Boletim Letras 360º #384



DO EDITOR

1. Inicio este Boletim com uma nota, voltando a pensar sobre a atitude insensata de algumas pessoas no tratamento com o trabalho alheio. Peço desculpas ao leitor por me repetir, mas o assunto será sempre retomado toda vez que passarmos pelo constrangimento do ataque. É uma maneira de reeducação dos sentidos o apelo que se lê a seguir e divulgado esta semana na página do Letras no Facebook, onde uma de nossas colunistas foi exposta por um hater.

2. O blog Letras in.verso e re.verso está online desde o final de 2017. Chegou às redes sociais nos últimos anos do Orkut e está no Facebook desde 2010. Nesta rede, dois anos mais tarde, passamos a ocupar o espaço para, além de divulgar os conteúdos do blog, com notícias variadas relativas ao universo de nosso interesse, ou como se diz, de acordo com nossa linha editorial. Todo o trabalho executado por quem mantém esta página e pelos colaboradores que escrevem e publicam no blog é desempenhado sem quaisquer outros incentivos se não o afeto e o interesse pelo trabalho de ler, discutir, informar, entreter etc. no e pelo literário. Em nenhum momento, em todos esses anos, deixamos de respeitar a opinião de todos que por esses espaços transitam. Mas, não é a primeira vez (sabemos que não será última) que comentários ofensivos findam por escapar ao crivo do nosso controle. Reiteramos que estamos atentos a malfeitores. E, pedimos, muito encarecidamente, a troca do respeito que dedicamos para com todos. O debate, a proposição, é sempre bem-vinda, publicamente ou pelos demais canais. Mas, pense muito em como sua posição pode atingir negativamente quem só tem o defeito de levar esse barco adiante em terra de cegos. Se isso é impossível para você, então, não faz sentido sua presença neste endereço. Não é possível que do infinito deserto das redes esteja aqui seu lugar de desfazimento dos afetos. No mais, fica nosso obrigado aos que conosco convivem. É de convivências que se faz um mundo melhor.

3. A seguir, as notícias divulgadas durante a semana na página no Facebook (ou não) e a atualização das demais seções deste Boletim com as recomendações de leitura, assuntos de arredores do campo de interesse do blog e a sugestão de visita a algumas das publicações apresentadas aqui.


Sylvia Plat. Livro que reúne extensa parte da prosa dispersa da escritora ganha edição no Brasil. 


LANÇAMENTOS

Como um retorno desperta imagens da memória para se pensar a história.

Neste grande livro que entrelaça reflexão sociológica e memória autobiográfica, Didier Eribon relata seu retorno, depois da morte de seu pai, a Reims, sua cidade natal, e seu defrontamento com seu ambiente de origem, com o qual havia praticamente rompido trinta anos antes. Desse reencontro, vem o ímpeto de mergulhar no passado e retraçar a história de sua família, à medida que se dá conta de que a ruptura não se deveu exclusivamente a sua homossexualidade ou à homofobia que pairava no ambiente doméstico, mas também à vergonha que ele sentia de sua origem social. Ao evocar o mundo operário de sua infância, reconstituindo sua ascensão social e sua vida intelectual a partir dos anos 1950, o filósofo e sociólogo francês combina a cada parte desse relato íntimo e comovente elementos de uma reflexão sobre classes, sistema escolar, formação das identidades, sexualidade, política, democracia e a mudança do padrão de votos da classe operária — que é ilustrada por sua própria família que troca sua lealdade pelo Partido Comunista por partidos de direita e até de extrema-direita. Ao reinscrever assim as trajetórias individuais nos determinismos coletivos, Didier Eribon se questiona sobre a multiplicidade de formas da dominação e portanto da resistência. A tradução de Cecilia Schuback de Retorno a Reims é publicado pela editora Âyinè.

Os começos de Syvlia Plath.

