Visibile parlare: a representação do real nos cantos X e XII do Purgatório, de Dante Alighieri

Por André Cupone Gatti 

Purgatório (Canto X-XII). Federico Zuccari. Galeria Uffizi, Florença.



I.
A arte, mais que sugerir o que ela possa ou não ser, nos inquieta especialmente pelas diversas e mutáveis relações que ela mantém entre o objeto “real” e a sua imitação. A mais influente e conhecida conjectura a respeito do problema da representação é a ideia platônica segundo a qual a arte é a cópia da cópia, enquanto imitação de um objeto que, por sua vez, é a imitação da ideia original ou divina. Assim, podemos interpretar que a arte, talvez, nasça motivada por uma insuficiência do real em se revelar por completo, por uma necessidade de tornar transmissível aos nossos sentidos aquilo que a realidade, por si só, omite ou emana de maneira incomunicável. Da antiguidade aos nossos dias, a arte se apropriou da realidade, dos seus signos, da sua matéria bruta, experimentando-a com insaciável curiosidade e descobrindo, não raras vezes, em seu cerne, um pensamento ou uma essência invisíveis a um olhar não mediado pelo princípio da representação artística. Daí vem a sensação paradoxal de que, muitas vezes, a arte é mais real que a realidade.

Segundo Erich Auerbach, um dos mais importantes críticos literários do século XX, o poeta florentino Dante Alighieri foi responsável por reavivar na literatura ocidental um modo de expressão artística que nasce de algo concreto e deságua na clareza de um pensamento universal. Isso não apenas retomou uma visão clássica das coisas do mundo, mas deu justa representação a filosofias - tais quais a lógica do amor cortês e as ideias de São Tomás - que até então haviam atravessado a idade média sem um desdobramento mais concreto e factual. Desde a sua produção stilnovista, Dante deu especial relevo aos fatos em si, parecendo crer que a força da arte, quase sempre, vêm de algo objetivo. Sobre isso escreve Auerbach: “na poesia mais antiga de Dante, o evento concreto substitui a retórica na qual Guinizelli expressava estados de espírito”. (1997, p. 55) A dimensão terrena de tudo aquilo que se representa, antes relegada a uma literatura popular de viés cômico, é incorporada à poética dantesca e igualada, em importância, às incursões abstratas e às conjecturas morais. Esse mundo das coisas, da clareza concreta e dos fatos objetivos, poderia ser visto sob um significado metafórico, não fosse a importância central do “fato em si” para compreender a filosofia estética da obra de Dante. Para o florentino, atesta Auerbach, “As imagens não significam ‘outra coisa’ mas são a linguagem na qual a alma se expressa, e seu sentido lhe é absolutamente fiel.” (p. 97)

A Divina Comédia, obra máxima de Dante, é a síntese desse pensamento ambicioso a respeito da representação. Esse projeto tomista-aristotélico, mais do que qualquer outra coisa, intencionava abarcar o completo mundo dos fatos, atestá-lo sólido e, a partir de sua solidez, erigir uma complexa cosmovisão que unia a antiguidade clássica (aristotelismo) à era cristã (doutrina tomista). A imagem, portanto, está na raiz da expressão dantesca, e é com o olhar que se dá o primeiro passo da aprendizagem. A visão une leitor e poeta numa viagem essencialmente sensorial, isso não só porque a poesia de Dante nasce da experiência concreta, mas porque “a doutrina filosófica por ele seguida dava grande valor a formas individuais e parecia justificar que fossem representadas.” (p. 108)

Sendo a Divina Comédia uma obra repleta de veredas, rizomas, caminhos alternativos, não é de se espantar que em quatro tercetos do Purgatório (três do canto X e um do canto XII), Dante reflita poeticamente sobre coisas tão abrangentes e significativas como as ideias de arte, de realidade e de natureza, bem como sobre o próprio fazer poético. Me detenho nesses tercetos para construir, nesse texto, uma possível via de interpretações.
 
