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Revisitando Mário de Sá-Carneiro: uma homenagem no ano do centenário da sua morte

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Por Maria Vaz Escrever sobre um grande vulto é sempre assim: difícil. Uma alma que escreve vagueia sempre por mundos envoltos em sentidos, em que as palavras se perdem ou não ecoam a devida intensidade da sua mundividência. Sobra-nos a tarefa de adivinhar, nas entrelinhas daquilo que se disse e se escreveu, um pedaço de céu ou um qualquer brilho que alguém esqueceu. Dito isto, falar de Mário de Sá-Carneiro implica subir e descer as escadas dos deuses e, inevitavelmente, confrontar a iluminação do cume do Olimpo com o submundo de Hades. Teorias há no sentido de que um homem se resumiria a uma previsibilidade de acontecimentos entre duas datas: o nascimento e a morte. Mas quando falamos de poetas e de poesia, tocamos um mundo do absoluto em que a morte nada significa além da transformação da matéria: o corpo vai, mas ficam as palavras e os sentimentos petrificados em estrofes, combatendo a energia destrutiva de um tempo em que tudo perece. Eles permanecem. Estão condenados à ...

Orpheu ou 100 anos de um ano que não acabou

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Fernando Pessoa e o segundo número de Orpheu , por Almada Negreiros (detalhe). “Se existisse qualquer instinto do sensato em moderna literatura, eu começaria pela paisagem e terminaria pelo Orpheu . Mas, graças a Deus, não há nenhum instinto do sensato em moderna literatura, por isso deixo de parte a paisagem e começo e termino pelo Orpheu .” – Álvaro de Campos A revista surgida com o afã de ser uma publicação trimestral sobre literatura não nasceu ao acaso. Ela é produto de outros movimentos que já rondavam o circuito literário português ou é a conjunção de uma quantidade variável de fatores que culminaram na sua criação. Talvez esteja aqui, sem quaisquer misticismos, a raiz de sua eternidade. Além disso, Orpheu  significou um ponto fora da linha comum que dominava Portugal. Antes, em 1910, por exemplo, havia sido publicada outra revista com mesmo afã, A Águia , mas com ambição maior: ser um mensário. Sim, numa época que não deve, de maneira alguma ser confundida com a ...

Mário de Sá-Carneiro

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Mário de Sá-Carneiro. Esta foto, tirada em Paris, é uma das últimas conhecidas do poeta. “Não me perdi por ninguém: perdi-me por mim” — Mário de Sá-Carneiro, carta a Fernando Pessoa “O meu destino é outro — é alto e é raro. Unicamente custa muito caro: A tristeza de nunca sermos dois...” — Mário de Sá-Carneiro, “Partida”) Um dos nomes do modernismo português. Ofuscado como ficou todos os poetas da época dado a genialidade de Fernando Pessoa, é, entretanto, um poeta singular. Viveu intensamente todos os arroubos que a vida pôde lhe proporcionar. Não em sua plenitude, é verdade. Muito do que gostaria de ter vivido ficou sublimado. Tornou-se matéria de sua obra. Ou terá vivido à surdina. Nem todos os lugares do mundo têm olhos. E a vida de cada um pertence ao alcova da existência.  Mário de Sá-Carneiro, antes de tudo, foi se fazendo enigma. Genialmente, fez-se esfinge. Ou nunca saiu do labirinto que construiu para si e foi por ele tragado. E nunca terá existido para agradar a opi...