Conhecida por seus poemas e pelo romance A redoma de vidro, Sylvia Plath escreveu desde muito cedo para revistas e jornais literários. Seus textos passaram a ser organizados em livro somente quinze anos após a sua morte. Johnny Panic e a bíblia de sonhos e outros textos em prosa, com introdução do poeta Ted Hughes e apresentação da escritora canadense Margaret Atwood, reúne os contos reproduzidos na primeira publicação deste livro, em 1977, outros posteriormente liberados pela mãe da autora, além de textos jornalísticos e trechos de seus diários. Os textos que compõem a obra cobrem um período de 14 anos ― os mais antigos são de quando a autora tinha 17 anos e o último, “Blitz de neve”, detalha os últimos dias de vida de Sylvia. A tradução é de Ana Guadalupe é publicada pelo Selo Biblioteca Azul / Globo Livros.

Um dos clássicos de Charles Dickens em nova edição.

A sorte não sorri ao pequeno Oliver Twist. Havendo ficado órfão assim que nasceu, foi criado em um asilo sem receber qualquer carinho. Aos nove anos, já sabe o que é passar fome, sofrer maus tratos e trabalhar de sol a sol em uma fábrica. Decide, pois, fugir para Londres buscando uma vida um pouco mais fácil. A grande cidade, no entanto, é repleta de perigos e de delinquência. Em mais uma de suas obras inesquecíveis, Dickens, a partir da trajetória do jovem Oliver, denuncia as dificuldade e penúrias que se abatem sobre os pobres de uma sociedade recentemente industrializada, sem, contudo, privar o leitor de notas de humor e esperança. A tradução de Renato Prelorentzou para Oliver Twist é publicada pela Editora da Unesp.

Publica-se pela primeira vez em português duas peças do teatro filosófico de Frantz Fanon.

A obra de Frantz Fanon reconquistou o interesse de vários editores brasileiros neste ano quando se celebra o 95º aniversário do psiquiatra e pesquisador. Agora, pelo independente Segundo Selo, publicam-se as peças O olho se afoga / Mãos paralelas. “O que também distingue suas peças das obras contemporâneas de Camus ou Sartre é o traço onipresente de Aimé Césaire, seja na imaginação ou na linguagem de Fanon. A língua de Fanon é atravessada por uma certa violência, inclusive sexual; como em Césaire, a imagem do estupro é frequentemente expressa ou sugerida por meio de uma linguagem metafórica”, observa Robert J. C. Young. A tradução é de César Sobrinho.

Piano mecânico retorna às livrarias com novo projeto gráfico e tradução após mais de 40 anos fora do mercado brasileiro.

“Pela primeira vez, depois do imenso banho de sangue da guerra, o mundo estava realmente limpo de terrores não naturais: fome, encarceramento, tortura, assassinato. Objetivamente, o know-how e a legislação global estavam recebendo sua tão esperada chance de transformar a Terra em um lugar agradável e conveniente para se aguardar o Juízo Final.” Nas primeiras páginas de seu livro de estreia, Kurt Vonnegut apresenta uma trama de ficção científica que parece uma utopia futurista, mas que aos poucos se revela uma distopia opressora: Piano mecânico se passa em um futuro não muito distante quando, enfim, as máquinas venceram. Após a Terceira Guerra Mundial, o mundo se reconstruiu e se reinventou. Quase tudo foi automatizado e a sociedade se dividiu em um novo sistema social, não mais baseado em dinheiro, mas em inteligência. Os indivíduos são classificados e registrados de acordo com seu QI e capacidade intelectual; a posição social um destino de glória ou esquecimento de cada um é definida exclusivamente a partir da análise desses dados. Do lado dos privilegiados, o dr. Paul Proteus leva uma vida confortável. Mas a visita inesperada de Ed Finnerty, seu inquieto e inconformado ex-colega de trabalho, abala sua rotina cômoda e previsível. Após esse encontro, Proteus começa a questionar a hierarquia e a imaginar se uma vida mais simples e sem privilégios não seria uma forma de voltar a se sentir humano. Mais do que uma crítica ao progresso desenfreado das tecnologias, Piano mecânico é um livro sobre o desconforto que toda estrutura social causa ao homem. A obra compartilha da ansiedade do pós-guerra presente em 1984, de George Orwell, e explora o medo de que, em tempos de paz, as nações venham a se submeter a níveis de controle social quase paranoicos. Publicado originalmente em 1952, Piano mecânico chegou ao Brasil em 1973 com o título Revolução no futuro. No ano seguinte, ganhou uma reedição pela editora Círculo do Livro, mas está fora das prateleiras desde então. Agora, mais de 40 anos depois, o livro de estreia de Vonnegut retorna às livrarias pela Intrínseca. Com tradução de Daniel Pellizzari e seguindo o projeto gráfico de Matadouro-Cinco e Café da manhã dos campeões.

