Por que “Frankenstein” é mais relevante hoje que há 200 anos

Por Michael Harris



Num gelado dia de 1803, no Colégio Real dos Cirurgiões, em Londres, um grupo de pessoas viu como Giovanni Aldini aplicava uma descarga elétrica na cabeça de um condenado que havia sido executado antes. Os músculos da mandíbula tremeram. Depois, Aldini deu outra descarga, desta vez nas costas e o cadáver pareceu como que se sentasse. Havia nascido o que se conhece como vitalismo.

Qual era o limite das invenções da humanidade? Poderíamos animar o inanimado? Brincar de ser Deus? Enquanto as mentes pensantes do século XIX debatiam sobre estas questões, a jovem Mary Shelley, que passava uma noite numa mansão alugada a Lord Byron, teve um sonho inspirador que serviu de ponto de partida para um romance chamado Frankenstein. Nele, pulsava um emergente terror pela tecnologia, até um furor pelo progresso. E agora, justamente dois séculos depois, ainda estamos tomados por esse estranho sonho de Shelley.

O termo “ficção científica” não foi cunhado até várias décadas depois, mas Frankenstein se antecipou radicalmente em nossa imaginação coletiva. Tal como Charles Darwin havia descoberto nosso passado mais remoto, Mary Shelley fizera o mesmo com o nosso futuro, com as profecias da evolução que estavam por chegar. Mas ou menos ao mesmo tempo que estava escrevendo o romance, Samuel Butler lançava ao mundo sua preocupação “que as novas tecnologias representam uma sorte de seres que estão acima de nosso poder para destruí-los... Não apenas estamos escravizados, mas consentimentos tal condição absolutamente”. E esse nível de paranoia se dava quando os artefatos futuristas eram ventiladores e máquinas de escrever.

Butler dava ouvidos ao perigo, mas foi Shelley quem deu um nome. Frankenstein é o avô de 2001. Uma odisseia no espaço, de O exterminador do futuro, de Guerra nas estrelas. É o turvo eco que ressoa em cada história do tipo do que somos feitos. O sonho enfermo de Shelley se expandiu, com cada vez piores augúrios, ao ponto limite em que todo avanço parece levar consigo a etiqueta “Alerta Frankenstein”.

Como nos relacionamos hoje com esse perigo? Neil Jacobstein, chefe de Inteligência Artificial e Robótica em Singularity University do Vale do Silício, sabe como detectar agora esses temores. Segundo ele, nossa ansiedade Frankenstein não está bem administrada: “Somos muito mais sensíveis a perigos improváveis que a perigos crônicos do dia-a-dia. Imagine que tivéssemos dado vida a uma criatura e que ela, sozinha, tenha assassinado 44 mil pessoas nos Estados Unidos por ano. Logo, a consideraríamos como um monstro realmente perigoso. Pois esse monstro se chama carro. Agora, se pudéssemos aplicar a tecnologia dos carros sem condutor a esse problema e com isso reduzir o número de vítimas em acidentes, estaríamos falando de uma descoberta alucinante”. Neste caso paradoxal, Frankenstein seria nosso salvador.

Jacobstein também sugere que a inteligência artificial gerará muita riqueza, até o ponto que se fará possível uma renda básica e universal (quem sem dúvida vamos necessitar porque também gerará muitíssimo desemprego). Os veículos sem condutores farão que alguns dos ofícios mais comuns se tornem obsoletos, como o de caminhoneiro ou taxista. A Oxford Martin School prevê que 35 por cento dos trabalhos de rotina no Reino Unido e 47 por cento nos Estados Unidos passarão por automatização em ou duas décadas. Desta vez, o “filho” desta tecnologização global não será um monstro com cicatrizes e emendas, mas o que poderá tomar forma de uma massa descontente.

Se isto soa como um drama aterrorizante é só porque Hollywood tem feito com que abordemos o dilema que Frankenstein nos impõe de uma forma totalmente errada. Deve existir algo em torno de meia centena de versões no cinema e quase todas se prendem ao sentido moral da questão. O romance de Mary Shelley não alerta sobre o perigo de criar algo, mas sobre o perigo de abandonar o criado. A criatura que ela imaginou, nada mais para nascer, é nobre e amável. Só quando o doutor Frankenstein o recusa como sua criação, entra numa espiral de amargura e ódio.

Pense nisso, como aponta Jacobstein, em termos de paternidade: “Os pais fazem tudo o que podem para prevenir desvios significativos nos valores de seus filhos mas, às vezes, um desses filhos se converte em terrorista; para isso temos um sistema imune social que vigia os comportamentos malignos e, no caso de ser necessário, erradicamos o problema. Isso funciona para seres humanos maus, para vírus de computadores e para os ataques de inteligência artificial hoje em dia”.

Sempre há uma dimensão paternal quando falamos de criações: essa é a conclusão moral do livro de Mary Shelley e a razão porque Frankenstein continua a nos seguir dois séculos depois. Os problemas chegam quando abdicamos dessa responsabilidade. Aí está a frase de Robert Oppenheimer, o diretor do célebre Projeto Manhattan: “Quando encontras que algo é tecnologicamente atraente, segues adiante e o fazes, e só debatas o que fazer com ele depois de haver terminado com sucesso; assim aconteceu com a bomba atômica”. Essa concepção da tecnologia conduz a uma espécie de fome voraz pelo progresso que nem sempre se ajusta ao que seria a versão tecnológica do juramento hipocrático. Tal como o que acontece por trás do ato físico da procriação, a dura realidade às vezes também lhe dá uma bofetada pós-coital ao criador tecnológico. A resposta de Oppenheimer sobre a bomba é muito famosa: “Converti-me na morte, no destruidor dos mundos”. De maneira semelhante, alguns ex do Vale do Silício (Tony Fadell da Apple, Tristan Harris do Google) agora admitem que acordam entre suores frios pensando “com o que contribuímos para o mundo?”

O que se passa com a criatura do doutor Frankenstein? Nem sequer tinha nome no romance, quase sempre damos o nome do inventor. E talvez não seja um erro mas uma premonição: criador e criatura, condenados a uma espécie de macabra fusão de identidades. O romance de Mary Shelley conclui com o doutor perseguindo eternamente sua criação pela tundra ártica. Esse é o destino de todo criador sem consciência: perder-se de si mesmo no sonho de Prometeu. Frankenstein está mais atual do que nunca porque podemos perceber que nossas criaturas, endiabradamente poderosos, saem do laboratório aos tropeções, desconjuntadas, remendadas... E é com essa capacidade de persistência que lidam com a vida. Competimos para dar-lhes nomes, para cuidar delas. Temos pressa por insuflar humanidade a cada um de nossos novos e potencialmente rebeldes filhos.


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