sai em busca do pai, Pedro Páramo, um lendário assassino. No caminho, encontra impressionantes personagens repletos de memórias, que lhe falam da crueldade implacável de seu pai. Em sua estrutura não há linha temporal exata, tampouco um narrador fixo. Juan Rulfo nos leva a mergulhar e a nos dissolver no turbilhão dos sentimentos de todo um povoado, em torno desse grande homem. Alegoricamente, o romance é o Méximo ferido, que grita suas chagas e suas revoluções, por meio de uma aldeia seca, onde apenas os mortos sobrevivem para narrar os horrores de sua história e política. Pedro Páramo é basicamente sobre a presença da morte em meio à vida. Um livro, de poética simples e concisa, curto e inesquecível. A tradução de Eric Nepomuceno ganha reedição pela José Olympio.

Nova edição de No fim dá certo título tão expressivo quanto otimista , e que registra alguns preciosos achados, vistos com lupa por este autor tão sensível do cotidiano.

Com humor característico, Fernando Sabino relaciona “Na lista das pequenas coisas que o desagradam a cada passo”: os compromissos marcados com mais de 24 horas de antecedência; responder cartas; compras a prestação; tirar gelo de formas da geladeira; qualquer espécie de farda ou uniforme; poltronas sem braços; bichos que voam, exceto passarinhos; cortar unha, especialmente do pé; luz fluorescente; poema lido pelo autor; banho frio; talher de peixe; filme dublado; despedida em aeroporto; e, curiosamente, escrever. Por outro lado, o autor também enumera algumas pequenas coisas que aprecia: dia de chuva sem precisar sair de casa; o momento em que o avião toca no solo e vira automóvel; a parte do meio da torrada Petrópolis partida em três; pagar a última prestação; descobrir que ainda é cedo, dar tempo de tomar mais um; já ter lido Guerra e paz, Odisseia e Dom Quixote; passarinho solto; andar pela casa sem testemunhas, falando sozinho ou completamente nu; sair sem se despedir; e, naturalmente, fazer listas de pequenas coisas que o agradam. Ainda, sugestões para trocas de títulos de livros famosos de amigos escritores, brincadeiras com pérolas da tradução literária, os princípios do que chama “Lei Anti-Murphy” é destas e outras descobertas que No fim dá certo é composto. A nova edição é publicada pela editora Record.

PRÊMIO LITERÁRIO

Saiu a lista com os 54 autores semifinalistas do Prêmio Oceanos de Literatura, que distingue anualmente as melhores obras publicadas em língua portuguesa. Entre os nomeados, o poeta Tiago D. Oliveira, colunista do Letras in.verso e re.verso.

O anúncio decorreu numa sessão virtual – por causa da pandemia de Covid-19 toda a edição do galardão neste ano será digital – e contou com a participação de Selma Caetano, na coordenação do Oceanos, e dos curadores Isabel Lucas (Portugal), Adelaide Monteiro (Cabo Verde) e Manuel da Costa Pinto (Brasil). Nesta edição, entre 1.872 obras concorrentes, foram selecionados 22 romances, 22 livros de poesia, cinco livros de contos e cinco de crônicas, num total de 54 obras de três continentes, publicadas por 34 editoras. Entre os 37 autores brasileiros semifinalistas, encontram-se (na prosa) títulos como: Essa gente, de Chico Buarque; Pontos de Fuga, de Milton Hatoum, Marrom e Amarelo, de Paulo Scott; A morte e o meteoro, de Joca Reiners Terron; A ocupação, de Julián Fuks; Baal, de Betty Milan e Carta à rainha louca, de Maria Valéria Rezende. Na poesia, foram selecionados, entre outros: As solas dos pés de meu avô, de Tiago D. Oliveira, colunista do blog Letras in.verso e re.verso; Cerração, de Alexei Bueno; Deriva, de Adriana Lisboa; Rosa que está, de Luci Collin; e Retratos com erro, de Eucanaã Ferraz. Entre novembro e o início de dezembro, sai o resultado com os três vencedores. A lista completa pode ser acessada a partir daqui

Uma jovem escritora da Holanda ganha com o seu primeiro romance o International Booker Prize de 2020.

Marieke Lucas Rijneveld nasceu em 1991 em Nieuwendijk. Seu romance The Discomfort of Evening, publicado por uma editora independente é o vencedor Booker Prize '20. O evento transmito online foi adiado desde maio por causa da pandemia da Covid-19. A principal preocupação do grupo que formou o júri o escritor e crítico literário Ted Hodgkinson, a diretora da Villa Gillet e editora Lucie Campos, a Jennifer Croft, o jornalista e escritor Jeet Thayil e a autora Valeria Luiselli foi procurar um livro que fosse “intemporal”, salientou a administradora Fiammetta Rocco. Para trás ficaram as obras de uma variedade de autores que incluía nomes do Irã a Argentina, da Alemanha ao Japão. O prêmio é atribuído anualmente a um livro traduzido para o inglês e publicado no Reino Unido ou Irlanda. Foi criado para incentivar a publicação e leitura de ficção internacional de qualidade e promover o trabalho de tradução. No ano passado, a ganhadora foi Jokha Alharti, pelo romance Damas da lua, publicado este ano no Brasil pela Editora Moinhos. Alharti foi a primeira escritora de Omã e de língua árabe a vencer o galardão; foi a primeira a ser traduzida para inglês.