Disponível os dois primeiros títulos que abrem a publicação da obra de Alexandre O’Neill no Brasil pela Editora Moinhos: No reino da Dinamarca e Tempo de fantasmas.

1. Como dirá Joana Meirim, pesquisadora sobre a obra do poeta, ler “No Reino da Dinamarca é uma oportunidade de perceber o diagnóstico e de testar a terapêutica, utilizando os termos de António Franco Alexandre. Também há algo de podre No Reino da Dinamarca de O’Neill, na óbvia alusão ao Hamlet, de Shakespeare, não só do ponto de vista moral, mas também na forma como se escreve. Neste livro, o leitor pode procurar sair do reino da Dinamarca, tentando dar saúde às palavras doentes através da leitura de uma poesia sem concessões a falsas retóricas”.

2. Como dirá Gustavo Rubim, pesquisador sobre a obra, “Em certo sentido, portanto, Tempo de Fantasmas concentra-se no exorcismo dos próprios fantasmas da poesia, monstros inconciliáveis com a vida terrestre nas dimensões lisboetas que a única referência a André Breton veio trazer para dentro do livro. Mas O’Neill nunca será um poeta estritamente ocupado com os fantasmas do seu ofício. Ou seja, nunca veio a ser um bom exemplo de “metapoeta” em regime de exclusividade e é até possível que o prefixo “meta-” seja o menos adequado para descrever o tipo de relação vigilante que sempre foi mantendo com a própria prática de escrever poemas”.

Uma revisão ao tema do deslocamento na literatura e no cinema.

Exodus: deslocamentos na literatura, no cinema e em outras artes, é organizado por Daniela Birman e Francisco Foot Hardman é publicado pela Relicário Edições. No texto de apresentação do livro, escrito por Milton Hatoum, assim se informa. “‘Expatriados em sua própria pátria’: assim Euclides da Cunha referiu-se aos seringueiros da Amazônia, migrantes nordestinos que trabalhavam para ‘escravizar-se’. Mais de um século depois, o número de deslocados internos, emigrantes e refugiados vem aumentando de modo alarmante. O cassino global do sistema capitalista-financeiro não tem como responder a essa ‘diáspora sem rumo’, na expressão de Foot Hardman. Os sem-teto, sem-emprego, sem-comida, sem-pátria — vidas subtraídas de qualquer dignidade — são vítimas também de preconceito, xenofobia, homofobia, perseguição política e todo tipo de violência física e moral. Este livro, tão necessário quanto urgente, reúne ensaios que examinam obras literárias, filmes e exposições de arte. Alguns textos evocam seres da errância, deslocados ou à margem da sociedade; ou examinam um rico diálogo entre escritores do Brasil, da China, da Argentina e da Rússia. Outros estudos analisam romances importantes, mas esquecidos ou ofuscados pelo cânone, e filmes sobre mulheres de esquerda que foram torturadas na resistência às ditaduras do Brasil e de Portugal. Não poderia faltar a esse Exodus um exame da gravíssima crise socioambiental do planeta. Aliás, as crises, tensões, violências e rupturas no processo histórico e na figuração artística desses ensaios são um convite para refletir sobre este tempo tão sombrio.” O livro traz textos de Francisco Foot Hardman, Camilo Soares, Mário Luiz Frungillo, Bruno B. Gomide, Fan Xing, Ana Silvia Andreu da Fonseca, Daniela Birman, Vera Maria Chalmers, Bruno Zeni, Lisa Carvalho Vasconcellos, Marcela da Silva, Ricardo André Ferreira Martins, Marília Gabriela Malavolta Pinho e Maria Helena Peres de Oliveira.

Nova tradução de As ondas, de Virginia Woolf.

