Huckleberry Finn

Por Norman Mailer

Mark Twain em suas vestes da Universidade de Oxford. Foto: Alvin Langdon Coburn, ca. 1909. A rara foto de Mark Twain em cores utiliza-se do antigo processo autocromo.


Existe remédio mais doce para a depressão que as velhas resenhas sobre grandes romances? Na Rússia do século XIX, Anna Kariênina foi recebida da seguinte maneira: “A paixão de Vronski por seu cavalo é paralela à sua paixão por Ana [...] Lixo sentimental [...] Mostra-me uma página”, dizia The Odessa Courier, “que contenha uma ideia”. Moby Dick foi queimada: “Descrições gráficas de uma esterilidade tamanha que não recordamos encontrá-las antes na literatura marinha [...] Curiosa ocorrência de loucos [...] Coisa triste. Os quakers de Melville são alguns náufragos bobos e faladores e seu lunático capitão é um chato insuportável”.

Com esta medida, Huckleberry Finn – publicado em Londres durante a primeira semana de dezembro de 1884 e dois meses depois nos Estados Unidos – tampouco se salva. O Springfield Republican não o julgou pior que “um detalhe vulgar bem-intencionado [...] O Sr. Clemens não possui um sentido confiável de propriedade”, e a biblioteca pública em Concord, Massachusetts, teve confiança suficiente para censurá-lo: “o lixo de sempre”. Segundo o Boston Transcript, “outros membros do Conselho da Biblioteca dizem que a obra se caracteriza por ser irregular, seca e pouco elegante; e consideram que o livro é mais adequado para as periferias que para as pessoas inteligentes, respeitáveis”.

Mesmo assim, o romance não foi considerado totalmente desagradável. Não existiu grandes elogios críticos, mas as resenhas, em sua maioria, foram amistosas. Uma boa narrativa, segundo o consenso. Mas a ninguém lhe ocorreu que havia chegado um grande romance no mundo literário de 1885. O clima da crítica dificilmente poderia haver antecipado os louvores de T. S. Eliot e Ernest Hemingway meio século depois. No prefácio da edição inglesa, Eliot chamava-a “uma obra mestra [...] O gênio de Twain completamente realizado”; e Hemingway iria mais longe. Em Green Hills of Africa (As verdes colinas da África), depois de acabar com Emerson, Hawthorne e Thoreau, e de ajustar contas de um modo amistoso com Henry James e Stephen Crane, declarou: “Toda a literatura moderna dos Estados Unidos tem sua origem de Huckleberry Finn [...] É nosso melhor livro. Toda literatura dos Estados Unidos vem daí. Antes dele nada existia. Depois não existiu nada tão bom”.

Hemingway, com seu incomparável dom para sentir o vin du pays perfeito para uma tarde inesquecível, não pode, entretanto, ir mais longe que outros romancistas num aspecto terrível: nunca se sentiu à vontade para levar adiante seus juízos literários. Ao reconhecer a literatura de outros, usava a regra de medir sua própria obra: se eu der uma boa nota a este livro, isso ajudará a apreciação de meu trabalho? Obviamente que Huckleberry Finn passou no teste.

A suspeita surge logo de imediato. Mark Twain está fazendo o tipo de literatura que só Hemingway pode fazer melhor. É preciso se certificar, evidentemente. Pergunto-me se é válido dizer que serve ter lido Huckleberry Finn há tanto tempo para descobrir que a releitura torna nova uma obra. Talvez tivesse onze anos quando a vi pela última vez, ou melhor, treze, mas hoje só me lembro que cheguei a ela depois de Tom Sawyer e que me decepcionou. A verdade é que não concluí As aventuras de Huckleberry Finn. A personagem de Tom Sawyer que tanto havia me fascinado no primeiro livro foi modificada e deixou de parecer agradável. Huckleberry Finn ficava muito distante de mim.