II.
O Purgatório, dos três reinos do além-túmulo visitados por Dante, é aquele cuja lógica se aproxima mais da vida terrena, pois igual a ela, a vida no Purgatório acontece segundo a passagem do tempo e é manifestamente passageira, provisória. Nessa montanha envolta por um caminho ascendente em direção ao paraíso terrestre, as almas que em vida se arrependeram de seus pecados são distribuídas por cornijas segundo a natureza de seus desvios, a fim de purgá-los, e recebem, visual ou sonoramente, exemplos de figuras que exageraram do mesmo pecado ou de personagens que cultivaram a virtude oposta ao pecado em questão. A exemplaridade, portanto, é um artifício que, apesar de presente em toda a Divina Comédia, ganha especial relevância no livro do Purgatório, encontrando o seu paroxismo nos cantos XX e XII. Nesses cantos, o exemplo, pelo fato de ser transmitido por realistas cenas esculpidas na pedra da montanha, nos permite refletir sobre os limites e as transgressões da representação artística, o seu vínculo com a realidade das coisas, com a natureza, com Deus e com a criação poética.

Mesmo que as cenas esculpidas em pedra sejam criadas a partir das mãos divinas, a sua natureza imitativa permite a contraposição da coisa real em relação à coisa representada, sugerindo, desse modo, uma reflexão que não se limita às cenas em si, mas que também diz respeito ao princípio essencial da arte. O terceto “Morti li morti e i vivi parean vivi: / non vidi mei di me chi vide il vero / quant’io calcai, fin che chinato givi.” (Purgatório, XII, 67-69), ao igualar a realidade do verdadeiro à do figurativo, dizendo que quem viu o “vero” não viu com mais realismo que o poeta, que viu a imitação, também iguala, ou aproxima bastante, as noções de “parecer” e “ser” (“i vivi parean vivi”), abrindo espaço para a ideia de que a concepção do real acontece por meio da aparência, da figura, e que a criação da realidade, portanto, estaria não só ao alcance de Deus, o sumo artífice, mas, em certa medida, ao alcance de alguns artistas. A relativização da realidade face a arte figurativa também pode ser observada no terceto: “esser di marmo candido e addorno / d’intagli sí, che non pur Policleto / ma la natura li avrebbe scorno.” (Purgatório, X, 31-33). Desses versos apreende-se quase uma certeza do poeta de que, pelo menos nesse caso, a arte é mais real que a realidade, que ela exprime uma verdade não identificável no mundo dos fatos e que possui um poder organizador de sentidos alheio à própria natureza. Não nos esqueçamos que a mão de Deus, no trecho em questão, está presente tanto no “marmo” quanto na “natura”, o que impede a transgressão da filosofia tomista por Dante, sem impedir, porém, que nós, leitores do século XXI, observemos nesses versos certa reflexão acerca dos efeitos da arte, feita por um poeta notadamente perfeccionista e consciente do seu gênio inventivo.

A atenção dada às exemplares figuras de pedra descritas nos cantos X e XII do Purgatório produz não só a ebulição dos sentidos do Dante personagem, como um desafio para o Dante autor que, por meio de uma afiada engenhosidade semântico-musical, visa reproduzir em nossos sentidos o fascínio de algo tão enganadoramente real. É justamente a tensão entre falso e verdadeiro, impossível e possível, que vemos no seguinte terceto: “Similemente, al fummo de li ’ncensi / che v’era immaginato, li occhi e ’l naso / e al sì e al no discordi fensi.” (Purgatório, X, 61-63) Os sentidos são desajustados, não conseguem apreender a natureza paradoxal da representação, pois aquilo que é representado transgride os limites materiais do meio pelo qual é transmitido. Os olhos e o nariz, divididos “al sì e al no”, não dão conta da exuberância sensorial.