Estruturado em torno das reflexões interiores de seis personagens ao longo de seu ciclo de vida, da infância à velhice, As ondas é também a mais complexa e intrincada de suas obras. Essa complexidade abrange tanto sua estrutura formal quanto a linguagem altamente figurada, sintética e frequentemente enigmática atribuída aos seus personagens. Graças à existência e publicação de dois rascunhos do romance, é possível se ter uma ideia do esforço de Virginia para cortar todo o excesso e todas as conexões fáceis e óbvias. O que restou é uma peça do mais puro e concentrado lirismo. É essa condensação lírica que tem constituído um desafio para as pessoas que se arriscaram a traduzi-la ao longo dos quase cem anos que nos separam da publicação do livro. É esse desafio que Tomaz Tadeu, após ter traduzido outras obras de Virginia para a Autêntica, resolveu enfrentar. Não há, nesse trabalho, nenhuma facilitação. Espera-se que seus leitores tenham a mesma estranheza e dificuldade que os leitores de língua inglesa têm experimentado ao longo de todos esses anos. Mas também o mesmo prazer e o mesmo encanto, após terem transposto os mistérios e os ardis plantados por Virginia ao longo de sua obra prima. Para isso poderão contar, tal como nos outros livros da coleção virginiana da Autêntica, com as numerosas e detalhadas notas redigidas pelo tradutor.

Novo livro de Angélica de Freitas.

Oito anos depois da publicação do já célebre Um útero é do tamanho de um punho — lançado em 2012 pela Cosac Naify e reeditado em 2017 pela Companhia das Letras —, Canções de atormentar traz o olhar afiado de uma poeta que, com inteligência e ironia, observa a si e ao mundo. Os poemas rememoram a infância no Sul, com o pé de araçá plantado pela avó, relatam o esforço inútil de tentar compreender o Brasil de hoje e discutem a injustiça, o machismo e a nostalgia de uma nação que não passou de projeto. Em “porto alegre, 2016”, que trata da migração e dos protestos nas ruas, violentamente refreados pela ordem pública, a poeta escreve: “agora a colher cai da boca/ e o barulho de bomba é ali fora/ e a polícia vai pra cima dos teus afetos/ munida de espadas, sobre cavalos”. Canções de atormentar reúne poemas ora ferozes, ora desiludidos, sem nunca perder de vista a urgência, a vivacidade, o humor e o tom incisivo que consagraram Angélica como um dos nomes mais originais da literatura contemporânea.

Uma investigação sobre o corpo nas artes.

Com raras exceções, o corpo foi historicamente tratado de modo negativo pelo pensamento filosófico: como cárcere da alma, obstáculo à moralidade ou entrave ao conhecimento e à verdade. Na estética, contudo, o corpo e a sensibilidade sempre foram temas centrais, desde seus momentos originários — a saber, quando ela se constituiu como uma disciplina filosófica própria, cujas questões não se deixavam mais reduzir àquelas de que se ocupam a epistemologia e a moral. No século XVIII, e posteriormente no século XIX, foi com frequência a partir de uma remissão, nem sempre desprovida de tensões, à organicidade de suas partes que se procurou organizar um todo a partir das artes particulares. Artes do corpo. Corpos da arte designam, assim, múltiplas maneiras de sistematizar a produção nesse domínio de objetos, as quais tomam o corpo como modelo estruturante. O livro é organizado por Jacinto Lageira, Pedro Hussak e Rodrigo Duarte. A publicação é da Relicário Edições.

Uma visita ao teor místico encontrado em algumas obras de Franz Kafka.