Permita-me oferecer alguns dados. Pode ter valido a pena a espera. Suponho que sou mais um leitor entre dez milhões que dizem que Huckleberry Finn é uma obra extraordinária. Certamente, por tudo o que sei, é um grande romance. Imperfeito, trapaceiro, irregular, que não vai muito além de conseguir alguns acertos e de fazer efetivas demasiadas apostas – seu humor raras vezes está acima do melhor – mas o livro está lá. Experimentei o entusiasmo mais raro. Depois de um tempo compreendi meu peculiar marco de referência. O livro era apenas contemporâneo! Eu não estava lendo um autor clássico e sim estava vendo uma nova obra como se tivesse sido enviada por um editor. Era como se me tivesse chegado com uma dessas cartas estranhas que dizem: “Não dizemos isso sempre, mas acreditamos que temos uma extraordinário primeiro romance para enviá-lo”. De maneira que era como se estivesse lendo From Here to Eternity em marolas, ali por volta de 1950, ou Lie Down in Darkness, Catch 22 ou The World According to Garp (que se lê como um primeiro romance fabuloso). Vez ou outra alguém se sente mareado, surpreendido, desconcertado, posto a competir, a criticar e finalmente termina entusiasmando alguém. Havia surgido um novo escritor. Podia ser um amigo em potencial ou não, mas certamente tinha talento.

Essa foi a sensação ao ler Huckleberry Finn pela segunda vez. Resisti à situação até que no fim me rendi. Sempre é possível se render a um livro que tenha um campo magnético forte, cedo ou tarde. Senti como se tivesse nas mãos da obra de um jovem escritor de 30 ou 35 anos, um companheiro prodigiosamente talentoso originário do Meio-Oeste, de Missouri provavelmente, que havia tido a audácia de escrever um romance histórico sobre o Mississippi como poderia ter sido há um século e meio e como se este escritor jovem o tivesse arranjado para oferecer-nos um espetáculo de virtuosismo narrativo. Em quase todos os capítulos surgiam páginas novas e surpreendentes personagens como se elas fossem uma cama de vento de onde tudo podia nos saltar. A confiança do autor aparecia tão completa que era capaz de lidar com todos os homens e mulheres colocados por Deus em metade dos Estados Unidos. Os bêbados perdidos como o pai de Huck Finn aparecem marcados de tão amarga violência que quase se sente o seu cheiro. Cavaleiros e piratas de rio, jovens, atraentes mulheres cheias de força e “bravura”, duras velhas carregadas de aforismos tricotados como se por suas agulhas de tricô, homens confiantes e tolos – que cornucópia de plebe e aristocracia habitam as margens do rio do autor.

O romance seria ainda mais sensacional se o escritor não insistisse tanto no fato de que ele era um jovem estadunidense moderno escrevendo a partir de 1984. Seus anacronismos não eram tantos nos acontecimentos históricos – esses pareciam suficientemente exatos –, mas o ponto de vista era demasiado atual. Poderiam ter melhores situações – repito, este jovem escritor tinha talento – mas não deixava mostrar suas influências literárias. O autor de As aventuras de Huckleberry Finn obviamente havia aprendido muitíssimo com grandes escritores como Sinclair Lewis, John Dos Passos e John Steinbeck, havia se criado com Faulkner e havia herdado o tom alucinado que Faulkner podia conseguir quando escrevia sobre homens maníacos lutando em pântanos profundos; também havia absorvido muito do que Vonnegut e Heller podiam ensinar sobre a elasticidade da ironia. Se o autor tinha uma ideia mais sólida do picaresco de Saul Bellow em Augie March, ainda assim se percebia como uma derivação dessa obra. Em partes se poderia jurar que havia aprendido de memória The Catcher in the Rye, e provavelmente entendeu Deliverance e Why Are We in Vietnam? Até poderia ter estudado os maneirismos das estrelas do cinema. Podia se sentir em suas páginas os traços de John Wayne, Victor Mclaglen e Burt Reynolds. Era inquestionável que o autor havia visto muita comédia hollywoodinesca em seu povoado. Seu instinto para o que era a vida nas aldeias do Mississippi da Guerra Civil era tão agudo como farsesco e não podia ser mais comercial.