Lídia Jorge recebe o grande prêmio da FIL de Guadalajara

Em 2018, Portugal foi o país convidado na maior feira da América Latina, ocasião quando distinguiu e celebrou a obra do maior escritor na literatura portuguesa, António Lobo Antunes. Agora, dois anos depois, o Prêmio de Literatura em Línguas Românicas vai para as mãos de uma escritora também entre as mais importantes no seu país. Lídia Jorge estreou na literatura em 1898 com publicação do romance O dia dos prodígios; desde então tem composto uma obra multifacetada, cobrindo outras formas da prosa, como o conto, o ensaio e a crônica, e a poesia. O autor brasileiro mais recente a receber grande prêmio da FIL de Guadalajara foi Nélida Piñon, em 1995.

DICAS DE LEITURA

Acabamos de ler a notícia sobre a premiação oferecida à Lídia Jorge. Esta escritora portuguesa, ainda que não tenha circulação simultânea entre o seu país de origem e o Brasil, é sempre fácil de encontrá-la entre seus livros mais célebres dos até agora publicados. Aproveitamos este momento singular para registrar nestas dicas, três obras, entre as editadas por aqui, capazes de colocar o leitor em sintonia com a riqueza criativa de sua autora.

1. A costa dos murmúrios. Este é, possivelmente um dos mais conhecidos romances de Lídia Jorge. Com uma narrativa singular estrutural e formalmente, a autora põe em revista três tempos da história portuguesa: do período da ocupação colonial, do desfazimento do regime sanguinário de Salazar e do tempo corrente, feito de relembranças das marcas indeléveis do tempo e dos tímidos avanços sociais. Com este romance, a escritora estabelece alguns dos temas marcantes na sua ficção: a condição feminina numa sociedade feita de toda sorte de machismos; a desconstrução da história dos vencedores, feita sempre da mentira e do silenciamento dos vencidos; e o valor do imaginário no estabelecimento do lugar de enfrentamento e questionamento do instituído. Tudo isso pela ruptura da consciência de uma personagem feminina que se situa entre o lugar de testemunha do horror e seduzida pelo fogo das ideologias e depois de compreensão sobre seu lugar e o papel do seu país na fabulação de realidade cruel demais mesmo olhada a tanta distância.

2. O vento assobiando nas gruas. Com este romance, a escritora retorna ao vilarejo fictício de Valmares para outra vez tocar em temas que são caros ao seu trabalho como ficcionista: os pares em confronto amor e ódio, este último sempre designado pelo signo da violência, maleita que assola sorrateira ou explicitamente as relações de variada ordem. Mas, se há um dor que atravessa ponta a ponta a narrativa, há um sopro de viva esperança por alguma transformação e modificação das coisas, ainda que tudo seja apenas a substituição de uma paisagem por outra. Como no romance indicado acima, se interceptam duas linhas temporais, cada uma com universos distintos: um contemporâneo assinalado pela modificação acelerada como se é comum de tempos de capitalismo selvagem; e um tempo passado, que revisita os de quando portugueses e africanos fizeram caminho de retorno ou de salvação para  Portugal. Amor, violência, história, segredos quatro termos que sintetizam um pouco do que o leitor encontra neste romance. Este e o primeiro livro foram publicados no Brasil pela Editora Record.

3. Antologia de contos. E, para que o leitor saiba sobre outras faces criativas de Lídia Jorge, fica a recomendação do que até agora, em 2020, é o seu único livro de contos publicado por aqui. Os textos dessa antologia preparada pela editora LeYa foram selecionados pela Professora Marlise Vaz Bridi e formam uma amostra bastante singular do trabalho literário da escritora portuguesa nesta forma literária como os contos “O belo adormecido” e Praça de Londres” colhidos de Marido e outros contos. Repetindo o que se designa na sinopse de apresentação desta antologia: “Os contos de Lídia Jorge se destacam pelos motivos aparentemente simples, ao mesmo tempo em que demonstram a qualidade da construção das narrativas por meio da precisão da linguagem, da escolha do ponto de vista que amplifica ambiguidades e sugestões, pelo fino desenho das personagens e dos ambientes e, sobretudo, pela articulação entre a subjetividade do mundo ficcional com a objetivação do mundo real.”

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. No dia 24 de agosto de 1944, nasceu Paulo Leminski. Sublinhamos a data do seu aniversário com uma boa recordação. Em 2013, ano de publicação pela Companhia das Letras da poesia completa do poeta, a página do Letras no Facebook realizou uma série de atividades; dentre elas, várias promoções que sortearem exemplares do livro, um sarau virtual e a catalogação de vários poemas de Leminski reunidos neste álbum

2. A edição n.19 da revista 7faces, dedicada à obra do escritor português Jorge de Sena, publicou alguns poemas inéditos no Brasil de Lídia Jorge. Para lê-los, basta acessar aqui. Todas as publicações desta revista de poesia são disponíveis gratuitas e online.

BAÚ DE LETRAS

1. A lista de aniversariantes da semana inclui ainda o nome de Jorge Luis Borges. O escritor argentino nasceu no mesmo dia de Paulo Leminski, mas em 1899. No blog, há várias publicações em torno da sua figura e obra. Recordamos o mais recente: uma excelente leitura de Guilherme Mazzafera sobre Esse ofício do verso, sublinhando a recente reedição entre nós deste livro de ensaios do criador do Aleph.

2. No blog, encontrará disponível dois textos sobre dois romances de Lídia Jorge: a) este, sobre o primeiro livro recomendado na seção “Dicas de leitura”, A costa dos murmúrios; e b) este outro, sobre outro de seus livros sempre colocado em alta pelos especialistas na sua obra, Combateremos a sombra.

3. Pedro Fernandes comentou sobre o livro do nosso colunista Tiago D. Oliveira, agora semifinalista do Prêmio Oceanos ’20 As solas dos pés de meu avô. Para ler o texto, basta visitar aqui. O material é completado pela leitura de alguns poemas deste livro do poeta.


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