A obra Os sagrados cães dançarinos: mística e heresia em Franz Kafka é o resultado de mais de uma década de reflexões e indagações do autor, Eduardo Oyakawa, originando investigações sobre filosofia, teologia e história das ideias. A intenção do livro é trazer à luz a possibilidade de uma hermenêutica de cunho místico sobre algumas das narrativas kafkianas. Na tentativa de desvelar um aspecto sobrenatural, o autor propõe, de forma original e generosa com o leitor, investigar a face cruel e angélica do Deus escondido no mundo. Seu posicionamento é ousado, pois, apesar de haver intérpretes que afirmam a existência de um apelo ao transcendente na obra de Kafka, a maioria nega essa ânsia pelo divino. Portanto, em Sagrados cães dançarinos, coube ao autor, Eduardo Oyakawa, a difícil tarefa de investigar um aspecto pouco aprofundado: o teor místico encontrado em algumas obras kafkianas. São muitos os pontos altos deste livro de Eduardo Oyakawa: em primeiro lugar, a análise contextual, importante porque situa o leitor no espírito do tempo, proporcionando maior clareza nos escritos analisados; depois, a eloquente exposição do antagonismo vivido por Kafka entre a vida prática (muito influenciada pelo “pragmatismo mundano” do pai) e a vida espiritual (inspirada pelos antepassados judeus); e por fim, a uma apresentação sistemática dos intérpretes, oferecendo ao leitor uma multivisão das críticas feitas a este autor nascido em Praga, desvelando, de maneira surpreendente, uma religiosidade presente nos livros estudados, tendo como chave de leitura a hipótese scholeniana de mística herética. A belíssima análise do conto “O Covil”, da Metamorfose, e da novela O Processo, além da hermenêutica poética e sagrada de “Investigações de um Cão”, onde efetivamente a luz brilha na infinita noite kafkiana, oferecem ao leitor exigente textos muito bem escritos, mostrando que a linguagem não é mero adereço acidental, mas sim, essencial. O livro é publicado pelo selo Filocalia / É Realizações.

Dois livros de Miguel Sanches Neto na Ateliê Editorial.

1. Museu da infância eterna. A infância é uma energia que nunca morre. E que nos socorre nos momentos de maiores angústias. Lembrar que já fomos jovens, que já nos colocamos diante do mundo com os olhos de primeira vez. A infância talvez seja o tempo que nunca termina. É em tal sentido poético que as crônicas que reuni neste livro podem ser lidas como um eterno presente, como uma recordação constante desta geografia infantil, ficcional porque imaginária no retorno que fazemos a ela. O livro é publicado pela Ateliê Editorial.

2. Herdando uma biblioteca. Segunda edição revista e ampliada. Este livro é uma celebração do mundo dos livros. Uma celebração bastante pessoal, mas que não deixa de ter sentido universal, de valer para tantos outros leitores. O livro reúne crônicas que falam de leituras, das bibliotecas que herdamos e que deixamos de herança, daquelas que existem na realidade e das outras, às vezes melhores, que só persistem em nossa imaginação. Num certo sentido, Herdando uma Biblioteca é uma continuação – ou desdobramento – do romance autobiográfico de Miguel Sanches Neto, Chove sobre minha infância. Os temas que lá estão reaparecem aqui e o diálogo entre as duas obras é notável a cada passagem. Miguel lembra de saída que, órfão precoce de pai analfabeto, não poderia ter herdado livros. Restava então desvelá-los no quotidiano precário da Peabiru da infância, da banca de jornais que vendia alguns poucos volumes, na descoberta espantosa de livrarias e sebos em outras cidades. Para além das revelações pessoais – que nunca perdem seu teor ficcional –, os livros e as leituras são captados por uma lente singular: a que sabe de sua consistência pluriforme: são objetos sagrados e profanos, são cultuados, mas também apropriados pelos leitores, que os rabiscam com o lápis que está à mão, que os garimpam pelas prateleiras dos sebos. E esse conhecimento dos livros só o tem quem convive com eles numa intensidade quase obcecada, quem teme sobretudo a ausência deles – que traz a “pobreza de palavras” e a solidão. Borges uma vez falou, lembrando sua infância, que nunca se perdera fora da biblioteca de seu pai. Miguel Sanches Neto, você, leitor, eu e tantos outros, talvez possamos endossar a afirmação, ampliando-a. Em nosso mundo, não é possível se perder fora de bibliotecas. Mas é impossível não nos perdermos dentro delas. (Julio Pimentel Pinto)

Uma visita ao pensamento e as ideias que nos ajudam a pensar a África pós-colonial.