Não importa. Com um talento tão grande como este, poder-se-ia perdoar a visão óbvia para o sucesso. Um grande talento tem que passar por grandes imitações para encontrar seu próprio estilo, e um desejo de sucesso popular, embora perigoso para a escrita séria, não é necessariamente fatal. Sim, pode-se aceitar os roubos de outros escritores, dado o escopo deste trabalho, o brilhantismo do conceito – captar a América rural através de uma viagem numa jangada por um grande rio! Pode-se até maravilhar-se desconfortavelmente com a profundidade do instinto de ficção do autor. Com o menino Huckleberry Finn, esse novo romancista conseguiu nos dar um caráter sem dimensão confortável e mensurável. É fácil para as personagens dos romances modernos parecerem mais vívidas do que as inúmeras figuras dos clássicos, mas, mesmo assim, Huckleberry Finn parecia estar mais vivo do que Dom Quixote e Julian Sorel, como naturalmente próximo à sua própria mente, como nós somos como os nossos. Mas com que frequência um herói que é tão absolutamente natural na página também consegue adquirir uma estatura moral convincente à medida que suas aventuras se desenvolvem?

Vale repetir. Nas garras atraentes desse talento, a pessoa está pronta para perdoar o autor de Huckleberry Finn por toda influência que ele absorveu tão promiscuamente. Ele fez uso tão fértil de seus empréstimos. Pode-se até animar sua aparição em nossa cansada cena literária se não fosse pela única transgressão que vai longe demais. Estas são passagens que fazem mais do que emprestar o estilo de um autor – elas copiam isso! A influência é mental, mas o roubo é físico. Quem pode declarar com certeza que uma grande parte da prosa em Huckleberry Finn não é retirada diretamente de Hemingway? Sabemos que não estamos lendo Ernest apenas porque o autor, obviamente temeroso de que seu tom esteja se aproximando demais, tenha o cuidado de borrifar seu texto com “a-clutterings” e “warn'ts” e “anywheres” e “t’otheres”. Mas nós lemos Hemingway – e assim o vemos –, sabemos que estamos lendo o Hemingway puramente disfarçado:

“We cut young cottonwoods and willows, and hid the raft with them. Then we set out the lines. Next we slid into the river and had a swim [...] then we set down on the sandy bottom where the water was about knee-deep and watched the daylight come. Not a sound anywheres [...] the first thing to see, looking away over the water, was a kind of dull line - that was the woods on t'other side; you couldn't make nothing else out; then a pale place in the sky; then more paleness spreading around; then the river softened up away off, and warn't black anymore [...] by and by you could see a streak on the water which you know by the look of the streak that there's a snag there in a swift current which breaks on it and makes that streak look that way; and you see the mist curl up off of the water and the east reddens up and the river.”¹

Pelo que tenho dito até agora, espero, o prazer de ler este livro hoje. É o melhor elogio que posso oferecer. Usamos um padrão não dito de julgamento relativo ao escolher um clássico. Secretamente, esperamos menos que a recompensa de um bom romance contemporâneo. O leitor moderno inteligente médio provavelmente, sob tortura, admitiria que Heartburn era mais divertido de ler, minuto a minuto, do que Madame Bovary, e quem sabe até este aprendeu mais com aquele. Isso não quer dizer que o primeiro será superior ao segundo daqui a cem anos, mas que um romance clássico é como um belo cavalo carregando uma carga valiosa. Os clássicos sofrem com a distância das fofocas do dia-a-dia. A marca de quão bom Huckleberry Finn tem que ser é que se pode comparar com um número dos nossos melhores romances estadunidenses modernos e se destaca página por página, embaraçoso aqui, sensacional – absolutamente igual a um daqueles raros primeiros romances incríveis que aparecem uma ou duas vezes em uma década. Então eu falei sobre isso como um primeiro romance porque é tão novo e tão jovial e mesmo tão bobo que em algumas das chances que ele tem ganha destaque. Um romancista mais sábio nunca tocaria tão longe quando o trabalho já estava bem adiantado e tão na mão. Mas Twain faz.