Também o poema, como já dissemos, é incrivelmente rico em sensações, como pontua Auerbach neste trecho: “por sua insistência no concreto, na singularidade de uma situação; por sua exibição despudorada de sentimento pessoal, o poema dantesco toma uma tal intensidade que aqueles que não estavam preparados para engajar-se com paixão se sentem violentados e tomados de alarme.” (1997, p. 63 e 64)

No seguinte terceto do canto X, há uma expressão que sintetiza tanto a natureza das cenas esculpidas quanto a ambiciosa poética dantesca: “Colui che mai non vide cosa nova / produsse esto visibile parlare / novello a noi, perchè qui non si trova.” (Purgatório, canto X, 94-96) Apesar do poeta afirmar que no mundo terreno não é possível encontrar o “visível falar”, a poesia de Dante não é outra coisa que um “falar visível”, na medida em que faz do verbo o princípio de criação de um vasto e vivo mundo imagético. Além disso, o “visibile parlare” aponta para a maneira pela qual Dante expande o seu universo poético, partindo de algo muito concreto, muito claro, muito “visibile”, para alcançar a unidade do seu mundo das ideias, feito essencialmente de palavras, do “parlare”.

Nesses quatro trechos dos cantos X e XII do Purgatório, observamos que Dante relativiza a realidade do que é real, bem como a artificialidade do que é engenhosamente criado. Para que a razão siga a “diritta via”, o olhar precisa ser convencido de uma outra verdade, ao mesmo tempo imitativa e essencial, aquém e além da “natura”, oscilante entre o “sì” e o “no”. Ao falarem da criação paradoxal do Deus artífice, os tercetos também apontam para o ofício do poeta, calcado sobre a obstinação de dar forma a tudo aquilo que, tanto no mundo material e universal quanto na esfera emocional e particular, não é suficientemente “real” em seu estado bruto, natural. O Purgatório, talvez, por ser o único reino temporal dos reinos do além, permite a colocação de uma experiência ambígua como essa da arte que comunica tanto o concreto realismo quanto a explícita invenção. No Inferno e no Paraíso, via de regra, as experiências são unívocas, e quando não as são de imediato, acabam por ser explicadas e superadas. De uma forma ou de outra, esses cantos, de todos os cantos da Divina Comédia, são provavelmente aqueles que expressam com maior agudeza a relação intercambiável entre o verdadeiro e a sua reprodução.
 
III.
A visão, em Dante, desperta os outros sentidos, ensina, explica e aclara. A razão, que nasce dela, organiza um universo duplo, estruturado sobre a relação entre as coisas e as ideias, entre o som e o sentido. A dimensão sensorial da Divina Comédia, por nascer do fato concreto, da situação particular, não deixa de ser significativa se vista apartada de seu desdobramento filosófico, tão variadas e terrenas são as situações com as quais nos deparamos, do Inferno ao Paraíso. A dimensão filosófica também é entendida por si só, porém, como diz a citação de Auerbach mais acima, o pensamento tomista não só permitia ser representado, como “dava grande valor às formas individuais”. Dante uniu o seu talento à sua convicção. Percebeu que a criação artística tinha o poder de dar contornos possíveis, contornos reais, vivos, a qualquer pensamento bem formulado e coerente.

A Divina Comédia é uma criação de múltiplos significados, feita de imagens, pensamentos e palavras tão bem articulados entre si, que configuram uma realidade outra, à imagem e semelhança do mundo, aliás, superando, em clareza, o próprio mundo. A poesia dantesca, não subjugada à retórica nem ao prosaísmo documental, atinge o leitor com o mesmo fascínio inerente às esculturas do Purgatório, ou seja, criando algo que não só parece, mas é, que transgride os limites da expressão, que comunica despertando os sentidos, e que, afinal, não encontra muitos pares na experiência universal. Trata-se, em poucas palavras, de um “visibile parlare / novello a noi, perchè qui non si trova.”

Bibliografia

ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia - Purgatório. Tradução de: Italo Eugenio Mauro. São Paulo: Editora 34, 2017.
AUERBACH, Erich. Dante, poeta do mundo secular. Tradução de: Raul de Sá Barbosa. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. 
 

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