O colonialismo não se ocupou apenas de territórios. Também se provou bastante eficaz em povoar as mentes. E, por causa da hegemonia europeia e branca, durante muito tempo soubemos pouco a respeito da produção intelectual nos países africanos. Terminado o período colonialista, demorou ainda muitos anos para passarmos a valorizar — e a articular — nomes fundamentais da filosofia e das ciências sociais daquele continente. Temas como nação, autonomia cultural, racismo, identidade e entendimento da questão negra perpassam o melhor pensamento vindo da África nos últimos dois séculos. E nos ajudam, latino-americanos e brasileiros, a ler com mais acuidade a nossa própria posição no Ocidente. É o que propõe este livro pioneiro, escrito com clareza exemplar pelo historiador Muryatan S. Barbosa; uma obra de síntese, abrangente e sofisticada, para ser lida por qualquer pessoa interessada na construção de um sistema intelectual original e inovador. O autor oferece um panorama claro e articulado (no percurso social e na história das ideias) sobre pensadores e conceitos que ajudaram a romper os grilhões da África. E do mundo inteiro. A razão africana. Breve história do pensamento africano contemporâneo é publicado pela Editora Todavia.

Sequência da trilogia proposta por Rachel Cusk ganha tradução no Brasil.

Uma escritora se muda para Londres com seus dois filhos pequenos depois de se divorciar. O processo de recuperação dá início a uma série de transições — morais, pessoais, artísticas, pragmáticas — à medida que ela luta para construir uma nova realidade para si e para os filhos. Na cidade, ela se vê obrigada a confrontar dimensões da vida que sempre evitou. Enquanto se depara com assuntos prosaicos, como uma reforma ou a pintura do cabelo, ela considera questões sobre vulnerabilidade e poder, morte e renovação, num processo lento e doloroso para se reconectar consigo mesma e com a vida. Sob o olhar impessoal e agudo de sua protagonista, Trânsito recupera temas de Esboço, romance anterior de Cusk. Em ambos os livros, a narradora é a mesma, Faye, uma escritora recém-divorciada, sobre quem sabemos menos a partir de sua própria voz do que pelo modo como se relaciona com os outros. Em ambos os livros, a infância e o destino, o valor do sofrimento, a responsabilidade moral e os mistérios da mudança são examinados com vigor e profundidade. A tradução é de Fernanda Abreu e é publicada pela Editora Todavia.

REEDIÇÃO

A Editora 34 publica edição de bolso de Paraíso perdido.

Um dos maiores poemas épicos da literatura ocidental — de uma tradição que inclui a Ilíada e a Odisseia de Homero, a Eneida de Virgílio e a Divina Comédia de Dante —, o Paraíso perdido foi publicado originalmente em 1667, na Inglaterra, em um período especialmente turbulento daquela nação. Seu autor, John Milton (1608-1674), foi um dos grandes intelectuais de seu tempo e destemido apoiador da Revolução Puritana inglesa, que depôs e executou o rei Carlos I e proclamou a República em 1649. Com a restauração da Monarquia em 1660, Milton caiu em desgraça e, por um problema de saúde, gradualmente acabou perdendo a visão. Foi nessa condição que ele compôs este espantoso poema de 10.565 versos, inspirado no Gênesis, que narra a rebelião de Satã contra Deus, a Criação do Mundo e a Queda do Homem pela desobediência de Adão e Eva no Jardim do Éden. A edição de bolso traz o texto integral traduzido por Daniel Jonas seguido dos materiais de apoio da “edição comum”.

MERCADO EDITORIAL

Carolina Maria de Jesus na Companhia das Letras.

