Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro. Esta foto, tirada em Paris, é uma das últimas conhecidas do poeta.


“Não me perdi por ninguém: perdi-me por mim
(Mário de Sá-Carneiro, carta a Fernando Pessoa)

“O meu destino é outro - é alto e é raro.
Unicamente custa muito caro:
A tristeza de nunca sermos dois...
(Mário de Sá-Carneiro, Partida”)


Um dos nomes do modernismo português. Ofuscado como ficou todos os poetas da época dado a genialidade de Fernando Pessoa, é, entretanto, um poeta singular. Viveu intensamente todos os arroubos que a vida pôde lhe proporcionar. Não em sua plenitude, é verdade. Muito do que gostaria de ter vivido ficou sublimado. Tornou-se matéria de sua obra. Ou terá vivido à surdina. Nem todos os lugares do mundo têm olhos. E a vida de cada um pertence ao alcova da existência. 

Mário de Sá-Carneiro, antes de tudo, foi se fazendo enigma. Genialmente, fez-se esfinge. Ou nunca saiu do labirinto que construiu para si e foi por ele tragado. E nunca terá existido para agradar a opinião pública retirando-se dela, mesmo quando essa opinião lhe foi acusativa. Talvez tenha sempre buscado o holofote, mas nunca alcançaria lidar com ele. Sujeito inconstância.

De obra breve, para ir à maré contrária da maioria dos escritores portugueses, sempre com vasta produção. A razão para isso deve-se a outro fator. Também teve vida breve. Uma coisa se liga a outra. Obra breve-vida breve. Mas, o que produziu deixou relevância na literatura de seu país. Breve e intensa. Composta em pouco mais de três anos.

Mário de Sá-Carneiro nasceu Lisboa. Em 1890. Tentou iniciar os estudos superiores no curso de Direito em Coimbra, mas desistiu ao fim do primeiro ano. Foi viver em Paris. Sob a proteção financeira do pai, levou uma vida de imaginações, flânerie, extensa correspondência com Fernando Pessoa e na feitura de sua obra. Morreu quando contava apenas vinte e seis anos. Estava há quatro anos no então centro do mundo. Descentrado, vestiu-se para morrer como um dândi. Tombou num quarto do Hôtel de Nice com doses cavalares de estricnina e arseniato. Foi no curto tempo parisiense que pôde acompanhar a efervescência das vanguardas, como o cubismo de Pablo Picasso e o futurismo de Marinetti. 

Nesse intervalo deixou quatro obras publicadas e uma por publicar: Amizade - peça de três atos (1912), escrita com o amigo Tomás Cabreira Júnior; Dispersão, livreto com 12 poemas (1913); A confissão de Lúcio (1914), descrito como uma novela, mas de conteúdo puxado para o ensaio narrativo; Céu em fogo - mais um conjunto de oito novelas (1915); e o a publicar Indícios de oiro, livro de poemas cujas peças expôs numa das edições da revista Orpheu, periódico que serviu de ponto de partida para toda uma época da literatura portuguesa e do qual foi a figura principal, e na revista Presença.

Obra breve e intensa. Uma transfiguração autor-obra, certamente. O poeta não nega o fogo da necessidade que guia o punho de todo grande escritor. Faz parte de seu exercício de escrita a sua intensa colaboração a jornais e revistas. Se tivesse sido só um dos mentores de Orpheu, o turbilhão que revirou a forma de se fazer literatura em Portugal, já teria contribuído muito para com a arte. Mas, alcançou ir mais longe e a obra atesta isso, seja pela variedade, seja pela intensidade, seja ainda pela criatividade.

Herdeiro de uma geração decadentista e simbolista formada por nomes como Alberto de Oliveira, António Nobre, Camilo Pessanha e Eugénio de Castro, a literatura de Mário de Sá-Carneiro é continuamente influenciada por esses autores e por outros anteriores, como Fialho de Almeida. Deste herda o interesse pela loucura, pela degenerescência; daqueles, o gosto pelo suntuoso, pelo luxo - traços perceptíveis com certo vigor na prosa - ou mesmo o uso de alguns elementos motivadores, recorrentes na poesia, como os símbolos heráldicos, a poesia do eu individual em autodeslocamento para si, num gesto narcisista. 

“Sua poesia insere-se num limiar entre a expressão dos desvarios do sofrimento - a dor de alma transportada a um plano estético - e a configuração de um sujeito poético em sintonia com uma dispersão própria.” É assim que sintetiza sobre a obra de Sá-Carneiro o crítico Fernando Paixão no seu livro Narciso em sacrifício. O mesmo autor, noutra passagem dessa obra diz que toda idealização do poeta de Dispersão não se desenvolve em sentido otimista, sua poética “volta-se para perceber o sujeito em declínio, reproduzindo uma nostalgia da origem.