Mas, em nome da compostura literária, permita-me não perder de vista o contexto verdadeiro. As aventuras de Huckleberry Finn é um romance do século XIX e também deve-se sublinhar suas grandes conquistas de magnitude literária. Direi, portanto, que a primeira medida de um grande romance pode estar em apresentar – qual uma pessoa de visível carisma – uma aura completamente visível. Poucas obras da literatura podem ser tão luminosas sem a presença de um símbolo majestoso. Em Huckleberry Finn enfrentamo-nos – com a possível exceção de Anna Livia Pluabelle – com o melhor rio que não apareceu em romance algum, nosso próprio Mississippi, e na viagem de Huck Finn e do escravo fugitivo por suas águas numa barca, nos mantemos na escravidão do rio. Mais que uma grande personagem, o rio é uma presença manifesta, um demiurgo que sustém o homem e o menino, uma deidade que os trai, alimenta, tudo: menos afogá-los, separá-los, fazê-los remar de volta. O rio flui como uma fuga musical através da essência da verdadeira narração que é nada mais que a relação paulatina entre Huck e o escravo fugitivo, este negro Jim cujo nome reúne a entranha exata do sistema escravocrata: não se chama Jim e sim Nigger Jim. O crescimento do afeto e conhecimento entre o branco e o negro, ambos fugitivos, é uma relação semelhante à relação do homem com o rio porque também está marcada de deslealdade e apoio, separação e retorno. De modo que isso os prepara para tocar essa última corda final do coração onde a compaixão e a ironia falam entre si e lhe dão portanto um boa guinada sobre nossas emoções mais escondidas.

Ao ler Hckleberry Finn alguém volta a se dar conta que o affair quase acabado, sufocado, cheio de ódio, desfalecente, entre brancos e negros continua sendo nosso grande love affair nacional e é melhor que não findemos em repugnância e miséria mútuas. Ao navegar sobre a correnteza deste romance regressamos àquele tempo feliz quando o love affair era novo e tudo parecia possível. Que bela é a recordação dessa emoção! Que outra coisa é a grandeza se não a riqueza indiscutível que deixa na memória uma vez que a esperança se endurece e que a paixão se esgota? Sempre é esperança da democracia que nossa riqueza esteja aí para voltar a gastar e o tesouro acumulativo de Huckleberry Finn consiste em nos dá a liberdade de pensar na democracia e sua promessa sublime, aterradora: que tenham seu dia as paixões e romances e sonhos e caprichos e ideais e egoísmo e esperanças, corrupções nefastas de todos os homens e mulheres e o mundo será ainda assim melhor, por há mais o bem que a maldade na soma de todos nós e nossas obras. Mark Twain, síntese todo desse humano democrático, entendeu a premissa em cada giro de sua pluma e menino tentou, retorceu atormentado e lapidou até esgotarmo-nos uma vez de amor pela ideia.

Notas:
¹ “então a gente cortava choupos e salgueiros tenros pra esconder a balsa com eles. Aí armava as linhas da pesca. Depois a gente entrava no rio e dava uma nadada, [...] mais tarde a gente sentava no fundo arenoso, onde a água dava pelos joelhos, e ficava observando o dia nascer. Nenhum som em nenhum lugar [...]. A primeira coisa que a gente via, olhando pra longe sobre a água, era uma espécie de linha obscura – a mata no outro lado do rio. Não dava pra ver nada mais [...] e daí a pouco dava pra ver uma risca sobre a água, e a gente sabia que ali tinha um tronco submerso numa corrente rápida que quebrava sobre ele e fazia a risca ficar daquele jeito; e a gente via a névoa subir encrespada da água, e o leste avermelhar, e o rio também, e dava pra enxergar uma cabana de toras na beira da mata, bem longe sobre a margem do outro lado do rio.” Tradução do excerto de Rosaura Eichenberg (L&PM Editores, 2011).

* Este texto é uma tradução livre de "Huckleberry Finn, alive at 100", publicado no suplemento Books, de The New York Times.


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