A editora anuncia que passará a publicar a obra da autora. O projeto incluirá diversos títulos, como escritos memorialísticos, romances, poesia, música, teatro e narrativas curtas, entre outros. A editora recuperará os textos de Carolina a partir dos cadernos originais, espalhados por diversos acervos pelo Brasil. Nascida em Sacramento (MG), em 1914, a escritora viveu a maior parte da vida em São Paulo (na favela do Canindé, em Santana e em Parelheiros) e exerceu diversos trabalhos informais. Em cadernos que encontrava no lixo, reaproveitava ou adquiria com grande dificuldade, deixou uma extensa produção literária. Alcançou o sucesso com o livro Quarto de despejo: Diário de uma favelada (1960), organizado pelo jornalista Audálio Dantas, mas muitos de seus escritos permanecem inéditos ou fora de circulação há décadas. A edição da obra na nova casa será supervisionada por um conselho editorial composto por Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina, pela escritora Conceição Evaristo e pelas pesquisadoras Amanda Crispim, Fernanda Felisberto, Fernanda Miranda e Raffaella Fernandez. O primeiro lançamento será Casa de alvenaria, parte integrante da série Cadernos de Carolina, que publicará os diários da escritora buscando a integridade dos manuscritos originais. O livro retoma o título de 1961, porém ganha edição completamente refeita e ampliada. A ideia é que o leitor tenha um registro detalhado e completo da experiência de Carolina após se mudar para o bairro de Santana, e de sua luta pelo reconhecimento como escritora.

LITERATURA E MEMÓRIA

Documento que pode ser o único manuscrito a apresentar registros da caligrafia de William Shakespeare está agora disponível online.

São três páginas de uma peça acerca da vida de Thomas More, advogado e polímata de Tudor, condenado à morte por se recusar a reconhecer Henrique VIII como Chefe Supremo da Igreja Anglicana. Sir Thomas More chegou a ser censurada sob a preocupação de que a encenação pudesse contribuir para uma revolta nas ruas de Londres. São os traços lexicais que levantam a suspeita de autoria da caligrafia de Shakespeare. Escrita entre possivelmente entre 1601-04, sabe-se que em 1603, o dramaturgo inglês chegou a revisar um roteiro para uma peça sobre More com outros três criadores. A presença do bardo estaria, segundo especialistas, em 147 linhas do material, incluindo uma passagem em que More é chamado para resolver os impasses anti-imigração. Além de Shakespeare identifica-se a presença dos dramaturgos Anthony Munday, Henry Chettle, Thomas Dekker e de um copista anônimo. Mais detalhes, incluindo o acesso ao arquivo disponíveis aqui.

DICAS DE LEITURA

No dia 7 de junho de 1970, morreu E. M. Forster. Autor de uma vasta obra, dos mais lidos e dos mais relidos. Embora pouco lembrado, há muito, também os leitores brasileiros viram chegar às suas mãos parte importante de sua literatura. Agora, passam-se cinquenta anos desde sua morte. E o Letras sublinha a data com a recomendação de quatro dos seus romances ainda disponíveis com alguma facilidade no mercado livreiro nacional. As informações sobre os livros são a partir do registro na quarta capa das edições brasileiras mais recentes que foram publicadas pela Globo Livros.

1. Howards End. Este é o quarto romance do escritor inglês. Foi escrito entre 1908 e 1910 e publicado nesse último ano, e imediatamente saudado pela crítica. O romance encena os conflitos ideológicos e emocionais que brotam da relação entre duas famílias da classe alta de Londres: uma inglesa, típica da alta burguesia da época, os Wilcox, e outra de ascendência alemã, os Schlegel, com duas irmãs e um irmão. Através de análises psicológicas muito refinadas e um estilo límpido, Forster constrói as oposições centrais que nortearão os desdobramentos do romance tais como a filiação da gente burguesa ao movimento imperialista versus a vivência dos ideais do humanismo. Paralelamente à trama principal, o autor esmiúça as relações que as irmãs Schlegel mantêm com Leonard Bast, um rapaz simples, que sonha ser culto, e que ocupará, ao final do romance, um papel fundamental em seu desenlace.  Com este livro, o escritor reflete de maneira crítica sobre diversos aspectos da sociedade inglesa do início do século XX. A edição da Globo Livros foi traduzida por Cássico de Arantes Leite e é enriquecida com um prefácio do escritor Ricardo Lísias.