Na apresentação biográfica sobre o poeta feita para o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, Paula Morão destaca que O autor de Indícios de oiro conhece igualmente, como os seus companheiros de geração, as poéticas europeias do seu tempo, como podemos reconhecer, por exemplo, na inspiração em [Edgar Allan] Poe de alguns textos em prosa de teor policiário, ou no tratamento do duplo na esteira da poética simbolista (pensamos em Oscar Wilde em muitos passos da obra de Sá-Carneiro), ou ainda no uso de motivos como o glosado em “Salomé” e “Bárbaro”, devedores de uma longa linhagem na literatura e nas artes da Europa finissecular. O acesso a livros e revistas portugueses e estrangeiros trará, além deste conhecimento de uma tradição recente, o contacto com a literatura e a arte que em Paris e noutros lugares da Europa se fazia ao longo dos anos de formação do futuro poeta, estando presente com clareza nas experimentações feitas na linguagem e nos temas dos poemas de datas mais tardias.

Vida breve-intensa. A amizade que manteve com Fernando Pessoa, um dos encontros mais preciosos produzidos pela literatura e uma das relações mais profundas que certamente cultivou, ofereceu outro patamar ao poeta e é difícil imaginar a sua obra sem o papel do amigo; o autor de Mensagem e leitor primeiro de seu obra, foi o maior incentivador à carreira de Sá-Carneiro. É dos dois a formulação de uma estética denominada sensacionismo, pensada e descrita como uma vanguarda portuguesa que colocaria a literatura de Portugal no debate entre as vanguardas europeias e contribuir para ampla reflexão que se formava sobre a poesia moderna. Nas suas anotações, Pessoa admite que é difícil destrinçar a parte de cada um [a dele e a do amigo] na origem do movimento e, com certeza, absolutamente inútil determiná-lo.

Fernando Pessoa entendia também que nenhum outro escritor praticara com melhor rigor a estética do interseccionismo. Isso porque se vislumbra seu tratamento tanto ao nível da técnica e sobretudo ao nível da fragmentação do eu. Exemplo são os poemas “Manucure”, que se irmana às várias expressões de vanguarda (sobretudo cubista e futurista), e no singular poema n.7: Eu não sou nem outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o outro”. 

Outros leitores, entretanto, associam Mário de Sá-Carneiro ao paulismo, também um conceito de estética formulado por Fernando Pessoa para designar uma poética enredada ainda dos preceitos saudosistas, comprometida que estava em exprimir certa atmosfera vazia e tediosa do espírito. Segundo estes o poeta de Indícios de oiro funciona como elo para a revolução promovida por Pessoa. O fato é que, toda a potencialidade do eu cindido tem seu princípio na poesia de Sá-Carneiro e o amigo ampliou isso ao radicalismo do drama da expressão do eu. Outra vez vale recorrer a Fernando Paixão. “Em Sá-Carneiro, por exemplo, são recorrentes o movimento de dispersão e o império ideal sonhado; a impossibilidade de repouso na realidade e o dilaceramento subjetivo expandem-se através de vertigens. Já em Fernando Pessoa os heterônimos sugerem múltiplos raios de alargamento a se desdobrarem em trama.

Debate à parte, sempre foi o poeta dos heterônimos quem melhor disse sobre o dândi de ansiedade sensacionista:

Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito de sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esse dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deus, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino: estagna só deus fingido, doente da sua ficção.

Assim discorre Pessoa no obituário escrito para a revista Athena em novembro de 1924. E assim conclui:

Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor.

Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação dela, juntou-se, à indiferença, que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua scribebat, barbara terra fuit. Mas, se a terra fora outra, não variara o destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a vida de todos; porém alargou seus muros até os confins da terra. A glória é dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim.

Foi também Pessoa quem redigiu uma tábua bibliográfica sobre o poeta, assinalando seus trabalhos organizados em livros e textos avulsos, onde relata ter Sá-Carneiro lhe deixado inéditos com a indicação de publicá-los. Na ocasião, o poeta de Mensagem disse não haver público adequado para receber a obra do amigo; construiu, desse modo, a ampliação de um enigma, o estabelecimento de um mito. Pessoa sempre soube o que fazia. Ao menos sobre a eternidade.

Já agora é possível acreditar que Mário de Sá-Carneiro permanece tal como constatava numa carta ao amigo: “Vou vivendo como sempre, olhando muito para mim, sonhando além, para logo, cepticamente encolher os ombros e prosseguir sonhando... A eterna dobadoura... símbolo mesquinho, mas ai, bem real da existência. Pelo menos da minha existência. Dobadoura ou cata-vento? Não sei. E tudo isto é tão triste...

“Eu fui alguém que se enganou
E achou mais belo ter errado.
Mantenho o trono mascarado
Aonde me sagrei Pierrot”
(Mário de Sá-Carneiro, “Elegia”)


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