2. Uma passagem para a Índia. Este é um dos mais famosos romances de E. M. Forster e é a prova sobre sua capacidade de fazer conviver, em um mesmo plano, diferentes pontos de vista. O núcleo do romance é baseado na visita de uma jovem inglesa à Índia, que pretende se encontrar com o futuro marido, partícipe da colonização. Espírito mais aberto que os colonos, ela tenta interagir com a população local até que um crime contra si coloca o problema do preconceito racial e social, levantando a questão da barreira aparentemente intransponível entre as diferentes culturas. Aberto o conflito, o romancista não cai no erro de reduzir tudo à sorte do exotismo ou da sobreposição colonialista de ideologias em oposição. O conflito nunca fica escamoteado, mas o que prevalece é a tentativa de Forster em estabelecer numa mesma base os pontos de vista. Este livro é resultado de duas viagens que o escritor realizou à Índia. A tradução da Globo Livros é de Cristina Cupertino e o livro foi prefaciado por Sandra Guardini T. Vasconcelos.

3. Um quarto com vista. Escrito em 1903 e publicado cinco anos depois, este é o terceiro romance de E. M. Forster. Parte da ação se passa na Itália, onde o autor esteve dois anos antes da concepção de um livro que se aproxima um pouco com o romance citado anteriormente, isto é, tendo em consideração a relação entre o escritor o lugar representado na ficção. A história aqui narrada é simples, mas as consequências, imprevisíveis. Lucy Honeychurch, moça ingênua e recatada, representante de uma aristocracia rural impura, pois filha de um advogado que construiu uma casa no campo, irá realizar um casamento de interesse com Cecil Vyse, integrante da aristocracia urbana londrina, que conheceu na Itália, numa viagem que mudará radicalmente a concepção de mundo da jovem e de si mesma. A tradução brasileira é de Marcelo Pen e conta com prefácio esclarecedor do escritor Luiz Ruffato.

4. Maurice. Escrito entre 1912 e 1913, o livro só foi publicado um ano depois da morte de E. M. Forster. Mas, em parte por isso e em parte pelo tema suscitado, ficou sendo talvez o seu romance mais conhecido. Bom, mas o que chama atenção aqui não especificamente sobre o tema, uma vez a homossexualidade já havia sido retratada em tantos outros escritores, mas a perspectiva adotada pelo autor, essa, é sim inesperada: ao invés de condenar suas personagens, que lidam em parte de maneira natural com a pulsão dos corpos, a narrativa prefere aposta na possibilidade de uma eterna felicidade dos amantes. Trata-se de um romance que enfrenta uma variedade de outras questões sociais e culturais na Inglaterra, desde religião, a moral e a educação, sem esquecer de um tema recorrente na sua prosa romanesca que é a diferença e os impasses das relações de classes. O romance foi também traduzido por Marcelo Pen e conta com prefácio Ronald Polito.

VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS

1. Na seção de vídeos em nossa página no Facebook acrescentamos um raro registro sobre E. M. Forster; são imagens realizadas em dezembro de 1958 pela BBC Londres nos seus aposentos no King’s College. O escritor havia regressado a Cambridge, onde foi estudante, cinco antes e aí viveu até os seus últimos dias de vida. 

BAÚ DE LETRAS

1. Por falar em efemérides como o cinquentenário da morte de E. M. Forster, esta semana passaram-se, dentre outros, os dezessete anos da morte do escritor chileno Roberto Bolaño.  No blog, há uma variedade de textos, traduções e resenhas sobre sua obra. Para esta ocasião recordamos dois dos mais recentes: aqui, uma leitura de Pedro Fernandes sobre O espírito da ficção científica; e, do mesmo autor, sua leitura sobre A literatura nazista na América. Estes dois romances de Bolaño foram publicados postumamente.

2. No mesmo dia dos dezessete anos da morte de Roberto Bolaño é aniversário de Walter Benjamim: aquele morreu a 15 de julho de 2003 e este nasceu a 15 de julho de 1892. E, uma das publicações mais lidas neste blog é uma que conta sobre a produção literária do filósofo germânico. Na post o leitor ainda encontra acesso a um catálogo com a tradução para o português de alguns dos seus sonetos.

3. Voltando a E. M. Forster, recordamos três publicações no Letras: a tradução deste texto que inscreve seu nome na galeria dos autores perfilados no blog; e a leitura de Pedro Fernandes sobre Maurice. Este romance foi, como muitos livros do escritor inglês, adaptado para o cinema pelas mãos de James Ivory ― o filme revelou o ator Hugh Grant, quem recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza de 1988; aqui, também podem encontrar texto sobre.

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